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domingo, abril 22, 2007

Newton C. A. da Costa, Cidadão Benemérito do Estado do Paraná

Foi realizada na última quarta-feira, 18 de abril, em Curitiba, a sessão solene de entrega do título de Cidadão Benemérito do Estado do Paraná ao professor Newton Carneiro Affonso da Costa [1].

Nascido em 1929, em Curitiba, Newton da Costa graduou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná, em 1952, e em Matemática pela mesma universidade, em 1955. Em 1961, concluiu seu doutorado em Matemática.

No Brasil, Newton da Costa lecionou em diversas instituições, como na Universidade Federal do Paraná, Universidade de São Paulo, na Universidade Estadual de Campinas, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, atualmente, no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.

No exterior, foi professor visitante, conferencista e pesquisador em várias como, por exemplo, Universidade de Paris, Louvain, Varsóvia, Califórnia (Berkeley e Los Angeles), Stanford, Nacional da Austrália, Bueno Aires, Católica do Chile e Nacional Autônoma do México, bem como nas Academias de Ciências da Polônia, da Bulgária e da União Soviética.

O reconhecimento internacional de Newton da Costa veio a partir de 1974, com a publicação do artigo "On the theory of inconsistent formal systems", que o lançou como um dos fundadores da lógica paraconsistente.

Ao longo de mais de 40 anos de carreira, Newton da Costa publicou mais de 250 trabalhos, entre livros, artigos e notas, escritos em português, inglês, francês e espanhol. Dentre os vários prêmios recebidos pelo professor da Costa, encontram-se: Prêmio Moinho Santista em Ciências Exatas, em 1994; Prêmio Jabuti em Ciências Exatas, em 1995; Medalha da Ordem do Pinheiro do Governo do Estado do Paraná, por mérito científico, em 1996; Medalha do Mérito Científico "Nicolau Copérnico", outorgado pela Universidade de Torun, na Polônia em 1998; Medalha do Mérito Científico da Universidade Federal do Paraná e da Associação dos Ex-Alunos em 1998; Título de Cidadão Emérito do Paraná, conferido pela Assembléia Legislativa do Estado do Paraná, também por mérito científico, em 1999 [2].

A concessão do título de Cidadão Benemérito do Estado do Paraná vem certamente coroar a carreira deste importante cientista brasileiro, embora não seja totalmente inesperada. Em seu discurso durante a solenidade, o professor da Costa salientou que “o Brasil só sairá do Terceiro Mundo se, entre outras coisas, desenvolver a educação e a pesquisa em todos os setores”, inclusive em setores de pesquisa pura, como a Matemática e Filosofia. Vamos esperar que o governo atual preste muita atenção em tais palavras.

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[1] ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO PARANÁ, 17 abr. 2007. Disponível: http://www.alep.pr.gov.br/arquivos/geral_noticias_conteudo.php?notoid=7427&grupo=4

[2] COSTA, N. C. A. Currículo Lattes. Disponível: <http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4787165A0>

sábado, agosto 12, 2006

Newton da Costa no "Café com Ciência"

O matemático e filósofo Newton da Costa esteve em Curitiba no último dia 9/8 para participar do projeto Cáfé com Ciência do SESC da Esquina. O título da palestra era para ser "23 problemas abertos da matemática" (os problemas de Hilbert), mas da Costa acabou falando sobre filosofia do conhecimento científico, pois achou o tema original árido demais para uma audiência diversificada. Foi melhor assim, pois nem mesmo haveria tempo suficiente para falar detalhadamente sobre os 23 problemas de Hilbert.

Newton Carneiro Affonso da Costa nasceu em Curitiba, em 1929, e graduou-se em engenharia civil e em matemática pela Universidade Federal do Paraná. Seu reconhecimento internacional veio a partir de 1974, com a publicação do artigo "On the theory of inconsistent formal systems", que o lançou como um dos fundadores da lógica paraconsistente.

A lógica clássica, lembremos, não admite contradições. Dadas duas proposições contraditórias, qualquer proposição do sistema pode ser deduzida e este se torna trivial. Newton da Costa mostrou que é possível construir sistemas formais onde podem existir contradições sem que o sistema se torne trivial. Segundo muitos, o surgimento da lógica paraconsistente e de outras lógicas não clássicas representa uma revolução comparável à das geometrias não euclidianas no século XIX. Outros trabalhos de da Costa relacionam-se ao conceito de "quase verdade", à axiomatização das teorias da física (sexto problema de Hilbert) e, mais recentemente, ao problema P=NP, que é um dos "problemas do milhão".

Na palestra da última quarta-feira, da Costa procurou conceituar o conhecimento científico, principiando por dizer que conhecimento é uma crença justificável e que não pode ser confundido com opinião. Contudo, as dimensões dedutiva e indutiva não são suficientes, pois a crítica é fundamental em ciência, devendo ser exercitada diariamente. Nenhuma verdade é definitiva e, se um determinado corpo de conhecimentos não se expõe à crítica, não pode ser considerado científico.

Em uma das perguntas ao final da palestra, fez-se menção ao critério da refutação (ou falseabilidade) de Popper, segundo o qual uma teoria só pode ser considerada científica se puder ser experimentalmente refutada. Nesse ponto, da Costa disse não concordar totalmente com Popper, pois, segundo ele, existiriam teorias não científicas que podem ser refutadas, e citou a astrologia. Imagino que da Costa seja otimista demais em relação aos astrólogos, por razões que passarei a discutir brevemente.

A teoria da relatividade geral foi publicada por Albert Einstein em 1915. Dentre outras coisas, essa teoria prevê que os raios de luz devem se curvar ao passar perto de um corpo pesado, e Einstein foi capaz de calcular o ângulo de deflexão. Se a previsão estivesse errada, todo o edifício teórico da relatividade geral desabaria, sem possibilidade de reparo. Em tal situação, seria até preferível continuar usando a gravitação newtoniana, que prevê uma deflexão menor, mas que é uma teoria muito mais simples. Contudo, em 1919 algumas expedições organizadas por Sir Arthur Eddington aproveitaram um eclipse solar para observar a deflexão da luz das estrelas ao passar perto do sol. Apesar da incerteza experimental, os resultados se mostraram mais de acordo com a relatividade geral do que com a gravitação newtoniana. A teoria einsteiniana sobreviveu a esse experimento crucial e a muitos outros desde então, mas isso não significa que venha sobreviver a todos os testes futuros. Como disse o próprio Einstein, em 1922:

"O cientista teórico não deve ser invejado, pois a Natureza, ou, mais precisamente, o experimento, é um juiz inexorável e não muito cordial de seu trabalho. Ele nunca diz "Sim" a uma teoria. Nos casos mais favoráveis, ele diz "Talvez" e, na grande maioria dos casos, simplesmente "Não". Se um experimento concorda com uma teoria, isto significa, para esta, "Talvez", e se não concorda, "Não". Provavelmente, toda teoria algum dia experimentará o seu "Não" - a maioria das teorias, logo após sua concepção." (H. DUKAS; B. HOFFMANN, Albert Einstein: o lado humano, 1979, p. 19).

As boas teorias da física não permitem remendos: uma vez que não concorde com o experimento, a teoria desaba irremediavelmente. O mesmo não acontece com a astrologia, que usa remendos em profusão. É nesse sentido, imagino, que a astrologia deve ser considerada irrefutável, pois a teoria sempre pode ser modificada de maneira a se ajustar aos fatos.

Newton da Costa é mais otimista e argumenta que a astrologia pode ser refutada por meio de experimentos cuidadosamente projetados. Os astrólogos, contudo, são incansáveis e muito imaginativos. Se inquiridos, muitos deles argumentarão que existem provas abundantes a favor da astrologia e lançarão mão de dados históricos mostrando correlações entre configurações celstes e acontecimentos terrestres. Outros dirão que a astrologia existe há milhares de anos, incorrendo em uma falácia clássica conhecida como "argumento da antigüidade" (se é antigo e ainda existe, deve estar correto). Finalmente, muitos deles, ao serem confrontados com falhas em previsões astrológicas, lembrarão do remendo astrológico definitivo e dirão que "os astros impelem, mas não compelem".

É claro que, se a astrologia pode ser refutada ou não, tudo depende do significado que se dê ao termo "refutar". Se por isso entendemos a elaboração de um conjunto de experimentos que mostrem à comunidade científica internacional que os princípios astrológicos não são válidos, então a astrologia pode ser refutada. Isso, de fato, já foi feito mais de uma vez. Por outro lado, se por "refutar a astrologia" entendemos "convencer os astrólogos, imagino que isso jamais acontecerá. Da experiência que tenho com astrólogos, eles jamais aceitarão qualquer prova. É claro que isso somente mostra que a astrologia é imune a críticas e, assim sendo, não é ciência. QED.

Newton da Costa também lembra que não é possível justificar logicamente todas as nossas crenças, pois sempre existe um conjunto de crenças primitivas assumidas anteriormente. A maioria das pessoas não se dá conta de tais crenças primitivas e as tem como embutidas no funcionamento do universo. A ciência é o único ramo do conhecimento humano que invoca a crítica constante como maneira de verificar a validade de qualquer crença, primitiva ou não. Nessa singela característica reside sua enorme importância.

O contato com cientistas como Newton da Costa é sempre estimulante. Na voz dele, até mesmo afirmações aparentemente triviais, como "algumas pessoas são mais inteligentes do que outras", se revestem de um significado especial. É fascinante que ele, em uma idade na qual muitos brasileiros já se aposentaram há muito, continue escrevendo e participando de congressos e eventos científicos. Que isso sirva de exemplo a todos nós.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Heloísa Helena e falácias lógicas

A entrevista da senadora Heloísa Helena ao Jornal Nacional, em 8/8, me deixou mais surpreso pela forma do que pelo conteúdo. Não tenho dúvidas de que ela é uma das candidatas mais simpáticas do momento atual, mas a impaciência apresentada não revela uma pessoa preparada para assumir a presidência da República. Cortar perguntas pelo meio e respondê-las começando com um "meu amor" me dá a idéia de uma pessoa que está mais preocupada em apresentar uma visão de mundo do que em construir a sociedade igualitária que ela tanto prega. A primeira tarefa pode ser realizada isoladamente, pois cada um pode ter a visão de mundo que bem entenda, por absurda que seja. Mas construir uma sociedade melhor do que atual exige compreender as necessidades dos outros e parece-me que Heloísa Helena está muito mais preocupada em adivinhar tais necessidades, adaptando-as à sua ideologia, do que em entendê-las.

Esses detalhes, contudo, poderão ser polidos por um marketeiro qualquer em todas as campanhas futuras da qual a senadora participará. O problema é o conteúdo da entrevista, já esperado. Os "ismos" (socialismo, marxismo, catolicismo, etc) escorrem da boca da senadora a cada palavra, assim como as falácias lógicas. Perguntada se invadiaria fazendas improdutivas, ela respondeu que não poderia fazê-lo, pois, como presidente da República, deverá seguir a lei. Um belo exemplo de non sequitur, uma falácia lógica que ocorre quando o argumento não decorre logicamente das premissas. Ora, o que o entrevistador desejava saber era se a senadora era favorável à invasão de terras, não se ela conhecia a lei, coisa que se espera de qualquer candidato minimamente preparado. Em outra oportunidade, Heloísa afirmou saber mais de reforma agrária do que a entrevistadora, esbarrando perigosamente em um imperdoável argumento de autoridade.

A distorção do conceito de "democracia" também ficou evidente, mas tal distorção é tão comum em nossos dias que quase não a percebemos. Democracia é simplesmente um sistema de governo no qual o povo tem o poder de decisão, ao contrário da monarquia absolutista, onde o monarca é detentor de tal poder, ou da ditadura, onde o poder de decisão é exercido por um tirano que tomou o governo a força. Decorre que os regimes democráticos são mais liberais e o povo pode se manisfestar livremente, dentro dos limites de leis escritas por ele mesmo, sem temor de represálias. Isso não significa, contudo, que regimes democráticos impliquem automaticamente em desenvolvimento econômico. Heloísa Helena cai nesse erro ao afirmar que a democracia não está consolidada no Brasil porque "48% de toda a riqueza produzida nacionalmente fica com 0,005% da população". As raízes de nossa péssima distribuição de renda estão muito mais relacionadas à nossa cultura patrimonialista e cartorial, além da nossa exuberante incapacidade administrativa, do que à consolidação imperfeita da democracia.

Outra confusão da senadora é o argumento de que o socialismo não pode ser criticado porque nunca existiu verdadeiramente em nenhuma parte do mundo. Essa afirmação não é original, muito menos verdadeira. O socialismo pode ser criticado em tese e de fato. Pode ser criticado em tese porque parte de hipóteses incorretas a respeito da natureza humana. Marx, por exemplo, relevou grandemente o papel do egoísmo humano. E o socialismo pode ser criticado de fato porque as dificuldades de implantação são tão grandes que a tarefa nunca foi levada a cabo. Muitos experimentos não precisam ser completamente realizados para que o fracasso se evidencie. Por exemplo, não precisamos percorrer uma estrada do início ao fim para percebermos que tomamos o caminho errado.

Finalmente, a senadora Heloísa Helena nos apresentou sua já célebre confusão entre socialismo e cristianismo, dizendo que "aprendeu socialismo na Bíblia". Ora, isso é o mesmo que tentar aprender mecânica quântica lendo Aristóteles! Embora alguns dos fundamentos do socialismo utópico sejam semelhantes aos do cristianismo primitivo, misturar ambos significa confundir política e religião, confusão da qual Jesus de Nazaré foi hábil em fugir. E, se eu tenho medo de um socialista ateu, tenho muito mais medo de um socialista cristão, que tem Deus a seu lado para justificar todos os seus atos. Destes, nunca se sabe o que esperar.