O que querem os criacionistas?
Antigamente, lá pelos idos dos anos 20, os fundamentalistas cristãos, especialmente nos Estados Unidos, faziam oposição ferrenha à teoria da evolução, como sempre fizeram, mas não ofereciam uma teoria alternativa. Somente em 1929 o biólogo adventista Howard W. Clark propôs que a mera oposição não era suficiente e introduziu o termo “ciência do criacionismo”, que também ficou conhecida como “criacionismo científico”.
É claro que não basta anexar o adjetivo “científico” a uma disciplina para que esta se torne de fato científica, mas os criacionistas se aproveitam dessa confusão e usam o velho ditado “se nada como pato, voa como pato, grasna como pato, então só pode ser pato”. Da mesma forma, se você for um cientista profissional, falar como cientista, se comportar como cientista e usar termos científicos, então os desavisados tenderão a pensar que o assunto em discussão só pode ser científico.
É isso que acontece com o “design inteligente”, a mais nova dentre as cinco vertentes do criacionismo científico, surgida em 1989, com a publicação do livro “Of pandas and people”. Meu interesse pelo assunto (ou contra ele) foi renovado por causa do lançamento do documentário “Expelled: no intelligence allowed” (“Expulsos: nenhuma inteligência é permitida”), previsto para ocorrer no próximo dia 18. Em resumo, o filme, ao qual ainda não assisti e que é a mais nova frente de batalha dos criacionistas, afirma que os proponentes do design inteligente estão sendo perseguidos por causa de suas crenças de que existem indícios de “projeto inteligente” na natureza (daí o nome design, de vez em quando traduzido impropriamente como “desenho”).
Um dos principais conceitos da teoria do design inteligente é a “complexidade irredutível”. De acordo com Michael Behe, bioquímico norte-americano criador do conceito, um sistema é irredutivelmente complexo quando é formado por várias partes intercaladas e interdependentes, as quais contribuem para determinada função básica, e que param de funcionar quando ao menos uma das partes é removida.
Um exemplo citado por Behe é o de uma ratoeira: composta por várias partes interdependentes (mola, haste, lâmina, etc), a ratoeira não funciona se ao menos uma dessas partes for removida. Behe então prossegue afirmando que a natureza não seria capaz de criar sistemas irredutivelmente complexos, pois as várias partes interdependentes do sistema deveriam evoluir em conjunto, fenômeno que seria muito complicado e raro.
Exemplos biológicos de complexidade irredutível seriam o olho, o sistema imunológico e a cascata de coagulação sangüínea. A conclusão de Behe e de outros proponentes do design inteligente é que uma inteligência superior (não necessariamente Deus) seria a responsável pela criação da complexidade irredutível. Fora dos círculos criacionistas, todavia, nenhum cientista aceitou esse argumento e não há qualquer periódico científico “peer reviewed” que o defenda. Aliás, as idéias de Behe foram publicadas em um livro (“A caixa preta de Darwin”) e não em um periódico científico, como recomenda a boa prática.
Ao depor em um famoso julgamento de 2005 (Kitzmiller versus Escola Dover), Michael Behe afirmou que a ciência nunca seria capaz de encontrar uma resposta evolutiva para o sistema imunológico. Ele foi então apresentado a cinquenta e oito artigos de publicações “peer reviewed”, nove livros e vários capítulos de livros-texto versando sobre a evolução do sistema imunológico. A reação de Behe, claramente dogmática, foi afirmar que aquilo tudo ainda não era suficiente.
O caso Kitzmiller versus Escola Dover foi iniciado quando onze pais de alunos da escola Dover, na Pensilvânia, processaram os dirigentes por causa de uma declaração que deveria ser obrigatoriamente lida em sala cada vez que a teoria da evolução das espécies fosse ensinada. Essa declaração afirmava que a evolução das espécias era “apenas uma teoria” e oferecia o design inteligente, tal como exposto no livro Of pandas and people, como alternativa. O caso foi encerrado de maneira desfavorável aos proponentes do design inteligente, o qual foi considerado não científico e de origens claramente religiosas. Pela primeira vez na história dos EUA um tribunal de justiça considerava o design inteligente como uma forma de criacionismo e concluía que o ensino de ambos em escolas públicas norte-americanas era inconstitucional. O filme “Expelled: no intelligence allowed” cita esse caso como exemplo da “perseguição” sofrida pelos criacionistas.
É evidente que não se precisa recorrer a um tribunal para refutar o design inteligente, pois a maior fragilidade da teoria é evidente a qualquer um: deixar para Deus a responsabilidade da criação da complexidade irredutível. Alguns proponentes, tentando dar um caráter menos religioso à teoria, afirmam que não é necessário que o criador seja Deus, podendo ser também uma inteligência superior e incognoscível (um extraterrestre?). Mas daí vêm as inevitáveis perguntas: quem criou essa inteligência? Quem criou Deus?
Tais perguntas não podem ser respondidas de maneira científica e aos criacionistas resta o caminho da fé. Porém, se eles têm uma fé que lhes dá todas as respostas, por que precisam de uma teoria científica? E, se eles precisam de uma teoria científica para mostrar que Deus existe, por que precisam da fé? Finalmente, se os criacionistas não gostam da teoria da evolução, por que não criam uma teoria alternativa e verdadeiramente científica? Afinal, o que querem os criacionistas?

