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quinta-feira, dezembro 06, 2007

Educação e corrupção

No início da semana foi divulgado o resultado do PISA (“Programme for International Student Assessment”, ou “Programa Internacional de Avaliação de Alunos”), exame aplicado em alunos com idade de 15 anos (ensino médio) de vários países. O Brasil foi reprovado mais uma vez em matemática e leitura.

Os resultados do PISA mostram que os alunos brasileiros obtiveram médias que os colocam na 53ª posição em matemática (entre 57 países) e na 48ª em leitura (entre 56). Os dados referem-se a 2006 e os exames são aplicados a cada três anos. Em 2003, o Brasil não conseguiu resultados muito melhores do que em 2006 [1].

O país latino-americano mais bem classificado foi o Chile. Entre Brasil e Chile, aparecem Uruguai e México. A classificação do Brasil é um pouquinho melhor do que a da Colômbia e um pouco melhor do que a da Argentina [2].

Sabendo dos notórios índices de corrupção dos países latino-americanos, e dos baixos índices de corrupção de alguns dos países mais bem classificados no PISA (como Finlândia, Nova Zelândia e Canadá), resolvi fazer uma comparação entre os resultados do PISA e o Índice de Percepção da Corrupção (“Corruption Perception Index”, CPI), divulgado pela organização Transparência Internacional [3]. Os resultados são mostrados na figura abaixo, onde apenas o índice PISA de habilidade de leitura foi incluído (clique sobre a figura para ampliá-la).


O CPI mede a percepção da existência da corrupção, não a corrupção em si, e é tanto maior quanto menor for essa percepção. É por isso que a Finlândia aparece com CPI igual a 9.4, enquanto Brasil e México aparecem com 3.5. Existem vários países com CPI inferior a 3.5, mas estes não foram incluídos no PISA. Exemplos são Mianmar e Somália, que empatam em 1.4.

O gráfico deixa evidente que existe uma correlação entre educação e corrupção. Não se trata de uma correlação fortíssima, até mesmo por causa do pequeno número de países analisados (46), mas a correlação é forte o suficiente para que se diga que, caso mais países fossem analisados, a curva continuaria crescente e para a direita.

Será essa correlação um indício de ligação causal entre nível educacional e prática da corrupção? Estudos mais aprofundados poderão esclarecer essa questão, mas a resposta pode ser apontada pelo mais puro bom senso.

[1] Folha Online, 5 dez. 2007. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u351481.shtml>.
[2] PISA 2006 results. Disponível em <http://www.pisa.oecd.org/dataoecd/15/13/39725224.pdf>.
[3] Transparency International, CPI 2006. Disponível em <http://www.transparency.org/news_room/in_focus/2006/cpi_2006__1>.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Deputados federais, lá e cá

Circula pela internet uma apresentação intitulada simplesmente “A quem interessar possa”, onde o autor faz uma comparação entre os rendimentos dos nossos deputados federais e os dos “deputados ingleses”. Longe de mim querer defender políticos de qualquer um dos lados do Atlântico, mas, como já recebi a referida apresentação três vezes, resolvi investigar a veracidade das afirmações.

O autor da apresentação alega que os “deputados ingleses”:

  • Não têm lugar certo e reservado onde sentar-se na Câmara dos Comuns.
  • Não têm escritórios, não têm secretários, nem automóveis.
  • Não têm residência paga pelo Parlamento.
  • Não têm passagem de avião gratuita, salvo quando a serviço do Parlamento.
  • Seus salários equiparam-se ao de um chefe de seção de qualquer repartição.

Uma investigação rápida mostra que não é bem assim. Em primeiro lugar, a rigor não existem "deputados" no Reino Unido. Existem os "Lords", que não são pagos e nem precisam, e os "Commons", que recebem salários anuais de 60 mil libras (aproximadamente R$ 240 mil). Os Commons, geralmente denominados MPs ("Members of Parliament"), assemelham-se mais aos nossos deputados federais.

Em segundo lugar, de acordo com informações disponibilizadas pelo Escritório de Informações da Câmara dos Comuns [1], os MPs podem solicitar as seguintes verbas adicionais anuais, dentre outras:

  • Gabinete (90 mil libras).
  • Despesas "incidentais" (21 mil libras).
  • Equipamento de informática (3 mil libras, mixaria).
  • Suplemento para não londrinos (2.800 libras).
  • Custos adicionais (23 mil libras).
  • Verba de comunicação (10 mil libras).

Uma outra invenção dos MPs é uma verba anual de 37 mil libras, paga quando de serviços prestados no lugar de membro aposentado, expulso ou falecido.

Vale lembrar que os MPs não têm mandato fixo e têm plano de pensão próprio. Eles permanecem no serviço até a dissolução do Parlamento, até a aposentadoria ou até a morte, o que acontecer antes.

Também é curioso que o autor da apresentação “A quem interessar possa” tenha escolhido justamente a Inglaterra para fazer a comparação, país cujos cidadãos concordam em manter uma monarquia anacrônica, cujo benefício é... qual mesmo?

Finalmente, é evidente que deputados federais e senadores devem ser remunerados de forma justa, pois prestam (ou deveriam prestar) serviços valiosos ao país. Deputados e senadores são representantes do povo e da nação, respectivamente, mas não precisam fazer voto de pobreza. O problema não é esse. O problema não são as verbas oficiais que saem do Parlamento ou do Congresso Nacional para o bolso de seus membros. O problema são as verbas “não oficiais”, as propinas, os recebimentos por serviços escusos e por negociações fraudulentas, a legislação em causa própria. É nesse aspecto que a Inglaterra e vários outros países estão muito à frente do Brasil. É esse aspecto que precisa ser atacado e revisado.

[1] Member’s pays, pensions and allowances. Revised April 2007. Disponível em: <http://www.parliament.uk/documents/upload/M05.pdf >.

sexta-feira, junho 15, 2007

Vamos relaxar!?

De acordo com estatísticas da Organização Mundial do Turismo, o Brasil, esse país enorme e abençoado com recursos naturais exuberantes, recebe anualmente cerca de metade dos turistas que recebe a Holanda, um país que tem pouco menos de 0,5% do nosso território e 8,8% da nossa população. Enquanto o Brasil recebe 4,8 milhões de turistas ao ano, a Holanda recebe 9,6 milhões (dados de 2004 [1][2]). E mesmo a Holanda não é páreo para a campeã mundial do turismo: a França, que abocanha anualmente 75 milhões de turistas. Como prêmio de consolação, cabe mencionar que a Argentina recebeu em 2004 aproximadamente 3,4 milhões de turistas, 30% menos do que nós, portanto.

À luz desse cenário, e considerando nossos problemas com violência, falta de infra-estrutura e uma moeda excessivamente valorizada, fato que torna o Brasil mais caro do que outros países latino-americanos, seria de esperar que o governo fizesse todo o possível para incentivar a vinda de turistas para cá. Mas agora, além de ficar em dúvida se deve visitar um país que frequentemente aparece mais nas páginas policiais do que em outras, o turista estrangeiro terá a certeza de que, ao enfrentar a crise nos aeroportos, será tratado com o desdém oficial e receberá a recomendação de “relaxar e gozar”.

Como todos os brasileiros sabem, a frase foi dita pela ministra Marta Suplicy, na última quarta-feira, 13 de junho, após o lançamento do Plano Nacional de Turismo. “Relaxe e goze porque você vai esquecer dos transtornos”, disse a ministra, usando uma péssima metáfora [3]. Pouco depois, a ministra divulgou uma nota onde se desculpava por ter usado os termos que usou, acrescentando que queria ter dito “viajar vale a pena”. Todavia, qualquer estudante de psicologia sabe que é impossível desfazer um ato falho. É o inconsciente falando e expressando um desejo ou idéia que o sujeito não gostaria de expressar conscientemente.

Infelizmente, não é possível relaxar frente às conseqüências econômicas da violência urbana e da nossa infra-estrutura deficiente. Nossa baixa visitação por turistas é apenas um reflexo disso. Não adianta fazer de conta que o problema não existe e, como o governo atual, dizer que parte da culpa é da imprensa, por não destacar os pontos positivos do país. Imprensa serve para isso mesmo: para alertar a sociedade sobre os problemas da nação, para apontar os erros do governo e da iniciativa privada, para propor soluções e sugerir correções de rumo, além de fazer o mea culpa quando necessário. Muitos brasileiros ficariam horrorizados, por exemplo, se pudessem entender o que a imprensa norte-americana diz, movida pelo verdadeiro espírito da liberdade de expressão. Nossa imprensa é até boazinha com os governantes, pois todos entendem que a democracia brasileira é jovem e precisa amadurecer. Neal Boortz, Rush Limbaugh e Bill O’Reilly, por outro lado, não serão nem de longe tão bonzinhos com o próximo presidente democrata que vier a ocupar o salão oval. De forma alguma eles irão relaxar.

[1] http://www.unwto.org/facts/eng/pdf/indicators/ITA_Americas.pdf
[2] http://www.unwto.org/facts/eng/pdf/indicators/ITA_europe.pdf
[3] http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL51536-5601,00.html

segunda-feira, outubro 09, 2006

Alckimn X Lula - Primeiro combate

O bloggeiro Ricardo Noblat comparou o primeiro debate entre Alckmin e Lula a uma luta de boxe e foi isso mesmo. Lula ficou a maior parte do tempo nas cordas, pois Alckmin já iniciou batendo, relembrando o custo da corrupção, de acordo com dados do Banco Mundial. Lula parece ter ficado tão assustado que se esqueceu de cumprimentar seus eleitores e o público presente. Coisa lamentável para um decano de campanhas presidenciais.

Quando Lula batia, parecia desajeitado, assassinando o português, cometendo erros pavorosos de concordância, lendo textos preparados por assessores despreparados, insistindo que o biodiesel é a solução para nossos problemas energéticos, repetindo que não sabia de nada, afirmando que cabe a ele o mérito de ter afastado os corruptos (quando se sabe que todos os escândalos foram levantados por Roberto Jefferson e pela imprensa).

Alckmin, por outro lado, perdeu umas boas oportunidades de jabs. Deixou de atacar quando o outro candidato lembrou que "essa quadrilha começou no governo anterior", esqueceu de dizer que o crescimento econômico do Brasil não foi o maior dos últimos 20 anos, como aventado por Lula, esqueceu de lembrar que a política econômica do governo do PT, a qual, segundo Lula, "salvou o país", é idêntica à do governo FHC. Talvez Alckmin queira descolar sua imagem da de FHC, mas ele poderia ao menos ter lembrado que o dólar só foi a R$4,00 em 2002 por causa do medo da eleição de Lula, e que muita coisa que aconteceu entre 2003 e 2006, aconteceu apesar do governo, não por causa dele.

No final, Lula se despediu, agradecendo aos "telespectadores da Rádio Bandeirantes". A Coréia do Norte parece ter gostado do debate, pois comemorou soltando bombas.

sábado, setembro 30, 2006

De quem você compraria um carro usado?


No livro "O Mundo Assombrado por Demônios", Carl Sagan argumenta que as pessoas tomam todo o cuidado do mundo para comprar um carro usado, mas não tomam o mesmo cuidado em relação a decisões mais importantes. Nesse espírito, antes de depositar seu voto amanhã é oportuno perguntar-se de qual dos candidatos abaixo você compraria um carro usado:

a) Geraldo Alckmin;
b) Cristovam Buarque;
c) Helóisa Helena;
d) Lula;
e) NDA.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Heloísa Helena e falácias lógicas

A entrevista da senadora Heloísa Helena ao Jornal Nacional, em 8/8, me deixou mais surpreso pela forma do que pelo conteúdo. Não tenho dúvidas de que ela é uma das candidatas mais simpáticas do momento atual, mas a impaciência apresentada não revela uma pessoa preparada para assumir a presidência da República. Cortar perguntas pelo meio e respondê-las começando com um "meu amor" me dá a idéia de uma pessoa que está mais preocupada em apresentar uma visão de mundo do que em construir a sociedade igualitária que ela tanto prega. A primeira tarefa pode ser realizada isoladamente, pois cada um pode ter a visão de mundo que bem entenda, por absurda que seja. Mas construir uma sociedade melhor do que atual exige compreender as necessidades dos outros e parece-me que Heloísa Helena está muito mais preocupada em adivinhar tais necessidades, adaptando-as à sua ideologia, do que em entendê-las.

Esses detalhes, contudo, poderão ser polidos por um marketeiro qualquer em todas as campanhas futuras da qual a senadora participará. O problema é o conteúdo da entrevista, já esperado. Os "ismos" (socialismo, marxismo, catolicismo, etc) escorrem da boca da senadora a cada palavra, assim como as falácias lógicas. Perguntada se invadiaria fazendas improdutivas, ela respondeu que não poderia fazê-lo, pois, como presidente da República, deverá seguir a lei. Um belo exemplo de non sequitur, uma falácia lógica que ocorre quando o argumento não decorre logicamente das premissas. Ora, o que o entrevistador desejava saber era se a senadora era favorável à invasão de terras, não se ela conhecia a lei, coisa que se espera de qualquer candidato minimamente preparado. Em outra oportunidade, Heloísa afirmou saber mais de reforma agrária do que a entrevistadora, esbarrando perigosamente em um imperdoável argumento de autoridade.

A distorção do conceito de "democracia" também ficou evidente, mas tal distorção é tão comum em nossos dias que quase não a percebemos. Democracia é simplesmente um sistema de governo no qual o povo tem o poder de decisão, ao contrário da monarquia absolutista, onde o monarca é detentor de tal poder, ou da ditadura, onde o poder de decisão é exercido por um tirano que tomou o governo a força. Decorre que os regimes democráticos são mais liberais e o povo pode se manisfestar livremente, dentro dos limites de leis escritas por ele mesmo, sem temor de represálias. Isso não significa, contudo, que regimes democráticos impliquem automaticamente em desenvolvimento econômico. Heloísa Helena cai nesse erro ao afirmar que a democracia não está consolidada no Brasil porque "48% de toda a riqueza produzida nacionalmente fica com 0,005% da população". As raízes de nossa péssima distribuição de renda estão muito mais relacionadas à nossa cultura patrimonialista e cartorial, além da nossa exuberante incapacidade administrativa, do que à consolidação imperfeita da democracia.

Outra confusão da senadora é o argumento de que o socialismo não pode ser criticado porque nunca existiu verdadeiramente em nenhuma parte do mundo. Essa afirmação não é original, muito menos verdadeira. O socialismo pode ser criticado em tese e de fato. Pode ser criticado em tese porque parte de hipóteses incorretas a respeito da natureza humana. Marx, por exemplo, relevou grandemente o papel do egoísmo humano. E o socialismo pode ser criticado de fato porque as dificuldades de implantação são tão grandes que a tarefa nunca foi levada a cabo. Muitos experimentos não precisam ser completamente realizados para que o fracasso se evidencie. Por exemplo, não precisamos percorrer uma estrada do início ao fim para percebermos que tomamos o caminho errado.

Finalmente, a senadora Heloísa Helena nos apresentou sua já célebre confusão entre socialismo e cristianismo, dizendo que "aprendeu socialismo na Bíblia". Ora, isso é o mesmo que tentar aprender mecânica quântica lendo Aristóteles! Embora alguns dos fundamentos do socialismo utópico sejam semelhantes aos do cristianismo primitivo, misturar ambos significa confundir política e religião, confusão da qual Jesus de Nazaré foi hábil em fugir. E, se eu tenho medo de um socialista ateu, tenho muito mais medo de um socialista cristão, que tem Deus a seu lado para justificar todos os seus atos. Destes, nunca se sabe o que esperar.

segunda-feira, junho 05, 2006

Heloísa Helena para presidente?

A revista Veja desta primeira semana de junho traz uma reportagem de duas páginas sobre Heloísa Helena, na qual a senadora aparece em uma fotografia inusitada: maquiada, com cabelos soltos e vestida com algo que não é uma camiseta. Anteriormente, visual semelhante havia ocupado as páginas da revista Cláudia. A ilustre senadora, agora candidata a presidente da República pelo PSOL, parece aproveitar a notoriedade ganha com a expulsão do PT e com a participação na CPI para mostrar que é gente comum, capaz de soltar os cabelos e deixar de lado a roupa de lavadeira. O problema é que já vimos esse filme antes.

Não tenho dúvida que a senadora Heloísa Helena é uma das pessoas mais íntegras desse país. Mas ela é também comunista de carterinha, daquelas capazes de misturar Marx com citações bíblicas descontextualizadas ("O camarada Jesus Cristo dizia: ou quente ou frio, o morno se vomita"). E uma pessoa capaz dessas misturas pode ter outros hábitos desagradáveis.

Não tenho dúvidas que a senadora Heloísa Helena é uma das pessoas mais combativas e favoráveis à moralidade na política. Mas ela é também raivosa e emocional demais. Ela mesmo confessa ser agressiva e intolerante em alguns momentos, como quando ameaça cortar o pescoço de quem fala mal dela.

Não tenho dúvidas que a senadora Heloísa Helena foi expulsa do PT por se opor às práticas de corrupção do partido. Mas ela é também contra a reforma da Previdência, a qual ela diz só interessar aos "gigolôs do FMI".

Com esse perfil, a eleição de Heloísa Helena para o Planalto é sonho (ou pesadelo?) impossível. Até o eleitor mais humilde sabe que não se pode receber dignitários internacionais de calça jeans e camiseta, mostrando a espada cada vez que alguém se pronuncia a favor do "capital".

Como Heloísa Helena, Lula já foi muito mais aguerrido e combativo. Pouco antes de ser preso em abril de 1980, Lula concedeu uma entrevista defendendo os direitos dos trabalhadores, afirmando que não tinha pretensões político-eleitorais e que não desejava se candidatar a nada. Após perder três eleições para presidente, teve de deixar de lado a imagem de sapo barbudo e, ao contrário do que afirmava naquela entrevista de 1980, teve que mudar.

Eu espero que Heloísa Helena não mude. Se mudar, corremos o risco de que ela seja eleita presidente, e daí a desgraça estará feita. De fato, o caminho para o Planalto está semeado de acordos que ela diz não poder fazer e de amigos que ela diz não poder vender. Se ela for eleita, algo terá mudado, indicando perigo. Além disso, depois que ela tiver declarado a moratória da dívida externa, rompido com os bancos e defenestrado as multinacionais, perceberemos que não terá sobrado muito mais do que isso e que, a exemplo da esquerda de todos os tempos e lugares, sobra vapor no discurso, mas falta conteúdo.

quinta-feira, maio 11, 2006

Crise boliviana e falácias lógicas

Não há dúvidas que a Bolívia é o país mais miserável de um dos continentes mais miseráveis do mundo. Não há dúvidas que o país foi espoliado durante séculos a ponto de, mesmo sendo dono de enormes reservas de gás natural e petróleo, não ter conseguido atingir um nível de desenvolvimento superior ao do Paraguai, outro país espoliado e massacrado, inclusive pelos brasileiros. Contudo, querer nacionalizar reservas de hidrocarbonetos e expropriar instalações de empresas estrangeiras com base no argumento da espoliação é um grande exagero.

É claro que ninguém espera que um líder camponês como Morales, que cresceu plantando coca, entenda de lógica. Mesmo que a educação formal de Morales seja enormemente superior à do presidente do maior país da América do Sul, não se pode supor que ele seja capaz de grandes proezas intelectuais, ou mesmo de pequenas. Ele está apenas se vingando de uma exploração iniciada com os espanhóis, apelando fartamente para uma falácia lógica conhecida como "apelo à emoção".

O apelo à emoção funciona tanto melhor quanto mais baixo for o nível educacional dos ouvintes. O amor à nação, por exemplo, pode ser uma emoção nobre, mas usá-lo para manipular a opinião pública é intelectualmente censurável, pois se evita pensar na trabalhosa pesquisa e apresentação dos fatos, cujo entendimento depende, ainda, dos interlocutores. Esse é precisamente o caso de Morales, que subiu ao poder empurrado por camponeses revoltosos.

O apelo à emoção constitui também em uma solução de curto prazo e deveria ser evitado por verdadeiros estadistas. Morales ganhou notoriedade internacional com a nacionalização dos hidrocarbonetos, mas, depois que a tempestade passar, a Bolívia continuará tão miserável quanto sempre foi. O gás é boliviano, por certo, mas se o preço for abusivo, as indústrias brasileiras comutarão suas as fontes energéticas ou simplesmente fecharão, e a Bolívia ficará com seu precioso gás, mas sem dinheiro.

Outro detalhe é que, por mais emocional, grandiloqüente e teatral que seja o posicionamento de Morales, nada que se faça poderá reverter a espoliação sofrida pela Bolívia. O passado já passou, os custos estão afundados e a Bolívia deveria olhar para frente, como todos nós.

Sem falar que, espoliados, todos fomos e todos somos. Onde estão as toneladas de ouro, prata e pau-brasil existentes em território brasileiro antes da chegada de Cabral? Onde estão as toneladas de minério que exportamos anualmente, a preços de commodities, sendo forçados a comprar tecnologia caríssima? Onde está nosso direito de exploração da Amazônia, no momento saqueada por empresas internacionais? Vamos fazer como a Bolívia ou vamos tentar resolver a situação de maneira racional?

Infelizmente, nessa crise da nacionalização dos hidrocarbonetos, choveram falácias também do lado brasileiro. Depois daquela reunião em Puerto Iguazu, de onde Lula saiu cabisbaixo, humilhado e tendo que concordar com as razões de Morales, a imprensa não tardou a comentar que a atitude do governo brasileiro foi tépida demais. O Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, comentou então que a o Brasil não usaria a "política do porrete", perdendo a chance de perceber que existem infinitas possibilidades entre a humilhação internacional e a invasão militar da Bolívia.

Míriam Leitão deve ter sido a primeira jornalista a perceber que o ministro caiu na famosa falácia da "falsa dicotomia", que ocorre sempre que as possibilidades de atuação são reduzidas a apenas duas ("ou você está comigo, ou está contra mim", por exemplo). O Brasil certamente não precisaria "baixar o porrete" na Bolívia, usando a terminologia elegante do ministro, mas também não precisava ter concordado com Morales, sem divulgar sequer uma nota afirmando a insatisfação do governo brasileiro em ter sido surpreendido pela invasão das instalações da Petrobrás na Bolívia. Afinal, o gás pode ser boliviano, mas a Petrobrás é nossa (pelo menos até que seja privatizada).

Lula, talvez se lembrando de seu tempo de sindicalista, quando paralisava empresas e causava prejuízos gigantescos, concordou que a Bolívia também tem direito de chutar esses imperialistas, esquecendo-se que o investimento da Petrobrás na Bolívia é do povo brasileiro, não do governo FHC. É claro que exigir lógica de Lula, que freqüentemente tem que recorrer a metáforas futebolísticas para ilustrar seus pontos de vista, já seria demais. O problema é que, enquanto Lula se aferra a sua ideologia ultrapassada, Morales percorre o mundo, dizendo que a Petrobrás é contrabandista, que atua ilegalmente na Bolívia e que o Brasil comprou o Acre, em 1900, dando um cavalo em troca.

A esperança é que Lula, que costuma comparar as relações internacionais a um jogo de truco, tenha alguma carta escondida na manga.

sábado, maio 06, 2006

O petróleo é nosso, mas o gás é boliviano!

Deve ser difícil ser um país mais pobre do que o Brasil. Se aqui já falta de tudo, de água a energia elétrica, de comida a saneamento básico, de hospitais a políticos honestos, em vários lugares a situação é ainda pior. E, medido pelo IDH, existem 114 países nessa condição.

Pior ainda deve ser viver no país que ocupa a 113ª posição no IDH. Esse país, habitado por uma população menor do que a da cidade de São Paulo, com renda per capita de míseros US$ 3.000, não fica em um lugar remoto da África ou da Ásia, mas faz fronteira com o Brasil e, até fins do ano passado, mantinha relações razoavelmente boas conosco, embora fôssemos ocasionalmente chamados de gringos imperialistas.

Agora a situação mudou bastante e esse país miserável, a Bolívia, nos chama o tempo todo de imperialistas e acaba de dar o maior tiro no pé que um país latino-americano já deu desde a revolução cubana.

A Bolívia, país conhecido nos meios internacionais pela amável expressão "asno sentado em uma mina de ouro", tem a segunda maior reserva de gás natural da América do Sul, perdendo apenas para a Venezuela, mas não tem mercado para o produto. Qualquer país razoável deveria se contentar, nessas condições, em vender o gás para os países vizinhos e ficar com o dinheiro. Por razões históricas, contudo, isso que o mundo inteiro conhece como "comércio", os bolivianos chamam de "exploração". Mesmo que fosse, os bolivianos parecem se esquecer da terceira lei de Newton das relações internacionais: "toda ação corresponde a uma reação em sentido oposto e com o dobro da intensidade".

Os próximos meses mostrarão à Bolívia que é mais fácil plantar coca do que fazer papel de rato que ruge. De fato, a história mostra que todo país que fechou sua economia teve que recuar cedo ou tarde.

Enquanto isso, vamos tocar nossos projetos de bioeletricidade, pois o gás não existe mais, ou ficará caro demais em futuro próximo.

terça-feira, novembro 01, 2005

Halloween, dia do saci e outras bobagens

Parece que tudo começou na cidade paulista de São Luís do Paraitinga, em 2003. Indignados com a crescente presença da cultura norte-americana entre as crianças, os vereadores da cidade instituíram o Dia do Saci, comemorado em 31 de outubro. Vereador serve para isso mesmo: para instituir leis de elevada importância para o bem-estar da população.

Pouco depois, Aldo Rebelo pegou carona no projeto. O ilustre deputado, que já propôs a criação de uma lei que proibiria a "importação" de palavras, sugeriu a criação de um dia nacional do saci, como alternativa à celebração do Halloween. A justificativa seria que o Halloween faz parte do plano dos americanos para dominação do mundo por meio da imposição cultural (que, nesse caso, nem é deles, mas emprestadas dos celtas). Assim, em vez da imposição da cultura norte-americana do Halloween, Rebelo oferece a imposição da cultura africana, que transformou o saci, inicialmente uma espécie de curumim de duas pernas, em um menininho negro que havia perdido uma das pernas lutando capoeira.

Mas talvez Rebelo esteja certo. Devemos nos livrar de uma vez por todas dessas influências estrangeiras que deturpam a alma nacional. Depois de instituído o dia do saci, sugiro também inventarmos um feriado nacional para colocar no lugar do Natal. Afinal, o Natal nada tem de brasileiro e é apenas uma invenção do cristianismo primitivo para abafar a celebração das saturnálias, festas pagãs em honra ao deus romano Saturno. As saturnálias começavam no dia 17 de dezembro e prosseguiam até o dia 25, dia do solstício de inverno na época (atualmente, dia 21). Além disso, os mitraístas, adeptos do mitraísmo, religião popular entre os soldados romanos, também celebravam em 25 de dezembro o renascimento do "deus sol invicto". Constantino, que tinha muito mais poder do que Aldo Rebelo, e que havia sido devoto de Mitras antes de sua conversão ao cristianismo, decidiu acabar com a bagunça, e instituiu 25 de dezembro como o dia do nascimento de Jesus de Nazaré. Um feriado sintético, assim como o dia do saci.

Também deveríamos acabar com o carnaval. Se os cristãos primitivos ficavam escandalizados com as saturnálias, o carnaval, que era aparentado destas festas, não lhes causava menor pavor. Alguns papas fizeram de tudo para acabar com o carnaval, que era um período de licenciosidade e afrouxamento da moralidade. Outros, contudo, eram patrocinadores da festa. Mesmo com o fim do império romano, quando o mundo ocidental ficou mais sério e mais chato, o carnaval continuou liberado aos cristãos, desde que estes cumprissem 40 dias de mortificação e abstinência depois de cair na farra, em uma espécie de compromisso entre o paganismo e a nova religião mais bem comportada.

É verdade que o carnaval é muito mais brasileiro do que o Natal, mas há pelo menos uma razão para que Rebelo acabe também com ele: há uma teoria segundo a qual o carnaval era celebrado no início da primavera, como forma de espantar maus espíritos, o que era feito por meio de procissões, com os participantes usando máscaras horripilantes e fazendo bastante barulho. Alguma semelhança com o Halloween?

Indo um pouco mais longe, podemos propor também a proibição da realização de festivais japoneses, como o Haru Matsuri, celebrado no início da primavera. Quem sabe isso não faz parte do plano de dominação do mundo pelos japoneses? É bom não arriscar, pois eles já tentaram isso antes!

O que os nacionalistas não percebem é que nada é tão puro quanto pensamos. Nós vivemos em uma terra que foi arrancada a força de outros povos, falamos uma língua que não é nossa e nos deliciamos com pratos que são mistura de tradições africanas, indígenas, árabes, italianas, portuguesas, etc. Ser brasileiro, se é que existe esse ser mitológico, é ser uma mistura de tudo o que existe. Propor uma festa para abafar a realização de outra é, assim, algo que vai contra o espírito nacional.

Trick or treat?

sexta-feira, junho 20, 2003

O PT e o fim da infância

O Papel e a Estrada
Depois de quase um semestre das eleições presidenciais de 2002, vemos que todo o pânico causado no mercado financeiro pela eleição de Lula era realmente infundado, como afirmava o próprio PT. A política econômica não mudou, não houve o “grande caos”, não houve moratória da dívida externa, a inflação não explodiu. De fato, até Fernando Henrique escreveu para reclamar de exageros na condução da economia que o governo DELE criou. Mas talvez não devêssemos ser tão rápidos no julgamento. Afinal, o PT está apenas vivenciando aquilo que todo partido político que já ocupou o poder conhece muito bem: um choque de realidade. Em campanha, todo candidato a presidente afirma que vai “viajar a 200 km/h nessa auto-estrada chamada Brasil”. Uma vez eleito, contudo, o candidato percebe que a estrada não é tão larga quanto parecia, que o tráfego em sentido contrário é maior do que o previsto, que o asfalto é esburacado demais e que nem todos estão dispostos a ajudar o governo a atingir a velocidade máxima. Durante a campanha, na “hora do papel”, é freqüente que os planejadores imaginem uma situação ideal, ou próxima do ideal. Mas na “hora da estrada” aparecem restrições de todos os tipos. Todos cometemos esse tipo de erro em algum ponto da vida, e ele já foi responsável pelo naufrágio de muitos sonhos dourados.

Um bom exemplo da confusão entre “papel e estrada” foi dado pelo próprio Lula várias vezes durante a campanha. Ao tentar responder como ele planejava elevar o valor do salário mínimo, ele freqüentemente comentava que “basta acabar com a corrupção e teremos dinheiro para duplicar o salário mínimo”. Muito bem, só que elevar o valor do salário mínimo é um problema concreto e muito bem definido. Já a corrupção é um problema sistêmico, governado por milhares de variáveis interdependentes e muito difícil de ser atacado. Na hora do papel, acabar com a corrupção parecia solução viável para levantar dinheiro. Na hora da estrada, é melhor adotar soluções mais práticas, como a reforma da previdência, a reforma tributária e outras.

O Piloto Sumiu!
A verdade é que o governo atual, assim como qualquer outro, tem pouco espaço de manobra em vários segmentos. Por exemplo, para tentar equilibrar o déficit público, o governo se compromete a manter um superávit primário de 4,45% do PIB, e usa as taxas de juros elevadas para tentar evitar a volta da inflação, ao mesmo tempo em que fica de olho em uma recessão iminente. Ao fazer isso, as comparações com a política fiscal do governo anterior são inevitáveis. Lula afirma que está apenas conduzindo a economia legada a um novo “espetáculo de crescimento”, mas não poderá usar essa desculpa durante muito tempo. O próprio espetáculo de crescimento parece cada vez mais remoto, especialmente depois de um primeiro semestre no qual a economia praticamente parou. Isso nos faz pensar que governo esteja apenas usando aquela receita perversa para deixar um cachorro feliz: bata, bata, bata, e volte a bater. Quando você parar de bater, o cachorro ficará feliz (*).

Outra questão que mostra as limitações de atuação do governo é a dívida externa. Quando estava na oposição, o PT se posicionava contra o pagamento da dívida, assinava manifestos e organizava plebicitos a favor da moratória. Uma vez no governo, a hipótese da moratória, sempre pronta a ser enunciada pelos radicais do PT, tornou-se impensável. Felizmente, o governo se deu conta de que precisa do apoio mundial na condução da economia, e talvez tenha se lembrado do estrago feito ao país durante o governo de José Sarney, estrago do qual ainda não nos recuperamos completamente. Assim, o futuro de Lula, que já não parece tão brilhante quanto parecia em janeiro de 2003, dependerá do que o Banco Central e o Comitê de Política Monetária puderem fazer para que o país volte a crescer. Foi assim com FHC e não poderia ser diferente com Lula, mesmo que possa parecer frustrante aos eleitores.

Parte dessa frustração decorre de um raciocínio presunçoso a respeito dos poderes da democracia. Nas democracias modernas, há claramente dois sistemas democráticos representativos em operação, e os eleitores fazem parte de apenas um deles. O primeiro deles é o sistema das urnas. A cada quatro anos, os partidos políticos se organizam, escolhem candidatos e os eleitores são convocados a votar em um deles. Ocorre que, do ponto de vista do eleitor, o processo de votação é irracional: ele deve se deslocar alguns quilômetros, passar algum tempo na fila e tomar uma decisão que, comparada à decisão de outros milhões de eleitores, é insignificante. Assim, os eleitores fazem um investimento emocional no processo eleitoral, como única maneira de dar relevância a ele. Em conseqüência, o processo eleitoral acaba não sendo tão racional quanto se pretendia.

Esse primeiro sistema representativo, o sistema eleitoral, opera em regime de “salvas”, ou seja, ele é acionado somente a cada quatro anos e os eleitores não interferem nele depois. Mas há um outro sistema representativo muito mais poderoso e eficiente, que opera em regime contínuo. Ele opera durante as eleições e depois delas, e interfere de maneira muito mais eficiente nos destinos de uma democracia. Trata-se do sistema de negociação de influências junto aos políticos e, a não ser em situações excepcionais, o cidadão comum está totalmente excluído dele. Esses negociadores, que podem ser lobistas profissionais, empresários, grupos econômicos, setores organizados da sociedade, etc, exercem pressão constante junto a ministros, senadores e deputados na tentativa de obter vantagens setoriais importantes. Em algumas situações, as atividades desse sistema de pressões servem para indicar ao governo, freqüentemente isolado, qual caminho seguir. Em outras situações, esse sistema pode causar danos a alguns setores,ou mesmo ao país, especialmente quando a pressão é feita por meio de corrupção. De qualquer forma, o eleitor comum, após depositar seu voto na urna, segue seu caminho, certo de ter tomado a decisão correta e largamente ignorante do grande jogo que é jogado pelos donos do poder.

As democracias atuais não são monarquias absolutistas, onde é fácil identificar quem está no controle. Em uma democracia ninguém está no controle, ou melhor, o sistema de pressões está no controle e isso vale tanto para o governo do PT quanto para qualquer outro. Cedo ou tarde Lula aprenderá aquilo que FHC já sabe há anos: a democracia cobra um preço muito elevado daqueles que a praticam, pois é impossível agradar a todos. Ao cidadão comum pode parecer surpreendente que o piloto tenha sumido e que ninguém esteja no comando do avião, mas, na verdade, a situação não é nova. Os chefes dos estados modernos atuam muito mais como atores, como representantes de uma dada situação, do que como verdadeiros comandantes da nação. A nação, essa entidade abstrata e quase medieval, comanda a si mesma, por mais assustador que isso possa parecer.

O Leão de La Fontaine
Após 20 anos de estrada, o PT finalmente chegou ao poder e a longa infância chegou ao fim. Contudo, o PT nunca teria conseguido acesso à Presidência da República com um discurso radical de sindicalistas raivosos, e teve que se reinventar. Em certo sentido, o PT não teve escolha: ou abrandava o discurso e tentava uma eleição séria, ou se contentava em continuar como oposição eterna. Da mesma forma que faz qualquer candidato a emprego, o PT teve que mudar e se adaptar aos tempos modernos.

Parte dessa mudança foi feita pela mera aplicação de várias camadas de maquiagem eleitoral. Em campanha, Lula chorou, apelou para a emoção (“a esperança vencerá o medo”), arquitetou a campanha “Fome Zero”, um requinte na união da de demagogia com ingenuidade logística e econômica. Passado o tempo do palanque, contudo, Lula já começa a mostrar suas limitações, afirmando que não precisa “falar inglês” para ser respeitado e que basta ter caráter, ética e um projeto concreto para que as coisas aconteçam. A maquiagem eleitoral começa a cair, como sempre cai.

Outra parte da mudança, muito mais perigosa, foi feita por meio de alianças com outros partidos. Alianças fazem parte do jogo político e são necessárias em qualquer eleição, seja no Brasil, nos EUA ou em qualquer outro lugar. Mas esse não era o estilo do PT, sempre radical e purista. De fato, muita gente apostou que o PT não seria capaz de adotar o caminho das alianças, e que acabaria perdendo novamente as eleições presidenciais. Feitas as alianças, ganha a eleição, o PT tem agora que satisfazer uma multiplicidade de interesses antagônicos, desde vice-presidentes que se colocam na posição de presidente do Copom, até radicais que se posicionam contra qualquer reforma proposta pelo governo.

Há um risco muito grande envolvido em qualquer processo de mudança. Esse risco não significa que se deva abandonar a tentativa de mudança, mas é freqüentemente ignorado por aqueles que estão apenas em busca de queijo. Jean de La Fontaine, em uma de suas fábulas, esclarece o perigo:

Um leão havia se apaixonado pela filha de um lenhador. A bela, convencida das sinceras intenções do leão, pediu-lhe que este fosse falar com o pai. Ao ouvir o leão pedindo pela mão de sua filha, o lenhador disse: “Não. Suas presas são muito grandes e afiadas”. O leão retirou-se, extraiu todas as suas presas e voltou ao lenhador, que disse: “Suas garras são muito perigosas”. O leão retirou-se, extraiu suas garras, e voltou a falar com o lenhador. Este, vendo que o leão não representava mais ameaça alguma, esmagou-lhe a cabeça.

É este o preço que o mundo cobra daqueles que perdem sua identidade durante o processo de mudança. Os próximos anos nos mostrarão se esse é o caso do PT.

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(*) Nenhum animal foi ferido durante a preparação desse artigo. O autor vive na companhia de quatro cachorros e é completamente avesso à violência contra os animais.