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terça-feira, setembro 11, 2007

Mais um pouco sobre dublagem de seriados: os “cristais delirantes” de Star Trek

Um colega que leu o meu post anterior, e que trabalha com tradução profissional, acredita que o erro de tradução de “circuit board” tenha sido acidental, algo como dizer “quente água”. Talvez. Ele também comenta que o erro dos tradutores do seriado “24 Horas”, que traduziram “circuito de placa” em vez de “placa de circuito”, não se compara “às legendas das batalhas espaciais de Babylon 5, ao fato se de referirem a aviões de combate sempre como ‘naves’, naqueles programas que passam na quinta à noite no The History Channel ou, o que talvez seja o caso mais clássico de todos, os 'cristais delirantes' do primeiro filme de Star Trek”.

“Cristais delirantes”! Da mesma forma que muita gente da minha geração, eu assisti ao primeiro filme de Star Trek incontáveis vezes, nas versões legendada e dublada, mas confesso não ter percebido essa tradução criativa de “dilithium crystal” [1]. Contudo, me lembro claramente da tradução de “warp” como “arqueada”, termo que deixa claro que os tradutores não tinham idéia do que se passava no filme.

Por coincidência, ontem à noite o SciFi Channel estava exibindo o episódio “Elementary, Dear Data” [2], do início da segunda temporada de “Star Trek: The Next Generation”. No início do episódio, Data está conversando com La Forge e comenta algo sobre as habilidades do engenheiro, dentre as quais estaria a capacidade de trabalhar com “reguladores de delírio”.

Para quem tem que cumprir prazos e metas, deve ser realmente fácil confundir “dilithium” (uma palavra que existe também no mundo real) com “delirium” ou “deliriant”. Ainda assim, será que os tradutores não perceberam que o resultado, com o perdão do trocadilho, ficou delirante demais?

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[1] WIKIPEDIA. Dilithium (Star Trek). Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Dilithium_%28Star_Trek%29>.
[2] STARTREK.COM. Elementary, Dear Data. Disponível em: <http://www.startrek.com/startrek/view/series/TNG/episode/68364.html>.

sábado, setembro 08, 2007

O fantástico “Circuito de Placa” do seriado 24 Horas

No início de julho de 2007, o canal Fox passou a exibir toda sua programação dublada em português, em substituição ao tradicional som original com legendas. Na época, a assessoria de imprensa do canal declarou que o novo sistema era experimental e que pretendia avaliar a rejeição ou aprovação por parte dos telespectadores [1].

Três meses depois, há indícios de que a medida pode ter sido desastrosa. De acordo com um relatório divulgado pelo Ibope, entre junho e julho a Fox caiu da oitava para a décima posição na classificação dos canais da TV paga [2]. Os números ainda precisam ser melhor avaliados, pois a métrica que o Ibope divulga para a TV paga é o “alcance” (número de telespectadores que sintonizam determinado canal durante pelo menos um minuto), e não a “audiência” (média de telespectadores que sintonizam um canal ou programa durante um intervalo maior de tempo). Mesmo assim, trata-se de uma evidência de que o novo sistema não está dando certo.

Particularmente irritados ficaram os fãs do seriado “24 Horas”, cuja sexta temporada está sendo exibida pela Fox. Não é preciso dizer o quão radicais os fãs de seriados podem ser quando deparados com mudanças em aspectos que consideram intocáveis. Para piorar a situação, a dublagem de “24 Horas” não é apenas uma traição àqueles que acompanham o seriado desde o início. A dublagem é também ruim. Prova disso é a tradução dada ao termo “circuit board”, citado a partir do 18° episódio da sexta temporada [3].

Mesmo aqueles que têm um conhecimento apenas elementar da língua inglesa sabem que a tradução correta de “circuit board” é “placa de circuito”. As placas em questão são construídas com fibra de vidro ou fenolite e contêm os caminhos elétricos que ligam os diversos componentes de um circuito eletrônico. A rigor, deveríamos dizer “placa de fiação impressa”, pois os componentes eletrônicos também fazem parte do circuito, mas não são impressos na placa. Apenas a fiação é impressa. Contudo, os termos “placa de fiação”, “placa de circuito”, “fiação impressa” ou “circuito impresso” são tradicionalmente usados. O termo “placa” também é frequentemente usado, desde que o contexto deixe claro do que se trata. E, em geral, o contexto é tão claro que a mera citação da palavra “placa” não deixará dúvida alguma em um engenheiro eletrônico.

Apesar disso, os tradutores de “24 Horas” resolveram usar o termo “circuito de placa”, que realmente dói no ouvido. Uma rápida pesquisa no Google teria evitado o vexame.


[1] UOL Televisão. 05 jul. 2007. Disponível em: <http://televisao.uol.com.br/ultnot/2007/07/05/ult4244u230.jhtm>.
[2] Folha Online. 31 ago. 2007. Disponível em:
< http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3108200704.htm>.
[3] 24 Episode Guide. Season 6. Disponível em:
< http://www.fox.com/24/episodes/11pm.htm >.

sexta-feira, julho 14, 2006

Dublagem obrigatória de filmes estrangeiros?

É do Acre que vem a última novidade desse país ensolarado, cheio de ônibus queimados e analfabetos: o deputado Nilson Mourão, do PT, quer tornar obrigatória a dublagem de filmes estrangeiros.

Um dos argumentos do deputado é que as legendas dificultam a compreensão por parte das pessoas de menor poder aquisitivo. Só que essas pessoas são justamente aquelas que não freqüentam os cinemas, os quais, na maior parte das grandes cidades brasileiras, encontram-se escondidos no interior de Shopping Centers, redutos das classes sociais mais altas.

Outra justificativa é que a obrigatoriedade da dublagem aumentaria o campo de trabalho para os dubladores. Mas, como argumenta muito bem Marcos Petrucelli, os filmes que interessam já são dublados quando do lançamento em DVD. A obrigatoriedade da dublagem para o cinema apenas anteciparia o trabalho, mas não produziria mais trabalho. Além disso, o deputado se esquece de mencionar que todo o pessoal que trabalha legendando os filmes perderá imediatamente o emprego!

Do meu ponto de vista, que imagino seja compartilhado por muita gente que já passou infindáveis tardes e noites em cinemas, uma dublagem mal feita é uma grande porcaria. Já uma dublagem bem feita é apenas uma pequena porcaria.

Os dubladores que me perdoem, mas não há como ser diferente. Mesmo que não houvesse o problema do sincronismo labial, não seria possível substituir a voz de um ator ou atriz, que está vivendo o filme, pela voz de um dublador, que trabalha no conforto de um estúdio de gravação. Grandes atores podem trabalhar como dubladores, mas o inverso é muito menos freqüente.

É claro que há precedentes perigosos, pois outros países adotam há anos essa política de pasteurizar filmes estrangeiros. Isso acontece, por exemplo, na França, mas os franceses têm também outros hábitos estranhos, como comer sapos e caracóis, e não podem ser tomados como exemplo. O problema é que, se a coisa virar moda, cedo ou tarde o Congresso vai tornar obrigatório que até mesmo as músicas estrangeiras sejam dubladas!

De qualquer forma, é provável que essa lei seja apenas parte do plano da ala radical do PT para dominar o mundo. Uma vez aprovada a lei, os ricos e milionários continuarão assistindo os filmes em Nova Iorque e Londres, antes do lançamento no Brasil. A classe média continuará escondida em casa, fugindo dos bandidos e assistindo filmes em DVD, onde já é possível escolher o idioma e as legendas. E os pobres finalmente tomarão conta dos Shopping Centers, instaurando a revolução do proletariado prevista por Marx, e poderão assistir filmes dublados por um preço módico, pelo menos enquanto os cinemas aguentarem. No fim, teremos conseguido fazer aquilo que nem os soviéticos e nem Fidel conseguiram: quebrar Hollywood!