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quarta-feira, julho 23, 2008

"A Arte de Ensinar", de Jay Parini

Jay Parini é um professor e escritor norte-americano, nascido em Scranton, na Pensilvânia. Após uma passagem de sete anos por Dartmouth, ele se estabeleceu como professor de Língua Inglesa no Middlebury College, em Vermont, Estados Unidos, vindo a escrever cinco livros de poesia, seis romances e três biografias. Após 30 anos dedicados ao ensino universitário, Parini decidiu escrever um pouco sobre essa nobre arte, produzindo “A Arte de Ensinar”, um livro leve e sem o menor toque daquele ranço pedagógico das obras usuais sobre o assunto.

“A Arte de Ensinar” não é um livro de dicas sobre ensino, aproximando-se muito mais de uma autobiografia intelectual. Parini discorre sobre aspectos do relacionamento com os estudantes, sobre o comportamento em sala de aula e fora dela e até mesmo sobre a maneira de um professor se vestir ou se comportar quando surgem questões excessivamente pessoais. Nada de regras, nada de conselhos. Parini assume posições absolutas apenas quando se posiciona contra os sistemas de ensino baseados em provas rígidas e contra os “jogos de poder”, freqüentes entre professores e alunos, mas os quais ele julga antieducacionais. Ele também se posiciona definitivamente contra os critérios de efetivação (“tenure”) atualmente em voga nas universidades norte-americanas e em boa parte do mundo, baseados no famoso adágio “publish or perish”. Esse último aspecto, contudo, não afeta muito os professores universitários brasileiros.

Segundo Parini, a viagem essencial na profissão de professor é a do autoconhecimento. “Não há nada natural sobre ensinar”, diz ele, concluindo que a naturalidade em sala de aula é na verdade o produto de uma prática sem fim. Ele também sustenta que o professor é um ator que deve experimentar diversas máscaras durante a vida, nunca cessando de se aperfeiçoar.

O termo “máscara” (ou “persona”), aqui, não tem o tom negativo atual, mas tem muito mais a ver com as máscaras envergadas pelos atores do teatro romano antigo, através das quais as vozes dos atores soavam (per+sona). Um professor deve assim experimentar várias personas ao longo da vida profissional, descartando aquelas que não se adaptam e adotando aquelas que mostram melhor resultado. Esse fenômeno, explicitado com maestria por Parini, é na verdade conhecido por todo bom professor, que já ouviu frases como “Uau, como você fica diferente em sala de aula!”, ou “Você se revela ao entrar em sala, hein?”.

O melhor desse livro sobre ensino, escrito por um poeta e romancista, é a sinceridade que escorre por todas as páginas. Por exemplo, eu jamais havia lido ou ouvido descrição melhor da prática de ensino do que aquela que Parini faz na página 90:

“Poucos fora da profissão de ensinar entendem a coragem necessária para entrar em uma sala de aula, usar uma máscara que você sabe ser uma construção, escondendo-se por trás dela, deixando-a dar forma e substância às suas formulações, deixando a máscara tornar-se a sua face. Requer uma certa bravura, mesmo uma certa selvageria, deixar que os alunos o vejam em tal estado, à mercê de um texto ou idéia imperfeita, tentando formular uma resposta para o texto, dar corpo à idéia em uma linguagem que uma faixa diversificada de alunos possa assimilar. Eu sempre me sinto um pouco assustado quando saio do meu escritório e começo a longa caminhada para a sala de aula, meus braços sobrecarregados de anotações e textos, minha cabeça abarrotada de idéias as quais não tive tempo de formular adequadamente. Fico me indagando que diabo acontecerá quando a aula começar. Vou conseguir fazer sentido? Os alunos vão reagir adequadamente? Vou parecer e soar como um idiota? Estou bem barbeado? Minha braguilha está aberta? Conseguirei passar esses 50 ou 60 minutos sem me sentir um completo imbecil?"

Imagino que essas perguntas tenham ocorrido a um grande número de professores, em todos os tempos e lugares. Imagino também que muitos se protejam delas, ou das respostas a elas associadas, construindo em torno de si uma couraça impenetrável de sabedoria e poder. Isso pode ser um erro. Afinal, adverte Parini, a noção do professor ideal deve ser a de um primus inter pares. Em outras palavras, o professor é o principal aluno, alguém que está sempre aprendendo, sempre se aperfeiçoando, sempre evoluindo.

E esse é um dos principais atrativos dessa profissão exibicionista que atrai tanta gente tímida: é sempre possível fazer melhor na próxima vez, no próximo semestre, no proximo ano. Talvez não exista outra profissão que guarde dentro de si tamanha dose de esperança de que as coisas possam vir a ser melhores.

quinta-feira, junho 12, 2008

Rubem Alves e o vestibular

A revista Ler & Cia, da Livrarias Curitiba, publicou há algum tempo uma curta reportagem sobre as opiniões de Rubem Alves, onde esse grande educador discorre brevemente sobre o vestibular, que ele considera um “tumor maligno”. Para resolver o problema da injustiça promovida pelo vestibular, Alves sugere que as vagas nas universidades sejam ocupadas por meio de sorteio, não por meio de provas, como feito atualmente. “Continua sendo injusto”, diz ele, “mas menos do que o sistema atual, com provas injustas, cotas injustas e conteúdos injustos. Isso pelo menos retiraria a sombra que o vestibular cria em cima das escolas, que poderiam ensinar o que realmente importa.

Com todo respeito a Rubem Alves, tremo só de pensar no dia em que eu tiver que dar aulas a alunos que foram escolhidos por sorteio. Se esse “vestibular randômico” daria maior flexibilidade aos professores do ensino médio, certamente transformaria a vida dos professores universitários em um inferno. Em pouco tempo os alunos perceberiam que não vale à pena se preparar para o vestibular e passariam a ser admitidos sem os pré-requisitos necessários. Os professores dos primeiros semestres dos cursos universitários passariam então a dedicar um tempo enorme para preencher as lacunas na formação dos alunos, já enormes no sistema atual, e os professores dos semestres seguintes passariam a perder mais tempo ensinando aquilo que os professores dos primeiros semestres deveriam ter ensinado. O incentivo perverso criado com o “vestibular randômico” produziria uma grande bola de neve, que seria passada de um semestre a outro, aumentando a evasão escolar e reduzindo a qualidade do ensino universitário.

O vestibular não é um tumor. Ele é apenas um dos muitos desafios que os alunos deverão enfrentar ao longo de uma vida que viverão no mundo real, não no mundo dos contos de fadas. A alma do povo brasileiro se revolta tão freqüentemente contra o vestibular porque ele representa algo que vai contra o igualitarismo a todo custo sempre pregado nesse grande país ensolarado: a meritocracia. Se os ensinos fundamental e médio são tão ruins que não permitem que a maioria tenha mérito, então são esses níveis de ensino que devem ser melhorados. Mas não é com uma solução rósea e romântica que a melhoria virá. Afinal, como dizia Arthur C. Clarke, “não existe problema complicado que não tenha uma solução simples, atraente e... errada!”

terça-feira, junho 03, 2008

Administração: como vincular a teoria com a prática (e vice-versa)?

O editor do Portal Administradores, Leandro Vieira, realizou um bate-papo com o Prof. Walter Nique, da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e da Ecole Supérieure de Commerce de Troyes. Para o Prof. Nique, o ensino da Administração requer vivência anterior em organizações públicas ou privadas: “aqueles que entrarem em uma sala de aula com as mãos abanando em termos de experiência, serão ejetados rapidamente do sistema”, afirma.

Embora eu seja um engenheiro, não um administrador, decidi publicar a entrevista aqui, autorizado pelo Leandro, pois a mesma toca em assuntos que me interessam: educação, administração e conflitos entre a academia e o "mundo lá fora".

Administradores: Muitos alunos de Administração se queixam que o curso é muito teórico e carece de prática. O senhor concorda?

Prof. Nique: Sim, concordo plenamente. A prova disso é que minhas aulas estão estreitamente vinculadas à realidade. Penso que QUALQUER matéria ou disciplina - e mesmo as mais árduas como estatística, matemática, entre outras - podem e devem ser vinculadas à realidade. Lembro-me que, no início de minha vida acadêmica, lecionava a disciplina Pesquisa Operacional para as turmas de engenharia da UFRGS. No programa, constavam as medidas de tendência central e de dispersão (que são os primeiros passos da estatística). Para criar o link entre a teoria e a prática, eu mandava os alunos medir e buscar a altura média dos porto-alegrenses (homens e mulheres) e saber qual a percentagem de cada sexo costumava ir aos estádios de futebol para que, de posse desses dados, eles projetassem arquibancadas onde quase ninguém (97% das pessoas) que estivesse sentado à frente de alguém atrapalhasse a visão do jogo. Este é um típico exemplo que comprova que se pode ajustar qualquer disciplina para que os alunos façam o amálgama realidade/teoria.

Administradores: No Brasil, é muito comum a academia e mercado torcerem o nariz um para o outro. O que se produz na academia (inclusive na área de Administração) permanece restrito ao meio acadêmico. O que perdemos com isso?

Prof. Nique: Isso acontece, e é um grande absurdo. Se a nossa missão como universidade é capacitar os nossos alunos para poderem atuar como executivos e empreendedores no mercado (99% dos alunos da graduação vão para as empresas enquanto apenas 1% se dirige ao ensino e à pesquisa), como abstrair-se deste mesmo mercado? Essa prática, que até admito que existam alguns professores que assim agem, é o mesmo do que tomar veneno e esperar que o inimigo morra.

As pontes de aproximação entre a academia e o mundo dos executivos existem, mas elas não são utilizadas. Os bancos de dados de teses, trabalhos, monografias, etc. estão à disposição por internet e vários outros meios. Por algumas razões, até de desconhecimento, os executivos não possuem a reação de vasculhar o que se fez para não ter que inventar a roda novamente. Aliás, eles pensam que o caso deles é específico e único - como muitas vezes fazemos quando nossos filhos nos preocupam. No fundo, a academia é como um Manual de Instruções que ninguém lê...

Administradores: É muito comum entre aqueles que optam por seguir a carreira acadêmica seguirem a seguinte trajetória: graduação>mestrado> doutorado. Entre a graduação e o mestrado, não têm nenhuma experiência no mercado e, após o mestrado, começam logo a dar aulas. Como você encara isso?

Prof. Nique: Em relação e esse percurso clássico de formação de professores (graduação/mestrado/doutorado), aqueles que entrarem em uma sala de aula com as mãos abanando em termos de experiência nas organizações serão ejetados rapidamente do sistema. Aliás, toda a formação dos professores está centrada na pesquisa, que é a busca do conhecimento da realidade, o que necessariamente implica em atuar nas organizações - tanto no conhecimento da realidade com um quadro teórico para o entendimento, como para realizar trabalhos de consultoria, por exemplo. O sujeito que não percorre este caminho está por fora da realidade, é um alienado sem chances de sucesso em qualquer universidade digna deste nome. O tripé da formação de professores de Administração é o ensino, a pesquisa e a consultoria, portanto sempre em contato estreito com a realidade.

Administradores: Em resumo: Para ensinar a administrar é necessário saber administrar?

Prof. Nique: Penso que sim. Administrar é tomar decisões - e tomar decisões necessita um processo de aprendizagem que tem necessariamente uma dupla entrada: a teoria e a prática. Muitas vezes, quando se hierarquiza alternativas para decisão, é muito fácil, na sala de aula ou teoricamente. Entretanto, quando chega o momento real de decidir nas organizações, a conversa é um pouco diferente, pois nunca se leva em conta todos os aspectos políticos (e política é a arte da relação) internos e externos. Isso é fundamental. Tratar com seres humanos requer muita prática, observação e perspicácia.

Administradores: O senhor disse que é possível fazer o vínculo da teoria com a prática em qualquer disciplina do curso de Administração. Como o senhor faz esse link em suas aulas?

Prof. Nique: Vou citar o exemplo da disciplina Pesquisa em Marketing, na qual a turma constrói na prática – do começo ao fim – uma pesquisa de marketing. Essa disciplina que desenvolvemos na Escola de Administração da UFRGS tem um método pedagógico bastante diferente em relação à forma como é ministrada em outras Escolas de Administração do Brasil e mesmo do exterior. Tenho plena convicção de que, se o aluno não consegue ver os resultados nos processos desenvolvidos em sala de aula, ele perde completamente o interesse na matéria. Além disso, o que é pior, no exercício de sua profissão, ele terá preconceitos em relação àquela área. O conhecimento, para mim, é um processo solitário que cada indivíduo desenvolve conforme suas capacidades, valores pessoais e objetivos de vida. A construção deste conhecimento é necessariamente uma mescla dinâmica da teoria com a práxis.

No primeiro encontro com os alunos, discutimos o processo que teremos durante o semestre e proponho que eles discutam possíveis temas que serão o objeto da pesquisa que irão realizar durante o semestre. Duas coisas que faço questão de salientar: o tempo dispensado à disciplina e a característica de utilização dos resultados pela comunidade (no caso, sempre se passa em Porto Alegre. por problemas de aplicação em outras áreas geográficas). Em relação à primeira, eles sabem que no mínimo, os mesmos quatro créditos (60 horas) eles terão de trabalho fora da sala de aula. A sala de aula é o espaço para o desenvolvimento teórico e para as perguntas e dúvidas que necessariamente surgirão. No que diz respeito ao segundo item, não vejo sentido algum um grupo de pessoas dispensar gratuitamente uma enorme energia para satisfazer necessidades comerciais de uma ou outra organização cujo fim é o lucro. A UFRGS é uma universidade pública e gratuita e, portanto, aqui vemos uma oportunidade de fazer um gesto à comunidade que, através de seus impostos, financia o ensino que os estudantes estão usufruindo.

Após dois ou três encontros, definimos o tema a ser abordado e começamos a definição do(s) objetivo(s) da pesquisa. Os alunos se dividem em grupos para racionalizar o processo de pesquisa. Saliento que não existe nenhuma indicação por parte do professor, e os alunos decidem participar em quantos grupos se lhes aprouver. Há um grupo coordenador, um grupo que montará a busca e seleção dos dados secundários, um outro que montará o grupo motivacional ou “focus group”. A partir destes dados, haverá a construção de um questionário que é tarefa de outro grupo. Paralelamente, existe um grupo para preparar o processo amostral que, necessariamente, será aleatório, e todos os procedimentos operacionais de aplicação do questionário. Depois de pré-testar o instrumento de coleta de dados, TODOS os alunos aplicam 20 questionários, o que nos faz uma amostra de umas 600 respostas. Cada estudante digitaliza seus 20 questionários, depois de haver participado de três aulas de manejo do software SPHINX (específico para pesquisas de marketing), e existe um grupo que fará a consolidação do banco de dados e a análise dos dados. Terminada a análise e discussão com o conjunto dos alunos, os coordenadores dos grupos reúnem-se com a coordenação para a construção do relatório de pesquisa que será disponibilizado através do site da disciplina e, às vezes, entregue a autoridades que se achar pertinente. Finalmente, este último grupo responsável pelo relatório, faz uma síntese (máximo de 10 páginas) apoiado por uma apresentação em “power point”, para divulgar para toda a turma em sala de aula. Faz-se um documento também para os meios de comunicação, de maneira a dar a maior visibilidade possível aos resultados obtidos. Seguidamente, os alunos são convidados a participar de programas inteiros de televisão ou de paginas inteiras de reportagens de jornais de grande circulação do Rio Grande do Sul. A discussão inicial do tema tende a privilegiar os assuntos mais na moda e, por conseqüência, tem espaço garantido na mídia.

No final, gosto muito de ressaltar, nesta disciplina não existe “copiar/colar”, prática bastante comum em algumas disciplinas do curso... Nesta disciplina, eles criam conhecimento que não existia anteriormente. E todos ficam realmente muito orgulhosos em ver seu conhecimento sendo entregue à coletividade.

Administradores: Muito interessante! De que forma isso impacta diretamente na formação dos alunos, futuros administradores?

Prof. Nique: Posso citar alguns resultados bastante evidentes. Vários alunos desenvolveram projetos de criação de empresas de Pesquisa em Marketing e de Consultoria. Cito, por exemplo, a Focal, desenvolvida pelo Gustavo Campos (), e a Destaque, criada pelo Marcelo Godói, duas grandes referências de pesquisa no Rio Grande do Sul.Em termos de feed-back, vários ex-alunos me mencionaram que, apesar de não haver feito mais pesquisas como a desenvolvida na disciplina, eles contratam, nas organizações onde atuam hoje em dia, serviços de empresas especializadas, e esta formação contribui enormemente para discutir cada projeto de pesquisa bem como fazer a crítica dos resultados. Este conhecimento é particularmente útil quando da decisão de adquirir esses serviços entre várias empresas/projetos.

Administradores: Quais metodologias adotadas em outros centros de excelência no ensino da administração do mundo que poderiam servir de referência para as instituições brasileiras?

Prof. Nique: Em termos de métodos de ensino adotados no ensino da administração, além do clássico de Harvard com seus estudos de caso, eu gostaria de salientar um curso que julgo ser o melhor (e medi bem as minhas palavras quando disse “o melhor”) curso de administração da América. Trata-se do curso Gestão para a Inovação e Liderança da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Desde logo, ressalto que sou professor da UFRGS, e não mantenho vinculos empregaticios com a UNISINOS, o que fortalece a minha legitimidade em fazer esta afirmação.

Este curso está concebido sobre duas colunas principais. A primeira é o tipo de abordagem, pois ela se diferencia da tradicional que é sob forma de disciplinas e estuda os fatos dos diversos prismas presentes. Por exemplo, vamos falar em renascença e, portanto, a “aula” será coordenada por um economista, um historiador, por um cientista político e por algum professor de arte. Todos os professores, isto é em conjunto na mesma sala, discutirão e apresentarão a realidade da renascença desde sua perspectiva. Posteriormente, os alunos vão às organizações (eu disse organizações por ser muito mais amplo que empresas) ver os vínculos com aquilo que foi discutido em aula. Este é um método absolutamente congruente com a realidade pós-moderna do hiper-espaço e totalmente inovador. A segunda coluna, decorrente da primeira e aflorada há pouco, é a prática sistemática nas organizações daquilo que é discutido em classe. E estas são em todos os sentidos e hierarquias e geografias... O assunto pode ser ligado ao processo produtivo que pode ser comparado entre o que existe no Rio Grande do Sul, na Argentina e no Uruguai, ou em outros estados do Brasil. Os alunos vão para os países citados, além do Chile, Canadá e Estados Unidos para estágios curtos de duas ou três semanas observando, trabalhando, discutindo nos diversos níveis funcionais da administração. Eu sou um grande entusiasta deste curso e lastimo não haver podido fazer um benchmarking aqui na Escola de Administração da UFRGS.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Educação e corrupção

No início da semana foi divulgado o resultado do PISA (“Programme for International Student Assessment”, ou “Programa Internacional de Avaliação de Alunos”), exame aplicado em alunos com idade de 15 anos (ensino médio) de vários países. O Brasil foi reprovado mais uma vez em matemática e leitura.

Os resultados do PISA mostram que os alunos brasileiros obtiveram médias que os colocam na 53ª posição em matemática (entre 57 países) e na 48ª em leitura (entre 56). Os dados referem-se a 2006 e os exames são aplicados a cada três anos. Em 2003, o Brasil não conseguiu resultados muito melhores do que em 2006 [1].

O país latino-americano mais bem classificado foi o Chile. Entre Brasil e Chile, aparecem Uruguai e México. A classificação do Brasil é um pouquinho melhor do que a da Colômbia e um pouco melhor do que a da Argentina [2].

Sabendo dos notórios índices de corrupção dos países latino-americanos, e dos baixos índices de corrupção de alguns dos países mais bem classificados no PISA (como Finlândia, Nova Zelândia e Canadá), resolvi fazer uma comparação entre os resultados do PISA e o Índice de Percepção da Corrupção (“Corruption Perception Index”, CPI), divulgado pela organização Transparência Internacional [3]. Os resultados são mostrados na figura abaixo, onde apenas o índice PISA de habilidade de leitura foi incluído (clique sobre a figura para ampliá-la).


O CPI mede a percepção da existência da corrupção, não a corrupção em si, e é tanto maior quanto menor for essa percepção. É por isso que a Finlândia aparece com CPI igual a 9.4, enquanto Brasil e México aparecem com 3.5. Existem vários países com CPI inferior a 3.5, mas estes não foram incluídos no PISA. Exemplos são Mianmar e Somália, que empatam em 1.4.

O gráfico deixa evidente que existe uma correlação entre educação e corrupção. Não se trata de uma correlação fortíssima, até mesmo por causa do pequeno número de países analisados (46), mas a correlação é forte o suficiente para que se diga que, caso mais países fossem analisados, a curva continuaria crescente e para a direita.

Será essa correlação um indício de ligação causal entre nível educacional e prática da corrupção? Estudos mais aprofundados poderão esclarecer essa questão, mas a resposta pode ser apontada pelo mais puro bom senso.

[1] Folha Online, 5 dez. 2007. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u351481.shtml>.
[2] PISA 2006 results. Disponível em <http://www.pisa.oecd.org/dataoecd/15/13/39725224.pdf>.
[3] Transparency International, CPI 2006. Disponível em <http://www.transparency.org/news_room/in_focus/2006/cpi_2006__1>.

quarta-feira, setembro 05, 2007

O ser humano é uma besta quadrada (*)

Da Rússia chegou-nos em fevereiro último mais uma notícia sobre o antigo debate entre religião e ciência. Uma adolescente de 16 anos, de nome Maria Schreiber, abriu uma ação judicial alegando que o livro-texto de biologia usado na escola que freqüenta é ofensivo aos crentes, e que os professores deveriam oferecer uma alternativa à teoria da evolução de Darwin. A corte russa rejeitou a ação, mas a estudante e seu pai afirmaram que iriam recorrer da sentença [1].

Esse é um daqueles casos em que não sabemos se devemos rir ou chorar. O único ponto positivo é que o fato ocorreu na Rússia, não no Brasil, e não iremos nos tornar, ao menos dessa vez, objeto de chacota internacional.

Não tenho certeza que parte da teoria da evolução os crentes entendem como ofensiva, mas imagino que seja aquela que afirma que o homem e os macacos atuais compartilham de um ancestral comum, o qual começou a se diversificar há 40 milhões de anos. Esse fato é geralmente expresso pela frase “o homem descende do macaco”, com a ressalva obrigatória de que se trata de um macaco primitivo, não de um macaco atual. Homens, gorilas, chimpanzés, orangotangos, etc., são, portanto, primos genéticos.

A afirmação de que o homem evoluiu de um ancestral primitivo não me ofende em nada, embora eu não tenha certeza sobre o que os chimpanzés pensam dela. Particularmente, tive a sorte de ser muito jovem da primeira vez em que ouvi meu pai, sempre muito esclarecido, dizer que “o homem veio do macaco”. Tão jovem e ingênuo que me lembro de ter pedido a que ele que me mostrasse uma fotografia da época em que ele era macaco... Aos cinco ou seis anos, eu já era um cético.

Infelizmente, o termo “evolução”, em seu sentido biológico, não significa “melhoramento”, mas apenas “modificação”. Não somos melhores do que chimpanzés, gorilas e orangotangos, mas apenas diferentes deles. Somos mais pelados, mais cabeçudos e temos uma cultura mais refinada, mas não somos melhores do que nossos parentes peludos. Talvez sejamos mais inteligentes, mas apenas no sentido muito humano que atribuímos ao conceito de inteligência. Mas não somos mais éticos, não somos mais divinos, não somos mais santos. Não existe melhor prova disso do que as notícias que nos chegam o tempo todo da África, lar de três das quatro espécies de grandes símios.

O gorila da montanha é provavelmente a subespécie mais conhecida desse magnífico animal. Um gorila macho típico pode pesar 180 kg e atingir até 1,7 m, quando totalmente ereto. A força muscular de um gorila é tão superior à humana que, se você for atacado por um deles, o melhor conselho é fechar os olhos e torcer para que tudo acabe rapidamente. Contudo, a não ser que você se comporte de maneira muito tola, isso dificilmente acontecerá. Os gorilas são pacíficos e vegetarianos e, apesar da força descomunal e dos caninos pronunciados, mesmo os grandes machos dominantes preferem resolver as disputas por meio da intimidação e da demonstração de força, não por meio de lutas mortais [2]. Os únicos inimigos dos gorilas são os homens e os leopardos. Mas, mesmo dos leopardos, eles têm pouco a temer.

Em agosto deste ano, seis meses depois da russa Maria Shreiber ter manifestado sua indignação acerca de seus ancestrais biológicos, nove gorilas da montanha foram covardemente assassinados no Parque Virunga, no Congo. De acordo com a reportagem da revista Veja [3], o massacre teria sido organizado por ordem de madeireiros locais, os quais não conseguiram entrar na reserva para derrubar árvores.

Os mais radicais dentre os defensores dos direitos humanos certamente dirão que as condições de vida dos camponeses africanos não são muito melhores do que as dos gorilas, e que os humanos africanos só conseguem sobreviver à custa da exploração do mercado negro de animais selvagens. Talvez. Todavia, existem mais de 60 milhões de seres humanos no Congo, mas menos de 400 gorilas da montanha. Dentro de 30 anos não haverá mais gorilas andando pelas montanhas, mas os seres humanos continuarão numerosos e famintos.

Talvez seja apenas azar dos gorilas, bem como de tantos outros animais, terem co-evoluído com a espécie mais beligerante que já habitou o planeta. Mas o azar é nosso também. Afinal, talvez alguns se lembrem do massacre em Ruanda, que faz fronteira com o Congo, no qual um milhão de humanos foram mortos em 1994, sem que país algum protestasse. Se não conseguimos evitar nem mesmo o massacre de seres humanos, que esperança haverá para os gorilas da montanha?

Assim, Maria Schreiber não deveria se ofender por descender de símios primitivos ou por ser prima de gorilas e orangotangos e prima-irmã de chimpanzés. Nenhum desses animais, por selvagem que seja, pratica o genocídio.

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(*) Frase freqüentemente citada pelo professor Newton da Costa, matemático e lógico brasileiro, reconhecido internacionalmente por suas pesquisas em lógica paraconsistente, área do conhecimento que ele ajudou a criar. Detalhes adicionais em
< http://www.cle.unicamp.br/arquivoshistoricos/newtondacosta_biografia.html>.

[1] ESTADÃO. Justiça russa se recusa a proibir ensino da evolução. 21 fev 2007. Disponível: <http://estadao.com.br/ciencia/noticias/2007/fev/21/252.htm>.

[2] Berggorilla & Regenwald Direkthilfe. Acesso em: 05 set. 2007. Disponível em: <http://www.berggorilla.org/english/frame.html>.

[3] Veja. E ainda nos julgamos superiores. 02 set. 2007. Acesso em: 05 set. 2007. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/290807/p_126.shtml >.

terça-feira, setembro 04, 2007

UTFPR, campus Ponta Grossa, lança programa de mestrado profissional

A CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, aprovou, no último dia 27 de julho, a criação do segundo programa de mestrado do campus Ponta Grossa da UTFPR, Universidade Tecnológica Federal do Paraná. A novidade é que agora se trata de um curso de mestrado profissional, que difere do tradicional mestrado acadêmico em vários aspectos.

Os cursos de mestrado profissional começaram a aparecer no Brasil em 1998, quando foram criados pela CAPES [1]. Atualmente, existem 229 desses cursos no Brasil, mas apenas 9 no Paraná [2].

Nos Estados Unidos e em outros países, os mestrados profissionais já existem há tempos. Por exemplo, enquanto o MSc (Master of Sciences) corresponde ao nosso mestrado acadêmico, existem também o MA (Master of Arts), o MEng (Master of Engineering), o MBA (Master of Business Administration) e vários outros. A duração típica desses cursos é de dois anos, com a segunda metade do curso dedicada à preparação de uma dissertação. Alguns deles exigem dedicação exclusiva, outros não.

No Brasil, muitos mestrados profissionais têm a carga horária concentrada em horários que podem ser freqüentados por alunos que não conseguem dispensa das empresas onde trabalham. Nesse aspecto, tais cursos são semelhantes a muitos cursos de pós-graduação lato sensu. A vantagem é que os mestrados profissionais são strictu sensu, conferem o grau de mestre (e não de especialista) e, ao contrário dos cursos lato sensu (o que inclui os nossos famosos MBA Executivos), são avaliados pela CAPES.

O programa de mestrado da UTFPR/Ponta Grossa deve ter início no primeiro semestre de 2008. A área de concentração é Ciência, Tecnologia e Ensino, em duas linhas: (a) construção do conhecimento e linguagem no ensino de ciência e tecnologia; (b) ciência e tecnologia no contexto do ensino-aprendizagem. As inscrições devem ter início em janeiro próximo, mas os horários das aulas ainda não estão definidos. Mais detalhes deverão estar brevemente disponíveis em [3].

______________________________
[1] UNIVERSIA. Conhecendo o mestrado profissional. 29 out. 2004. Disponível em: <http://www.universia.com.br/html/materia/materia_ffgf.html>.
[2] CAPES. Perfil da pós-graduação. 03 set. 2007. Disponível em: <http://servicos.capes.gov.br/projetorelacaocursos/jsp/regiaoDet.jsp>.
[3] UTFPR – campus Ponta Grossa. Disponível em: < http://www.pg.cefetpr.br/>.

quinta-feira, agosto 16, 2007

O programa REUNI e taxas de conclusão dos cursos de graduação

No último 24 de julho, o Ministério da Educação lançou o REUNI – Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, cujo objetivo é “criar condições para a ampliação e permanência na educação superior, no nível de graduação, pelo melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas universidades federais” [1].

A adesão ao REUNI será voluntária, mas a universidade que o fizer deverá se comprometer a atender uma série de metas, uma das quais é, em um prazo de cinco anos, elevar progressivamente a taxa de conclusão média dos cursos de graduação presenciais até atingir 90%.

Educação é um dos mundos onde atuo profissionalmente. Naturalmente, isso não me qualifica a tecer considerações precisas sobre políticas educacionais de âmbito nacional, mas me qualifica a pensar sobre o que acontecerá nas salas de aula quando metas de aprovação de 90% forem instituídas. Da minha experiência de alguns anos, embora restrita a apenas um curso de graduação e a outro de pós-graduação, posso garantir que 10% é uma taxa menor do que a taxa de desistência média dos cursos de ciências exatas. Assim, uma média de aprovação de 90% significará que todos os alunos que não desistirem terão sido aprovados em determinadas disciplinas. Resta saber se isso é bom.

Minha meta pessoal de aprovação (100%) é muito mais ambiciosa do que a do MEC. Raramente a atingi. Alguns alunos frequentemente desistem antes mesmo de começar, não comparecendo a aula alguma. Alguns alunos, como naquela anedota do escoteiro que queria forçar a velhinha a atravessar a rua, parecem ter outras prioridades. Que tipo de gestão os professores poderão ter sobre tais alunos? Nas atuais circunstâncias, eles não têm gestão alguma. No âmbito do REUNI, talvez esses alunos, que desistem ao sinal da menor brisa, acabem por pensar que serão obrigatoriamente aprovados, por causa da meta de aprovação média, e persistirão até o final, colocando o professor em uma situação difícil.

Aprovar alunos é a coisa mais fácil que existe. Reprovar alunos, idem. Qualquer professor com alguma experiência sabe como elaborar provas e como corrigí-las de maneira a conseguir qualquer resultado desejado. Contudo, não é isso que se espera de um professor. Não se espera que ele faça dos alunos meros joguetes de suas ambições e expectativas. Pelo contrário, espera-se que ele seja justo e que ele saiba cobrar exatamente o que ensinou. E, mesmo nas felizes e raras situações em que isso ocorre, não se pode forçar os alunos a terem honestamente o desempenho desejado, nem mesmo em termos médios.

As intenções do MEC, todos sabemos, são as melhores possíveis. Todavia, uma política educacional efetiva deveria se concentrar na qualidade de ensino dos cursos de graduação, não nos níveis de conclusão. Cursos de boa qualidade, com professores motivados e bem preparados, infraestrutura adequada, material de ensino atualizado, etc, fatalmente resultarão em bons níveis de aprovação. Implantar uma política educacional que almeje níveis obrigatórios de aprovação, por outro lado, implicará no risco de, em vez de se aumentar a qualidade do ensino, reduzir-se o nível das provas, resultado que será ruim para todos.

[1] MEC – Ministério da Educação. Diretrizes do REUNI. 27 jul. 2007. Disponível:
http://portal.mec.gov.br/sesu/arquivos/pdf/apresentacaoreuni.pdf

quinta-feira, agosto 02, 2007

CEFET-SC realiza Concurso Público

O Centro Federal de Educação Tecnológica de Santa Catarina – CEFET-SC – realizará Concurso Público para o preenchimento de vagas de vários cargos de nível fundamental, médio, magistério e superior. As inscrições podem ser feitas online até 14 de agosto próximo. Informações adicionais estão disponíveis em http://www.cefetsc.edu.br/concurso .

quarta-feira, julho 25, 2007

De novo, o SNPTEE

Fantástico! A comissão técnica do XIX SNPTEE – Seminário Nacional de Produção e Transmissão de Energia Elétrica – enlouqueceu de vez e selecionou dois trabalhos meus para apresentação:

1. “Custos de transação e forças propulsoras: uma visão estratégica da desverticalização no Setor Elétrico” (GEC – Grupo de Estudo de Comercialização, Economia e Regulação de Energia Elétrica).

2. “A visão dos cursos de tecnologia como produto disruptivo: sugestões para estruturação e gestão” (GTE – Grupo de Estudo da Gestão da Tecnologia, da Inovação e da Educação).

Agora é só responder aos questionamentos da comissão técnica, preparar as apresentações e... conseguir financiamento para a viagem.

O XIX SNPTEE será realizado no Rio de Janeiro, entre 14 e 17 de outubro próximos. Os organizadores são o Cigré-Brasil (como usual) e Furnas, que é também a anfitriã. O site oficial do evento pode ser acessado em http://www.xixsnptee.com.br .

Vamos ver se dessa vez eu ganho o "grande prêmio SNPTEE" (uma viagem para Paris) ou pelo menos o "pequeno prêmio SNPTEE" (não sei o que é, mas cabe dentro de uma sacola).

segunda-feira, abril 30, 2007

Ex-professor do CEFET-PR é presidente da Nokia do Brasil

Demorei um pouco para perceber que o sujeito que aparece na capa da revista Você S/A desse mês é Almir Narciso, ex-professor do curso de Engenharia Industrial Elétrica do CEFET-PR, hoje UTFPR. Pelo que me lembro, ele lecionava a disciplina de Tópicos de Eletrotécnica, em regime de 20 horas. Na época ele trabalhava também na Prosdócimo e permaneceu lá após a empresa ter sido comprada pela Electrolux, tendo chegado a uma posição de gerência. Algum tempo depois, Almir foi descoberto pela Nokia, que o contratou para um cargo executivo, e galgou sucessivas posições até chegar a presidente da subsidiária brasileira. Não sei se foi exatamente ao passar da Electrolux para a Nokia, mas em algum ponto ele teve que abandonar a carreira docente.

Embora este não seja o primeiro caso, é interessante saber que um ex-colega chegou a uma posição executiva tão importante, mas é decepcionante saber que sempre que isso acontece a carreira docente é a primeira a ir para o brejo. Não seria importante que as universidades brasileiras tivessem programas especiais para atrair professores com esse tipo de formação profissional? Contudo, o atual sistema de contratação e gestão de recursos humanos nas universidades públicas, com sua ênfase no mestrado e doutorado, não tem a mínima condição de atrair professores cuja formação profissional deu-se mais no mercado do que na academia.

E quem vai ensinar nossos alunos a fazerem as coisas que esse pessoal faz?

segunda-feira, abril 02, 2007

Discurso de formatura – UTFPR 2007

Meu primeiro discurso de formatura como paraninfo, lá pelos idos de 2002, foi razoavelmente bem recebido, mas se perdeu no último crash do meu computador. Para o segundo discurso, um ou dois semestres depois, preparei apenas algumas notas, as quais ainda tenho, e improvisei sobre elas. O resultado agradou a muitos alunos, mas alguns professores detestaram. Melhor não falar sobre isso. Nessa terceira oportunidade, para evitar que o texto se perca (risco que provavelmente só interessa a mim), resolvi publicá-lo aqui. A versão escrita é apenas um guia para a versão falada, a qual, para desespero de alguns, também teve certo grau de improviso.
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Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Paulo Osmar Dias Barbosa, demais autoridades já mencionadas, queridos pais e familiares, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos e novíssimos engenheiros e engenheiras recém-formados.

É uma satisfação e uma grande honra ser convidado como paraninfo da turma de vocês. É também uma grande surpresa, pois, na minha formatura, eu fui um dos candidatos a orador. Tive um voto, pois os meus colegas tinham muito medo que eu fosse falar bobagem.

Eles não tinham medo de uma bobagem do tipo que é só uma inverdade, como “a Terra é plana”, “os elefantes voam” ou “o Coxa é o melhor time do Paraná”.

Eles tinham medo de uma brincadeira ou piada que fica bem em determinada situação, mas pode causar constrangimento em outras. Eles tinham medo que eu pudesse ser deselegante.

Em defesa dos meus colegas, confesso que de vez em quando as probabilidades estão contra mim. Por exemplo, em palestra recente, eu tinha que falar sobre o Setor Elétrico Brasileiro, fazendo algumas comparações com países de menor consumo de energia. Comecei com o Equador, comentando sobre a fragilidade do sistema de transmissão deles, e finalizei com o Paraguai, comentando que teria sido mais fácil para o Brasil se, na época da construção de Itaipu, os paraguaios tivessem aceitado converter o sistema deles para 60 Hz.

Achando que tinha exagerado um pouco na parte do Paraguai, resolvi perguntar se havia algum paraguaio na sala. Uma menina levantou a mão. Eu perguntei se ela era mesmo paraguaia, pois ela falava português sem sotaque algum, e ela respondeu: “Não. A minha irmã é paraguaia. Eu sou equatoriana.”

Agora, me digam, qual a probabilidade disso acontecer!

Mas, muito antes da formatura, como acontece com todos, veio o primeiro dia de aula e o primeiro choque. O professor entrou, distribuiu algumas pilhas de apostilas, falou rapidamente sobre a disciplina e deu um conselho aos alunos vindos de escolas particulares; “aqui o rei sou eu, e vocês são meus serviçais”.

Felizmente, a grande maioria dos meus professores não era assim. Na verdade, nem aquele professor era assim. Era só jogo de cena para assustar calouros. Mas calouro é um bicho fácil de se assustar e ele não precisava ter exagerado.

Mas professores, bons ou ruins, têm uma característica peculiar, compartilhada talvez com médicos, psicólogos e outros profissionais da área de serviços: eles quase nunca observam outros colegas em ação, pois passam a maior parte do tempo em contato com seus clientes, os alunos, cujas necessidades não conhecem muito bem.

Além disso, a própria escola é uma instituição muito peculiar. Afinal, que outra empresa se livra de seus clientes em uma cerimônia pública, que chamamos de “colação de grau”?

Ainda assim, apesar de todas as idiossincrasias, é difícil imaginar instituição mais importante do que as escolas de ensino superior. De fato, o professor Steven Weinberg, ganhador do prêmio Nobel de física em 1979, certa vez disse que “se não fossem as universidades, os Estados Unidos viveriam hoje do turismo e da agricultura”.

E, de fato, de que vive o Brasil hoje, senão de turismo, agricultura e algumas coisas mais? É verdade que também exportamos aviões e outros produtos tecnológicos, mas os aviões são produzidos pela Embraer, que nasceu dentro do ITA, uma instituição de ensino superior, o que só reforça a tese do professor Weinberg.

Mas nossa história é diferente da história do ITA, da USP, da Unicamp ou da nossa irmã quase gêmea, a UFPR, mas é uma história única e autêntica, que merece ser contada.

Nascemos em 1910, como uma escola de artífices, ou seja, uma instituição desvinculada do sistema de ensino nacional, destinada apenas ao ensino profissionalizante dos “desvalidos da sorte”, para usar as palavras da época.

Progredimos aos poucos. Liceu Industrial de Curitiba, Escola Técnica Federal de Curitiba, Escola Técnica Federal do Paraná, e, em 1978, Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná.

Hoje, somos a Universidade Tecnológica Federal do Paraná, a UTFPR, e ainda estamos tentando entender o que isso significa, ou até mesmo como pronunciar corretamente uma sigla que quase só tem consoantes.

Ao contrário de muitas universidades do Brasil e do mundo, nascemos do esforço de técnicos, engenheiros e outros profissionais, muitos deles formados aqui mesmo.

Enquanto os brasileiros são freqüentemente acusados de praticar a autofagia, nós, na UTFPR, aprendemos a praticar a auto-regeneração.

Os mestres e doutores, necessários e importantes em qualquer universidade, começaram a chegar há pouco mais de 20 anos, e ainda estamos tentando entender o conflito entre a necessidade do ensino técnico, que sempre existiu e sempre existirá, e a nova necessidade de investimento em pesquisa pura e aplicada, que é uma das funções obrigatórias de qualquer universidade do nosso porte.

Agora, eu gostaria de voltar àquele primeiro semestre do meu curso de Engenharia. Gente, aquilo foi realmente um massacre. Dos 44 alunos que passaram no vestibular, apenas 7 foram aprovados em todas as disciplinas do primeiro período. Destes 7, apenas 3 conseguiram acabar o curso em quatro anos e meio, que era a duração mínima naquela época.

Isso não significa que nossos alunos sejam ruins. Na verdade, vocês são ótimos. O que acontece é que o curso é mesmo muito difícil e não temos intenção de torná-lo mais fácil.

Caso fizéssemos isso, correríamos o risco de começar a formar gente pior do que nós mesmos. E a finalidade de qualquer professor, em qualquer lugar do mundo, é preparar pessoas que, algum dia, serão melhores do que ele.

Mas, depois de enfrentar Cálculo, Estatística, Eletromagnetismo, Resistência dos Materiais e outras pragas, nossos alunos descobrem que ainda devem enfrentar a experiência mais aterradora de todas: as reuniões da comissão de formatura.

É difícil organizar formaturas em um curso onde as turmas-base se esfacelam ao longo do tempo. Assim, fica aqui uma menção especial a quatro alunos: Mauricio, Sandra, Diogo e Francisco. Sem vocês, essa cerimônia não teria sido possível. Os meus alunos atuais também agradecem, pois hoje é dia de aula...

A propósito, participar de uma comissão de formatura é mostra de empreendedorismo. E em algumas situações da vida profissional, isso é mais importante do que muita coisa.

E qualquer empreendedor, trabalhando em uma empresa ou por conta própria, deve em primeiro lugar se lembrar do aviso impresso na primeira página do fictício Guia do Mochileiro das Galáxias: “não entre em pânico!”.

A viagem à frente será longa, tempestuosa, difícil e arriscada, e o fracasso é o único resultado garantido. Quem se arrisca, abre para si um oceano de possibilidades, inclusive a possibilidade de sucesso. Quem não se arrisca, já fracassou.

Apesar das incertezas, o que sabemos ao certo é que um engenheiro da UTFPR pode fazer quase qualquer coisa. Nossos alunos, formados ao longo desses quase 30 anos de curso de Engenharia, estão espalhados pelo mundo, trabalhando no Brasil e no exterior. Até o momento, nenhum deles ganhou um prêmio Nobel, mas isso é só uma questão de tempo.

Para finalizar, a frase que eu tenho sempre em mente é conselho de Mário Andretti, campeão da Fórmula 1 e da Fórmula Indy, que disse: “Se as coisas parecerem estar sob controle, então é sinal que você não está indo rápido o suficiente”.

Assim, pisem forte nesse acelerador e usem o freio só em caso de emergência.

Obrigado pela paciência. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Uma história horrorosa

Quem conta a história é o professor Francisco Antonio Doria (emérito, UFRJ), que a ouviu do professor Newton da Costa, um dos mais importantes lógicos brasileiros, atualmente na UFSC, que autorizou a divulgação.

Um primo do professor Newton, general reformado, morava no Rio de Janeiro, onde tinha dois apartamentos: um para residência e o outro para escritório. Neste, o primo do professor Newton acumulou uma vasta coleção paranista: primeiras edições, outros livros raros, documentos, etc, etc. Morreu há 25 anos. A viúva ofereceu, por preço razoável, a biblioteca a uma universidade estatal do Rio (não sei qual delas, pois o prof. Doria teve a elegância de não revelar). Pediu apenas que a coleção ficasse íntegra, e que a entidade garantisse a manutenção do bom estado da coleção. O pedido foi negado.

A viúva foi então a Curitiba e ofereceu o mesmo lá, mas agora de graça, sem custos. Pedia apenas o tal compromisso da conservação. Mais uma vez o pedido foi recusado.

A viúva já estava desesperada, quando um dia bateu à sua porta o cônsul da Austrália, que comprou todo o acervo por bom preço e o levou para a Austrália, onde está até hoje.

Assim, se você quiser estudar o Paraná a fundo, não se esqueça de incluir uma passagem para Canberra no seu projeto.

Essa curta história, tristemente recorrente, é típica do nosso modo de pensar e agir. Temos que mudar isso!

sexta-feira, outubro 13, 2006

CEFET-PR é a primeira Universidade Tecnológica do Brasil!

O CEFET-PR, instituição de 96 anos de idade, acaba de ser transformado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, UTFPR, pela sanção da lei 11.184, de 7 de outubro de 2005.

De acordo com o professor Eden Januário Netto, diretor da instituição e reitor pró-tempore, a transformação do CEFET-PR em universidade acarreta nos seguintes benefícios:

  • Maior acesso a investimentos, pois as universidades têm prerrogativas específicas oriundas da Constituição Federal da República.
  • Maior facilidade de planejamento das atividades.
  • Possibilidade de obtenção de recursos para projetos específicos.
  • Internacionalização da instituição, pois o termo "Universidade Tecnológica", ao contrário de "Centro Federal de Educação Tecnológica", é globamente conhecido.

A UTFPR já nasce com 14 mil alunos, 1.330 professores e campi em Curitiba, Pato Branco, Dois Vizinhos, Medianeira, Cornélio Procópio, Ponta Grossa e Campo Mourão.

Atualmente, são oferecidos 41 cursos de graduação, 4 programas de mestrado, um doutorado, 10 cursos técnicos de nível médio e cerca de 50 cursos de especialização. A estrutura dos programas de pós-graduação, aliada à excelência do corpo técnico, foi um dos fatores decisivos para a mudança.

Je vous salue, UTFPR!