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quinta-feira, abril 10, 2008

O que querem os criacionistas?

Antigamente, lá pelos idos dos anos 20, os fundamentalistas cristãos, especialmente nos Estados Unidos, faziam oposição ferrenha à teoria da evolução, como sempre fizeram, mas não ofereciam uma teoria alternativa. Somente em 1929 o biólogo adventista Howard W. Clark propôs que a mera oposição não era suficiente e introduziu o termo “ciência do criacionismo”, que também ficou conhecida como “criacionismo científico”.

É claro que não basta anexar o adjetivo “científico” a uma disciplina para que esta se torne de fato científica, mas os criacionistas se aproveitam dessa confusão e usam o velho ditado “se nada como pato, voa como pato, grasna como pato, então só pode ser pato”. Da mesma forma, se você for um cientista profissional, falar como cientista, se comportar como cientista e usar termos científicos, então os desavisados tenderão a pensar que o assunto em discussão só pode ser científico.

É isso que acontece com o “design inteligente”, a mais nova dentre as cinco vertentes do criacionismo científico, surgida em 1989, com a publicação do livro “Of pandas and people”. Meu interesse pelo assunto (ou contra ele) foi renovado por causa do lançamento do documentário “Expelled: no intelligence allowed” (“Expulsos: nenhuma inteligência é permitida”), previsto para ocorrer no próximo dia 18. Em resumo, o filme, ao qual ainda não assisti e que é a mais nova frente de batalha dos criacionistas, afirma que os proponentes do design inteligente estão sendo perseguidos por causa de suas crenças de que existem indícios de “projeto inteligente” na natureza (daí o nome design, de vez em quando traduzido impropriamente como “desenho”).

Um dos principais conceitos da teoria do design inteligente é a “complexidade irredutível”. De acordo com Michael Behe, bioquímico norte-americano criador do conceito, um sistema é irredutivelmente complexo quando é formado por várias partes intercaladas e interdependentes, as quais contribuem para determinada função básica, e que param de funcionar quando ao menos uma das partes é removida.

Um exemplo citado por Behe é o de uma ratoeira: composta por várias partes interdependentes (mola, haste, lâmina, etc), a ratoeira não funciona se ao menos uma dessas partes for removida. Behe então prossegue afirmando que a natureza não seria capaz de criar sistemas irredutivelmente complexos, pois as várias partes interdependentes do sistema deveriam evoluir em conjunto, fenômeno que seria muito complicado e raro.

Exemplos biológicos de complexidade irredutível seriam o olho, o sistema imunológico e a cascata de coagulação sangüínea. A conclusão de Behe e de outros proponentes do design inteligente é que uma inteligência superior (não necessariamente Deus) seria a responsável pela criação da complexidade irredutível. Fora dos círculos criacionistas, todavia, nenhum cientista aceitou esse argumento e não há qualquer periódico científico “peer reviewed” que o defenda. Aliás, as idéias de Behe foram publicadas em um livro (“A caixa preta de Darwin”) e não em um periódico científico, como recomenda a boa prática.

Ao depor em um famoso julgamento de 2005 (Kitzmiller versus Escola Dover), Michael Behe afirmou que a ciência nunca seria capaz de encontrar uma resposta evolutiva para o sistema imunológico. Ele foi então apresentado a cinquenta e oito artigos de publicações “peer reviewed”, nove livros e vários capítulos de livros-texto versando sobre a evolução do sistema imunológico. A reação de Behe, claramente dogmática, foi afirmar que aquilo tudo ainda não era suficiente.

O caso Kitzmiller versus Escola Dover foi iniciado quando onze pais de alunos da escola Dover, na Pensilvânia, processaram os dirigentes por causa de uma declaração que deveria ser obrigatoriamente lida em sala cada vez que a teoria da evolução das espécies fosse ensinada. Essa declaração afirmava que a evolução das espécias era “apenas uma teoria” e oferecia o design inteligente, tal como exposto no livro Of pandas and people, como alternativa. O caso foi encerrado de maneira desfavorável aos proponentes do design inteligente, o qual foi considerado não científico e de origens claramente religiosas. Pela primeira vez na história dos EUA um tribunal de justiça considerava o design inteligente como uma forma de criacionismo e concluía que o ensino de ambos em escolas públicas norte-americanas era inconstitucional. O filme “Expelled: no intelligence allowed” cita esse caso como exemplo da “perseguição” sofrida pelos criacionistas.

É evidente que não se precisa recorrer a um tribunal para refutar o design inteligente, pois a maior fragilidade da teoria é evidente a qualquer um: deixar para Deus a responsabilidade da criação da complexidade irredutível. Alguns proponentes, tentando dar um caráter menos religioso à teoria, afirmam que não é necessário que o criador seja Deus, podendo ser também uma inteligência superior e incognoscível (um extraterrestre?). Mas daí vêm as inevitáveis perguntas: quem criou essa inteligência? Quem criou Deus?

Tais perguntas não podem ser respondidas de maneira científica e aos criacionistas resta o caminho da fé. Porém, se eles têm uma fé que lhes dá todas as respostas, por que precisam de uma teoria científica? E, se eles precisam de uma teoria científica para mostrar que Deus existe, por que precisam da fé? Finalmente, se os criacionistas não gostam da teoria da evolução, por que não criam uma teoria alternativa e verdadeiramente científica? Afinal, o que querem os criacionistas?

quinta-feira, maio 17, 2007

Darwin na revista Veja

A revista Veja de 9 de maio, motivada pela exposição no Museu de Arte de São Paulo (MASP), que vai até o próximo 15 de julho, trouxe como reportagem de capa a matéria “A revolução sem fim de Darwin”. Na semana anterior, a mesma revista havia publicado uma reportagem sobre a descoberta do planeta Gliese 581, o melhor candidato conhecido ao cargo de planeta habitável fora do Sistema Solar. Duas reportagens científicas em duas semanas consecutivas, publicadas por revista não especializada, é prova de que esse país tão carente de ciência e tecnologia ainda tem jeito. Contudo, é triste perceber que o Brasil faz parte dos países onde reportagens científicas atraem críticas religiosas. É isso que faz, por exemplo, o jornalista Michelson Borges, em artigo publicado no Observatório da Imprensa [1].

Não vou comentar a crítica de Borges em particular. Basta dizer que ela não é científica, muito menos nova. Críticas à teoria da evolução surgiram com o próprio trabalho de Darwin, publicado originalmente em 1859, e se baseiam em um ou mais argumentos da seguinte lista, a qual não pretende ser completa:

(a) A citação de que a bíblia, que representa a palavra de Deus, afirma que o mundo e todos os seres vivos foram criados a um só tempo.

(b) A alegação de que o homem, tendo sido criado à imagem de Deus, não pode ser descendente de seres “inferiores”, tais como símios primitivos.

(c) A citação de frases de filósofos e cientistas contrapondo-se à teoria da evolução.

(d) A afirmação de que a evolução é “apenas uma teoria”, não um fato.

(e) A lembrança de que a repetida menção a Darwin, a quem a teoria da evolução está perenemente vinculada, representa um “culto” e, logo, é irracional.

(f) A alegação de que a vida não poderia ter surgido por acaso, como afirma a teoria da evolução.

Nenhum dos argumentos acima é científico, embora todos sejam muito comuns. Vamos analisar rapidamente cada um deles.

O argumento (a) parte de duas hipóteses subjacentes: a hipótese de que a bíblia representa a palavra de Deus e a hipótese de que a bíblia contém enunciados científicos. A primeira hipótese só pode ser aceita por meio da fé, pois o único lugar onde está escrito que a bíblia representa a palavra de Deus é na própria bíblia. Logo, devemos aceitar este texto sagrado como escrito por Deus antes mesmo de tê-lo aceito como escrito por Deus! A segunda hipótese, a de que a bíblia contém enunciados científicos, subverte a própria razão de existência deste livro. De fato, os hebreus nunca foram um povo científico, nunca se dedicaram a problemas científicos e escreverem a bíblia com propósitos religiosos e culturais. Acreditar que camponeses mediterrâneos, desconhecedores do método científico, possam ter descoberto os segredos profundos do universo é, novamente, um ato de fé. E, tendo-se fé, é possível alegar, talvez até provar, a existência de qualquer coisa, desde o monstro de espaguete até a xícara de chá em órbita de Marte (ou será Saturno? - nunca me lembro. De qualquer forma, esse meu último argumento não é novo nem original, mas é muito bom!).

O argumento (b) é também religioso, não científico, e surge da posição central reservada ao homem pelas religiões judaico-cristãs. Somente os adeptos de tais religiões poderiam se sentir ofendidos por uma teoria que coloca o homem e os outros animais como herdeiros de um ancestral comum. Um budista, por exemplo, dificilmente teria tais temores. Enquanto muitas religiões consideram os conceitos de “criação” e “evolução” como antagônicos, o budismo prescinde do próprio conceito de “deus criador”. Por tal razão, o budismo atual aceita calmamente a teoria da evolução, assim como aceita as teorias modernas sobre a origem do universo. É claro que, à luz de tal constatação, muitos cristãos, especialmente os protestantes mais radicais, rapidamente rotularão o budismo como “filosofia” e não como “religião”, livrando-se da espinhosa tarefa de explicar como um sistema de crenças adotado por milhões de pessoas pode se sentir tão à vontade com o papel não central reservado ao homem (*).

O argumento (c) dificilmente convencerá uma pessoa de certa cultura. Frases de cientistas e filósofos, especialmente quando removidas dos contextos em que foram enunciadas, podem ser usadas com os mais variados fins. Palavras de homens como Kepler, Newton, Galileu e Einstein têm sido usadas por ateus e crentes para seus próprios fins. Retórica, nada mais. Entretanto, a ciência não é uma coleção de frases de cientistas famosos, mas sim uma coleção de hipóteses que devem ser submetidas à verificação experimental. Se uma determinada hipótese, mesmo que levantada pelo cientista mais graduado que se possa imaginar, contradiz um resultado experimental, então, sinto muito, mas tal hipótese é falsa. Recorrer à palavra de cientistas e filósofos famosos, especialmente quando mortos, sem dar atenção à verificação experimental, é um exemplo de “argumento de autoridade”, não de argumento científico.

A afirmação (d), de que a evolução é “apenas uma teoria”, é bastante comum. E errada. Ela se baseia no conceito leigo de “teoria”, que é bastante diferente do conceito científico. Para os leigos, uma “teoria” é um conjunto de idéias e pensamentos que são frequentemente desmentidos pela prática (“na prática a teoria é outra”, dizem). Para um cientista ou filósofo da ciência, por outro lado, uma teoria é um conjunto de hipóteses que podem ser verificadas experimentalmente. Trata-se de uma questão de evidências, não de uma questão de fé. E as evidências a favor da teoria da evolução são avassaladoras, a ponto de não existir uma teoria científica concorrente, aspecto que deixa os criacionistas particularmente irritados. O leitor interessado pode consultar o site TalkOrigins [2], que contém uma grande quantidade de informações sobre evidências a favor da teoria da evolução.

Outro problema com o argumento (d) é uma falha em reconhecer que tudo o que temos são modelos teóricos. A afirmação de que o Sol nascerá amanhã no leste é parte de um modelo teórico, a afirmação de que a Terra é esférica é parte de um modelo teórico, a afirmação de que o coração impulsiona o sangue é parte de um modelo teórico. Quando um modelo pode ser submetido à verificação experimental, dizemos tratar-se de um modelo científico. A afirmação de que o universo surgiu do ato de pura imaginação dos alienígenas verdes do planeta Dreenor, por exemplo, também é um modelo teórico, mas não é um modelo científico, pois não pode ser verificado experimentalmente. Assim, a teoria da evolução é realmente “apenas uma teoria”, mas é uma teoria científica. Outras teorias concorrentes da evolução, como o criacionismo e o design inteligente, também são teorias, mas não são científicas.

O argumento (e) não pode ser direcionado aos biólogos evolucionistas profissionais. A admiração por Darwin pode levar um adolescente a se tornar um biólogo, assim como a admiração por Einstein pode levá-lo a se tornar um físico, mas nenhum profissional sério se mantém ativo na profissão por causa de amor platônico. E embora a idolatria, direcionada a Darwin ou a qualquer outro cientista, seja realmente irracional, nada disso depõe contra a teoria da evolução ou qualquer outra teoria científica. Trata-se apenas de um pequeno ciclo de confusões de alguém que diz: “Minha religião afirma que o homem foi criado por Deus. Logo, o homem não pode ter evoluído a partir de bactérias. Logo, a teoria da evolução é errada. Logo, Darwin, que criou a teoria da evolução, estava errado. Logo, a admiração por Darwin é errada. Logo, devemos combater toda afirmação favorável a Darwin, pois não fazê-lo seria aceitar a teoria da evolução, que nós combatemos”. Vaidade, nada mais que vaidade.

Finalmente, a alegação (f) é fascinante, pois parte de duas hipóteses subjacentes: a hipótese de que a evolução se deu (e se dá) por acaso e a hipótese de que a teoria da evolução diz algo sobre o surgimento da vida. Ambas hipóteses falsas.

A hipótese do acaso tem sido levantada por vários religiosos, especialmente pastores protestantes. Eles frequentemente dizem que acreditar na evolução é o mesmo que acreditar que, colocando-se plástico, tinta e metal sobre uma mesa, em algum momento futuro surgirá uma caneta esferográfica pronta. Mas não é assim que a evolução funciona.

A evolução não se dá ao acaso. A evolução é simplesmente a mudança dos traços hereditários de uma população, de uma geração para outra, e tal mudança ocorre por meio da combinação de dois processos básicos: mutações genéticas e seleção natural. As mutações são aleatórias e tal característica pode dar a impressão de que a evolução também é aleatória, ou seja, se dá ao acaso. Contudo, a seleção natural não é aleatória, pois privilegia a sobrevivência dos organismos mais bem adaptados e não a sobrevivência de organismos selecionados ao acaso. As pressões do meio-ambiente produzem um incentivo suficiente para que a evolução pareça ter um objetivo, embora orientado por uma mão cega. E é sempre bom lembrar que “evolução” não significa necessariamente “melhoria”. Primeiro, porque teríamos que definir o que significa “melhoria”. Segundo, porque há casos em que estruturas mais complexas evoluíram para estruturas menos complexas, como ocorreu com as nadadeiras das baleias. Nossa prosaica caneta esferográfica não se reproduz, não responde às pressões do meio-ambiente e, logo, não sofre seleção natural (mas, caso tal acontecesse, poderíamos dizer com segurança que apenas as canetas mais bem adaptadas sobreviveriam!).

A segunda hipótese do argumento (f) é falsa porque a teoria da evolução não afirma nada sobre o surgimento da vida na Terra. Não se trata de uma teoria da “criação científica” ou da “geração espontânea”, mas sim de uma teoria que afirma que os organismos mais complexos (como nós, os golfinhos, os ornitorrincos e as sequóias) evoluíram a partir de organismos menos complexos (as bactérias primitivas). A teoria da evolução não faz nenhuma afirmação sobre o surgimento das primeiras bactérias em si. Sobre tal fenômeno, no momento só temos hipóteses não verificadas. A mais provável delas, denominada abiogênese, é a de que a vida surgiu a partir de macromoléculas orgânicas contidas no ambiente primitivo. Todavia, não poderemos ter certeza disso até que alguém consiga produzir uma bactéria viva a partir de macromoléculas não vivas. Quando tal feito ocorrer, se ocorrer, ele será mais importante do que a descoberta de vida extraterrestre, mais importante do que a fusão a frio, mais importante do que a reversão do aquecimento global. Se tal feito ocorrer, os cientistas viverão uma época fascinante, embora possam vir a ser acusados mais uma vez de “brincar de Deus”. Os religiosos mais radicais da linha judaico-cristã, por outro lado, enfrentarão tempos difíceis.

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[1] http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=433FDS004
[2] http://www.talkorigins.org/
(*) Obviamente, as afirmações favoráveis ao budismo não me tornam budista.