segunda-feira, agosto 09, 2021

Livros e cachimbos

Meu pai era um grande colecionador de enciclopédias, tarefa que exigia muita disciplina. Em meio a todas as enciclopédias que ele mantinha em uma pequena biblioteca, que para mim era gigantesca, uma se destacava: "Os Bichos", uma enciclopédia ilustrada em 14 volumes, publicada em 1970 pela Abril Cultural, quando eu tinha 5 anos. O último volume se chamava "Os Bichos Evoluem" e tinha um Triceratops na capa. Um belo dia eu comecei a achar aquilo muito estranho e perguntei ao meu pai porque aquele volume tinha um nome diferente. Ele me disse então que todos os bichos atuais "vieram" de bichos mais primitivos e completou: "Por exemplo, o homem veio do macaco". Não sei se foi exatamente o que aconteceu depois, pois já se passaram mais de 50 anos, mas me lembro claramente de ter dito a ele, como se fosse um desafio: "Então me mostre uma foto de quanto você era macaco!" Não sei qual foi a explicação que ele me deu, mas não tenho dúvidas de que ele sabia a diferença entre "árvore evolutiva" e "escada evolutiva" e não deve ter se atrapalhado com a resposta.

Não tínhamos a "Enciclopédia Britannica" em casa, talvez porque ela não pudesse ser colecionada a partir de fascículos. Mas, uma outra enciclopédia que tínhamos era a "Conhecer", publicada 12 volumes, também pela Abril Cultural, em meados da década de 60. Também me lembro da "Ciência Ilustrada", publicada em 12 volumes, também pela Abril Cultural, e que abrangia assuntos como Astronomia, Biologia, Física e Química. Para quem se dispusesse a ler e tivesse interesse, aquela enciclopédia era um poço sem fundo. Não tenho dúvidas de que moldou meus interesses. 

Entre tantos livros e enciclopédias havia um pequeno livro que fez minha cabeça explodir: um livro ilustrado sobre a conquista da Lua. Eu não tinha mais de 5 anos quando Armstrong deu aquele famoso passo em 1969, de modo que o livro ainda demorou algum tempo para aparecer na estante. Depois disso, Neil Armstrong tornou-se meu herói (Steve Austin veio alguns anos depois), tanto que de vez em quando eu achava muito estranho que algumas pessoas pensassem que Armstrong fosse um trompetista de jaz.

Mas aquilo trazia um problema. Eu já sabia que a Terra era redonda, mas como os astronautas saiam dela? Afinal, se a Terra era redonda, ela devia ser um tipo de "casca esférica" e os astronautas deviam acertar exatamente o "buraquinho" nessa casca para sair dela a ir até a Lua. Então, perguntei ao meu pai e ele me disse algo como: "Os astronautas não estão dentro da Terra, eles ficam em cima da Terra como uma mosca fica em cima de uma laranja". Aquilo foi uma revelação. Eu não me lembro de ter perguntado o que mantinha os astronautas "grudados" em cima da Terra, mas eu também não sabia o que mantinha as moscas "grudadas" em cima da laranja, de modo que a explicação bastava.

Meu pai trabalhou como economista no BADEP (Banco de Desenvolvimento do Estado do Paraná) até a aposentadoria. Ele não tinha enciclopédias de economia, mas tinha vários livros sobre estatística e economia. Eu me lembro de "Trustes e Carteis", de Richard Lewinsohn, cujo título sempre me pareceu muito misterioso e que nunca li, e de outros livros que desapareceu em meio a duas ou três mudanças. Ainda tenho comigo "Ensaios Analíticos", de Mario Henrique Simonsen, um livro de 1994, e "A Revolução Financeira da Idade Média", de Jean Gimpel e "Princípios de Administração Financeira", de Lawrence Gitman. Uma vez ele me disse que ninguém mais tinha o livro do Gitman na época do curso e todos queriam ser amigos dele, pois nem mesmo Xerox existia. Ainda tenho também o "Manual de Economia" de professores da USP e "Dicionário de Economia", de Paulo Sandroni, livros que atrairiam minha atenção quase 15 anos depois da minha formatura, pois, por uma dessas coincidências da vida, durante uma boa parte da minha vida profissional eu vim a trabalhar com avaliação de projetos de investimento e até mesmo fiz um curso de pós-graduação em "Finanças Empresariais". Ninguém poderia prever isso, absolutamente ninguém.

Além do conhecimento em várias áreas e do amor pelos livros, meu pai tinha um hábito que lhe dava um certo "ar intelectual": fumar cachimbos. De vez em quando ele me levava para cortar o cabelo e depois íamos comer pastel. Em algumas dessas vezes ele parava para "abastecer" na Tabacaria Lima. Em uma época em que era mais fácil você encontrar alguém fumando cigarros do que não fumando, em que comerciais de cigarros eram permitidos, em que os professores fumavam em sala de aula e em que as pessoas podiam fumar em seus escritórios, fumar cachimbo dava ao menos um certo "charme". 

Fumar (não cachimbo, mas aquelas porcariazinhas brancas que se seguram entre os dedos) também era um hábito da minha mãe e de algumas irmãs dela. Um belo dia, passou a ser um hábito de dois dos meus irmãos também. E é estranho que se possa ter certeza de que algo aconteceu, embora se tenha certeza de que não aconteceu, mas me lembro claramente de meu pai indo falar comigo, o primogênito, sobre um hábito que ele teria adquirido por causa de seus amigos, que ele estava tentando largar há anos e que esperava que eu não adquirisse.

Depois da aposentadoria ele deixou de fumar, embora tenha adquirido o hábito de mascar palitos de fósforo e cuspi-los no chão.

Eu nunca fumei. Livros bastam.

 








quarta-feira, outubro 14, 2020

"Rua Paraíba", de Fabricio Muller

Recebi o livro mais recente do Fabricio Muller, "Rua Paraíba", há dois ou três dias e já o li mais de duas vezes. Para alguém que trabalhou com ele durante pouco mais de cinco anos, além de contatos fora do ambiente de trabalho, é uma obra emocionante e perturbadora, uma verdadeira viagem no tempo.

Conheci o Fabricio no final de 1994, quando entrei no departamento de planejamento da geração da Copel. Ele havia entrado alguns meses antes no departamento de hidrologia, que ficava no mesmo andar. Em poucas horas me dei conta de que todos os engenheiros que trabalhavam naqueles dois departamentos eram engenheiros civis. Eu, sendo um engenheiro eletricista, pensei: "onde foi que eu vim parar?". Me disseram então que o objetivo da minha contratação era fazer uma interface entre o planejamento da geração e o planejamento da transmissão, que ficava no andar de cima e que era dominado por engenheiros eletricistas. Contudo, isso nunca aconteceu de fato e acabei aprendendo mais sobre hidrologia do que sobre planejamento da transmissão. Além de ficarem no mesmo andar, os departamentos de hidrologia e do planejamento da geração eram unidos por uma verdadeira interface: a mesa do cafezinho. Foi aí, até onde me lembro, que comecei a conversar com o Fabrício. Mas não tive essas conversas com todos os outros, o que significa que o cafezinho não é suficiente.

Eu já conhecia vários assuntos do livro: as dificuldades no mestrado, a participação em campeonatos de natação, a paixão por Morrissey, Madredeus (ou, mais apropriadamente, por Teresa Salgueiro do Madredeus) e por música de maneira geral, a experiência de um ano com vegetarianismo (abandonada quando um garçom português lhe disse que "peixe é peixe, carne é carne), as opiniões sobre economia, a paixão por literatura e a conversão ao catolicismo por meio da leitura dos livros de Santa Teresa d'Ávilla.

A parte em que o Fabrício fala sobre natação sempre me lembra de uma grande coincidência. Eu frequentei o segundo grau na mesma instituição que o Fabrício, o antigo CEFET-PR, hoje UTFPR, onde mais tarde cursei Engenharia Elétrica. Na disciplina de Educação Física, de acordo com o cronograma semestral, éramos forçados a enfrentar a piscina, fingindo que sabíamos nadar. Uma coisa que sempre me deixava impressionado durante essas aulas era a existência de gente que enfrentava a piscina voluntariamente durante todo o semestre, sem estarem matriculados. Eram os integrantes da equipe de natação e competiam com outras escolas em nome do CEFET-PR. Outra coisa que me deixava impressionado era uma dupla desses nadadores que estava sempre conversando em francês. Eu sabia que aquela língua era o francês, por causa de alguns filmes franceses que eu sempre assistia. Só nunca havia encontrado pessoas "vivas" falando francês. Quando entrei na Copel descobri que um desses integrantes era o Fabrício. Muito pequena esta cidade. 

É claro que o livro traz algumas surpresas, como o fato do Fabrício revelar que acha impossível alguém gostar mais do The Cure do que de Justin Bieber. Acho isso bem estranho, mas, afinal, alguém que é coxa-branca devia ter ao menos mais um defeito.

Nos últimos dois anos em que trabalhei com o Fabricio na Copel ele migrou da hidrologia para o planejamento da geração. Este departamento era pequeno, formado por cinco engenheiros civis, incluindo o Fabricio, e por mim. O Fabricio fala brevemente (e misteriosamente) de três desses colegas. Ele se refere a um deles como "o sujeito que tinha o banco de dados de usinas hidrelétricas" e a outro como aquele que "nunca participava de conversas". Ele fala ainda do terceiro colega como "o ateu de carteirinha, um professor amante de ficção científica, etc.". E acrescenta: "Tínhamos ideias semelhantes sobre economia". Por exclusão (eu não tinha um banco de dados de usinas e, embora fale pouco, não sou exatamente calado), imagino que este terceiro seja eu. Esse trecho é realmente emocionante e quero deixar claro que tudo que está lá é recíproco.

Nossas ideias sobre economia dizem respeito ao liberalismo. No final dos anos 90 o Setor Elétrico estava sendo privatizado e a ideia de mercado livre de energia estava sendo introduzida aos poucos. Se tudo desse certo, hoje estaríamos comprando energia elétrica de maneira muito fácil: bastaria entrar em um site de comparação de preços de energia e escolher a comercializadora que estivesse oferecendo o pacote mais vantajoso na ocasião. Depois de pagar, os respectivos quilowatts-hora seriam creditados pela comercializadora de energia em um medidor eletrônico em nossa casa. Seríamos então avisados por este medidor da situação diária ou horária dos créditos. Os consumidores que não tivessem cartão de crédito poderiam comprar um cartão de plástico com os quilowatts-hora desejados na banquinha mais próxima, que seria então introduzido no medidor eletrônico. É claro que sempre haveria aqueles consumidores desconfiados, que prefeririam permanecer cativos, consumindo energia com tarifas anuais fixas, da mesma maneira de sempre.

Infelizmente, muita coisa não deu certo e apenas os consumidores de alta tensão podem atualmente se tornar livres, operando em um mercado baseado em oferta e demanda e contratos livremente negociados, ainda assim com algumas restrições. Isso ocorreu por várias razões, dentre as quais o racionamento energético de 2001/2002, o atentado ao World Trade Center e a entrada do PT no governo.

Um verdadeiro mercado livre deveria ser composto unicamente por empresas privadas. De fato, Roberto Campos, citado pelo Fabricio no livro, dizia que "No Brasil, empresa privada é aquela que o governo controla. Já empresa pública é aquela que ninguém controla". Não sei se atualmente, depois do caso Odebrecht, Roberto Campos teria tanta certeza disso, mas, de qualquer forma, em um mercado livre, uma empresa estatal poderia contar com mais ajuda do governo do que uma empresa privada, estabelecendo um quadro de concorrência desigual. Depois de tantos anos de mudanças, é quase este quadro que existe hoje. As empresas estatais ainda existem, mas as geradoras e comercializadoras privadas mostraram que têm mais agilidade e flexibilidade operacional, reduzindo um pouco a concorrência desigual. 

A Copel estava na lista para ser privatizada em outubro de 2001 e isso teria sido muito fácil de se fazer, não fosse o atentado contra o WTC, que fez os investidores se retraírem. Houve outra tentativa em novembro, mas depois veio o ano eleitoral e o governador eleito, Roberto Requião, era contrário à privatização e até mesmo a ligações da Copel com empresas privadas. No início de seu governo, ele disse enfaticamente que "A Copel não foi vendida pela garra do movimento social e pela desgraça do atentando ao World Trade Center. Foi o atentado que suspendeu o processo”. Mais tarde, em um grande evento do setor elétrico realizado em Curitiba, Paulo Pimentel, o presidente da Copel escolhido por Requião, mostrou que tinha a mesma opinião, dizendo que "Foi um ato de Deus que impediu a privatização da Copel". Não sei se ele estava se referindo ao movimento social ou ao atentado, mas imagino que, se dependesse de Deus, o movimento social bastaria.

Na parte em que fala sobre Roberto Campos, o Fabrício diz que o ápice de sua ligação com este economista, professor, escritor, diplomata e político brasileiro foi a leitura do "monumental Lanterna na Popa, autobiografia de mais de mil páginas". E acrescenta: "...lembro do tamanho (e do enorme peso) do livro a Lanterna na Popa, do tipo de impressão utilizado, das cores, de algumas figuras, da quantidade enorme de notas (boa parte das quais eu não li). Lembro da importância que ele teve na minha vida na época, e como eu gostava dele como uma criança com seu brinquedo preferido."

Esses trechos me deram um certo mal-estar, pois Lanterna na Popa ainda está comigo. Felizmente consegui preservá-lo nas duas mudanças de residência que fiz depois que saí da Copel, pois nessas mudanças alguns livros meus sumiram misteriosamente. Infelizmente, nunca li mais do que um quarto do livro, mas, em minha defesa, ele está guardado entre A Moeda e a Lei, de Gustavo Franco, e The Beatles, de Bob Spitz, dois tijolinhos que ainda pretendo ler. Assim, ainda há esperanças. 

Quanto ao ateísmo, o problema não é exatamente esse. Afinal, como dizia Mário Henrique Simonsen, para ser ateu é antes necessário provar que Deus não existe, tarefa tão difícil quanto provar que Deus existe. O problema são as religiões e, como as religiões são uma invenção humana, o problema na verdade são os seres humanos. Imagino que, se Jesus voltasse, ele diria: "O que eu disse foi para pregar o amor ao próximo, não para guerrear e se dividir em nome de Deus, para tentar se mostrar superiores a outras "raças", para subjugar as mulheres, para doutrinar as crianças em vez de educá-las, para tentar provar que o Universo tem 6 mil anos de existência e para enriquecer à custa do dízimo. Vamos recomeçar. Anotem aí!" 

Seria interessante discutir todas essas questões com o Fabricio. Quem sabe depois da pandemia.  



quinta-feira, setembro 12, 2019

Os 90 anos de Newton C. A. da Costa

Neste mês o professor Newton da Costa celebra seu 90° ano de vida. Curitibano de nascença e dono de um enorme currículo nas áreas de filosofia e lógica matemática, ele lecionou na UFPR, na Unicamp e na USP até sua aposentadoria, vindo a seguir ocupar a cadeira de professor visitante na UFSC. Ele calcula também que suas estadas no exterior, como professor visitante, devem somar pelo menos uma década, em países como Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Austrália, México e Argentina e outros.

Tive a honra de conhecê-lo bem no início da minha vida de estudante do curso de Engenharia Industrial Elétrica do antigo CEFET-PR, hoje UTFPR, quando eu era monitor do Departamento de Matemática. Naquela época o professor Décio Krause estava cursando doutorado na USP. Depois de algum tempo, ele deve ter percebido que eu estava realmente interessado em matemática e física e me convidou para assistir algumas palestras do professor Newton.

Não me lembro exatamente da ordem daquelas palestras (isso foi há mais de 30 anos!), mas a primeira deve ter sido no CEFET-PR, várias outras na UFPR, um curso no Instituto de Estudos Avançados da USP e um seminário da Sociedade Paranaense de Matemática. Algumas outras palestras foram com o próprio professor Décio e uma outra com o professor Francisco Antônio de Moraes Accioli Dória, grande colaborador do professor Newton.

Para um estudante de engenharia, que imaginava que o nível mais avançado da matemática estava no cálculo diferencial e integral e que o nível mais avançado da lógica estava na álgebra booleana, utilizada em eletrônica digital, aquela enxurrada de conhecimento foi quase capaz de torcer meus miolos. Mas é exatamente isso que o professor Newton diz querer:  "A finalidade do professor não é transmitir certezas. Minha finalidade é criar caso, é embrulhar o caco da pessoa, é fazer com que ela pense criticamente por si mesma" [1]. Seus alunos também dizem que ele costuma iniciar algumas de suas palestras dizendo: "Vim aqui jogar a serpente no paraíso de vocês".

A criação mais famosa do professor Newton é a lógica paraconsistente, desenvolvida de maneira simultânea e independente pelo lógico polonês Stanisław Jaśkowski (1906-1965). O termo "paraconsistente" foi cunhado somente em 1976 pelo filósofo peruano Francisco Miró Quesada [2].

A lógica desenvolveu-se como o estudo das formas válidas de inferência (estudo da argumentação), mas, até a segunda metade do século 19, nunca havia acompanhado os desenvolvimentos da matemática. A partir de então a lógica começou a se transformar em uma disciplina essencialmente matemática, hoje ensinada nos cursos de matemática e nos cursos de engenharia elétrica e computacional.

A lógica clássica (ou tradicional) é a mãe das outras lógicas e baseia-se em uma série de princípios. Dentre os mais conhecidos estão:
  1. Princípio da identidade: todo objeto é igual a si mesmo.
  2. Princípio do terceiro excluído: dentre duas proposições contraditórias, uma delas é verdadeira (não há terceira possibilidade).
  3. Princípio da não-contradição: dentre duas proposições contraditórias, uma delas é falsa.
  4. Princípio da identidade proposicional: "uma vez verdadeiro, sempre verdadeiro; uma vez falso, sempre falso" (Russel).
Dentre as lógicas que se desenvolveram a partir da lógica clássica estão, por exemplo, a lógica modal clássica, a lógica clássica da ação, as lógicas intencionais clássicas, a lógica indutiva clássica, as lógicas paracompletas, as lógicas quânticas, as lógicas relevantes,  as lógicas paraconsistentes, etc. Além disso, qualquer estudante de Inteligência Artificial deve entender um pouco de lógica difusa (fuzzy) [2].

A lógica paraconsistente é uma lógica não-clássica que derroga o princípio da não-contradição. Se uma lógica contém alguma inconsistência, ela se torna trivial, ou seja, a partir de uma contradição, qualquer coisa segue. A característica definidora de uma lógica paraconsistente é que ela rejeita esse "princípio da explosão". O resultado é que as lógicas paraconsistentes, ao contrário das lógicas clássicas, podem ser usadas para formalizar teorias inconsistentes, mas não triviais.

Mesmo tendo origens puramente teóricas, as lógicas paraconsistentes encontram hoje aplicações em vários campos, tais como mecânica quântica, relatividade geral, inteligência artificial, engenharia de produção, controle de tráfego, robótica e até mesmo em ciências humanas, como a economia.

É esse o espírito da pesquisa acadêmica: ninguém sabe o que pode surgir. Talvez uma tese seja defendida e nunca mais citada, mas talvez se transforme em uma cornucópia. Nesse aspecto o professor Newton cita Jawaharlal Nehru, ex-primeiro ministro da Índia, para quem seu país era "tão subdesenvolvido que não podia se dar ao luxo de não apoiar a pesquisa básica em todos os setores". É por isso que a pesquisa não pode deixar de ser incentivada.

Outra paixão do professor Newton são os fundamentos da ciência, especialmente da física. Ele diz, por exemplo, que "a matemática e a lógica são apenas ferramentas para se entender o que é o conhecimento científico". A física pode ser entendida como uma série de teorias bem-sucedidas em suas respectivas áreas de aplicação, mas incompatíveis entre si. Um exemplo é o da física do plasma, que encontra várias aplicações e envolve outras três teorias: a mecânica clássica, o eletromagnetismo e a teoria quântica, todas elas incompatíveis aos pares. O professor Newton diz que não haverá solução para tais incompatibilidades a não ser que a lógica subjacente às teorias (que é sempre a lógica clássica) seja alterada [3].

Depois da minha formatura encontrei o professor Newton somente uma vez, quando ele veio a Curitiba fazer uma palestra sobre filosofia da ciência. Contudo, depois que você é picado pela serpente, fica muito mais difícil respeitar a ordem unida, fica muito mais difícil participar de embustes coletivos, mesmo quando reforçados pela participação de "famosos". A vida em si fica muito mais difícil, mas frequentemente mais divertida.

Referências:
1. Newton C. A. da Costa, "A lógica da física", palestra, 2009.
2. Newton C. A. da Costa et al., "Lógica Paraconsistente Aplicada", Editora Atlas, 1999
3. Neldson Marcolin, "Newton da Costa: Passion and contradiction", Pesquisa FAPESP, 2008

segunda-feira, setembro 02, 2019

Yesterday, o filme

"Yesterday" (2019) é um daqueles filmes de realidade alternativa nos quais um mundo diferente é produzido por seres extraterrestres, por um "evento quântico" ou simplesmente por algo que não é explicado. Alguns críticos podem dizer que esse enredo não é nem um pouco original, mas, quando se trata dos Beatles, ou da ausência deles, esse deslize é facilmente perdoado.

Na realidade alternativa de "Yesterday", George Harrison, o mais novo dos Beatles, teria 76 anos e Ringo Starr, o mais velho, teria 79. Talvez eles até existam individualmente no filme, mas os Beatles nunca existiram, a não ser para Jack Malik, um cantor de boteco que desiste de sua carreira pouco antes de um apagão mundial, durante o qual ele é atropelado por um ônibus. Ao acordar em uma cama de hospital, ele descobre que, felizmente,  sua bicicleta ficou muito pior do que ele, apesar da falta de dois de seus dentes.

Depois de se recuperar, a primeira canção que ele toca a três de seus amigos é Yesterday, aproveitando para estrear o violão que sua "quase namorada" e empresária amadora lhe dá de presente. Todos ficam emocionados, mas nenhum deles conhece a canção.

Ao voltar para casa, Jack faz algumas pesquisas e descobre que os Beatles não existem nesse mundo (e nem o Oasis, por exemplo), embora os Stones existam. O filme também faz outras brincadeiras com coisas que teriam deixado de existir em um mundo sem os Beatles, algumas delas que muito provavelmente continuariam existindo e foram apenas um exagero dos roteiristas, mas das quais ninguém sentiria falta, como os cigarros, por exemplo.

Daí em diante o filme é uma espécie de montanha russa, na qual Jack se apropria das canções dos Beatles para alcançar sucesso em nível mundial e começa a se apavorar com isso. E, da mesma forma que o final de uma montanha russa é quase sempre previsível, o espectador também tem quase certeza de que os roteiristas usarão um final ao estilo “Deus ex machina” tão ao gosto de Hollywood: ou o personagem principal acordará e descobrirá que foi tudo um sonho ou então sofrerá outro acidente e tudo voltará ao normal, com ele e sua empresária mais amadurecidos e finalmente apaixonados. Felizmente nenhum desses finais é usado, o que fez os críticos do Rotten Tomatoes, por exemplo, concluírem que:

"Yesterday pode ficar aquém do esperado, mas o resultado final ainda é uma fantasia docemente encantadora com uma intrigante – embora um pouco subexplorada – premissa.”

Na minha opinião essa fantasia é tão doce que, ao menos durante a seção em que eu fui, era possível ouvir choros aqui e lá. Esses seres humanos são realmente muito estranhos.

E é isso que torna o filme imperdível.

Cuidado, spoiler abaixo!

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Um crítico mais duro poderia dizer que um filme que se encerra com o personagem principal e sua amada vivendo uma vida de Desmond e Molly, embora com ele provavelmente falido, não é nada mais do que uma comédia romântica. Mas um filme no qual o único dos Beatles a aparecer é um John Lennon aos 78 anos, vivendo uma pacata vida de artista plástico, é certamente imperdível!

domingo, novembro 04, 2018

A Águia pousou

Cuidado: "spoiler" abaixo.

Quando eu era criança meu pai tinha, dentre seus inúmeros livros, um pequeno, talvez de 150 páginas, encadernado em capa dura, que contava a história do programa espacial norte-americano e também uma parte do programa soviético.

O livro era maravilhosamente ilustrado e, depois de tanto percorrê-lo de um lado a outro, meus três heróis terráqueos passaram a ser Armstrong, Aldrin e Collins. É claro que Armstrong, tendo sido "o primeiro homem", era também meu principal herói. Eu me lembro que, quando eu tinha não mais do que 10 anos, em uma conversa qualquer com um coleguinha, eu perguntei se ele sabia quem era Armstrong e ele disse: "É um trompetista de jazz". Eu não disse nada, mas fiquei pensando: "que idiota, nem sabe quem é Armstrong".

Para uma criança não é necessário conhecer as dores e alegrias de um herói para passar a admirá-lo. Basta que ele seja capaz de fazer coisas que ninguém mais consegue fazer (mesmo que com o auxílio de outros milhares de pessoas, de alguns milhões de dólares e de outros detalhes). Mas é exatamente desnudar Neil Armstrong que pretende o filme "The First Man" (2018).

Neil, que ficou conhecido como um "herói relutante", é descrito no filme como uma pessoa fria e difícil, sem visão de marketing e capaz de responder perguntas da imprensa como "se o senhor pudesse levar algo para a Lua, o que seria?", com um curto "mais combustível". O filme dá a entender que essa aparente frieza de Neil foi necessária para que ele conseguisse pousar a Águia na Base da Tranquilidade. Será? Provavelmente não. Após a Apollo 11, mais cinco missões Apollo conseguiram pousar com sucesso na Lua, pilotadas por diferentes astronautas com várias personalidades. E, apesar de a Apollo 11 ter sido a mais perigosa, todas foram perigosas.

O filme gira bastante em torno da relação de Neil com sua esposa,  Janet Shearon. Juntos eles estão tentando superar a morte da filhinha Karen. Ao contrário de outros filmes, que mostram as esposas dos astronautas como heroínas, mas apenas do tipo que ficam em casa torcendo para que tudo dê certo, este mostra as angústias de Janet  mais de perto e como ela tenta de certa forma dissuadir Neil e mostrar que na verdade "nada está sob controle", ao contrário do que a equipe da NASA acredita.

Após o lançamento do Saturno 5 (e garanto que tudo fica muito mais emocionante em 4D), os efeitos especiais tomam conta do filme. O primeiro "passo na Lua" é mostrado em detalhes, assim como Neil pronunciando aquela frase que, como outras, ficou impressa no livro da humanidade. Contudo, para mim a frase do primeiro passo sempre pareceu ensaiada e mais humilde do que deveria ser. Talvez Neil não estivesse em condições de pensar em algo melhor, mas em vez de dizer "... um grande passo para a humanidade", muitos americanos certamente gostariam que ele tivesse dito: "aqui pra vocês, soviéticos!".

O grande ato de heroísmo de Neil não foi ao pisar na Lua e pronunciar uma frase que renderia batalhas judiciais depois. O grande ato foi pousar na Lua, quase sem combustível, após ter assumido o controle manual, ultrapassar o local inicialmente previsto e pousar em um local mais seguro. Assim, a frase que descreve melhor a missão Apollo 11 foi aquela dita por Neil após o pouso, quando todos já haviam recuperado o fôlego: "Houston, aqui Base da Tranquilidade. A Águia pousou".

Pouco antes do lançamento do filme um senador ficou sabendo que a cena da bandeira norte-americana sendo espetada em solo lunar não seria mostrada em detalhes. O diretor do filme, Damien Chazelle, disse então que a bandeira estava lá, mas que ele preferiu dar ênfase a outros aspectos. Ao ficar sabendo da controvérsia, Trump teria dito: "É quase como se eles estivessem envergonhados com essa realização dos Estados Unidos e eu acho que isso é uma coisa terrível. Quando você pensa em Neil Armstrong e quando pensa no pouso na Lua, pensa na bandeira americana. Por essa razão, eu nem quero assistir ao filme". Uma declaração racional e refletida de Trump, como muitas outras.

O filme não mostra o retorno à Terra, que foi mais perigoso do que a ida à Lua. Em vez disso, os astronautas aparecem já em terra, entrando em quarentena. Pouco depois Neil e Janet aparecem se acariciando através da janela de vidro da câmara de quarentena. Nenhuma palavra é dita, e talvez nem precisasse.