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quinta-feira, abril 10, 2008

O que querem os criacionistas?

Antigamente, lá pelos idos dos anos 20, os fundamentalistas cristãos, especialmente nos Estados Unidos, faziam oposição ferrenha à teoria da evolução, como sempre fizeram, mas não ofereciam uma teoria alternativa. Somente em 1929 o biólogo adventista Howard W. Clark propôs que a mera oposição não era suficiente e introduziu o termo “ciência do criacionismo”, que também ficou conhecida como “criacionismo científico”.

É claro que não basta anexar o adjetivo “científico” a uma disciplina para que esta se torne de fato científica, mas os criacionistas se aproveitam dessa confusão e usam o velho ditado “se nada como pato, voa como pato, grasna como pato, então só pode ser pato”. Da mesma forma, se você for um cientista profissional, falar como cientista, se comportar como cientista e usar termos científicos, então os desavisados tenderão a pensar que o assunto em discussão só pode ser científico.

É isso que acontece com o “design inteligente”, a mais nova dentre as cinco vertentes do criacionismo científico, surgida em 1989, com a publicação do livro “Of pandas and people”. Meu interesse pelo assunto (ou contra ele) foi renovado por causa do lançamento do documentário “Expelled: no intelligence allowed” (“Expulsos: nenhuma inteligência é permitida”), previsto para ocorrer no próximo dia 18. Em resumo, o filme, ao qual ainda não assisti e que é a mais nova frente de batalha dos criacionistas, afirma que os proponentes do design inteligente estão sendo perseguidos por causa de suas crenças de que existem indícios de “projeto inteligente” na natureza (daí o nome design, de vez em quando traduzido impropriamente como “desenho”).

Um dos principais conceitos da teoria do design inteligente é a “complexidade irredutível”. De acordo com Michael Behe, bioquímico norte-americano criador do conceito, um sistema é irredutivelmente complexo quando é formado por várias partes intercaladas e interdependentes, as quais contribuem para determinada função básica, e que param de funcionar quando ao menos uma das partes é removida.

Um exemplo citado por Behe é o de uma ratoeira: composta por várias partes interdependentes (mola, haste, lâmina, etc), a ratoeira não funciona se ao menos uma dessas partes for removida. Behe então prossegue afirmando que a natureza não seria capaz de criar sistemas irredutivelmente complexos, pois as várias partes interdependentes do sistema deveriam evoluir em conjunto, fenômeno que seria muito complicado e raro.

Exemplos biológicos de complexidade irredutível seriam o olho, o sistema imunológico e a cascata de coagulação sangüínea. A conclusão de Behe e de outros proponentes do design inteligente é que uma inteligência superior (não necessariamente Deus) seria a responsável pela criação da complexidade irredutível. Fora dos círculos criacionistas, todavia, nenhum cientista aceitou esse argumento e não há qualquer periódico científico “peer reviewed” que o defenda. Aliás, as idéias de Behe foram publicadas em um livro (“A caixa preta de Darwin”) e não em um periódico científico, como recomenda a boa prática.

Ao depor em um famoso julgamento de 2005 (Kitzmiller versus Escola Dover), Michael Behe afirmou que a ciência nunca seria capaz de encontrar uma resposta evolutiva para o sistema imunológico. Ele foi então apresentado a cinquenta e oito artigos de publicações “peer reviewed”, nove livros e vários capítulos de livros-texto versando sobre a evolução do sistema imunológico. A reação de Behe, claramente dogmática, foi afirmar que aquilo tudo ainda não era suficiente.

O caso Kitzmiller versus Escola Dover foi iniciado quando onze pais de alunos da escola Dover, na Pensilvânia, processaram os dirigentes por causa de uma declaração que deveria ser obrigatoriamente lida em sala cada vez que a teoria da evolução das espécies fosse ensinada. Essa declaração afirmava que a evolução das espécias era “apenas uma teoria” e oferecia o design inteligente, tal como exposto no livro Of pandas and people, como alternativa. O caso foi encerrado de maneira desfavorável aos proponentes do design inteligente, o qual foi considerado não científico e de origens claramente religiosas. Pela primeira vez na história dos EUA um tribunal de justiça considerava o design inteligente como uma forma de criacionismo e concluía que o ensino de ambos em escolas públicas norte-americanas era inconstitucional. O filme “Expelled: no intelligence allowed” cita esse caso como exemplo da “perseguição” sofrida pelos criacionistas.

É evidente que não se precisa recorrer a um tribunal para refutar o design inteligente, pois a maior fragilidade da teoria é evidente a qualquer um: deixar para Deus a responsabilidade da criação da complexidade irredutível. Alguns proponentes, tentando dar um caráter menos religioso à teoria, afirmam que não é necessário que o criador seja Deus, podendo ser também uma inteligência superior e incognoscível (um extraterrestre?). Mas daí vêm as inevitáveis perguntas: quem criou essa inteligência? Quem criou Deus?

Tais perguntas não podem ser respondidas de maneira científica e aos criacionistas resta o caminho da fé. Porém, se eles têm uma fé que lhes dá todas as respostas, por que precisam de uma teoria científica? E, se eles precisam de uma teoria científica para mostrar que Deus existe, por que precisam da fé? Finalmente, se os criacionistas não gostam da teoria da evolução, por que não criam uma teoria alternativa e verdadeiramente científica? Afinal, o que querem os criacionistas?

terça-feira, dezembro 18, 2007

O papa e os ateus

Em sua segunda encíclica, “Na esperança somos salvos” [1], Bento XVI dá mostras de continuar no ataque. Dessa vez, o culpado pelas desgraças do mundo é o ateísmo, que, segundo o papa, seria responsável pelas “maiores formas de crueldade e violação da justiça na história”. Bento XVI, que já causou algum desconforto por ter dito que a religião católica não foi imposta pela força no Novo Mundo, agora parece ter esquecido também da inquisição espanhola, só para citar um exemplo.

O papa tenta apresentar o ateísmo como uma espécie de “moralismo”. Segundo ele, ao constatarem que o mundo é injusto e cruel, os ateus não conseguem crer na existência de um Deus bondoso e ao mesmo tempo responsável por tudo isso. Consequentemente, a solução seria a negação da existência de Deus.

O problema com o argumento do papa é seu primarismo excessivo. Conheço vários ateus. Alguns deles realmente se encaixam nessa classificação de “ateu raivoso”, que, deparado com o mal no mundo, deixa de crer em Deus por estar com raiva dele. Contudo, o pensamento desse tipo de ateu também é primário e não deve ser tomado como exemplo.

A maioria dos ateus, arrisco dizer, chegou a esse posicionamento depois de um longo e tortuoso processo de reflexão, frequentemente pontilhado por leituras e discussões de temas religiosos, filosóficos e científicos. Segundo esses “ateus esclarecidos”, ou ateístas, como eles preferem, a negação da existência de Deus não deve ser feita por causa da existência do mal, mas simplesmente por causa da ausência de evidências.

O papa também afirma que um mundo que acredita ser capaz de estabelecer a justiça absoluta por si mesmo “é um mundo sem esperança”.

Essa história é velha. Em primeiro lugar, o conceito de “justiça absoluta” parece muito mais ligado à antiga Igreja Católica, que impunha sua vontade pelo fio da espada, do que ao conceito moderno, especialmente o conceito ocidental, de justiça. Tanto a justiça não é absoluta que mesmo o criminoso mais hediondo tem direito a um advogado. Não restam dúvidas de que a justiça de todos os lugares é imperfeita, mas que a justiça possa, ou deva, ser absoluta é um conceito arcaico e perigoso.

Em segundo lugar, a confusão entre esperança e existência de Deus, induzida pelo texto papal, é muito comum. Nada de novo aqui. De fato, as pessoas comuns costumam entender os ateus como gente que perdeu a esperança. Nada mais distante da verdade. O ateu pode ser visto como alguém que mantém a esperança na humanidade, apesar da constatação de que o mundo é cruel e hostil. Afinal, como costuma dizer Gore Vidal, “acreditar em Deus é fácil; difícil é acreditar no homem”.

Essa confusão também se reflete na surrada pergunta “você acredita em Deus?”. Antes de ser uma pergunta a respeito das verdadeiras crenças da pessoa, o que essa pergunta realmente quer dizer é: “você acredita em um Deus que possa mandá-lo para o inferno caso você faça algo de errado?”. Assim, quem faz essa pergunta está na verdade perguntando se a pessoa é confiável, ou se é capaz de qualquer coisa, por não crer na punição eterna. Todavia, a verdadeira moralidade e senso de justiça devem se revelar nas ações, não em uma mera declaração religiosa.

Ao comentar o ateísmo e a revolução marxista, o papa afirma também que o erro de Karl Marx foi o materialismo, que o fez esquecer do homem e da sua liberdade, além de acreditar que, se o problema da economia fosse solucionado, “tudo seria regulado”.

Na verdade, um dos grandes erros de Marx foi ter desprezado a força do egoísmo humano, fator cuja importância Adam Smith já havia reconhecido. Nesse aspecto, Marx e Bento XVI estão em pé de igualdade, pois tanto o socialismo marxista quanto o catolicismo querem transformar o homem em algo que ele jamais poderá ser. Outro erro de Marx foi ter se tornado militante da própria revolução, a qual, segundo ele, era inevitável (por causa das “contradições internas do capitalismo”) e, logo, prescindiria de militantes.

Mas é claro que a Igreja Católica não está interessada nas implicações econômicas do pensamento marxista. Se Marx tivesse sido apenas um economista, papa algum jamais o citaria em uma encíclica. Contudo, Marx foi também um historiador, um filósofo, um sociólogo, um político e o criador de um movimento capaz de mobilizar milhões, mesmo aqueles que nunca o conhecerem, que não leram seus textos ou que nem mesmo têm condições de fazê-lo. Alguma semelhança com uma religião?

Da mesma forma, a Igreja Católica jamais perdoará Marx por ter escrito, em 1844, o famoso trecho que começa pela parte mais conhecida, “A religião é o ópio do povo”, e finaliza com um chamado às armas: “É preciso combater a religião como felicidade ilusória das pessoas em nome da felicidade real”.

Marx pode ser criticado por ter acreditado demais nas forças do materialismo dialético, por ter desprezado o poder do aumento da produtividade, por ter usado de certo ilusionismo ao falar de conceitos econômicos simples (como a “mais valia”), por ter levado muito a sério a teoria do valor-trabalho, por ter proposto um sistema social impraticável, que resultaria na cassação da liberdade de milhões. Para a Igreja Católica, contudo, Marx é apenas um concorrente que deve ser combatido.

Apesar de tudo, não sou defensor do ateísmo, embora também não o condene. Não aprovo o “ateísmo radical”, que acaba se tornando apenas uma religião sem Deus, mas me sinto tão à vontade junto de ateus quanto junto de religiosos, embora os primeiros provavelmente se sintam mais à vontade junto de mim do que os segundos.

Para mim, o verdadeiro posicionamento frente ao mundo deve ser o do ceticismo. O exercício da dúvida é mais importante do que a imposição de certezas. Além disso, o cético, ao contrário dos ateus e religiosos, é o único tipo de pessoa capaz de rir de si mesma, rir da própria ignorância (ou chorar, conforme o caso), e também mudar de posição quando as evidências assim o exigirem, sem que isso signifique se tornar uma “metamorfose ambulante”.

[1] Bento XVI. Spe Salvi, 30 de novembro de 2007. Disponivel em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html>

quarta-feira, junho 06, 2007

Sobre a palestra de Eduardo Lütz: “Ciência, Fé, Evolucionismo e Criacionismo”

No último 1 de junho, o professor Eduardo Lütz esteve na UTFPR, em companhia de sua esposa Maria da Graça, a convite do sindicato dos professores, para proferir a palestra “Ciência, Fé, Evolucionismo e Criacionismo”.

Eduardo Lütz [1] é bacharel, mestre e doutor em física pela UFRGS, embora insista em deixar claro que ainda não defendeu sua tese de doutorado e, portanto, não pode envergar oficialmente este último título. Em física, as áreas de interesse dele são relatividade geral, teoria quântica dos campos, cosmologia e física nuclear. Em matemática, ele se interessa por geometria diferencial, geometrias riemannianas, álgebras e fundamentos. Atualmente, trabalha para a Hewlett-Packard em desenvolvimento de software.

Em uma palestra que durou pouco mais de uma hora, complementada por cerca de meia hora de palestra de Maria da Graça sobre “O Mundo do RNA e o Sonho do Biólogo Molecular”, Eduardo Lütz falou basicamente sobre filosofia da ciência, método cientifico, mitos sobre a matemática e teceu algumas considerações sobre o debate entre criacionismo e evolucionismo. Seguem-se alguns comentários sobre o evento.

Teorias Científicas e Modelos Matemáticos
A tese de Lütz é a de que uma teoria, para ser científica, deve ser dotada de uma estrutura algébrica. Em outras palavras, para ele uma teoria científica deve ser axiomatizável, assunto ligado aos trabalhos do matemático alemão David Hilbert (1862 – 1943).

Em 1900, Hilbert proferiu uma palestra histórica, na qual descreveu 23 problemas dos quais, segundo ele, os matemáticos do século XX iriam se ocupar. O sexto problema de Hilbert, em particular, é justamente o problema da axiomatização das teorias das ciências empíricas: “tratar do mesmo modo, por meio de axiomas, as ciências físicas nas quais a matemática tem importante papel: em primeiro lugar estão a teoria das probabilidades e a mecânica”.

As considerações de Hilbert motivaram o tratamento rigoroso das teorias físicas, do ponto de vista axiomático, a exemplo do que já se fazia e se faz corriqueiramente em matemática. Segundo SANT’ANNA, que escreveu um livro interessante e acessível sobre axiomas, “hoje já temos sistemas axiomáticos para as teorias da física, da biologia, da economia a até mesmo para as geociências” [2].

O tratamento matemático da biologia, contudo, traz problemas inerentes ao próprio objeto de estudo: a complexidade dos seres vivos. A física, a mais bem sucedida das ciências empíricas, não adquiriu esse status apenas por causa da genialidade de seus criadores, mas por estudar sistemas simples em comparação aos sistemas vivos. Exigir um modelo matemático detalhado da teoria da evolução significaria exigir o conhecimento do genoma de todas as espécies que vivem e já viveram, além de se saber como tais espécies se relacionam e se relacionavam, etc. Perto de tal tarefa, até mesmo a versão mais refinada da teoria das supercordas se torna trivial.

Todavia, pode-se obter resultados matemáticos interessantes quando se reduz o nível de complexidade de um modelo biológico. Um exemplo é representado pelas equações de Lotka-Volterra, também conhecidas como “modelo predador-presa”, que são duas equações diferenciais não lineares usadas para se descrever a dinâmica populacional de um sistema onde duas espécies (um predador e uma presa) interagem [3]. Essas equações têm sido estudadas em uma variedade de situações desde os anos 20, quando foram propostas independentemente por Alfred Lotka (1880 – 1949) e Vito Volterra (1860 – 1940). O modelo resultante pode ser estendido para incluir mutações, número de predadores e presas superior a um e pode exibir comportamento caótico, dependendo de alguns parâmetros.

Outro exemplo de “matematização” da teoria da evolução envolve a teoria dos jogos. Esse campo de estudo teve origem em 1973, com a publicação do artigo “The logic of animal conflict”, de John Maynard Smith (1920 – 2004) e George R. Price (1922 – 1975). Em 1982, Smith publicou o livro “Evolution and the theory of games”, onde o conceito de Estratégia Evolucionariamente Estável (ESS – Evolutionarily Stable Strategy) foi formalizado. A ESS é um refinamento do equilíbrio de Nash, onde se supõe que a única força em jogo é a seleção natural (no equilíbrio de Nash o comportamento racional pode entrar em ação).

Sendo assim, esforços para tratar matematicamente a teoria da evolução existem há muito tempo e não é totalmente correto dizer que tal teoria não tem estrutura algébrica. Talvez ela não tenha estrutura algébrica “formal”, mas exigir isso de uma teoria biológica significaria supor a biologia redutível à física e, finalmente, à matemática. Só que nenhuma área da ciência é científica da maneira como a física é científica!

Apesar disso, uma teoria que tenha estrutura algébrica formal não é necessariamente uma teoria correta. Exemplo disso ocorre com as teorias da gravitação. Em 1915, Albert Einstein criou a primeira teoria geométrica da gravitação, que considera o campo gravitacional como uma curvatura do espaço-tempo causada pela presença de matéria. Essa teoria, denominada relatividade geral, permite o cálculo correto da deflexão da luz por corpos pesados como o Sol, dá uma estimativa mais precisa para a precessão da órbita do planeta Mercúrio e prevê outros fenômenos gravitacionais de interesse aos especialistas, como o desvio gravitacional para o vermelho e o atraso do tempo em campos gravitacionais fortes, além de ser compatível com a gravitação newtoniana no limite de campos fracos. Tais assuntos já foram objeto de vários artigos e livros de divulgação científica, mas, fora do círculo dos especialistas, é pouco conhecido que existem dezenas de teorias gravitacionais alternativas à relatividade geral. Nada deixa esse fato mais claro do que o formalismo conhecido como PPN (Parametrized post-Newtonian), usado para comparar teorias clássicas da gravitação (ou seja, teorias “não quânticas”, como é o caso da relatividade geral). Existem mais de 20 teorias da gravitação que tiveram seus parâmetros PPN calculados (o número já foi maior, mas algumas teorias são descartadas de tempos em tempos). Todas são teorias matemáticas sérias e a própria existência dos parâmetros PPN mostra um elevado grau de formalismo matemático. Mesmo assim, apenas a relatividade geral passa em todos os testes experimentais [4].

Conclui-se, portanto, que o requisito de um modelo matemático pode ser visto até mesmo como necessário para que uma teoria seja científica, mas não se trata de um requisito suficiente.

Outro ponto interessante sobre modelos matemáticos é que ninguém sabe ao certo por que a matemática se aplica mesmo às teorias físicas mais elementares. A esse respeito, é difícil resistir à tentação de afirmar que a matemática é algo mais do que uma criação humana. O físico Roger Penrose, por exemplo, afirma categoricamente que “A noção de verdade matemática vai além do conceito de formalismo. Há alguma coisa de absoluto e “divino” na verdade matemática” [5]. Essa é uma visão platônica da matemática, termo usado porque o filósofo Platão acreditava que os conceitos matemáticos tinham uma existência etérea e atemporal, como se criados por Deus. Há, contudo, outras visões da matemática. Para o intuicionismo, surgido com os trabalhos do matemático holandês Luitzen Egbertus Jan Brouwer (1881– 1965), um conceito matemático não têm existência em si mesmo e deve ser pensado em termos das regras que determinam sua existência e comportamento. Essa visão pode ser rapidamente aceita por alguém que usa a matemática como instrumento, como um engenheiro ou um físico, mas tem causado muita discussão entre os matemáticos desde os tempos de Aristóteles, discípulo de Platão e a quem a visão intuicionista remonta. O intuicionismo, assim como outras escolas construtivistas, afirma que a matemática é uma invenção da mente humana, em oposição à visão platônica.

Se a matemática é uma invenção humana, podemos muito bem aventar a hipótese de que a matemática se aplica tão bem à física simplesmente porque os conceitos matemáticos foram inventados para que se aplicassem muito bem à física. O estranho é que ninguém poderia supor, como nos lembra o físico Eugene Wigner [6] (1902 – 1995), que os números complexos, inventados pelos matemáticos em bases puramente teóricas, fossem encontrar aplicação na mecânica quântica (e, em um nível bem menos essencial, na teoria de circuitos de corrente alternada e outras áreas da física). Há vários de tais exemplos, que nos dão a impressão de que a matemática foi criada por Deus, e que os números complexos habitavam o mundo das idéias desde o início dos tempos, esperando calmamente pela hora de entrar em cena. Entretanto, para cada invenção matemática que encontra aplicação em física, outras tantas não alcançam tal destino e passam a eternidade nas páginas dos livros de matemática pura.

Cientistas criacionistas
Em sua palestra, Eduardo Lütz citou quatro cientistas criacionistas, segundo ele: Newton, Maxwell, Hamilton e Einstein. A lista é na verdade muito maior, incluindo cientistas como Kepler, Pascal, Leibnitz, Davy, Faraday, Ramsay e outros. Contudo, é difícil incluir Einstein nessa lista. Em suas “Notas Autobiográficas”, esse cientista escreveu: “A leitura de livros científicos populares convenceu-me de que a maioria das histórias da Bíblia não podia ser real. A conseqüência foi uma orgia positivamente fanática de livre-pensamento, combinada com a impressão de que a juventude é decididamente enganada pelo Estado, com mentiras; foi uma descoberta esmagadora” [7].

Mesmo assim, especulações sobre a posição religiosa de Einstein sempre existiram. Ele mesmo parece ter aumentado a confusão, ao escrever: “Não consigo conceber um Deus pessoal que influa diretamente sobre as ações dos indivíduos, ou que julgue, diretamente, criaturas por Ele criadas. Não posso fazer isso, apesar do fato de que a causalidade mecanicista foi, até certo ponto, posta em dúvida pela ciência moderna” [8]. A julgar por essas palavras, não fica claro se ele não acreditava em um criador, ou se apenas acreditava em um criador que não julgava suas criaturas. Apesar disso, o consenso é que Einstein definitivamente não acreditava em um Deus judaico-cristão. Em vez disso, ele era muito mais um panteísta que acreditava em um deus presente na natureza e representado nela, mas não em um deus antropomórfico. De fato, em mais de uma vez ele se revelou favorável ao “Deus de Spinoza”, filósofo do século XVII, excomungado da comunidade judaica por suas crenças não convencionais.

Apesar de tudo isso, e como já insisti em outras ocasiões nesse blog, a crença de Einstein ou de quem quer que seja não é importante na tarefa de determinarmos a validade de uma afirmação. Ao lado de cientistas criacionistas, podemos listar um número enorme de cientistas ateus, agnósticos, não religiosos ou simplesmente não criacionistas, tais como Richard Feynman, Carl Sagan, Stephen Hawking, Newton da Costa, Marcelo Gleiser, Richard Dawkins e vários outros. A conclusão, como já sabemos, é que o número de adeptos não serve para validar crenças, afirmações ou teorias científicas.

No debate que se seguiu à palestra, Eduardo Lütz argumentou que entendia por “criacionista” apenas uma pessoa que acredita em Deus ou em uma força superior. Tal definição é claramente insuficiente, pois inclui na categoria de criacionistas todas aquelas pessoas que acreditam em um Deus não criador, como é o caso dos panteístas. Afinal, quem garante que Deus, caso exista, não surgiu juntamente com o universo?

Hamilton, Princípio Variacional e Criacionismo
Outro ponto realçado no debate diz respeito às contribuições dos criacionistas à ciência. Lütz citou o princípio variacional de Hamilton como exemplo.

William Rowan Hamilton (1805 – 1865) foi um matemático, físico e astrônomo irlandês que fez grandes contribuições à matemática à física. As equações de Hamilton, por exemplo, são de grande importância em física e o nome de Hamilton estará para sempre ligado à mecânica clássica e à mecânica quântica. Em 1834 e 1835, Hamilton publicou seus resultados da aplicação de um princípio variacional à equação L = T – V, onde T é a energia cinética e V é a energia potencial de um sistema, possibilitando a obtenção das equações do movimento. A função L é modernamente denominada “lagrangeano”, em homenagem ao matemático italiano Joseph-Louis Lagrange (1736 – 1813), criador do cálculo variacional.

Um princípio variacional serve para identificar quando uma função atinge um ponto extremo, que pode ser um máximo, um mínimo ou um ponto de sela. O princípio variacional de Hamilton, em particular, diz que o movimento de um sistema, de um instante t1 a um instante t2, é tal que a integral de linha de L entre esses instantes é estacionária para o caminho que corresponde ao movimento real”. Por “estacionária” entende-se que o valor da integral não varia para caminhos próximos ao caminho real. Um “sistema mecânico” pode ser uma partícula material, um conjunto de partículas ou corpos mais complexos, conhecidos como “corpos rígidos”.

Assim, dentre todas as possíveis trajetórias que o sistema mecânico pode seguir, a trajetória real corresponde precisamente ao caminho para o qual a integral de L.dt é estacionária. Todas as equações do movimento (i.e., as leis de Newton) decorrem desse princípio simples, que pode ser escrito como dI = 0, onde I é a integral de L.dt, frequentemente denominada “ação” (o símbolo usado pelo professor Lütz para a ação foi, se não me engano, l, mas uso aqui a simbologia clássica de Goldstein [9]). Qualquer estudante de mecânica já ficou fascinado, no mínimo intrigado, por esse aspecto de elegante simplicidade do princípio de Hamilton, também conhecido como princípio da ação mínima. É realmente fascinante que toda a mecânica clássica possa surgir de uma equação tão simples. Contudo, dizer que o princípio de Hamilton é uma “descoberta criacionista” é um pouco exagerado.

Em primeiro lugar, é um tanto arriscado dizer que o princípio de Hamilton é um sinal de comportamento ótimo do universo. Falamos em “otimização” em várias situações na engenharia. Por exemplo, é impossível construir uma máquina elétrica (ou qualquer outra máquina) sem que esta apresente perdas, mas podemos minimizar tais perdas, levando em conta alguns detalhes do funcionamento e o custo final desejado. Por um lado, poderíamos super-dimensionar uma máquina, de maneira que as perdas fossem desprezíveis frente à potencia nominal. Entretanto, essa máquina seria tão cara que ninguém a compraria. De outro lado, poderíamos projetar uma máquina de maneira mais displicente, que custaria muito menos do que as versões disponíveis no mercado. Contudo, todo o dinheiro economizado na aquisição seria gasto posteriormente em energia elétrica, por causa das perdas elevadas. Assim, ao menos nesse caso, “a virtude está no meio” e é possível construir uma máquina que, do ponto de vista da tecnologia atual, não seja nem muito cara e nem tenha perdas excessivas: uma máquina ótima.

O mesmo não ocorre no caso do universo, pois não podemos fazer experiências com universos diferentes. Assim, não sabemos se o princípio de Hamilton é um princípio de otimização empregado pelo Criador ou se é apenas uma característica do universo. No momento não há resposta para essa questão, pois a ciência atual apenas descreve o funcionamento do universo, não o explica. A resposta deve ser buscada na filosofia ou na religião e, nessas áreas, não há como ter certeza das respostas.

A segunda razão pela qual não me parece adequado denominar o princípio de Hamilton de “descoberta criacionista” é que o criacionismo é uma invenção bastante recente. Embora os cientistas e filósofos da época de Hamilton fossem todos religiosos, o criacionismo somente surgiu quando as observações empíricas das ciências naturais começaram a entrar em conflito com a tradição judaico-cristã. O próprio termo “criacionismo” não era comum antes do final do século XIX. Alem disso, não me parece adequado argumentar que a descoberta (ou “invenção”?) do princípio variacional esteja necessariamente ligada à religiosidade de Hamilton. Talvez fosse igualmente adequado denominá-la “descoberta irlandesa”.

Teoria da Evolução e Evolucionismo
Durante toda a palestra e durante a discussão que se seguiu, a palavra “evolucionismo” foi usada extensivamente como sinônimo de uma teoria que explica o surgimento da vida na Terra. Há dois erros aqui. Primeiro, a teoria da evolução não é um “ismo”. Não se trata de uma ideologia à qual se adere por meio da fé ou de algum tipo de conversão. Até mesmos alguns biólogos usam tal termo, talvez por economia de linguagem, mas ele não é adequado. Não existe “evolucionismo” da mesma forma que não existe “newtonismo”, “einsteinismo” ou “relativismo”. O segundo erro é que a teoria da evolução não tem nada a dizer sobre a origem da vida na Terra.

Embora esse segundo erro seja comum, a evolução biológica é apenas a mudança dos traços hereditários de uma população de uma geração para outra, produzida por mutações genéticas e orientada pela seleção natural. A evolução biológica é um fato. Há tantas evidências a esse respeito que negá-lo seria o mesmo que negar que as maçãs caem quando soltas a um metro do chão. A evolução histórica dos seres vivos, que decorre da evolução biológica, significa que todos os seres vivos sobre a Terra descendem de um ancestral comum. Embora tal afirmação ofenda a religião de muitas pessoas, que por alguma razão ficam indignadas ao saber que homens, chimpanzés e gorilas descendem de um mesmo ancestral, também há tantas evidências a esse respeito que a evolução histórica é considerada um fato. Não há nem mesmo explicação científica alternativa, da mesma forma que não há explicação alternativa para o fato de uma maçã cair (é a gravidade, e ponto; se iremos usar a mecânica newtoniana, a relatividade geral ou outra teoria para fazer os cálculos, é outra história!).

Entretanto, dizer algo sobre a evolução biológica (que se manifesta no decorrer de poucas gerações de moscas da fruta, por exemplo), ou sobre a evolução histórica (que se manifesta ao longo de milhões de anos) não significa dizer como a vida surgiu na Terra.

Eu citei tal diferença durante a seção de perguntas após a palestra. O professor Lütz então concordou que o termo “evolucionismo” havia sido mal empregado, mas, pelas razões comentadas anteriormente, discordou que a evolução fosse realmente uma teoria científica: a ausência de uma estrutura algébrica formal.

Geração Espontânea, Abiogênese e a Navalha de Occam
Da mesma forma que ocorreu com o termo “evolucionismo”, o termo “geração espontânea” foi empregado durante a palestra com o significado de “surgimento da vida a partir de matéria inanimada”. É fácil atacar a geração espontânea, pois qualquer aluno do ensino médio sabe que tal teoria foi desmentida por Louis Pasteur (1822 – 1895) por meio de uma série de experimentos realizados em 1862 (três anos depois da publicação do livro “A origem das espécies por meio da seleção natural”, de Charles Darwin - note também que o próprio título do livro de Darwin menciona “origem das espécies”, não “origem da vida”). Contudo, a hipótese da origem não biológica da vida não significa que tal origem tenha sido “espontânea”. É mais correto falar em “abiogênese” (do grego a-bio-genesis, ou “origem não biológica”).

No momento, não podemos dizer com certeza que a vida surgiu na Terra há pouco menos de 4 bilhões de anos, no meio de uma sopa ou barro pré-biótico, como resultado de reações químicas entre macromoléculas orgânicas. Trata-se apenas da hipótese mais provável, mas ainda não há provas suficientes. O que podemos dizer com certeza é que, se tal processo ocorreu, ele não teve nada de espontâneo. Ele ocorreu por causa da afinidade química entre certas moléculas, decorrente das leis físicas que governam o comportamento microscópico da matéria, e também da presença de fontes de energia na Terra primitiva (descargas atmosféricas e o calor do Sol), bem como de uma versão primordial da seleção natural: as moléculas orgânicas que não sucumbiram à degeneração espontânea após a formação tiveram mais tempo para se reproduzir e aumentar a população.

Outra hipótese para a origem da vida na Terra é a panspermia: a hipótese de que a vida foi trazida de outros lugares no universo, por meio de asteróides que aqui caíram ou sob a forma de esporos interestelares. O argumento mais óbvio contra a panspermia é o de que tal hipótese apenas transforma a tarefa de se explicar a origem da vida na Terra na tarefa muito mais complexa de se explicar a origem da vida em outro lugar do universo.

Finalmente, temos a hipótese do criacionismo: a vida na Terra surgiu por obra de um criador ou planejador inteligente. Na versão mais forte da hipótese criacionista, Deus cria e mantém toda a vida na Terra, sem se importar com seleção natural, mutações ou extinção de espécies. Na versão mais fraca, Deus apenas cria as primeiras bactérias e deixa o resto por conta das leis da física (criadas também por ele, presumivelmente). Podemos imaginar também uma “versão fraquíssima”, onde Deus interfere somente o bastante para assegurar que as primeiras moléculas de RNA, formadas por abiogênese, sobrevivam o tempo suficiente para dar origem ao mundo de DNA e proteínas atual. Nenhuma dessas três versões, contudo, é muito bem aceita pela comunidade científica, por duas singelas razões: (a) é difícil imaginar hipótese mais simples do que a da abiogênese; (b) a hipótese da existência de um ser dotado de super-poderes é complicada demais.

Em ciência, quando tudo o mais está confuso, é costume usar-se um princípio de seleção de hipóteses conhecido como “navalha de Occam”. Não se trata de um princípio científico, mas sim filosófico e, embora seja comum no meio científico, foi criado pelo monge franciscano Guilherme de Occam (1288 – 1348) com a finalidade de explicar a existência de Deus. A navalha de Occam nos diz que, quando duas ou mais teorias concorrem, devemos escolher aquela que considera o menor número de hipóteses. Por tal razão, esse princípio é frequentemente conhecido como “princípio da economia de hipóteses”.

Como ocorre com toda navalha, a de Occam deve ser usada com bastante cuidado, pois, tratando-se de um princípio estético, boa parte do critério depende dos preconceitos do selecionador e de conceitos subjetivos. No caso do problema da origem da vida, a navalha de Occam nos diz que a hipótese da abiogênese é mais simples do que a hipótese da origem divina, pois contém menos pressupostos básicos e pode ser comprovada empiricamente, ao menos em princípio. Logo, devemos exaurir a hipótese da abiogênese antes de recorrermos ao salto de fé necessário à hipótese divina. Tal conclusão certamente teria surpreendido o próprio Occam, mas não é de hoje que sabemos que as criaturas frequentemente se voltam contra seus criadores.

Considerações finais sobre a palestra e o debate
Não tenho certeza se muita gente entendeu a palestra do professor Lütz em toda sua extensão. Durante quase toda a exposição ele falou sobre física e matemática, não sobre criação e evolução. Na tela apareceram expressões matemáticas como o princípio de Hamilton e a equação de Dirac, as quais estão muito além do domínio dos alunos normais dos cursos de Tecnologia e Engenharia que compunham a platéia. Além disso, somente com muita dificuldade tais conceitos podem ser relacionados aos problemas da origem da vida ou da evolução das espécies.

A exposição da professora Maria da Graça, interessante por si mesma, serviu apenas como pretexto para o argumento da improbabilidade do surgimento abiótico da vida (infelizmente referido como “geração espontânea”).

O debate que se seguiu às palestras deixou claro que o público que lotava o mini-auditório da UTFPR estava mais interessado nos aspectos religiosos do tema. É de certa forma decepcionante ver uma exposição razoavelmente científica ser seguida de referências a Hebreus, Salmos e, obviamente, Gênesis. Apesar disso, o professor Lütz manteve os pés no chão em relação a muitos assuntos. Ele não cometeu os erros tradicionais dos criacionistas sobre as leis da termodinâmica e afirmou que a hipótese da “Terra jovem” é uma bobagem sem fundamento científico. Ele também entende que a evolução por seleção natural realmente ocorre e tem argumentos apenas contra a hipótese da abiogênese. Ainda assim, não considero que a insistência dele em descaracterizar a teoria da evolução como teoria científica, com base na ausência de estrutura algébrica da mesma, seja realmente relevante. Também me preocupa o já mencionado descuido terminológico, que coloca teoria da evolução, abiogênese e geração espontânea no mesmo pacote. Talvez fosse interessante alguém organizar uma palestra com o objetivo de esclarecer tais conceitos.

[1] Eduardo Lütz Page. Disponível em: <http://edlutz.totalh.com/>.
[2] SANT’ANNA, A. O que é um axioma. Manole, 2003, p. 10.
[3] WEISSTEIN, E. W. "Lotka-Volterra Equations." From MathWorld--A Wolfram Web Resource. Disponível em: <http://mathworld.wolfram.com/Lotka-VolterraEquations.html>.
[4] WILL, C.M. The confrontation between general relativity and experiment. Living Rev. Relativity, 2006, v.6. Disponível em: <http://relativity.livingreviews.org/Articles/lrr-2006-3>. [5] PENROSE, R. A mente nova do rei. Ed. Campus, 1991, p. 124.
[6] WIGNER, E. The unreasonable effectiveness of mathematics in the natural sciences. 1960. Disponível em: < http://www.dartmouth.edu/~matc/MathDrama/reading/Wigner.html>
[7] EINSTEIN, A. Notas autobiográficas. Nova Fronteira, 3ed, 1982, p.14.
[8] DUKAS, H., HOFFMANN, B. (org). Albert Einstein, o lado humano. Ed. Universidade de Brasília, 1979, p. 53.
[9] GOLDSTEIN, H. Classical Mechanics. Addison-Wesley, 2ed, 1981, p. 36.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Os milagres de frei Galvão

Poucas coisas são mais estranhas do que o costume católico de transformar mortos ilustres em santos. Um santo, lembremos, é simplesmente uma pessoa que se supõe ter ido para o “céu”, onde estabeleceu uma relação muito próxima com Deus, vindo a trabalhar como seu intermediário para as causas humanas. O fato de um ser onipotente, onisciente e onipresente precisar de um intermediário é um dos grandes mistérios não esclarecidos pelo catolicismo. Mesmo assim, no momento, existem mais de 10 mil santos na Igreja Católica Apostólica Romana, número que aumenta em muito se incluirmos os santos da Igreja Ortodoxa. Isso certamente transforma o catolicismo em uma das maiores religiões politeístas do mundo.

Na antiguidade, a maneira mais fácil de se tornar santo era morrendo pela causa religiosa. Em uma época de grandes conflitos entre as religiões pagãs e a nova fé, era sempre fácil encontrar gente disposta a ser martirizada. Hoje em dia a disponibilidade de mártires em potencial diminuiu bastante, pelo menos entre os católicos, e a igreja tem que recorrer a outro expediente para provar a santidade de quem quer que seja: os milagres.

Infelizmente, para nosso desalento, os alegados milagres nunca são algo como ressuscitar os mortos ou fazer crescer um cérebro em um bebê anencéfalo. No caso de Frei Galvão, que provavelmente se tornará o primeiro santo genuinamente brasileiro, os milagres são prosaicos ao extremo.

O milagre aprovado para a canonização de Frei Galvão ocorreu na gravidez de alto risco da paulistana Sandra Grossi de Almeida, que tinha um problema de má formação do útero, conhecido como “útero bicorno”. Isso resultava em grande dificuldade para engravidar e fez com que ela sofresse três abortos espontâneos no passado. Na quarta tentativa, em 1999, os médicos não acreditavam que a gestação pudesse chegar ao fim e consideravam muito difícil ultrapassar a 28ª semana.

Muito religiosa, Sandra sempre tomava as “pílulas de Frei Galvão” e rezava com toda a família. Apesar do prognóstico médico de provável aborto tardio, ou de que ela atingisse no máximo o 5° mês, a gestação evoluiu normalmente até a 32ª semana. Sandra fez repouso absoluto de junho a novembro de 1999 e o parto cesariano foi realizado no dia 11 de dezembro, depois da ruptura da bolsa. Não houve complicações e o menino, batizado como Enzo, é saudável e ativo.

Pessoalmente, fico feliz que uma mulher tão disposta a ser mãe consiga realizar o seu sonho. Que o nascimento do menino tenha se dado por razões sobrenaturais, por outro lado, é outra história. Como um pouco de ceticismo nunca é demais, cabe a seguinte pergunta: qual a probabilidade de uma mãe portadora de útero bicorno dar à luz uma criança saudável?

Ao fazer essa pergunta na lista de discussão CienciaList [1], um colega me enviou um link para um abstract de artigo sobre o assunto [2], no qual médicos da Universidade Católica do Sagrado Coração, em Roma, relatam as investigações realizadas em 21 pacientes portadoras de úteros bicornos. Segundo o abstract, a probabilidade de uma mulher com útero bicorno dar à luz uma criança viva, sem cirurgia de correção prévia, é de 30% no pior caso. Trata-se de uma probabilidade elevadíssima e, de fato, uma pesquisa rápida na internet mostra que a freqüência do nascimento de filhos saudáveis de mães portadoras de úteros bicornos é bastante grande.

Imagino que os especialistas do Vaticano, que fica bem perto da Universidade do Sagrado Coração, tenham examinado esse artigo ao avaliar o milagre atribuído a Frei Galvão. Imagino também que eles tenham concluído que, na situação específica da brasileira Sandra, a probabilidade de sucesso era reduzidíssima, sendo um milagre a melhor explicação do ponto de vista católico. Contudo, probabilidade reduzidíssima não significa probabilidade nula, e entramos em um terreno científico fascinante, cheio de conexões com nossa vida diária: o terreno das probabilidades de eventos improváveis.

Os seres humanos, vivendo vidas tão curtas, dificilmente conseguem entender intuitivamente um evento que ocorre com probabilidade de uma em um milhão, de uma em dez milhões, de uma em um bilhão. No entanto, tais eventos ocorrem o tempo todo. Basta ver o caso da Mega Sena brasileira. Um cálculo combinatório elementar mostra que a probabilidade de alguém acertar os seis números da Mega Sena é de uma em mais de 50 milhões. E, no entanto, desde que o prêmio foi criado, em 1996, mais de 230 ganhadores já foram contemplados com a Mega Sena. Existem duas justificativas para isso. A primeira é que o número de apostas é muito elevado, o que significa que, embora a probabilidade de sucesso individual seja baixa, a probabilidade de alguém ganhar, independente de quem, é maior. A segunda justificativa é que não é necessário que alguém repita uma aposta 50 milhões de vezes para obter sucesso. De fato, a história das loterias e dos jogos de azar mostra que o sucesso pode ser obtido na primeira tentativa, com uma única aposta, a despeito das baixas probabilidades. É isso que se chama “sorte de principiante”.

A nossa compreensão deficiente dos eventos de baixa probabilidade faz com que encaremos o universo de maneira mágica e atribuamos aos deuses aquilo que é apenas coincidência. Mas o fato é que uma probabilidade de uma em um trilhão ainda está infinitamente distante de uma probabilidade nula. E, se um evento é possível, ainda que altamente improvável, em algum ponto da história desse vasto e antiqüíssimo universo, ele poderá ter ocorrido. Interferência divina ou mera coincidência?

Assim, com todo respeito às pessoas que se julgam abençoadas por Frei Galvão ou por um dos milhares de santos e beatos católicos, um milagre é apenas um evento de baixa probabilidade que nossa limitada compreensão tende a atribuir a uma conspiração do universo. Ou então se trata simplesmente de uma história contada de maneira excessivamente otimista.

Apesar de tudo, minha opinião pessoal é que um santo brasileiro não melhorará a vida de nosso combalido e valoroso povo. A pergunta que importa não é quantos santos ou quantos beatos o Brasil ainda terá, mas sim: quando teremos nosso primeiro prêmio Nobel? (Obs.: não vale Nobel da Paz).

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[1] A CienciaList é uma das melhores listas brasileiras de discussões sobre assuntos científicos. A página da lista é http://br.groups.yahoo.com/group/ciencialist/ .

[2] MANESCHI, F. et al. Reproductive performance in women with bicornuate uterus. Acta Eur Fértil. v. 24, n. 3, p. 117-120, mai-jun 1993. Disponível em http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?cmd=Retrieve&db=pubmed&list_uids=7985453&dopt=Citation .






segunda-feira, dezembro 04, 2006

Deus e Richard Dawkins

É divertido imaginar como seria um universo no qual o céu e o inferno realmente existissem. No céu certamente encontraríamos Madre Teresa de Calcutá, alguns santos católicos (mas não todos) e, talvez, um ou dois papas, além de James Clerk Maxwell e Michael Faraday. No inferno encontraríamos gente como Sigmund Freud, Albert Einstein, Carl Sagan, Richard Feynman, Bertrand Russel, Hipácia de Alexandria, Charles Darwin, Daniel Dennett, James Randi, Michael Shermer, Carlos Drumond de Andrade, Linus Torvalds, Newton da Costa, Ligia Fagundes Teles, Isaac Asimov, Douglas Adams, Arthur C. Clarke, Stanislaw Lem, Woody Allen, Marcelo Gleiser, Peter Singer, Albert Camus, Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre e vários outros. Resumidamente, quase todas as pessoas interessantes e com quem valeria a pena conversar estariam no inferno. É claro que também encontraríamos lá algumas figurinhas difíceis, como Hitler, Stalin, Getúlio Vargas e Carlos Prestes, mas em um lugar tão grande seria fácil encontrar um cantinho reservado para uma conversa demorada (já que o tempo não seria problema) com as maiores mentes científicas e literárias que já existiram. E isso incluiria, é claro, Richard Dawkins.

Richard Dawkins é um biólogo evolucionista nascido em 1941, no Quênia, mas educado na Inglaterra. A partir de 1976, com a publicação de “O gene egoísta” [1], Dawkins começou a se sobressair como divulgador da ciência, humanista e grande defensor do dawinismo e do racionalismo, levando tal defesa tão longe que, se Thomas Huxley foi apelidado de “o buldogue de Darwin”, muitos acreditam que Dawkins deveria ser apelidado de “o rottweiler de Darwin”.

A pregação anti-religiosa tem sido a principal atividade de Dawkins nos últimos tempos, principalmente após a publicação do livro “The God delusion” [2], em setembro de 2006. Dawkins também acaba de inaugurar a “Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência”[3], atualmente em fase de desenvolvimento. Em uma entrevista concedida à BBC [4], Dawkins afirma que não deseja atingir as pessoas profundamente religiosas, mas apenas os indecisos, aquelas pessoas levemente religiosas, que vão à igreja uma vez por ano e nunca pensam muito sobre o assunto. “Eu quero dar a elas muito em que pensar”, diz Dawkins.

Em vários pontos, Dawkins tem razão. Ele condena, por exemplo, a visão preconceituosa de que os ateus seriam necessariamente pessoas “más”. De fato, quando alguém pergunta “você acredita em Deus?”, a pergunta verdadeiramente implícita é “você acredita em um Deus que possa mandá-lo para o inferno caso você faça algo moralmente condenável?”. Nas mentes simples de tais pessoas, Deus seria a única razão capaz de evitar, por exemplo, que alguém cometa assassinato. Contudo, mesmo ateus radicais têm uma razão muito simples para não matar outras pessoas: ao realizarmos tal ato, estaríamos dando a autorização explícita para que os outros nos matem. Imagino que assassinos devam se tornar inquietos, desconfiados e hipertensos, pois passam a vida tentando evitar que os outros façam com eles aquilo que eles fizeram com os outros.

A raiz da verdadeira bondade não reside na crença em Deus ou no juízo final, mas em uma forma altamente refinada de altruísmo recíproco que só os seres humanos, até onde sabemos, foram capazes de desenvolver. Além disso, todas as sociedades humanas desenvolveram um sistema de controle de atividades, que funciona bem em alguns lugares e muito mal em outros, mas certamente muito melhor do que um sistema baseado no temor divino: o sistema judiciário, ao qual todos estamos sujeitos.

Dawkins também tem razão quando levanta a questão do “abuso mental” sofrido pelas crianças de todas as religiões. Ele argumenta que não há maior sentido na expressão “criança católica” do que há na expressão “criança marxista”. Assim, deveríamos deixar as crianças crescerem livremente, imersas somente em algum tipo de filosofia moral que possibilitasse a formação de valores, e deixar a questão da escolha religiosa para mais tarde, quando a criança tivesse argumentos para tal. Só que esse mundo ideal jamais existirá, a não ser em poucos casos, pois os pais estão quase sempre ansiosos para impor seus sistemas de crenças sobre os filhos, seja por medo, tradição ou um misto dos dois. O que dizer, por exemplo, daquele ritual de purificação para recém-nascidos que os católicos tanto prezam? A quem se destina tal ritual? À criança ou aos pais e à comunidade religiosa?

Em outros pontos, Dawkins parece um pouco ingênuo ao considerar a mente religiosa. Após descrever detalhadamente que a vida na Terra e a consciência humana resultam de milhões de anos de seleção natural, e que não haveria papel algum para Deus nesse processo, ele sempre se depara com a afirmação de que Deus está além da razão e da compreensão humanas e de que as leis da física nada são para ele. Em outras palavras, por que um ser onipotente deveria ser limitado pela lógica humana? Dawkins responde que, se deixarmos de lado a razão (ou seja, a ciência), poderemos demonstrar a existência de qualquer coisa, desde fadas encantadas até o monstro de espaguete voador, o bule de chá orbital, o unicórnio dourado e outros milhões de coisas. Esse argumento não é propriamente original, embora Dawkins o use com maestria, mas ele tem apelo a um público específico: o público dotado de mente cética e científica. O argumento pode ter ainda algum apelo aos indecisos de Dawkins, mas os religiosos jamais admitirão um deus limitado pela lógica humana, pois os deuses, desde o início, foram imaginados como criaturas sobre-humanas, vivendo em um mundo à parte (Olimpo, Valhalla, Vorta Vor, Sha Ka Ree, Céu, etc), criadores das leis físicas e não regidos por elas.

Em todos os tempos, vários cientistas e intelectuais têm se posicionado contra a religião. Dawkins, contudo, vai longe demais. Ele chegou à conclusão de que não é suficiente ensinar ciência, mas que é necessário atacar frontalmente as religiões, as quais representariam “a raiz de todo o mal”.

Por exemplo, no segundo capítulo de seu livro mais recente, ele afirma que: “O deus do Antigo Testamento é provavelmente o personagem mais desagradável de toda a ficção: ciumento e orgulhoso disso; um maníaco por controle, miserável e injusto; um abusador vingativo, eugenista sedento por sangue, misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista e caprichosamente malévolo”. Quando foi lido frente a uma audiência de 600 pessoas [5], esse parágrafo provocou risos e aplausos, mas dificilmente atrairá a simpatia de judeus, cristãos e muçulmanos, os quais rapidamente apresentarão centenas de argumentos para provar que Deus não é tão mau assim.

Esse “ateísmo radical”, “militante” ou “beligerante” não é novidade, embora os propósitos tenham variado ao longo do tempo. Em 1844, Karl Marx, um sujeito muito menos bem-humorado do que Dawkins e bem menos agradável de se ler, escreveu: “A religião é o ópio do povo. É preciso combater a religião como felicidade ilusória das pessoas em nome da felicidade real”. O materialismo dialético de Marx e Engels, uma filosofia tão boa quanto qualquer religião fundamentalista, encontrou terreno fértil nas mentes doentias de gente como Lênin e Stalin, que tentaram implantar o comunismo (ou, mais apropriadamente, o socialismo de Estado) na URSS, ao mesmo tempo em que combatiam qualquer tipo de religião por meio da força. Na verdade, todos os assassinatos cometidos em nome do comunismo, na ex-URSS ou em qualquer outra parte, constituem uma grande prova de que Dawkins está errado, ou ao menos parcialmente enganado, ao afirmar que a religião é a raiz de todo o mal. A raiz de todo o mal são idéias totalitárias e dogmáticas, papel freqüentemente encarnado pela religião, mas não só por ela. E se o ateísmo se tornar dogmático, terá aberto a porta para todo tipo de arbitrariedades.

Minha posição pessoal, portanto, é a do liberalismo. Não me sinto à vontade em ver propostas para que o ensino religioso seja oferecido em escolas públicas. Não me sinto à vontade quando me perguntam se acredito em Deus, pois sei o que está por trás da pergunta. Não gosto de ver crianças freqüentando igrejas (e não só por causa da doutrinação explícita, mas também porque as crianças têm muito mais o que fazer com um tempo que não volta mais). Acho simplista demais acreditar que uma comunidade de camponeses semi-alfabetizados às margens do Mediterrâneo descobriu todos os segredos do Universo. Mas também não gosto de ver pessoas sendo forçadas a abandonar a religião. Já vimos essa história antes e sabemos como ela acaba.

A falsa ciência certamente deve ser combatida, o que inclui a nova praga do “design inteligente”, anteriormente denominado “criacionismo científico”. Mas esse combate deve ser feito por meio da divulgação de idéias científicas, não do confronto direto. Os religiosos continuarão a argumentar que Deus existe além da matéria, que não devemos estudar o momento inicial da criação, que o evolucionismo é “apenas uma teoria”, que homens e dinossauros foram contemporâneos, que a Bíblia deve ser adotada como livro-texto nas escolas e que todas as respostas estão no Gênesis. A ciência tem respostas para todas essas questões, além de ter uma vantagem que a religião não tem: a ciência é capaz de evoluir e de corrigir seus próprios erros. São essas respostas que devemos divulgar, e não a idéia de que a religião deve ser erradicada da face da Terra.

Não estou sozinho nesse pensamento liberal. Marcelo Gleiser escreveu recentemente dois artigos criticando o radicalismo de Dawkins [6] [7]. Gleiser, que tem se declarado ateu em bem mais de uma oportunidade, diz que “o sobrenatural é completamente incompatível com uma visão científica do mundo”. Mesmo assim, ele diz não acreditar em extremismos e intolerância. De fato, se o ateísmo for capaz de provocar uma única morte devido à radicalização proposta por Dawkins e outros, esses novos ateus terão provado serem tão ruins quanto os religiosos, e de nada servirão para a humanidade.

[1] DAWKINS, Richard. O gene egoísta. Ed. Itatiaia. 2001.
[2] DAWKINS, Richard. The God delusion. Houghton Mifflin. 2006
[3] Disponível em http://www.richarddawkins.net/foundation . Acesso em: 04 dez. 2006.
[4] Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=LC9fB_oX4Y0 . Acesso em: 04 dez. 2006.
[5] Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=YA9sFkYZSk8 . Acesso em: 04 dez. 2006.
[6] GLEISER, Marcelo. Ateísmo radical. Folha de São Paulo. 26 nov 2006.[7] GLEISER, Marcelo. Ateísmo (menos) radical. Folha de São Paulo. 3 dez 2006.

segunda-feira, novembro 20, 2006

CNBB: uma no cravo, outra na ferradura

Em entrevista coletiva organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na última sexta-feira, Dom Aldo Pagotto, presidente da Pastoral Social da CNBB, fez duras críticas ao programa Bolsa Família:

Não estamos muito satisfeitos com o programa como está. No Nordeste existem pessoas que não querem trabalhar porque se contentam com o mínimo. As pessoas precisam ser inseridas no mundo do trabalho. A capacitação não pode ser só pelas universidades, mas é preciso investir em educação profissionalizante para os trabalhos. Do modo como está sendo levado, (o Bolsa Família) é um programa assistencialista que vicia. É só uma ajuda pessoal familiar. O povo tem que se organizar. Do jeito como está, levou à acomodação e ao empanzinamento”.

É surpreendente que uma entidade representante da era do bronze, que frequentemente sugere coisas como a suspensão do pagamento da dívida externa, ato que mergulharia o Brasil em mais uma década perdida, seja capaz de esboçar um raciocínio com um mínimo de validade econômica. Só faltou citar o termo "incentivo perverso".

Contudo, para mostrar que continua aferrada às práticas do passado, quando o Estado era o único e grande empreendedor do país, o representante da CNBB diz que "foi providencial que o governo tenha colocado 'freios' na onda de privatização instalada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso". A CNBB informa ainda que quer realizar um "plebiscito educacional" sobre a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, no momento uma das empresas mais lucrativas do país e cuja estatização seria um retrocesso impensável. Tudo bem. Os plebiscitos da CNBB rendem tantos resultados quanto os pedidos por paz do Papa.

O presidente da Caritas (organismo da CNBB), D. Demétrio Valentini, afirma que "é preciso ter coragem para conferir o que foi feito" (na privatização da Vale). Ele se esquece de dizer que a Vale foi privatizada em leilão público e que cabe ao Judiciário, não à Igreja, investigar possíveis irregularidades. Também se esquece de dizer que o verdadeiro ato de coragem teria sido fazer o pronunciamento sobre o Bolsa Família antes das eleições presidenciais.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Bento XVI e a teoria da evolução

É sempre curioso ver um religoso argumentando que alguma teoria científica é irracional. Quando o religioso em questão foi professor de teologia dogmática em uma universidade conservadora, isso é ainda mais curioso. Pois é precisamente isso que o Papa Bento XVI tem feito. Ontem, durante uma missa a 230 mil fiéis na cidade alemã de Regensburg, ele declarou:

"O que existe na origem? A razão criadora, o espírito que opera em tudo e proporciona o desenvolvimento, ou a irracionalidade que, despojada de toda razão, produz estranhamente um universo ordenado de maneira matemática, assim como o homem e sua razão?"


Voltamos assim ao problema da regressão infinita: se foi necessário um criador para o universo, quem criou o criador? E quem criou o criador do criador? O papa, sendo dogmático, pode muito bem argumentar que Deus é "incriado" e existia antes de todas as coisas e criaturas, mas tal argumento seria visto pelos cientistas como um dogma irracional.


Os cientistas não se preocupam em viver em um universo onde a vida surgiu por acaso, como o resultado de reações químicas entre macromoléculas orgânicas. A ocorrência de eventos improváveis parece deixar os religosos perplexos, mas não há motivo para tal. Afinal, sabemos que a vida surgiu. Isso é um fato, e se a única resposta racional residir em um evento improvável, tal resposta é melhor do que qualquer outra. Ao cientista interessa saciar sua curiosidade. Recorrer a um poder sobrenatural criador não é suficiente, não por falta de fé, mas porque não sacia a sede de saber. O céu do religioso é habitado por um deus que sabe todas as respostas, mas esse é precisamente o inferno do cientista, que ficaria sem nada o que fazer.


João Paulo II, que era um pouco menos conservador do que Bento XVI, também teve seus atritos com cientistas. Por exemplo, ele concordava que os físicos poderiam investigar tudo o que quisessem, menos o momento da criação, pois esse era o "ato de Deus", conhecido somente por ele. O físico Stephen Hawking estava presente quando João Paulo fez tal declaração, e teria ficado com vontade de dizer que, segundo algumas teorias cosmológicas recentes, o universo pode ter sempre existido, não tendo sido criado e eliminando-se, portanto, a necessidade de um criador. Mas Hawking, lembrando-se dos problemas de Galileu com a inquisção, achou melhor ficar em silêncio.


Apesar dos atritos freqüentes, a Igreja Católica está milhares de anos à frente de outras religiões, com a possível exceção do budismo, no que diz respeito à tolerância de idéias científicas. Bento XVI, ao posicionar-se contra o evolucionismo e, aparentemente, contra a cosmologia, lança alguma sombra sobre essa história de tolerância. É uma pena, pois todos só tem a perder.


Ao comentar sobre a "ordem matemática", Bento XVI revela-se até mesmo desconhecedor de algumas teorias modernas. De fato, a mecânica quântica, com seu princípio da incerteza, e a ciência do caos, com sua sensibilidade às condições iniciais, mostraram que nosso conhecimento da natureza é necessariamente limitado. Há várias décadas sabemos que o universo não é o relógio matematicamente preciso imaginado pelos físicos newtonianos.


Ciência e religião podem, e devem, coexistir, mas não podem se misturar. O objetivo da ciência é procurar respostas para as perguntas existentes e, talvez mais importante, formular novas perguntas. O objetivo da religião é formular um conjunto de regras de convívio social, ancoradas em algum tipo de divindade que só se conhece e só se aceita por meio da fé. Qualquer religião, portanto, baseia-se em algo misterioso e incognoscível, e livrar-se dos mistérios é exatamente o objetivo da ciência. Se confrontadas, a ciência tentará mostrar que os dogmas religiosos não têm fundamento, e a religião tentará mostrar que o conhecimento científico é incompleto. De vez em quando, é claro, o religioso e o cientista habitam o mesmo corpo e, por alguma razão misteriosa, ainda assim a pessoa consegue manter a sanidade mental.


Há também outra diferença importante entre religião e ciência, que é o mecanismo de auto-correção. Embora osacionalmente os cientistas possam agir de maneira tão humana e dogmática quanto os religiosos, a ciência está sempre em busca de conhecimentos mais amplos e mais precisos sobre a natureza. A ciência nunca se contenta com a ignorância, nunca se contenta com menos conhecimento. E a existência de um mecanismo de correção e eliminação de teorias é a única maneira de se evitar que os cientistas caiam vítimas do auto-engano e passem a acreditar em "raios N" ou coisas parecidas. Nas palavras de Albert Einstein:


"O cientista teórico não deve ser invejado, pois a Natureza, ou, mais precisamente, o experimento, é um juiz inexorável e não muito cordial de seu trabalho. Ele nunca diz "Sim" a uma teoria. Nos casos mais favoráveis, ele diz "Talvez" e, na grande maioria dos casos, simplesmente "Não". Se um experimento concorda com uma teoria, isto significa, para esta, "Talvez", e se não concorda, "Não". Provavelmente, toda teoria algum dia experimentará o seu "Não" - a maioria das teorias, logo após sua concepção."