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segunda-feira, abril 02, 2007

Discurso de formatura – UTFPR 2007

Meu primeiro discurso de formatura como paraninfo, lá pelos idos de 2002, foi razoavelmente bem recebido, mas se perdeu no último crash do meu computador. Para o segundo discurso, um ou dois semestres depois, preparei apenas algumas notas, as quais ainda tenho, e improvisei sobre elas. O resultado agradou a muitos alunos, mas alguns professores detestaram. Melhor não falar sobre isso. Nessa terceira oportunidade, para evitar que o texto se perca (risco que provavelmente só interessa a mim), resolvi publicá-lo aqui. A versão escrita é apenas um guia para a versão falada, a qual, para desespero de alguns, também teve certo grau de improviso.
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Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Paulo Osmar Dias Barbosa, demais autoridades já mencionadas, queridos pais e familiares, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos e novíssimos engenheiros e engenheiras recém-formados.

É uma satisfação e uma grande honra ser convidado como paraninfo da turma de vocês. É também uma grande surpresa, pois, na minha formatura, eu fui um dos candidatos a orador. Tive um voto, pois os meus colegas tinham muito medo que eu fosse falar bobagem.

Eles não tinham medo de uma bobagem do tipo que é só uma inverdade, como “a Terra é plana”, “os elefantes voam” ou “o Coxa é o melhor time do Paraná”.

Eles tinham medo de uma brincadeira ou piada que fica bem em determinada situação, mas pode causar constrangimento em outras. Eles tinham medo que eu pudesse ser deselegante.

Em defesa dos meus colegas, confesso que de vez em quando as probabilidades estão contra mim. Por exemplo, em palestra recente, eu tinha que falar sobre o Setor Elétrico Brasileiro, fazendo algumas comparações com países de menor consumo de energia. Comecei com o Equador, comentando sobre a fragilidade do sistema de transmissão deles, e finalizei com o Paraguai, comentando que teria sido mais fácil para o Brasil se, na época da construção de Itaipu, os paraguaios tivessem aceitado converter o sistema deles para 60 Hz.

Achando que tinha exagerado um pouco na parte do Paraguai, resolvi perguntar se havia algum paraguaio na sala. Uma menina levantou a mão. Eu perguntei se ela era mesmo paraguaia, pois ela falava português sem sotaque algum, e ela respondeu: “Não. A minha irmã é paraguaia. Eu sou equatoriana.”

Agora, me digam, qual a probabilidade disso acontecer!

Mas, muito antes da formatura, como acontece com todos, veio o primeiro dia de aula e o primeiro choque. O professor entrou, distribuiu algumas pilhas de apostilas, falou rapidamente sobre a disciplina e deu um conselho aos alunos vindos de escolas particulares; “aqui o rei sou eu, e vocês são meus serviçais”.

Felizmente, a grande maioria dos meus professores não era assim. Na verdade, nem aquele professor era assim. Era só jogo de cena para assustar calouros. Mas calouro é um bicho fácil de se assustar e ele não precisava ter exagerado.

Mas professores, bons ou ruins, têm uma característica peculiar, compartilhada talvez com médicos, psicólogos e outros profissionais da área de serviços: eles quase nunca observam outros colegas em ação, pois passam a maior parte do tempo em contato com seus clientes, os alunos, cujas necessidades não conhecem muito bem.

Além disso, a própria escola é uma instituição muito peculiar. Afinal, que outra empresa se livra de seus clientes em uma cerimônia pública, que chamamos de “colação de grau”?

Ainda assim, apesar de todas as idiossincrasias, é difícil imaginar instituição mais importante do que as escolas de ensino superior. De fato, o professor Steven Weinberg, ganhador do prêmio Nobel de física em 1979, certa vez disse que “se não fossem as universidades, os Estados Unidos viveriam hoje do turismo e da agricultura”.

E, de fato, de que vive o Brasil hoje, senão de turismo, agricultura e algumas coisas mais? É verdade que também exportamos aviões e outros produtos tecnológicos, mas os aviões são produzidos pela Embraer, que nasceu dentro do ITA, uma instituição de ensino superior, o que só reforça a tese do professor Weinberg.

Mas nossa história é diferente da história do ITA, da USP, da Unicamp ou da nossa irmã quase gêmea, a UFPR, mas é uma história única e autêntica, que merece ser contada.

Nascemos em 1910, como uma escola de artífices, ou seja, uma instituição desvinculada do sistema de ensino nacional, destinada apenas ao ensino profissionalizante dos “desvalidos da sorte”, para usar as palavras da época.

Progredimos aos poucos. Liceu Industrial de Curitiba, Escola Técnica Federal de Curitiba, Escola Técnica Federal do Paraná, e, em 1978, Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná.

Hoje, somos a Universidade Tecnológica Federal do Paraná, a UTFPR, e ainda estamos tentando entender o que isso significa, ou até mesmo como pronunciar corretamente uma sigla que quase só tem consoantes.

Ao contrário de muitas universidades do Brasil e do mundo, nascemos do esforço de técnicos, engenheiros e outros profissionais, muitos deles formados aqui mesmo.

Enquanto os brasileiros são freqüentemente acusados de praticar a autofagia, nós, na UTFPR, aprendemos a praticar a auto-regeneração.

Os mestres e doutores, necessários e importantes em qualquer universidade, começaram a chegar há pouco mais de 20 anos, e ainda estamos tentando entender o conflito entre a necessidade do ensino técnico, que sempre existiu e sempre existirá, e a nova necessidade de investimento em pesquisa pura e aplicada, que é uma das funções obrigatórias de qualquer universidade do nosso porte.

Agora, eu gostaria de voltar àquele primeiro semestre do meu curso de Engenharia. Gente, aquilo foi realmente um massacre. Dos 44 alunos que passaram no vestibular, apenas 7 foram aprovados em todas as disciplinas do primeiro período. Destes 7, apenas 3 conseguiram acabar o curso em quatro anos e meio, que era a duração mínima naquela época.

Isso não significa que nossos alunos sejam ruins. Na verdade, vocês são ótimos. O que acontece é que o curso é mesmo muito difícil e não temos intenção de torná-lo mais fácil.

Caso fizéssemos isso, correríamos o risco de começar a formar gente pior do que nós mesmos. E a finalidade de qualquer professor, em qualquer lugar do mundo, é preparar pessoas que, algum dia, serão melhores do que ele.

Mas, depois de enfrentar Cálculo, Estatística, Eletromagnetismo, Resistência dos Materiais e outras pragas, nossos alunos descobrem que ainda devem enfrentar a experiência mais aterradora de todas: as reuniões da comissão de formatura.

É difícil organizar formaturas em um curso onde as turmas-base se esfacelam ao longo do tempo. Assim, fica aqui uma menção especial a quatro alunos: Mauricio, Sandra, Diogo e Francisco. Sem vocês, essa cerimônia não teria sido possível. Os meus alunos atuais também agradecem, pois hoje é dia de aula...

A propósito, participar de uma comissão de formatura é mostra de empreendedorismo. E em algumas situações da vida profissional, isso é mais importante do que muita coisa.

E qualquer empreendedor, trabalhando em uma empresa ou por conta própria, deve em primeiro lugar se lembrar do aviso impresso na primeira página do fictício Guia do Mochileiro das Galáxias: “não entre em pânico!”.

A viagem à frente será longa, tempestuosa, difícil e arriscada, e o fracasso é o único resultado garantido. Quem se arrisca, abre para si um oceano de possibilidades, inclusive a possibilidade de sucesso. Quem não se arrisca, já fracassou.

Apesar das incertezas, o que sabemos ao certo é que um engenheiro da UTFPR pode fazer quase qualquer coisa. Nossos alunos, formados ao longo desses quase 30 anos de curso de Engenharia, estão espalhados pelo mundo, trabalhando no Brasil e no exterior. Até o momento, nenhum deles ganhou um prêmio Nobel, mas isso é só uma questão de tempo.

Para finalizar, a frase que eu tenho sempre em mente é conselho de Mário Andretti, campeão da Fórmula 1 e da Fórmula Indy, que disse: “Se as coisas parecerem estar sob controle, então é sinal que você não está indo rápido o suficiente”.

Assim, pisem forte nesse acelerador e usem o freio só em caso de emergência.

Obrigado pela paciência. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

sexta-feira, dezembro 15, 2006

De Quito a Manaus, nas asas da Ecuatoriana (reminiscências pessoais)

A crise pela qual vem passando o setor brasileiro de aviação civil me lembrou de uma viagem a Quito, capital do Equador, para apresentar um trabalho em um congresso internacional da CIER. Era o ano de 1998, quando o Projeto RE-SEB era jovem, o racionamento de energia estava ainda no futuro e o termo “controlador de vôo” não havia sido incorporado ao vocabulário do brasileiro médio.

O trabalho em questão era “Mudanças Estruturais no Setor Elétrico: Formação e Regulação de Preços”, escrito em conjunto com Paulo Born (que era o primeiro autor, mas, com a gentileza habitual, cedeu-me a oportunidade de fazer a apresentação). Na época, Paulo Born, hoje diretor da Light, estava na ANEEL, cedido pela Copel, e eu estava na Copel. Outro colega da Copel, Renê Bettega (hoje na CPFL), também iria apresentar um trabalho sobre o MRE, então uma novidade no setor. Embarcamos juntos e aproveitei para fazer um esforço financeiro adicional e levar a Sandra, minha esposa.

Era minha primeira viagem de longa distância dentro da América Latina e eu esperava ingenuamente embarcar em um MD-11, os aviões então usados pela VASP em viagens internacionais. Qual não foi minha surpresa ao ver um singelo Boeing 727 taxiando na pista de Guarulhos! Pelo que me lembro, o percurso era Curitiba-São Paulo-Brasília-Manaus-Quito, tudo a bordo de uma lata de sardinhas! Apesar do aperto, a viagem de ida foi tranqüila, com direito a uma vista aérea diurna da selva amazônica, sempre impressionante.

O aeroporto de Quito tem aquele jeitão de rodoviária de cidade pequena, mas não é muito pior do que vários aeroportos de algumas capitais brasileiras, com a diferença dos aviões militares misturados aos aviões civis, que conferem aquele toque de filme de Indiana Jones. O táxi que pegamos para o hotel não tinha taxímetro e o preço foi previamente combinado: cinco dólares. Em um época em que um táxi entre o centro de Curitiba e o aeroporto Afonso Pena não saía por menos de trinta reais, cinco dólares (pouco menos de R$ 6,50, a preços da época) pareciam pouca coisa. Mas a formação de preços no Equador guardava ainda outras surpresas.

Logo na primeira manhã em Quito, ficamos sabendo que, como já esperado, o café da manhã do hotel não era no estilo brasileiro “coma tudo que puder”. Não havia, por exemplo, presunto e queijo. Perguntamos ao garçom por esses itens e ele nos informou que eles seriam cobrados à parte. “Quanto é?” – perguntamos. A resposta: “cinco dólares!” Tudo bem, cinco dólares por uma passagem de táxi é pouco, mas por duas fatias de queijo e duas de presunto, já é demais! Mas o Equador atravessava um período de hiperinflação e, com os preços já informalmente dolarizados (especialmente para turistas), as referências de valores flutuavam bastante.

Chegando ao hotel do congresso, um imprevisto: o secretário brasileiro não havia conseguido chegar a tempo e, por razões que sempre me pareceram um pouco obscuras e tinham a ver com minha reduzida compreensão do espanhol equatoriano, fui escalado para a função. O secretário brasileiro tinha a função de resumir as palestras dos brasileiros, acompanhado de um secretário de língua espanhola. Como o secretário brasileiro nunca apareceu, acabei investido dessa nobre função durante todo o congresso. Em resumo, tive que assistir a todas as palestras brasileiras, até mesmo as que não eram da minha área, e, por uma questão de elegância, também assisti a todas as palestras em espanhol. Não conheci quase nada de Quito, a não ser à noite, mas aprendi um bocado sobre o sistema elétrico de outros países latino-americanos.

No segundo dia, fui almoçar com o Renê no hotel onde estávamos hospedados, pois o restaurante do hotel cinco estrelas do evento ainda era caro demais para nós. Em dada altura, percebi que o Renê estava balançando insistentemente a perna, a ponto dos copos sobre a mesa começarem a balançar também. Olhei para a cortina e notei que ela também estava balançando. “Será que ele está nervoso por causa da palestra que vai dar?” – pensei. Uma fração de segundo depois, notei que o barulho era forte demais para ser provocado por um palestrante nervoso, o que também não explicaria o comportamento dos garçons, que àquela altura já estavam correndo para fora do restaurante. Era um terremoto! Logo depois ficamos sabendo que o tremor havia se iniciado no litoral, perto de Guaiaquil, chegando até Quito com intensidade moderada. Naquele dia fiquei sabendo que muitas coisas da vida, como terremotos e orgasmos, não podem ser plenamente apreciadas da primeira vez em que ocorrem, pois simplesmente não sabemos o que se passa!

O congresso veio e se foi, minha participação foi apenas razoável e, após quatro ou cinco dias de palestras, chegou a hora de voltar para casa. Durante o congresso eu havia conhecido Dorel Soares Ramos, atualmente assistente da diretoria da Bandeirante Energia, experiente em eventos da CIER e em vôos pela VASP/Ecuatoriana. Ele rapidamente sugeriu que recolhêssemos nossas trouxas e nos dirigíssemos ao aeroporto, pois, devido ao grande número de congressistas voltando para o Brasil, havia o risco de overbooking.

A Compañia Ecuatoriana de Aviación, fundada em 1957 por equatorianos e norte-americanos, era a empresa aérea nacional do Equador. Durante os anos 70, os americanos se retiraram da empresa, que foi transformada na Empresa Estatal Ecuatoriana de Aviación, adquirindo rapidamente a reputação de baixa confiabilidade, acumulando atrasos e cancelamentos de vôos. Em 1993, com o arresto de alguns de seus aviões por parte de credores, a empresa encerrou as operações. Dois anos depois, a Ecuatoriana foi comprada pela VASP, que retomou as operações durante cinco anos, vendendo sua participação no ano 2000 para a Lan Chile, que posteriormente a vendeu para o Lloyd Aéreo Boliviano.

Imagine voar por uma empresa pós-falimentar, arruinada por vários anos de corrupção estatal, e que havia sido salva pela VASP! Pela VASP! Os equatorianos são gente boa, muito mais cordiais do que outros povos da América Latina, mas devia ser estressante trabalhar em uma empresa dessas.

Após várias horas de espera no aeroporto, onde pude engraxar meu sapato pela módica quantia de cinco dólares, escapamos do overbooking e finalmente entramos na sala de embarque. Pela janela era possível ver os aviões estacionados na pista e lá estava aquela visão paradisíaca, brilhando sob o sol equatorial, pintada com o logotipo da Ecuatoriana: um McDonnell-Douglas MD-11, um trijato comercial wideboy de longo alcance, com nove fileiras de poltronas e máquina de café espresso! A viagem de volta ao Brasil prometia ser muito mais confortável.

Quando nosso vôo foi chamado, um ônibus estacionou do lado de fora, para nos conduzir até o avião (ou “aeronave”, como eles insistem). Embarcamos no ônibus e, quando já havíamos percorrido um trecho do trajeto, notamos um funcionário do aeroporto correndo atrás do ônibus e gritando algo incompreensível. Depois de alguns momentos de confusão, fomos informados que aquele ônibus deveria conduzir os passageiros do vôo Quito-Miami, não nós. Pensei ingenuamente que, apesar das ordens, o motorista do ônibus teria um mínimo de elegância e não se importaria em conduzir ambos os grupos de passageiros, um de cada vez, se necessário. Mas que nada. Fomos levados novamente para a sala de embarque, descemos do ônibus e tivemos que caminhar até o avião.

Naquela altura já havia sido esclarecido que o MD-11 estava na verdade indo para Miami. Nosso avião (adivinhem!) era um 727, que até aquele momento estava estrategicamente escondido atrás do MD-11! Apesar de tudo, poderia ser pior (poderia ser um Legacy, por exemplo).

Muito pacientemente, entramos na lata de sardinhas e esperamos por todo o ritual pré-decolagem. Já era noite e, com um pouco de sorte, conseguiríamos evitar colidir com as montanhas que circundavam Quito. Mas os equatorianos têm sempre algumas surpresas na manga. Após taxiar, o avião dirigiu-se para a cabeceira da pista e aguardou a autorização para decolagem. Ao receber a ordem, o piloto acelerou conforme previsto nas normas, já se preparando para ganhar os céus, conforme previsto nas normas. O avião acelerou, acelerou, acelerou e, quando estava quase decolando, pof, pof, pof..., decepção geral. Os deuses equatorianos ainda nos queriam por uns momentos.

Após muita consternação entre os passageiros, fomos informados que um problema com a torre de controle havia impedido a decolagem. Não me lembro se a mensagem foi transmitida em português ou em espanhol, mas ficamos sabendo que o avião deveria voltar à cabeceira da pista e aguardar nova autorização de decolagem.

Então, voltamos à cabeceira da pista. Éramos vários brasileiros corajosos, alguns argentinos e uma tripulação equatoriana que parecia muito a fim de brincar conosco.

Novamente, o avião acelerou, acelerou, acelerou e ... pof, pof, pof... Tudo indicava que iríamos passar mais uma noite em Quito, dessa vez com a cortesia da Ecuatoriana.

O comandante informou que um problema qualquer com a torre de controle havia impedido a decolagem e, para surpresa geral, avisou que deveríamos voltar à cabeceira da pista para aguardar nova decolagem. Tudo bem, talvez eles já tivessem removido o controlador de vôo que havia desmaiado. Talvez não fosse um problema com o transponder nem nada parecido. Talvez fosse só uma antena solta ou um estagiário que havia apertado o botão errado.

Voltamos à cabeceira da pista. Eu sempre tentara imaginar o que se passa na cabeça de passageiros que estão prestes a sofrer um acidente aéreo. Bem, de maneira geral, ou não se passa nada, ou os pensamentos são irrelevantes ou apenas totalmente impublicáveis.

Novamente, o combalido 727 acelerou, acelerou, acelerou e ... decolou! Gargalhadas, risos histéricos, sorrisos, aplausos. Nunca uma decolagem foi tão esperada! O avião deu um forte solavanco (mais risos histéricos) e estabilizou. Estávamos a salvo.

Com a paciência já habitual, esperamos pelos esclarecimentos do comandante, pois muitos de nós queriam saber qual tipo de problema havia ocorrido (é bom lembrar que o avião estava cheio de engenheiros e esse tipo de bicho costuma ser muito chato). Os esclarecimentos nunca vieram e muitos passageiros passaram a viagem até Manaus segurando certas partes do corpo, tentando evitar a saída do almoço (ou, em alguns casos, tentando evitar a saída do almoço do dia anterior).

O serviço de bordo começou logo, e as comissárias passaram servindo refrigerante, cerveja, whisky, chá de camomila e passiflora. Então a tempestade equatorial mais próxima resolveu entrar na brincadeira. Turbulência, turbulência, turbulência. As luzes da cabine foram reduzidas, as comissárias e um comissário dirigiram-se aos respectivos assentos e amarraram-se fortemente. Eu sempre imaginara que uma das funções dos comissários de bordo era assegurar a manutenção da calma a bordo, mas garanto que não me acalma nada ver um comissário agarrando-se nervosamente a um cinto de segurança, ao mesmo tempo em que segura um microfone para advertir, em espanhol, uma passageira que insistia em ir ao banheiro: “Señora, toma assento! Señora, toma assento” (imagino que em português isso possa ser traduzido como “senta logo, vaca velha!”).

Para finalizar, mais um toque de elegância da tripulação. Pouco antes do jantar, levantei-me para ir ao banheiro. Ao sair daquela caixinha apertada, o chefe da tripulação estava dando instruções para uma das comissárias sobre como servir o jantar. Só me lembro da parte em que ele disse: “Essas são para os pobres”, o que significava que aquelas bandejas eram destinadas à classe executiva, não à primeira classe (que ficava separada da ralé por uma mera cortina). Bem, minha passagem havia sido financiada pela Copel, mas a passagem da minha esposa foi paga com nosso próprio dinheiro, em suaves prestações. E é assim que a tripulação se refere àquele pessoal que economiza bravamente para pagar os salários deles? Em todo caso, achei melhor não reclamar naquela hora. Ninguém gosta de espaguete ao molho de cuspe.

E assim, depois de muitas emoções e apesar de todos os prognósticos, chegamos vivos em Manaus, onde a tripulação equatoriana foi trocada por uma de brasileiros, e seguimos para São Paulo, onde minha passagem para Curitiba foi roubada. Mas essa é outra história!