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quinta-feira, março 20, 2008

Sir Arthur C. Clarke (1917 – 2008)

Da cidade de Colombo, no Sri Lanka, chegou-nos, no último dia 18, a notícia de que Sir Arthur C. Clarke havia falecido, aos 90 anos de idade. Mesmo que triste, a notícia não é exatamente uma supresa, considerando-se a idade avançada de Clarke e as complicações causadas por uma poliomielite que o mantinha preso a uma cadeira de rodas, embora lúcido e produtivo.

Para o grande público, o nome de Clarke estará para sempre associado ao filme “2001 – uma Odisséia no Espaço”, dirigido por Stanley Kubrick e lançado em 1968. O livro homônimo é na verdade uma decorrência do filme, cujo roteiro foi escrito por Clarke e Kubrick. Sobre o filme, Clarke se declararia mais tarde insatisfeito com aquilo que Kubrick via como o maior mérito da obra: a ambigüidade e a falta de explicações racionais. Sobre o livro, Clarke afirmaria: “Meu livro favorito é Canções da Terra Distante. 2061 é muito melhor do que 2001. Este, na verdade, não é um bom livro, pois foi escrito apenas para fazer um filme e não passa de um roteiro glorificado”.

Contudo, Clarke já era um escritor de sucesso antes de “2001” e continuou a sê-lo após o lançamento do filme. Longe de ser tão prolífico quanto Isaac Asimov (1920 - 1992), a quem é tão freqüentemente comparado, Clarke, um cético de mente aberta, escrevia de maneira mais técnica e científica do que vários de seus contemporâneos da ficção científica “hard”, mas não sem mesclar a suas histórias uma boa dose de poesia e imaginação, muitas vezes ultrapassando os limites do conhecimento atual.

O estilo literário de Clarke também é radicalmente diferente dos de Asimov, Robert Heinlein (1907 - 1988) e outros. Como romancista, Clarke não empregava o estilo “best seller”, tão caro a Asimov, que resulta em romances repletos de viradas e finais-surpresa, ingredientes que os leitores da literatura de massa consideram essenciais para que uma obra possa ser lida “sem cansar”. Como contista, Clarke era imbatível. Exemplo disso são os contos reunidos em “O Outro Lado do Céu”, coletânea publicada originalmente em 1958 e traduzida pela Nova Fronteira em 1984. O livro traz o que há de melhor em contos de ficção científica, alguns de tirar o fôlego, e é encerrado com “As Canções da Terra Distante”, conto que Clarke transformaria em romance vinte e oito anos depois.

Formado em matemática e em física, inglês de nascimento e residente no Sri Lanka desde 1956, Clarke se esforçava para construir universos ficcionais cientificamente plausíveis, ainda que sempre levando em conta que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistingüível da mágica”, afirmação conhecida como a “terceira lei de Clarke”.

No prefácio de “As Canções da Terra Distante” (Nova Fronteira, 1987), por exemplo, Clarke adverte que “...a presente versão foi direta – e negativamente – inspirada pelo recente surto de space-operas nas telas de televisão e do cinema”. A seguir, ele esclarece que gostou de Star Trek e dos épicos de Steven Spielberg e George Lucas, mas observa que tais trabalhos são melhor caracterizados como de fantasia, não como de ficção científica, acrescentando ainda que “Nenhuma Dobra Fator Seis poderá nos levar de um episódio a outro a tempo do capítulo da próxima semana”. Apesar disso, a espaçonave utilizada pelos personagens do livro, embora viajando abaixo da velocidade da luz, é impulsionada por um hipotético sistema de “propulsão quântica”, baseado na extração da energia do vácuo. Aí reside o salto de imaginação de Clarke: a energia do vácuo não é uma construção ficcional, como o "hiperespaço" ou os "campos de tétrions", mas sim uma hipótese científica verificada experimentalmente (vide efeito Casimir e desvio de Lamb). De acordo com um cálculo conservador do físico Richard Feynman (1918 – 1988), por exemplo, um centímetro cúbico de vácuo teria energia suficiente para ferver todos os oceanos da Terra. Todavia, como extrair tal energia, caso possível, é tarefa da qual ainda se ocuparão os engenheiros de várias gerações futuras. No livro, Clarke supõe simplesmente que os engenheiros e físicos do ano 3600 já terão resolvido esse singelo problema, suposição consubstanciada na “segunda lei de Clarke”: “A única forma de descobrir os limites do possível é avançar um pouco além deles e penetrar no impossível”.

Clarke também escreveu vários livros de divulgação científica e, a partir da década de 50, tornou-se um palestrante bastante requisitado, especialmente nos Estados Unidos. Também ficou conhecido por ter proposto, em 1945, o conceito de satélite de telecomunicações, contribuição que ele desdenhava: “Acredito que minha prioridade (sobre os satélites geoestacionários) deve ter avançado a causa das comunicações espaciais por uns 15 minutos”. A partir de 1970, contudo, Clarke parou de escrever sobre divulgação científica para se concentrar somente à ficção, reservando a não ficção para palestras e documentários. Dentre os documentários, um dos mais famosos é “O Misterioso Mundo de Arthur C. Clarke” (1981), que seria seguido pelo documentário “O Mundo dos Estranhos Poderes de Arthur C. Clarke” (1984). Em ambos, Clarke dá explicações naturais para fenômenos estranhos, tais como discos voadores, monstros marinhos, telepatia, caminhada sobre brasas, entortadores de colheres (como Uri Geller) e outros.

Outra particularidade de Clarke era se manter em dia com inovações tecnológicas e científicas. Enquanto Asimov usou uma máquina de escrever elétrica até o fim, Clarke já usava computadores no início dos anos 80. Pouco mais tarde, em vez de remeter seus livros para o editor em um disquete, passou a transmití-los diretamente de Colombo, usando uma linha de dados. Clarke também foi o primeiro habitante do Sri Lanka, e provavelmente do mundo, a ter uma antena parabólica residencial, instalada no longínquo ano de 1976. Tal ânsia de atualização talvez decorra parcialmente do cuidado para não entrar em conflito com a “primeira lei de Clarke”: “Quando um cientista notável, mas idoso, diz que algo é possível, ele estará, na maioria das vezes, certo. Quando ele afirma que algo é impossível, estará, muito provavelmente, errado”.

No momento em que finalizo este post, devo ter lido pouco mais de 20% dos livros de Clarke, incluindo quatro deles escritos em conjunto com Gentry Lee, os quais não podem ser considerados “puro Clarke”. Isso não me torna uma autoridade nesse autor, mas pelo menos me permite afirmar que ele vale a pena ser lido, não pelo caráter “profético” atribuído a muitas de suas obras, não por ter co-assinado o roteiro de um dos mais famosos filmes de ficção científica de todos os tempos, mas especialmente por nos lembrar de sonhar e acreditar que a humanidade poderá, algum dia, ser algo melhor do que essa raça de macacos pelados e cabeçudos que hoje somos. Entretanto, Clarke seria um dos primeiros a afirmar que tal objetivo jamais será alcançado sem auxílio da ciência. Nesses tempos em que religiosos modernos recorrem a conceitos medievais para atacar as pesquisas com células-tronco, e em que as pseudociências e embustes vicejam, o habitante mais ilustre do Sri Lanka vai fazer falta.

terça-feira, setembro 11, 2007

Mais um pouco sobre dublagem de seriados: os “cristais delirantes” de Star Trek

Um colega que leu o meu post anterior, e que trabalha com tradução profissional, acredita que o erro de tradução de “circuit board” tenha sido acidental, algo como dizer “quente água”. Talvez. Ele também comenta que o erro dos tradutores do seriado “24 Horas”, que traduziram “circuito de placa” em vez de “placa de circuito”, não se compara “às legendas das batalhas espaciais de Babylon 5, ao fato se de referirem a aviões de combate sempre como ‘naves’, naqueles programas que passam na quinta à noite no The History Channel ou, o que talvez seja o caso mais clássico de todos, os 'cristais delirantes' do primeiro filme de Star Trek”.

“Cristais delirantes”! Da mesma forma que muita gente da minha geração, eu assisti ao primeiro filme de Star Trek incontáveis vezes, nas versões legendada e dublada, mas confesso não ter percebido essa tradução criativa de “dilithium crystal” [1]. Contudo, me lembro claramente da tradução de “warp” como “arqueada”, termo que deixa claro que os tradutores não tinham idéia do que se passava no filme.

Por coincidência, ontem à noite o SciFi Channel estava exibindo o episódio “Elementary, Dear Data” [2], do início da segunda temporada de “Star Trek: The Next Generation”. No início do episódio, Data está conversando com La Forge e comenta algo sobre as habilidades do engenheiro, dentre as quais estaria a capacidade de trabalhar com “reguladores de delírio”.

Para quem tem que cumprir prazos e metas, deve ser realmente fácil confundir “dilithium” (uma palavra que existe também no mundo real) com “delirium” ou “deliriant”. Ainda assim, será que os tradutores não perceberam que o resultado, com o perdão do trocadilho, ficou delirante demais?

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[1] WIKIPEDIA. Dilithium (Star Trek). Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Dilithium_%28Star_Trek%29>.
[2] STARTREK.COM. Elementary, Dear Data. Disponível em: <http://www.startrek.com/startrek/view/series/TNG/episode/68364.html>.

sexta-feira, maio 25, 2007

A vida não será como em “Guerra nas Estrelas”

É estranho perceber que faço parte daquela geração que assistiu “Guerra nas Estrelas” em sua estréia no cinema, no longínquo ano de 1978, e não na versão remasterizada, digitalizada e plastificada atualmente disponível em DVD. O filme, que está completando 30 anos de lançamento e estreou em 25 de maio de 1977, chegou ao Brasil um ano depois, pois naquela época as coisas por aqui eram bem mais lentas. Assim, parece oportuno comemorar a data com alguns comentários sobre o filme.

Tenho quase certeza que não entendi muito bem a história. Mesmo descontando-se aquelas questões de forças místicas e de alienígenas de outra galáxia, embora incrivelmente humanos (e sem ao menos um pedaço de massinha grudado na testa!), parecia que eu havia caído no meio de uma história que deveria conhecer, mas não conhecia. Já naquela época, “Guerra nas Estrelas” parecia começar no meio, não no começo, mas talvez isso tudo seja uma memória construída, não uma memória de fato. O que me lembro com toda certeza foi de ter ficado muito impressionado com o carro flutuante de Luke Skywalker. Apesar de velho e encardido, aquilo sim era um carro!
Durante muito tempo, embalado pela magia do cinema, pensei em construir um carro flutuante. Estudei mecânica, eletricidade e eletrônica, pesquisei sobre hovercrafts, esses veículos fantásticos que flutuam sobre um colchão de ar, fiz projetos e planos. Naquela época tudo parecia mais fácil, mas, aos poucos, me convenci de que o carro flutuante era impossível. E, mesmo que ele fosse possível, há um problema crucial nele que jamais permitiria o uso prático. Antes de falar sobre isso, porém, é interessante gastar algum tempo analisando outras questões que me deram a certeza de que a vida nunca será como em “Guerra nas Estrelas”.

Em 1997 a Ediouro publicou a tradução do livro “The Dilbert Future”, de Scott Adams, a qual recebeu o título de “O Futuro Dilbert” [1]. Uma tradução ruim, sem dúvida, pois seria mais adequado escrever “O Futuro de Dilbert”, ou então “O Futuro Dilbertiano”. Da maneira como foi feita a tradução, “Dilbert” passa a ser um rótulo, como se disséssemos “As Leis Newton” em vez de “As Leis de Newton”. Um barbarismo inútil, mas que já havia aparecido na tradução do primeiro livro de Adams, que recebeu o título de “O Princípio Dilbert”. Todavia, o pior da tradutora foi reservado para a primeira seção do capítulo 3, cujo título, “Life Will Not Be Like Star Trek”, transformou-se em “A Vida não será como em “Guerra nas Estrelas”. Um pecado mortal no mundo dos tradutores e escritores, comparável a escrever Arthur C. Clarke em vez de Isaac Asimov (ou vice-versa ainda mais freqüente).

O texto original de Adams está publicado em [2]. Mesmo para quem não entende inglês, é fácil perceber, dispondo apenas do texto em português, que Adams está falando de “Jornada nas Estrelas” (Star Trek), não de “Guerra nas Estrelas” (Star Wars). De fato, a tradutora manteve os termos originais holodeck e phasers e traduziu photon torpedo como torpedos de fótons. Ora, esses equipamentos aparecem em “Jornada nas Estrelas”, não em “Guerra nas Estrelas”! Além disso, ela cometeu erros mais graves ao traduzir I got beamed (“fui teletransportado”) como “fui irradiado” e target locked on (“alvo travado”) como “alvo bloqueado”. Na página 34, finalmente, a tradutora revela-se totalmente incapaz de apagar suas pegadas e mantém o termo original trekkies, uma referência clara aos fãs de “Jornada nas Estrelas”, não aos fãs de “Guerra nas Estrelas”.

Apesar de ter errado de forma homérica, a tradutora acertou ao menos parcialmente, pois, se a vida não será como em “Jornada nas Estrelas”, também não será como em “Guerra nas Estrelas”. Não por causa da impossibilidade física de espaçonaves mais rápidas do que a luz ou por causa da inutilidade das aletas de caças espaciais que voam no vácuo, mas por causa de detalhes raramente, talvez nunca, mencionados pelos críticos e comentaristas de cinema. Vejamos alguns deles.

Sabres de luz
Uma presença constante em todos os filmes da série “Guerra nas Estrelas” é o sabre de luz, ocasionalmente denominado “espada laser”, mas somente pelos leigos. O sabre de luz aparece pela primeira vez nas mãos de Obi Wan Kenobi, no Episódio IV (“Uma Nova Esperança”), está constantemente nas mãos dos Jedis e Siths e é visto pela última vez também nas mãos de Obi Wan, após a luta com Anakin no Epísódio III.

Uma análise rápida mostra que o sabre de luz é uma das armas mais fantásticas já concebidas pela ficção científica. Ele é capaz de cortar quase todos os materiais, desde a carne humana até as ligas metálicas mais densas. Paradoxalmente, contudo, um sabre de luz não é capaz de cortar outro sabre de luz. Sem falar, é claro, na estranha propriedade da “luz sólida” da lâmina do sabre, que “acaba” cerca de um metro após a empunhadura, em flagrante desrespeito às leis da física. Mas essas características já foram analisadas centenas de vezes. A inocente pergunta que faço não é sobre a viabilidade física dos sabres de luz, mas sim sobre a visibilidade das lâminas. Por que, afinal, as lâminas dos sabres são visíveis?

Não me refiro à questão da reduzida visibilidade de um feixe de luz cortando o ar limpo. Todos sabem que os tiros de armas laser dos filmes de ficção não seriam visíveis, pois o ar limpo não teria como refletir a luz até nossos olhos. Não é isso. A questão é: por que um Jedi ou um Sith, podendo fabricar uma lâmina invisível, fabricaria uma lâmina colorida e visível?

Uma lâmina invisível seria muito mais mortal do que uma lâmina colorida. É claro que o aprendizado seria muito mais difícil e perigoso, pois seria muito mais fácil cortar a própria mão enquanto se treina com um sabre invisível. De qualquer forma, os Jedis estão acostumados a ter as mãos cortadas, bastando substituí-las por mãos robóticas.

Alguém poderia argumentar que o “cristal” que produz o feixe luminoso é quem dá a cor à lâmina, mas essa explicação é um pouco fajuta. Será que todos os milhares de anos de pesquisa na vastidão daquela galáxia muito, muito distante não foram capazes de produzir um feixe invisível? Outra possível explicação seria a de que os Jedis têm um código de honra que não lhes permite usar sabres invisíveis. Essa explicação também é um pouco fajuta, pois, em primeiro lugar, esse aspecto do código nunca foi mencionado. Em segundo lugar, os Sith, que não têm honra alguma, também usam lâminas visíveis.

Andadores
Os “andadores” (walkers) são aqueles veículos que aparecem pela primeira vez no Episódio V (“O Império Contra-Ataca”). Existem andadores de vários formatos e tipos, bípedes ou quadrúpedes, completamente automatizados ou pilotados por um ou mais soldados. A tecnologia para movimentar e coordenar pernas mecânicas já está a ponto de ser dominada até por nós, meros humanos do século XXI e, portanto, não seria problema. O problema é: se você tem acesso a uma tecnologia antigravitacional fácil e barata, por que iria se preocupar com pernas?

A tecnologia antigravitacional é presença constante em "Guerra nas Estrelas". Até mesmo o Luke Skywalker do Episódio IV, morando em um planeta pobre e decrépito, tem um veículo antigravitacional que flutua como que por mágica. Além disso, a tecnologia antigravitacional de "Guerra nas Estrelas" é também portátil, pois bichinhos e aparelhos flutuantes diminutos estão espalhados por todas as partes. Seria razoável, portanto, que os soldados do Império pilotassem apenas veículos antigravitacionais, que não teriam problemas em se locomover sobre o gelo, água, areia ou sobre o solo de florestas, como no Episódio V (“O Retorno do Jedi”).

Imagino que a única razão que teria levado George Lucas a conceber veículos dotados de pernas foi a satisfação em poder derrubá-los. De fato, é isso que acontece nas primeiras cenas de “O Império Contra-Ataca”, quando a base rebelde do planeta Hoth é invadida e Luke aproveita para derrubar um andador quadrúpede (um AT-AT, All Terrain Armored Transport), dando-lhe um nó nas pernas. Veículos flutuantes não permitiriam tal satisfação! Cena semelhante se repete em “O Retorno de Jedi”, quando um andador bípede (um AT-ST, All Terrain Scout Transport) é derrubado durante a batalha de Endor. É evidente que Lucas está apenas se divertindo, pois nenhum império do mal (ou do bem), dispondo de veículos flutuantes, construiria veículos bípedes, trípedes ou quadrúpedes. A propósito, a culpa não é inteiramente de Lucas, pois a primeira aparição de um veículo desse tipo na ficção científica deu-se em “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, refilmado por Steven Spielberg em 2005, e que mostra a invasão da Terra por tripods alienígenas. Mas ao menos os alienígenas de Wells não mostraram dominar a tecnologia antigravitacional e podemos dar-lhes um desconto.

Carros Flutuantes
Passados 30 anos da estréia de “Guerra nas Estrelas”, ainda não temos carros flutuantes. Isso é frustrante, mas não mais frustrante do que saber que podemos nos comunicar com o mundo inteiro de maneira fácil e barata e que podemos acessar todas as bibliotecas online existentes, mas ainda não temos nossas naves espaciais particulares. Ainda assim, imaginemos durante alguns instantes que carros flutuantes sejam possíveis, talvez por meio da manipulação de algum efeito eletromagnético-gravitacional que desconhecemos. Contudo, mesmo que você consiga fazer um carro flutuar e colocá-lo em movimento, como você faria para pará-lo? Afinal, uma rápida olhada na história da indústria automobilística mostra que os automóveis não se tornaram populares apenas por terem motores eficientes, mas também por terem freios eficientes!

Na verdade, os freios não são tão eficientes quanto os motores dos automóveis. Qualquer um que, ao dirigir na estrada, foi apertado por um caminhão Volvo, com motor de 520 cv, sabe muito bem disso! Mas pelo menos os freios atuais, que usam as forças de atrito de discos e pastilhas, conseguem frear os veículos dentro de certos limites de segurança. Só que as forças de atrito estão completamente ausentes no caso dos carros flutuantes. Como então fazê-los parar? Não haveria como. Talvez alguém possa argumentar que a força de frenagem é do mesmo tipo de força misteriosa e desconhecida que faz o carro flutuar. Talvez. Mas essa é mais uma explicação meio fajuta.

A mão metálica de Anakin Skywalker
Como já mencionei, os Jedis vivem cortando as mãos um dos outros. O sabre de luz tem a vantagem de cauterizar o ferimento, evitando hemorragias intensas, mas é espantoso que ninguém se lembre de recuperar a mão cortada, para fins de reimplante, preferindo-se sempre implantar uma mão artificial.

No final de “O Império Contra-Ataca”, Luke Skywalker tem sua mão direita amputada, logo após descobrir que Darth Vader é seu pai (com um pai desses, ninguém precisa de padrasto!). Após ser resgatado pelas forças rebeldes, Luke tem uma mão biônica implantada. Pode-se ver claramente que se trata de uma mão realmente artificial, pois um robô aparece fazendo pequenos testes nela. Além disso, a mão é recoberta por uma espécie de tecido artificial, que a torna aparentemente sensível e muito semelhante à versão biológica. Para quem passou parte da infância em companhia de Steve Austin, nada muito impressionante.

Ocorre que no final do Episódio II (“O Ataque dos Clones”), quem tem as mãos amputadas é Anakin Skywalker, papel vivido pelo pavoroso Hayden Christensen. O Episódio II se passa 20 anos antes do Episódio V, em uma época mais liberal e em uma galáxia repleta de recursos financeiros. Além disso, quando Anakin tem sua mão amputada, ele ainda faz parte da Ordem dos Jedi, que deveriam ter melhores condições de implantar mãos artificiais do que os amigos rebeldes de Luke. Ainda assim, a mão implantada em Anakin é metálica, fria e insensível! Isso seria o mesmo que dizer que os rebeldes iraquianos recebem melhor tratamento médico do que os soldados norte-americanos! Muito estranho.

Como visto, são muitos os mistérios não esclarecidos em “Guerra nas Estrelas”. Mesmo assim, é sempre bom lembrar que o filme trata da guerra entre duas facções de uma religião mística, cujos adeptos lutam com armas impossíveis e usam espaçonaves mais velozes do que a luz para viajar através de uma galáxia habitada por seres das mais diversas espécies, muitos dos quais vivem em harmonia maior do que aquela existente entre seres humanos e cetáceos, além de nutrirem um gosto especial pelo jazz de certo planeta de outra galáxia muito, muito distante. Esperar maior grau de realismo seria destruir a narrativa.

[1] ADAMS, S. O futuro Dilbert: como prosperar com a estupidez do século XXI. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.
[2] ADAMS, S. Life will not be like Star Trek, Harper Business, 1997. Disponível:
<http://scifi.about.com/bladamsstartrek.htm>.

quinta-feira, abril 12, 2007

Kurt Vonnegut

Kurt Vonnegut faleceu ontem, aos 84 anos, em Nova Iorque. Há algumas semanas, Vonnegut havia sofrido uma queda em sua residência, tendo como conseqüência danos cerebrais irreversíveis.

Eu ouvi falar de Vonnegut há muito tempo, mas só fui ler um livro dele (“Matadouro 5”) em janeiro passado.

“So it goes”.

segunda-feira, julho 31, 2006

À frente do nosso tempo

O texto a seguir é a íntegra daquele publicado em 30/07/06 na revista do jornal O Estado do Paraná (O Estado Revista). A introdução é de Abonico Ricardo Smith e as duas últimas resenhas são do Fabrício Muller, umas das duas pessoas que conheço que leu tudo ou quase tudo de Tolstoi, Dostoievsky e Thomas Mann (além de Balzac no original, mas isso qualquer um faz). O resto foi escrito por mim.
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À FRENTE DO NOSSO TEMPO
Saiba um pouco mais sobre clássicos literários com histórias recheadas de tecnologia
Augusto de Almeida e Fabrício Muller
Especial para O Estado Revista

Na Wikipédia - a enciclopédia virtual na qual qualquer um pode escrever ou alterar qualquer verbete - consta: "ficção científica é "uma forma de ficção desenvolvida no Século 20, que lida principalmente com o impacto da ciência, tanto verdadeira como imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos. O termo é usado, de forma mais geral, para definir qualquer fantasia literária que inclua o fator ciência como componente essencial. Portanto, a literatura sempre foi um campo bastante fértil para autores criativos que não dispensam histórias onde a tecnologia é, de alguma forma, elemento indispensável. Nesta edição especial sobre tecnologia, O Estado Revista lista os clássicos sci-fi que você não pode deixar de ler. Quase todos ganharam versões cinematográficas e estão disponíveis também em DVD nas locadoras.

A Guerra dos Mundos, H.G. Wells (Itatiaia, 171 páginas)
Em linhas gerais, podemos dizer que existem dois tipos de histórias de invasão alienígena. Em um deles, o mais sutil, que geralmente ocupa telas de cinema e televisão, os alienígenas dominam a Terra aos poucos, como um vírus que se espalha lentamente, tomando mentes e corpos, usando tecnologia avançada ou simplesmente recursos biológicos. Esse é o caso do filme "Invasores de Corpos" (1956) e do seriado televisivo "Invasion" (2005). O segundo tipo, muito mais antigo, foi fundado por H. G. Wells (1866 - 1946) em seu "A Guerra dos Mundos" (1898) e trata da invasão militar por meio da força bruta. Os alienígenas de Wells são inteligentes, frios e raivosos e pretendem transformar a raça humana em animais de carga e de corte. Mas, mesmo tendo estudado a Terra durante muito tempo, os marcianos são derrotados por um inimigo invisível: o micróbio. Embora um clássico, vertido duas vezes para as telas do cinema e tendo inspirado filmes desde o oportunista "Independence Day" (1996) até o sarcástico "Marte Ataca!" (1996), sem falar na catastrófica adaptação radiofônica de Orson Welles (1938), o final de "A Guerra dos Mundos" nada mais é do que um deus ex-machina: quando tudo parece perdido, os micróbios descem dos céus e resolvem a questão. Apesar disso, Wells deixou no ar também um final alternativo, mesmo que somente como uma espécie de profecia pessimista de um certo soldado da artilharia com o qual o narrador se encontra. Nesse final, os marcianos se estabeleceriam na Terra e governariam os humanos por milênios, passando a nos tratar da maneira gentil como tratamos os outros animais, escravizando a maioria de nós e transformando alguns outros em animais de estimação. Este é certamente um final mais provável, mas somente dentro do universo improvável no qual uma raça super-avançada cruza o espaço interplanetário somente para fazer churrasco.

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley (Globo, 309 páginas)
No século XXVI, os habitantes de Londres são produzidos em série, programados com auxílio de "hipnopédia" e controlados por meio de drogas, de modo a desempenharem adequadamente seus papéis sociais (os "alfas" são diretores e gerentes, os "betas" são trabalhadores qualificados, os "gamas" são trabalhadores braçais e assim por diante até os níveis mais baixos). As guerras e a pobreza não mais existem, pois as pessoas são controladas de maneira a não desejarem nada capaz de colocar em risco a ordem social. O progresso também não existe mais, pois a sociedade já atingiu o máximo desenvolvimento possível. Tudo seria perfeito se não fossem, é claro, um ou dois detalhes. Nesse "Admirável Mundo Novo" (1932) do britânico Aldous Huxley (1894 - 1966), a família foi também eliminada, juntamente com a arte, a literatura, a ciência, a religião e toda a diversidade cultural. Além disso, seres humanos normais (os "selvagens") continuam existindo, vivendo em reservas fora dos limites das cidades. Quando o mundo asséptico dos alfas, betas e gamas entra em contato com o mundo dos selvagens, o conflito eclode e as diferenças são expostas.

É interessante notar que, para construir uma sociedade utopicamente automatizada, Huxley tomou como base as linhas de produção de Henry Ford. Contudo, por volta de 1932, quando o romance foi escrito, o modelo de produção de Ford já estava em decadência, tendo sido substituído pelo modelo diversificado e mais mercadológico de Alfred Sloan, da General Motors. Também é curioso notar que Huxley não menciona o termo "engenharia genética", pois o DNA só viria a ser descoberto na década de 50. Mas, mesmo que fosse projetada e construída por meio da engenharia genética, a sociedade imaginada por Huxley provavelmente seria tão instável quanto qualquer outra. A natureza humana é incontrolável.

Contato, Carl Sagan (Companhia das Letras, 416 páginas)
O astrônomo Carl Sagan (1934 - 1996) ficou conhecido do grande público por meio da série televisiva de divulgação científica "Cosmos" (1980), na qual o cientista discute uma série de problemas relacionados ao universo e à vida. Em 1985, Sagan publicou "Contato", seu primeiro e único romance, que descreve as aventuras da astrônoma Eleanor "Ellie" Arroway, alter-ego de Sagan, em busca de inteligência extraterrestre. O romance gira em torno da construção da "Máquina", uma espécie de nave espacial de propósito desconhecido, cujo projeto havia sido enviado para os terráqueos por supostas criaturas extraterrestres super-inteligentes. Após construir a nave, Ellie e uma equipe internacional de cientistas embarcam em uma jornada rumo ao desconhecido, no final da qual se encontram com os projetistas da "Máquina". Os extraterrestres aparecem, decepcionantemente, com a aparência dos entes queridos de cada um dos tripulantes, não revelam grandes mistérios universais e declaram-se paternalmente preocupados com a raça humana ("aqueles nazistas aos berros deixaram claro que vocês estavam em apuros, mas a música de Beethoven nos mostrou que ainda havia esperança").

Sagan usa "Contato" como cenário para expor suas idéias a respeito de seus assuntos prediletos, como a busca por inteligência extraterrestre, religião, ateísmo, ceticismo, astronomia e ciência em geral. É curioso que Sagan, um dos grandes divulgadores do ceticismo científico, tenha escrito um romance tão repleto de significado religioso. Em vez de buscar a um Deus abramânico, onisciente e onipotente, Sagan busca contato com seres extraterrestres altamente evoluídos, capazes de viagens interestelares, telepatia e experiências em galactogênese artificial. Talvez os psicanalistas estejam certos quando dizem que o ser humano só consegue se definir e se identificar quando em contato com o outro. E, nessa era de crescente globalização, em que todas as pessoas começam a se tornar muito parecidas e quando não existem mais civilizações misteriosas a serem descobertas, é possível que os extraterrestres sejam o "derradeiro outro". A busca por eles é, portanto, a busca por nós mesmos.

Parque dos Dinossauros, Michael Crichton (Best Seller, 473 páginas)
Michael Crichton (n. 1942) é freqüentemente considerado como o criador do techno-thriller, gênero literário que mistura ação, guerra (conforme o caso) e ficção científica, com grande profusão de detalhes técnicos. Em "Parque dos Dinossauros" (1990), Crichton conta a história de um parque temático no qual dinossauros foram recriados a partir de DNA fóssil. Antes da abertura ao público, as empresas de seguro exigem que uma equipe de cientistas (dois paleontólogos e um matemático especializado em teoria do caos) faça uma auditoria das instalações. Durante a visita, os dinossauros fogem ao controle e provocam muita destruição e morte. Embora freqüentemente use seus livros para apresentar novas descobertas científicas, Crichton sempre envolve suas histórias em uma aura de "complexo de Frankenstein", aquele pressuposto segundo o qual a criatura se volta contra o criador. Apesar disso, o livro abriu um debate científico sobre as reais possibilidades de se clonar seres extintos, além de apresentar ao grande público a teoria de que os dinossauros teriam sido criaturas de sangue quente e muito bem adaptados ao meio-ambiente ancestral.

2001: Uma Odisséia no Espaço, Arthur C. Clarke
"2001: Uma Odisséia no Espaço" (2001: A Space Odyssey, 1968) foi escrito por Arthur C. Clarke (n. 1917) concomitantemente com o roteiro da versão cinematográfica de Stanley Kubrick. A história começa quando uma antiga raça alienígena, na África, há três milhões de anos, usa uma espécie de monolito para ensinar alguns hominídeos a construir armas e começar a comer carne. Posteriormente, já em 1999, o monolito reaparece na Lua, onde é descoberto por uma expedição. Dois anos depois, entra em cena a espaçonave Discovery, tripulada por David Bowman, Frank Poole, três astronautas em animação suspensa e pelo computador HAL. A nave está em missão a Japeto, lua de Júpiter. HAL começa a apresentar certos defeitos (identificados por alguns como uma espécie de paranóia cibernética) e passa a acreditar que os astronautas estão colocando a missão em risco. Após matar os astronautas em hibernação, arremessar Poole ao espaço e quase matar Bowman, HAL é finalmente desligado pelo astronauta sobrevivente. Sem condições de retornar à Terra, Bowman continua se aproximando de Japeto. Ao embarcar em atividade extra-veicular para investigar o monolito recém-descoberto em órbita da lua, Bowman é engolido por ele, transformando-se em um ser imortal, capaz de viajar pelas estrelas: a "criança estelar". Tanto o livro quanto o filme levantam mais perguntas do que as respondem, tocando em assuntos que transitam entre a evolução humana, contato com seres extraterrestres, inteligência artificial e os perigos da tecnologia e da exploração espacial. As relações entre a humanidade e os construtores dos monolitos ficam mais claras nos livros seguintes: "2010: Odyssey Two" (1982), "2061: Odyssey III" (1988) e "3001: Final Odyssey" (1997). Ao leitor que porventura pense que os alienígenas da serie "Odisséia" são místicos ou espirituais demais, fica o recado da terceira lei de Clarke: "qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia".

O Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams (Sextante, em quatro volumes: O Guia do Mochileiro das Galáxias - vol. 1 ; O Restaurante no Fim do Universo - vol. 2 ; A Vida, o Universo e Tudo Mais - vol. 3 ; Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes! - vol. 4)
Em uma bela manhã inglesa, o inglês Arthur Dent descobre que sua casa inglesa será demolida para dar passagem a uma nova rodovia. Pior do que isso, pouco depois ele descobre que seu amigo Ford Prefect é na verdade um alienígena nascido em um pequeno planeta na vizinhança de Betelgeuse. Muito pior ainda, ele descobre que em breve a Terra será destruída pelos vogons, alienígenas emburrados, para dar passagem a uma nova rodovia hiperespacial. Pegando carona em uma nave vogon e com auxílio do Guia do Mochileiro das Galáxias, Prefect e Dent iniciam uma viagem pelo universo, visitam o lendário planeta Magrathea, onde há muito vicejou uma indústria de construção de planetas, e descobrem que a Terra era um supercomputador construído por uma raça de seres pan-dimensionais, conhecidos por aqui como "camundongos", com o objetivo de responder à pergunta definitiva sobre a vida, o universo e tudo mais. Contudo, os vogons destruíram a Terra cinco minutos antes da finalização do programa que estava rodando há 10 milhões de anos!

Com sua prosa sarcástica e repleta de nonsense, Douglas Adams (1952 - 2001) conta uma história absurda, com personagens absurdos vivendo situações absurdas. Contudo, o que é mais absurdo: destruir um planeta para construir uma rodovia hiperespacial, ou destruir um país inteiro para resgatar um ou dois soldados? O humor de Adams agrada a muitos, pois os alienígenas retratados por ele são humanos, muito humanos, e desagrada a outros tantos, provavelmente pela mesma razão. Para felicidade dos fãs, Adams continuou sua sátira em "O Restaurante no Fim do Universo" (1980), "A Vida, o Universo e Tudo Mais" (1982) e "Até mais, e Obrigado pelos Peixes!" (1984). O quinto livro da série, Mostly Harmless (1992), ainda não foi lançado no Brasil. A pergunta sobre a vida, o universo e tudo mais foi finalmente respondida, mas até o momento ninguém entendeu a resposta.

Eu, Robô, Isaac Asimov (Ediouro, 320 páginas)
Em "Eu, Robô" (1950), Isaac Asimov (1920 - 1992) nos apresenta nove contos publicados nas pulp magazines Super Science Stories e Astounding Science Fiction entre os anos 40 e 50. Os contos são entrelaçados por meio de uma entrevista dada pela Dra. Susan Calvin, primeira robô-psicóloga da história, a um repórter, e cobrem desde o aparecimento dos primeiros robôs positrônicos na Terra até o advento das viagens hiperespaciais, desenvolvidas com auxílio de cérebros positrônicos. Asimov cria um conjunto de "leis da robótica" e usa seus robôs humanóides para testar situações nas quais as leis entram em conflito. Em dada altura, um robô é fabricado com um defeito que lhe confere a capacidade de ler mentes humanas. Ninguém sabe qual o defeito, exceto o robô. O conflito aparece quando a Dra. Calvin ordena que o robô lhe conte como reproduzir tal defeito. Caso não obedeça, o robô entrará em conflito com a segunda lei ("um robô deve obedecer às ordens dadas pelos humanos, a não ser naquelas situações em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei"). Contudo, podendo ler a mente da Dra. Calvin, o robô sabe que ela ficará desapontada quando descobrir que ele é capaz de saber algo sobre os cérebros positrônicos que ela não sabe. Assim, caso obedeça à ordem, ele causará mal a um ser humano e entrará em conflito com a primeira lei ("um robô não pode causar mal a um ser humano, ou, por inação, permitir que um ser humano sofra um mal"). Como resultado, o pobre robô entra em um dilema deôntico e coloca sua existência em risco, entrando em conflito com a terceira lei ("um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e a segunda leis").

Asimov domina com maestria essas situações de conflito envolvendo as leis da robótica, mesmo que elas não passem de conflitos humanos simplificados. Não sendo um grande construtor de personagens humanos, Asimov tornou-se um grande construtor de personagens robóticos. Antes dele, os robôs já existiam na ficção científica, mas eram vistos como meros servos ou então como ameaça no estilo "Frankenstein". É curioso que Asimov tenha passado à historia como o escritor que conseguiu humanizar os robôs, ao mesmo tempo em que robotizou os personagens humanos.

Solaris, Stanislaw Lem (Relume Dumará, 272 páginas)
Em "Solaris" (1961), Slanislaw Lem (1921 - 2006) aborda o tema do encontro entre seres humanos e uma criatura alienígena não humanóide. Em vez de se dedicar a uma gosma esverdeada fantasmagórica flutuante, Lem nos apresenta o planeta Solaris, cujo oceano é um único organismo vivo, com demonstrações de inteligência e consciência, embora em um sentido completamente alienígena. Enquanto todas as tentativas de comunicação falham, o oceano de Solaris parece se divertir com os humanos, vasculhando-lhes o inconsciente e tirando deles lembranças dolorosas do passado, as quais são materializadas em forma de pessoas e apresentadas aos pesquisadores. Kris Kelvin, o protagonista, é enviado ao planeta e emerge inadvertidamente em meio à confusão. Rapidamente Kelvin passa a receber a visita de sua ex-mulher Rheya, que havia cometido suicídio depois de se separar dele. Diferentemente do final ameno na recente adaptação para o cinema, Lem não nos oferece soluções definitivas para os conflitos emocionais que se instauram na mente de Kelvin e na da mulher sintética, recriada à perfeição pelo Oceano. Em vez disso, Lem deixa claro que nosso antropomorfismo ocidental, segundo o qual o homem é a medida de todas as coisas, é irrelevante em termos universais. Se o homem sempre se projeta no universo, em Solaris é o universo que se projeta no homem. E isso é insuportável para nossos cérebros ego-centrados.

As Crônicas Marcianas, Ray Bradbury (Globo, 304 páginas)
"As Crônicas Marcianas" (1950) formam um conjunto de contos publicados por Ray Bradbury (n. 1920) nos anos 40, apenas levemente costuradas em forma de livro e nem sempre pertencentes ao mesmo universo ficcional. Esqueça tudo o que você sabe sobre Marte. Esqueça as descobertas atuais e esqueça o pouco que se sabia sobre esse planeta na década de 40. Em vez de um planeta frio, árido e de atmosfera tênue, Bradbury nos apresenta um Marte que só poderia existir em um universo paralelo: quente, respirável, repleto de canais construídos por uma civilização antiga, habitado por marcianos românticos e sonhadores. Fugindo de uma Terra tumultuada, os seres humanos começam a ocupar Marte lentamente, chegando com seus foguetes, construindo cidades humanas e fazendo piqueniques humanos. O futuro da Terra é incerto e a esperança parece residir em outro planeta. Bradbury, o poeta da ficção científica, escrevendo no início da Guerra Fria, aproveita para expor suas preocupações acerca do progresso tecnológico, imperialismo, poluição, censura, guerra nuclear e valores familiares. "As pessoas me pedem para prever o futuro, quando tudo que eu quero é preveni-lo", diz ele.

O Homem de Dois Mundos, Frank Herbert e Brian Herbert
Frank Herbert (1920 - 1966) é mais conhecido como autor dos livros da série "Duna". Em "O Homem de Dois Mundos" (1986), ele se une ao seu filho Brian para contar a história do encontro entre os dreens e os seres humanos. Os dreens, os seres mais poderosos do universo, vivem no distante planeta Dreenor. Tudo que existe no universo, vivo ou inanimado, é fruto da imaginação dos dreens, ou melhor, da "idmaginação". Em um canto escuro da galáxia, entretanto, franceses e chineses lutam pelo domínio do planeta Vênus e estão prestes a descobrir o segredo das viagens interestelares. Se essa espécie primitiva e beligerante chegar até Dreenor, será o fim do universo. Os anciãos de Dreenor resolvem então destruir a Terra. Antes que isso aconteça, um adolescente dreen, chamado Ryll, embarca em uma viagem não autorizada até a Terra. Ao colidir com uma nave terrestre, Ryll sofre ferimentos graves e é forçado a se fundir a Lutt, um humano. Um só corpo e duas mentes: um alienígena ingênuo e um terráqueo agressivo. Se alguma coisa acontecer a Dreenor, restará a Ryll, e a apenas outro dreen, a tarefa de manter o universo no lugar, com um agravante: os dreens ficam chapados com manjericão, planta da qual a Terra está cheia! As inquietações existenciais de Frank, temperadas pelo humor e cinismo de Brian Herbert, produziram um misto sem igual de fantasia e ficção científica.

1984, George Orwell (Nacional, 302 páginas)
"1984", de George Orwell (1903 - 1950) é provavelmente uma distopia mais conhecida do que "Admirável Mundo Novo". Uma das razões talvez seja a crença de que os eventos descritos por Orwell tinham data marcada para acontecer e, de fato, por volta de 1984 houve muita agitação em torno do livro. Contudo, acredita-se que o título do livro, que originalmente se chamava "O Último Homem na Europa", venha de uma simples troca dos últimos dígitos do ano em que Orwell acabou de escrevê-lo: 1948. Outra razão é que a sociedade de "1984" é mais verossímel do que a de "Admirável Mundo Novo". Nunca existiu na Terra uma sociedade cientificamente planejada e controlada como a de Huxley, mas todos presenciamos tentativas de construção de sociedades totalitárias como a de Orwell. Referências ao "Grande Irmão" nos apavoram, pouquíssimos de nós apreciam a opressão maciça e nosso amor pela liberdade de expressão é grande a ponto do governo cubano nunca ter repelido hordas de norte-americanos cruzando o mar rumo a Havana. Se Huxley retrata uma sociedade que retira a liberdade de seus cidadãos por meio de drogas, engenharia social e lavagem cerebral, Orwell retrata uma sociedade que retira a liberdade por meio da opressão, da violência e da instauração do temor coletivo. Difícil decidir qual a mais aterradora.

A Mão Esquerda da Escuridão, Ursula Le Guin
Ursula Le Guin já foi definida como uma escritora de ficção científica para quem não gosta de ficção científica. Apesar disso, "A Mão Esquerda da Escuridão" arrematou os mais cobiçados prêmios do gênero: o Nebula, em 1969, e o Hugo, em 1970. No livro, Genly Ai é o representante de uma federação galáctica de mundos cujo objetivo é arrebanhar o gelado mundo de Gethen. Os habitantes do planeta são humanóides não muito diferentes dos seres humanos, a não ser por uma única e importante característica: eles são andróginos. Durante três semanas de cada mês, os gethenianos são biologicamente neutros, e durante a semana restante podem ser macho ou fêmea, dependendo das interações entre os feromônios de um possível parceiro. A tese de Le Guin é que em uma sociedade igualitária a guerra e o nacionalismo seriam inexistentes. As nações existiriam, certamente, com diferentes culturas separadas pela distância, mas se fundiriam facilmente quando necessário. A diminuição do ímpeto pela conquista tornaria o progresso mais lento e as pessoas seriam menos apressadas. Como tal sociedade dificilmente surgiria pelas pressões evolutivas naturais, Le Guin argumenta que os gethenianos teriam sido produzidos por meio de engenharia genética, como forma de resistir aos rigores glaciais do planeta Gethen, que desempenha o papel de um personagem adicional. Uma tese fascinante, desenvolvida com talento e lirismo. O preço da paz imaginada por Le Guin, contudo, talvez seja alto demais, ao menos de um ponto de vista meramente humano.

Laranja Mecânica, Anthony Burgess : (Aleph, 200 páginas)
No início da década de 60, o britânico Anthony Burgess antevia um futuro desolador e violento, no qual jovens se dividem entre a veneração pela música erudita de Beethoven e a violência gratuita e desenfreada provocada pelas ruas. Tais atos são pontuados por uma estranha gíria criada pelo autor, o nasdat. Apesar de situado em um futuro impreciso, Laranja Mecânica reflete uma série de preocupações do autor, relacionadas à época em que ele foi escrito, no início da década de 60. As gangues mostradas no livro têm relação direta com a delinqüência juvenil de então - era época das brigas entre mods e rockers. E o método de lavagem cerebral testado no personagem principal, um líder de gangue chamado Alex, é reflexo da preocupação de Burgess com o totalitarismo da União Soviética - não por acaso, a gíria nasdat possui diversas expressões de origem russa. Laranja Mecânica teve uma extraordinária versão para o cinema (para muitos melhor que o livro) lançada em 1971 e dirigida por Stanley Kubrick.

Neuromancer, William Gibson (Aleph, 305 páginas)
Case é uma espécie de super-hacker do futuro, especializado em penetrar em sistemas corporativos para espalhar vírus e obter informações sigilosas, numa época futura em que a tecnologia consegue transformações espantosas na biologia do ser humano (como olhos computadorizados, por exemplo). Lançado originalmente em 1984, Neuromancer é o primeiro (e, segundo muitos, o melhor) dos livros de uma corrente da ficção científica chamada cyberpunk. Gibson criou um futuro assustador, no qual as organizações mafiosas e terroristas, as grandes corporações e as metrópoles atingem um padrão de gigantismo inimaginável nos dias de hoje. É um mundo praticamente sem ética, de competição acirrada e desleal, e em que os seres humanos estão constantemente preocupados com possíveis avanços da Inteligência Artificial. No livro, a fusão entre informática e vida real é tão aprofundada que, muitas vezes, esta fica em segundo plano: o mundo físico em Neuromancer é freqüentemente sujo, abandonado e decadente.

terça-feira, agosto 02, 2005

The Hicthhiker's Guide to the Galaxy

Don't panic! O filme não é tão bom quanto eu esperava, mas é muito melhor do que poderia ser. Algumas cenas são puro Monty Python, outras lembram Barbarella e há até mesmo algumas menções a Star Wars. De qualquer forma, não é fácil encontrar um filme onde o protagonista passa o tempo todo de pijamas, sem falar em um robô depressivo, em empresas de engenharia planetária, em um líder religioso com apenas metade do corpo e em um presidente da galáxia com duas cabeças (e, aparentemente, duas caras). Um ponto negativo diz respeito à versão brasileira, pois a narrativa de Stephen Fry foi substituída pela de José wilker. Parece que a pós-produção brasileira achou que o filme ficaria complicado com legendas da narração e legendas das falas. Em DVD deve ser melhor...

Naturalmente, não é um filme para qualquer um, mas os fãs de Adams são muitos e ardorosos. No site IMDB, por exemplo, um internauta postou uma mensagem como o título "Doesn't anyone agree that this movie sucked?", e obteve dezenas de respostas indignadas. Ainda assim, HHGG arrecadou US$ 21 milhões na primeira semana de exibição nos EUA, e permaneceu entre os dez filmes mais assistidos durante quatro semanas. O filme custou US$ 45 milhões e a arrecadação mundial, até junho de 2005, era de US$ 82,8 milhões. Logo, o filme se pagou e ainda sobrou para fazer o segundo, ou pelo menos para financiar uma parte. Resta só esperar e torcer.

No Brasil, o sucesso do filme deve ter sido bem menor (apesar das recomendações de Sérgio Dávila, que disse que o filme dava de dez a zero em Star Wars - A Vingança dos Sith), pois o senso de humor nacional está a milhas de distância do humor inglês. Se a coisa não for escrachada, o brasileiro médio não entende.

Algumas frases de Douglas Adams:

"I wrote an ad for Apple Computers: "Macintosh: we might not get everything right, but at least we knew the century was going to end.""

"A learning experience is one of those things that say "you know that thing you just did? Don't do that."

"Technology is a word that describe something that don't work yet."

Sites:

- Douglas Adams Continuum
- Wikipedia

segunda-feira, julho 11, 2005

Guerra dos Mundos

Apesar da minha expectativa, “Guerra dos Mundos” não é tão ruim quanto prometia. O filme não corresponde à exaltação de alguns fãs mais radicais de Spielberg (“Spielberg está de volta!”, “Spielberg acertou a mão!”, etc), mas pelo menos entretém.

Spielberg se manteve razoavelmente fiel ao livro de H.G. Wells, inclusive mantendo o final manjado e que na verdade não passa de um “deus ex machina”, com o devido respeito a Wells. Mas Spielberg dá umas escorregadas aqui e lá. Por exemplo, é difícil aceitar que os tripods estivessem enterrados no solo durante milhares ou milhões de anos, sem falar em pessoas sendo vaporizadas enquanto as roupas permanecem intactas (o inverso seria muito mais interessante...).

De qualquer forma, “Guerra dos Mundos” não é o mesmo desastre de “A.I.”, um filme que acaba no meio. Tom Cruise, apesar de grandes esforços, não consegue estragar a produção e a manutenção do final original, embora conhecido, foi opção melhor do que um final heróico, com norte-americanos lutando bravamente contra os invasores, liderados por um Zé Mané vestido de vermelho, azul e branco.

Mas ainda acho que “Marte Ataca” é muito melhor...

sexta-feira, julho 26, 2002

Ânnima, de Toni Casagrande

"Ânnima - A Clonagem e a Busca da Vida Eterna" é o primeiro romance de Toni Casagrande, jornalista e âncora da CBN-Curitiba. Trata-se de um romance de ficção científica que aborda temas como criogenia, clonagem, biodiversidade, efeito estufa e uma boa dose de filosofia e psicologia cognitiva.

O livro é narrado em primeira pessoa. O protagonista, portador de uma doença fatal, tomou a decisão de ser congelado após a morte, no início do século XXI. Sem herdeiros, ele investe todo o seu dinheiro em uma Fundação, cujo objetivo seria pesquisar a cura da doença que o vitimou. Ele é reanimado mais de cem anos depois, quando a Fundação transformou-se em uma mega-corporação, os países não existem mais, uma parte da Amazônia transformou-se em deserto, seres humanos, andróides e robôs convivem agora lado a lado (e até mesmo participam de jogos de futebol!) e há uma profusão de animais e plantas modificados geneticamente, sem falar nas máquinas orgânicas.

O tema da criogenia, ou "criônica", para sermos mais precisos, é recorrente em ficção científica, tendo sido usado tanto no cinema e na televisão (Buck Rogers, Star Wars, Star Trek) quanto em livros (3001: Odisséia Final, por exemplo). Não há problema algum que o tema não seja totalmente original. Em ficção científica, como de resto em toda a literatura, o que vale é a maneira como uma história é contada e não a história em si. É o que acontece em Ânnima. A trama poderia parecer trivial: o protagonista é congelado, reanimado, fica maravilhado com o mundo novo, mas não consegue se adaptar. Contudo, Casagrande vai um pouco além. O processo criogênico a que o protagonista, conhecido simplesmente como "Fundador", foi submetido não é perfeito. Uma grande quantidade de células, inclusive células cerebrais, foi destruída. Após várias tentativas de reparação, os cientistas da Fundação chegam à conclusão que para que o Fundador continue vivo será necessário transferir a mente dele para o corpo de um clone, processo que será feito por meio de um equipamento conhecido como Ânnima, daí o título do livro. As indagações filosóficas do protagonista se intensificam nesse ponto. "Será que continuarei vivo?". "Vou me sentir como eu mesmo?". "Por que tenho que morrer de novo?".

Na vida real, a conservação criônica ganhou novamente as páginas dos jornais quando o jogador de baseball Ted Williams foi submetido ao processo no início de julho de 2002. O mercado criônico parece estar em expansão em várias partes do mundo, especialmente nos Estados Unidos, mas devemos estabelecer uma diferença entre as verdadeiras aplicações da tecnologia e aquilo que é só promessa. A "Criogenia" é o estudo científico do comportamento dos materiais em temperaturas muito baixas, geralmente usando-se nitrogênio ou hélio líquido. Alguns materiais só se comportam adequadamente em temperaturas criogênicas, como é o caso dos supercondutores. Temperaturas mais altas do que a do nitrogênio líquido, mas ainda muito baixas para os padrões humanos, também são usadas rotineiramente para a preservação de materiais e equipamentos e conservação de alimentos. A "Criônica", por outro lado, é um processo criado nos anos 60 que consiste em se congelar, usualmente com nitrogênio líquido (muito mais barato que hélio líquido), pessoas que foram declaradas legalmente mortas. Várias empresas realizam tal processo, como o Cryonics Institute, que cobra preços a partir de US$ 28.000.Outras empresas cobram US$ 120.000 pelo congelamento do corpo inteiro e US$ 50.000 pela opção "neuro" (somente a cabeça). Um grande mercado! O argumento de todas essas empresas é o de que, no futuro, os cientistas saberão como ressuscitar a pessoa congelada e também como reconstruir as células danificadas. Preciosismos terminológicos à parte, no momento a criônica é apenas a segunda maneira mais dispendiosa de se "enterrar" um cadáver (a primeira é colocar as cinzas em uma pequena cápsula em órbita da Terra).

Embora a criogenia seja atualmente utilizada em várias aplicações, nada garante que ela possa ser aplicada em seres humanos como método de hibernação. É verdade que fragmentos do cérebro humano já foram congelados e descongelados com sucesso, mas ninguém pode assegurar sucesso quando se fala do cérebro inteiro e de toda a informação que ele contém. Conjectura-se que o congelamento destruiria as delicadas membranas celulares e deslocaria os neurônios de suas posições, provocando uma espécie de "formatação" no cérebro. Mesmo que a reanimação fosse feita com sucesso, a pessoa que passou pelo processo acordaria com o cérebro "em branco", tendo que aprender tudo de novo e de modo algum se sentiria como a pessoa que foi antes do congelamento.

Casagrande se depara com a necessidade de reparar os danos causados pelo processo criônico, lançando mão de outra idéia da ficção científica conhecida como "transferência de mentes". Esta idéia foi usada por Arthur C. Clarke em "A Cidade e as Estrelas" (1956) e por esse mesmo autor em "3001: Odisséia Final" (1997), embora com outras finalidades e em situações bastante diferentes. Afinal, se a mente é apenas o conteúdo de um cérebro, basta descobrir como as informações estão codificadas para podermos transferir o conteúdo de um cérebro para outro (vamos deixar os detalhes técnicos de lado...), como se faz com discos de computador. A idéia parece absurda, mas não o suficiente para deixar de ser levada a sério por alguns cientistas. Por exemplo, o Dr. Christopher Winter, fundador da equipe de Vida Artificial da British Telecom, calcula que serão necessários cerca de dez terabytes (o número um seguido de treze zeros) para armazenar todas as memórias e experiências de uma pessoa. Winter acredita que esta tecnologia estará disponível dentro de 30 anos (a previsão é de 1997). É claro que, além disso, será necessário saber como ler e gravar as informações em um cérebro humano, tecnologia que parece tão longe de nós quanto a Lua estava dos primeiros hominídeos.

No livro, os cientistas da Fundação decidem então transferir a mente do protagonista para um corpo clonado a partir dele mesmo, só que muito mais jovem. A finalidade seria se livrar de todos os danos orgânicos causados pelo congelamento. Contudo, usando-se a transferência ou não, o processo criônico pode causar mais danos do que o autor deixa transparecer até muito perto do fim do livro. O leitor apressado pode pensar que Casagrande não está a par desses danos, ou que os está deixando de lado para o bem da ficção. Bem, eu garanto que ele está bem a par dos fatos, e a maneira que ele imaginou para tratar dos danos causados pelo congelamento é o que há de mais genial no livro. Infelizmente, revelar o truque seria estragar o desfecho dessa história de ficção que é também uma história de mistério. Para saber o final, só comprando o livro.

O único ponto desabonador é o pequeno tamanho do livro. É claro que mais páginas significariam diminuir as chances de vendagem do livro, o que é uma pena, pois o autor demonstra claramente que poderia ter escrito um livro de 250 ou 300 páginas. Felizmente, algumas pontas ficaram soltas, talvez propositalmente. No fim do livro, o protagonista começa a trabalhar com um cientista que está desenvolvendo um equipamento capaz de intermediar a comunicação entre várias pessoas, colocando os cérebros delas diretamente em rede, não importando a distância entre elas. O impacto social dessa "mente coletiva" seria avassalador e parece um ótimo tema para um segundo livro.

Como leitor de ficção científica de longa data, fiquei muito entusiasmado com a publicação de um autor paranaense nessa área tão pouco valorizada pelo mercado brasileiro de livros. Em países mais avançados, especialmente nos EUA, a ficção científica é uma grande indústria. São publicados mais de duzentos livros por ano e há várias revistas que publicam contos mensalmente. Imagino que isso não seja apenas uma coincidência, mas sim uma demonstração, ainda que tosca, do fato de que países mais avançados dão mais atenção à tecnologia e a seus efeitos sobre a sociedade do que nós. E é disso que trata a ficção científica: não da tecnologia e da ciência em si mesmas, mas sim dos efeitos destas sobre a vida e sobre a mente das pessoas. Nesse aspecto, Casagrande mostrou ser um grande escritor de ficção científica. Em todas as 173 páginas do livro percebemos as inquietações do autor: "Será que sabemos onde vai dar toda essa tecnologia?", "Quantas modificações e impactos ambientais o planeta pode absorver?", "Quem somos nós e porque somos conscientes de nós mesmos?". Ainda não sabemos as respostas para estas perguntas. Tudo que sabemos é que a tecnologia não pode nos dar tais respostas e que devemos procurá-las em outro lugar, talvez dentro de nós mesmos.

Pós-escrito: Esta resenha foi também publicada no jornal O Estado do Paraná, em 06/08/2002, na coluna do jornalista Gladimir Nascimento. Agradeço a ele pela oportunidade.