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sexta-feira, dezembro 26, 2008

Participação no programa "Com a Palavra", 29/12

Para quem não tiver absolutamente nada o que fazer na noite do dia 29/12 (próxima segunda-feira), fui escalado para representar a UTFPR no programa "Com a Palavra", que vai ao ar às 19h, pela TV Educativa do Paraná. O tema do programa será "Tendências e perspectivas para a área de tecnologia".

"Com a Palavra" é um programa de debates e entrevistas apresentado pela jornalista Fabíola Guimarães e vai ao ar de segunda a sexta. Os telespectadores podem participar, enviando perguntas por e-mail (comapalavra@rtve.pr.gov.br) ou telefone (0800 643 7555) durante a exibição do programa.

A TV Educativa pode ser assistida pela antena parabólica, na frequência de 1.320 MHz, polarização horizontal, ou pelo link ao vivo http://www.pr.gov.br/rtve/aovivo_tv.html.

quinta-feira, julho 19, 2007

Moto contínuo: o sonho que não quer morrer

Alguns assuntos definitivamente me perseguem. Há pouco mais de um mês recebi seguidamente vários e-mails sobre um tal "motor revolucionário", supostamente desenvolvido por japoneses e baseado "num simples princípio básico de actração e repulsão de corpos magnéticos" (sic). O motor seria ainda "capaz de gerar energia mecânica de forma contínua e quase ilimitada, sem consumir nenhuma energia". Em resumo: outra proposta de moto contínuo, aquele criatura fictícia que seria capaz de gerar energia com rendimentos superiores a 100%.

Há um vídeo do suposto motor no Youtube [1], mostrado também abaixo, no qual se menciona que o invento já estaria em fase de testes no Japão, mas que ainda seria preciso "vencer os fortes e poderosos especuladores e produtores de petróleo". É claro! A culpa é sempre do petróleo, que não deixa o moto contínuo ganhar vida!


O vídeo também mostra uma motocicleta, alegadamente construída com o "motor revolucionário". Depois de ter respondido a três ou quatro e-mails que me foram enviados, nos quais tive o cuidado de citar as leis da termodinâmica e remeter os interessados a alguns sites, resolvi enviar uma curta mensagem à Ciencialist [2], uma lista de discussão sobre ciências. Um dos parcipantes da lista (Homero, também conhecido como "Oráculo") enviou então um link [3] que contém, dentre outras, a fotografia da moto abaixo, idêntica à moto do filme do "motor revolucionário".



A moto acima usa motores elétricos alimentados por baterias convencionais. Nada de moto contínuo. Nada de energia livre. Nada de rendimentos superiores a 100%.
Os fãs do Akira reconhecerão que a moto é uma das muitas inspiradas no veículo usado pelo personagem principal deste mangá, como também me lembrou o Homero.
Infelizmente, quase toda a informação sobre esse assunto na internet está em japonês, a começar pelo site do fabricante, Axle Corporation, que tem sede em Tóquio [4] e construiu a moto em parceria com a Genesis Corporation, também japonesa. Encontrei alguma informação em inglês no site "JCN Network" [5]. De acordo com esse site, as características da moto da Axle seriam: (a) o motor, denominado "SUMO A EV-X7", usa eletroímãs e ímãs permanentes, sendo caracterizado pelo fabricante como um motor "híbrido"; (b) a autonomia do motor é de 180 km, sendo capaz de atingir velocidades de 150 km/h; (c) o motor é instalado sobre a roda traseira da moto, diminuindo perdas por transmissão, e é controlado por microprocessador; (d) O motor fornece 2.130 W com 80% de rendimento. Esse último item é um pouco estranho, pois 2.130 W correspondem a cerca de 2,86 HP, potência insuficiente para um veículo a motor. Deve ter sido engano do jornalista (Mark Eddinger).

Qualquer melhoria em motores elétricos pode ser considerada importante, mas um rendimento de 80% está muito longe do que se espera de um moto contínuo (mesmo um rendimento de 99,99999% ainda estaria infinitamente longe do que se espera de um moto contínuo). De fato, a alegação do fabricante não é ter desenvolvido um moto contínuo, mas sim ter desenvolvido um motor eficiente e suficientemente compacto para ser instalado sobre a roda de uma motocicleta.

Da pouca informação existente, não fica muito claro que tipo de motor foi implementado na moto da Axle. Entretanto, eu apostaria que se trata de um motor síncrono a ímãs permanentes. Esse tipo de motor, que não é exatamente uma novidade, tem um estator trifásico convencional, que produz um campo magnético girante e pode ser alimentado a partir de um inversor comum, o qual, por sua vez, pode ser alimentado por meio de baterias.

"Inversor" é um equipamento eletrônico que realiza o processo inverso ao da retificação: em vez de transformar corrente alternada em corrente contínua (como o retificador), o inversor transforma corrente contínua em corrente alternada.

O rotor do motor síncrono da moto, por outro lado, poderia ser construído com ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, que produzem um campo magnético bastante intenso, fornecendo um acoplamento eficiente entre rotor e estator. O controle da velocidade e da potência não seriam tarefas triviais, mas estariam totalmente ao alcance da tecnologia atual. Mais informações sobre motores síncronos a ímãs permanente podem ser encontradas em [6].

Uma vez conhecido o fabricante da moto do filme do "motor revolucionário", foi razoavelmente fácil descobrir um filme sobre a moto real, mostrado abaixo e também disponível em [7]. Fica claro que o filme do "motor revolucionário" não passa de uma fraude, uma mera colagem usando o filme real da Axle e algumas outras cenas.




Mas, como eu escrevi no início desse texto, o assunto do moto contínuo me persegue. No início desta semana, eu estava examinando alguns feeds da revista "The Economist" [8] e encontrei uma matéria sobre um moto contínuo que estaria sendo desenvolvido pela empresa irlandesa Steorn Ltd. No dia seguinte, o assunto apareceu na Ciencialist. A Steorn alega ter desenvolvido um verdadeiro moto contínuo a ímãs permanentes, denominado "Orbo", que retira energia não se sabe de onde, e prometeu uma demonstração prática para o dia 7 de julho. Todavia, chegou o dia combinado e os executivos da Steorn não conseguiram instalar o motor, alegando dificuldades tecnológicas devido ao calor excessivo produzido pela iluminação local. A empresa diz que o motor teria rendimento entre 285% e 400% e continua investindo na idéia.
Aguardem mais sobre motos contínuos e a Steorn em posts futuros.

____________________________
[1] "Motor Revolucionário". Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=vGFhr5uY3Yc>.
[2] CienciaList - Lista de discussão sobre ciência. Disponível em: <http://www.ciencialist.com/>.
[3] Electric motorbike concept car. Disponível em: <http://negatendo.net/kmc/en_us_axle.htm>[4] Axle Corporation. Disponível em: <http://www.axle-group.com/> (em japonês).
[5] JCN Network. Disponível em < http://www.japancorp.net/Article.Asp?Art_ID=12282> .
[6] Permanent Magnet Sychronous Motor. Disponível em: <http://www.freescale.com/webapp/sps/site/overview.jsp?nodeId=02nQXGrrlPZL8l>
[7] A moto da Axle/Genesis em funcionamento. Disponível em: < http://www.youtube.com/watch?v=NUXhJZZRUIg> .
[8] The Economist. "Perpetual Nonsense". 13 jul. 2007. Disponível em: <http://www.economist.com/displayStory.cfm?story_id=9494346>.

sexta-feira, maio 25, 2007

A vida não será como em “Guerra nas Estrelas”

É estranho perceber que faço parte daquela geração que assistiu “Guerra nas Estrelas” em sua estréia no cinema, no longínquo ano de 1978, e não na versão remasterizada, digitalizada e plastificada atualmente disponível em DVD. O filme, que está completando 30 anos de lançamento e estreou em 25 de maio de 1977, chegou ao Brasil um ano depois, pois naquela época as coisas por aqui eram bem mais lentas. Assim, parece oportuno comemorar a data com alguns comentários sobre o filme.

Tenho quase certeza que não entendi muito bem a história. Mesmo descontando-se aquelas questões de forças místicas e de alienígenas de outra galáxia, embora incrivelmente humanos (e sem ao menos um pedaço de massinha grudado na testa!), parecia que eu havia caído no meio de uma história que deveria conhecer, mas não conhecia. Já naquela época, “Guerra nas Estrelas” parecia começar no meio, não no começo, mas talvez isso tudo seja uma memória construída, não uma memória de fato. O que me lembro com toda certeza foi de ter ficado muito impressionado com o carro flutuante de Luke Skywalker. Apesar de velho e encardido, aquilo sim era um carro!
Durante muito tempo, embalado pela magia do cinema, pensei em construir um carro flutuante. Estudei mecânica, eletricidade e eletrônica, pesquisei sobre hovercrafts, esses veículos fantásticos que flutuam sobre um colchão de ar, fiz projetos e planos. Naquela época tudo parecia mais fácil, mas, aos poucos, me convenci de que o carro flutuante era impossível. E, mesmo que ele fosse possível, há um problema crucial nele que jamais permitiria o uso prático. Antes de falar sobre isso, porém, é interessante gastar algum tempo analisando outras questões que me deram a certeza de que a vida nunca será como em “Guerra nas Estrelas”.

Em 1997 a Ediouro publicou a tradução do livro “The Dilbert Future”, de Scott Adams, a qual recebeu o título de “O Futuro Dilbert” [1]. Uma tradução ruim, sem dúvida, pois seria mais adequado escrever “O Futuro de Dilbert”, ou então “O Futuro Dilbertiano”. Da maneira como foi feita a tradução, “Dilbert” passa a ser um rótulo, como se disséssemos “As Leis Newton” em vez de “As Leis de Newton”. Um barbarismo inútil, mas que já havia aparecido na tradução do primeiro livro de Adams, que recebeu o título de “O Princípio Dilbert”. Todavia, o pior da tradutora foi reservado para a primeira seção do capítulo 3, cujo título, “Life Will Not Be Like Star Trek”, transformou-se em “A Vida não será como em “Guerra nas Estrelas”. Um pecado mortal no mundo dos tradutores e escritores, comparável a escrever Arthur C. Clarke em vez de Isaac Asimov (ou vice-versa ainda mais freqüente).

O texto original de Adams está publicado em [2]. Mesmo para quem não entende inglês, é fácil perceber, dispondo apenas do texto em português, que Adams está falando de “Jornada nas Estrelas” (Star Trek), não de “Guerra nas Estrelas” (Star Wars). De fato, a tradutora manteve os termos originais holodeck e phasers e traduziu photon torpedo como torpedos de fótons. Ora, esses equipamentos aparecem em “Jornada nas Estrelas”, não em “Guerra nas Estrelas”! Além disso, ela cometeu erros mais graves ao traduzir I got beamed (“fui teletransportado”) como “fui irradiado” e target locked on (“alvo travado”) como “alvo bloqueado”. Na página 34, finalmente, a tradutora revela-se totalmente incapaz de apagar suas pegadas e mantém o termo original trekkies, uma referência clara aos fãs de “Jornada nas Estrelas”, não aos fãs de “Guerra nas Estrelas”.

Apesar de ter errado de forma homérica, a tradutora acertou ao menos parcialmente, pois, se a vida não será como em “Jornada nas Estrelas”, também não será como em “Guerra nas Estrelas”. Não por causa da impossibilidade física de espaçonaves mais rápidas do que a luz ou por causa da inutilidade das aletas de caças espaciais que voam no vácuo, mas por causa de detalhes raramente, talvez nunca, mencionados pelos críticos e comentaristas de cinema. Vejamos alguns deles.

Sabres de luz
Uma presença constante em todos os filmes da série “Guerra nas Estrelas” é o sabre de luz, ocasionalmente denominado “espada laser”, mas somente pelos leigos. O sabre de luz aparece pela primeira vez nas mãos de Obi Wan Kenobi, no Episódio IV (“Uma Nova Esperança”), está constantemente nas mãos dos Jedis e Siths e é visto pela última vez também nas mãos de Obi Wan, após a luta com Anakin no Epísódio III.

Uma análise rápida mostra que o sabre de luz é uma das armas mais fantásticas já concebidas pela ficção científica. Ele é capaz de cortar quase todos os materiais, desde a carne humana até as ligas metálicas mais densas. Paradoxalmente, contudo, um sabre de luz não é capaz de cortar outro sabre de luz. Sem falar, é claro, na estranha propriedade da “luz sólida” da lâmina do sabre, que “acaba” cerca de um metro após a empunhadura, em flagrante desrespeito às leis da física. Mas essas características já foram analisadas centenas de vezes. A inocente pergunta que faço não é sobre a viabilidade física dos sabres de luz, mas sim sobre a visibilidade das lâminas. Por que, afinal, as lâminas dos sabres são visíveis?

Não me refiro à questão da reduzida visibilidade de um feixe de luz cortando o ar limpo. Todos sabem que os tiros de armas laser dos filmes de ficção não seriam visíveis, pois o ar limpo não teria como refletir a luz até nossos olhos. Não é isso. A questão é: por que um Jedi ou um Sith, podendo fabricar uma lâmina invisível, fabricaria uma lâmina colorida e visível?

Uma lâmina invisível seria muito mais mortal do que uma lâmina colorida. É claro que o aprendizado seria muito mais difícil e perigoso, pois seria muito mais fácil cortar a própria mão enquanto se treina com um sabre invisível. De qualquer forma, os Jedis estão acostumados a ter as mãos cortadas, bastando substituí-las por mãos robóticas.

Alguém poderia argumentar que o “cristal” que produz o feixe luminoso é quem dá a cor à lâmina, mas essa explicação é um pouco fajuta. Será que todos os milhares de anos de pesquisa na vastidão daquela galáxia muito, muito distante não foram capazes de produzir um feixe invisível? Outra possível explicação seria a de que os Jedis têm um código de honra que não lhes permite usar sabres invisíveis. Essa explicação também é um pouco fajuta, pois, em primeiro lugar, esse aspecto do código nunca foi mencionado. Em segundo lugar, os Sith, que não têm honra alguma, também usam lâminas visíveis.

Andadores
Os “andadores” (walkers) são aqueles veículos que aparecem pela primeira vez no Episódio V (“O Império Contra-Ataca”). Existem andadores de vários formatos e tipos, bípedes ou quadrúpedes, completamente automatizados ou pilotados por um ou mais soldados. A tecnologia para movimentar e coordenar pernas mecânicas já está a ponto de ser dominada até por nós, meros humanos do século XXI e, portanto, não seria problema. O problema é: se você tem acesso a uma tecnologia antigravitacional fácil e barata, por que iria se preocupar com pernas?

A tecnologia antigravitacional é presença constante em "Guerra nas Estrelas". Até mesmo o Luke Skywalker do Episódio IV, morando em um planeta pobre e decrépito, tem um veículo antigravitacional que flutua como que por mágica. Além disso, a tecnologia antigravitacional de "Guerra nas Estrelas" é também portátil, pois bichinhos e aparelhos flutuantes diminutos estão espalhados por todas as partes. Seria razoável, portanto, que os soldados do Império pilotassem apenas veículos antigravitacionais, que não teriam problemas em se locomover sobre o gelo, água, areia ou sobre o solo de florestas, como no Episódio V (“O Retorno do Jedi”).

Imagino que a única razão que teria levado George Lucas a conceber veículos dotados de pernas foi a satisfação em poder derrubá-los. De fato, é isso que acontece nas primeiras cenas de “O Império Contra-Ataca”, quando a base rebelde do planeta Hoth é invadida e Luke aproveita para derrubar um andador quadrúpede (um AT-AT, All Terrain Armored Transport), dando-lhe um nó nas pernas. Veículos flutuantes não permitiriam tal satisfação! Cena semelhante se repete em “O Retorno de Jedi”, quando um andador bípede (um AT-ST, All Terrain Scout Transport) é derrubado durante a batalha de Endor. É evidente que Lucas está apenas se divertindo, pois nenhum império do mal (ou do bem), dispondo de veículos flutuantes, construiria veículos bípedes, trípedes ou quadrúpedes. A propósito, a culpa não é inteiramente de Lucas, pois a primeira aparição de um veículo desse tipo na ficção científica deu-se em “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, refilmado por Steven Spielberg em 2005, e que mostra a invasão da Terra por tripods alienígenas. Mas ao menos os alienígenas de Wells não mostraram dominar a tecnologia antigravitacional e podemos dar-lhes um desconto.

Carros Flutuantes
Passados 30 anos da estréia de “Guerra nas Estrelas”, ainda não temos carros flutuantes. Isso é frustrante, mas não mais frustrante do que saber que podemos nos comunicar com o mundo inteiro de maneira fácil e barata e que podemos acessar todas as bibliotecas online existentes, mas ainda não temos nossas naves espaciais particulares. Ainda assim, imaginemos durante alguns instantes que carros flutuantes sejam possíveis, talvez por meio da manipulação de algum efeito eletromagnético-gravitacional que desconhecemos. Contudo, mesmo que você consiga fazer um carro flutuar e colocá-lo em movimento, como você faria para pará-lo? Afinal, uma rápida olhada na história da indústria automobilística mostra que os automóveis não se tornaram populares apenas por terem motores eficientes, mas também por terem freios eficientes!

Na verdade, os freios não são tão eficientes quanto os motores dos automóveis. Qualquer um que, ao dirigir na estrada, foi apertado por um caminhão Volvo, com motor de 520 cv, sabe muito bem disso! Mas pelo menos os freios atuais, que usam as forças de atrito de discos e pastilhas, conseguem frear os veículos dentro de certos limites de segurança. Só que as forças de atrito estão completamente ausentes no caso dos carros flutuantes. Como então fazê-los parar? Não haveria como. Talvez alguém possa argumentar que a força de frenagem é do mesmo tipo de força misteriosa e desconhecida que faz o carro flutuar. Talvez. Mas essa é mais uma explicação meio fajuta.

A mão metálica de Anakin Skywalker
Como já mencionei, os Jedis vivem cortando as mãos um dos outros. O sabre de luz tem a vantagem de cauterizar o ferimento, evitando hemorragias intensas, mas é espantoso que ninguém se lembre de recuperar a mão cortada, para fins de reimplante, preferindo-se sempre implantar uma mão artificial.

No final de “O Império Contra-Ataca”, Luke Skywalker tem sua mão direita amputada, logo após descobrir que Darth Vader é seu pai (com um pai desses, ninguém precisa de padrasto!). Após ser resgatado pelas forças rebeldes, Luke tem uma mão biônica implantada. Pode-se ver claramente que se trata de uma mão realmente artificial, pois um robô aparece fazendo pequenos testes nela. Além disso, a mão é recoberta por uma espécie de tecido artificial, que a torna aparentemente sensível e muito semelhante à versão biológica. Para quem passou parte da infância em companhia de Steve Austin, nada muito impressionante.

Ocorre que no final do Episódio II (“O Ataque dos Clones”), quem tem as mãos amputadas é Anakin Skywalker, papel vivido pelo pavoroso Hayden Christensen. O Episódio II se passa 20 anos antes do Episódio V, em uma época mais liberal e em uma galáxia repleta de recursos financeiros. Além disso, quando Anakin tem sua mão amputada, ele ainda faz parte da Ordem dos Jedi, que deveriam ter melhores condições de implantar mãos artificiais do que os amigos rebeldes de Luke. Ainda assim, a mão implantada em Anakin é metálica, fria e insensível! Isso seria o mesmo que dizer que os rebeldes iraquianos recebem melhor tratamento médico do que os soldados norte-americanos! Muito estranho.

Como visto, são muitos os mistérios não esclarecidos em “Guerra nas Estrelas”. Mesmo assim, é sempre bom lembrar que o filme trata da guerra entre duas facções de uma religião mística, cujos adeptos lutam com armas impossíveis e usam espaçonaves mais velozes do que a luz para viajar através de uma galáxia habitada por seres das mais diversas espécies, muitos dos quais vivem em harmonia maior do que aquela existente entre seres humanos e cetáceos, além de nutrirem um gosto especial pelo jazz de certo planeta de outra galáxia muito, muito distante. Esperar maior grau de realismo seria destruir a narrativa.

[1] ADAMS, S. O futuro Dilbert: como prosperar com a estupidez do século XXI. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.
[2] ADAMS, S. Life will not be like Star Trek, Harper Business, 1997. Disponível:
<http://scifi.about.com/bladamsstartrek.htm>.

segunda-feira, agosto 21, 2006

De como o Brasil trata a ciência e a tecnologia, 3ª Parte: Brain Drain

Quando eu estava na quarta-série do ensino primário, a escola em que eu estudava organizou um concurso intitulado "esse é um país que vai pra frente", bem ao sabor da ditadura então em voga. Para participar, deveríamos desenhar um cartaz que ilustrasse o inevitável crescimento do Brasil. Meu pai, sempre com seu humor cáustico e inteligente, sugeriu que eu desenhasse um mapa do Brasil repleto de mulheres grávidas, mas comentou que talvez os militares não entendessem muito bem a idéia. Após algum tempo, resolvi desenhar um mapa do Brasil com uma escola ao centro e crianças se dirigindo a ela. Minha mãe me ajudou com o esboço e passei várias horas pintando o mapa, a escola e as crianças com lápis de cor. Um desenho tamanho A-zero com lápis de cor! Até hoje me lembro que um dos meus colegas ficou impressinado com a minha paciência e, até onde me lembro, ganhei a primeira fase do concurso, mas nunca soube o que aconteceu depois.

Era o longínquo ano de 1975 e aquela cena das crianças se dirigindo a uma escola nunca me saiu da memória. Mais tarde, já no segundo grau, posteriormente rebatizado, sabe-se lá com que razão, para "ensino médio", lembro-me de ter participado de um debate sobre desenvolvimento tecnológico, um tema recorrente para quem cursava o técnico em eletrônica. Não me lembro dos detalhes, mas me lembro vividamente de alguém ter comentado que o Japão havia investido maciçamente em educação, e que essa deveria ser a chave do grande sucesso que esses país estava alcançando. Lembro-me também de alguém ter comentado que o Brasil exportava minério de ferro, enquanto o Japão importava aço e ferro e exportava tecnologia. O exemplo de "tecnologia" dado por essa pessoa foi uma mera agulha de toca-discos, mas os tempos eram outros.

Esse debate deve ter ocorrido por volta de 1982, não mais que 1983. Já se passaram, portanto, mais de 20 anos. Durante todo esse tempo, todos os presidentes e governadores brasileiros não deixaram de apregoar seu compromisso perene com a educação. É claro que tivemos que nos virar com a praga da inflação, mas não tivemos que viver com os escombros do pós-guerra, como os japoneses. Hoje, o Japão é para nós inatingível. Tentamos até copiá-los tardiamente, na década de 90, quando a febre da Qualidade Total contaminava todos por aqui. A crise japonesa do final da década de 90 talvez tenha diminuído nosso ímpeto em imitá-los, mas raramente nos lembramos que a "crise" japonesa só existiu quando medida em termos dos altíssimos padrões japoneses. Para nós, teria sido uma mera turbulência.

Desde a década de 70 até agora, alguns países aprenderam que a receita japonesa dá certo. O caso mais bem sucedido talvez seja a Coréia do Sul, seguida recentemente pela China e pela Índia. Tudo indica que vamos ficar para trás.

Uma boa medida da efetividade das políticas educacionais de um país é o brain drain, fenônmeno que pode ser traduzido por "perda de cérebros". Todo país sofre com isso, inclusive os mais avançados. Não é raro toparmos com um norte-americano ou europeu que veio fazer um curso no Brasil, ou participar de algum programa de incentivo, ou assumir uma diretoria temporária em uma multinacional, apaixonou-se por uma brasileira e aqui ficou, apesar dos pesares. Mas, quando o brain drain é excessivo é que a porca torce o rabo.

O jornal O Globo desse domingo dá números assustadores. A cada ano, entre 140 a 160 mil profissionais qualificados deixam o Brasil. É como se, a cada ano, perdêssemos a USP, a UFRJ, a UFF e uma parte da UFMG. O motivo são os baixos salários, a falta de empregos qualificados e, sobretudo, a nossa falta de respeito pela competência profissional.

Franciso Antônio Dória, professor emérito da UFRJ, já havia apontado para esse problema em dezembro do ano passado, em entrevista ao Estadão, quando criticou a política do CNPq e a falta de respeito com a pesquisa. O problema, contudo, é muito maior do que o CNPq. Somos historicamente pouco afeitos à educação. Nosso negócio é praia, churrasco e futebol. O brasileiro cresce sonhando em ser jogador ou pagodeiro, profissões que exigem um quase nada de educação formal. O CNPq, do qual o professor Dória pode falar com muito mais porpriedade do que eu, é apenas um efeito dessa cultura, não a causa.

Enquanto perdemos milhares de profissionais por ano, o governo continua exercendo todo o populismo que os programas assistenciais permite. Mas é fácil perceber que assistencialismo não basta. Somos uma nação formada maciçamente por pobres capazes de absorver qualquer verba assistencial na qual o governo seja capaz de pensar, e que será desviada dos verdadeiros programas educacionais. Quanto mais investirmos em assistencialismo, mais pobres ficaremos, pois nunca haverá dinheiro suficiente. E, dentro de poucos anos, Índia e China terão nos atropelado, apesar dos enormes problemas deles mesmos.

Tenho dúvidas se o Brasil do futuro será um lugar melhor. Seremos mais burros, pois teremos perdido todos nossos gênios e até mesmo os profissionais apenas razoavelmente inteligentes. Seremos mais violentos, pois a falta de educação terá perpetuado a pobreza, que só enxergará o tráfico como meio de sobrevivência. Seremos mais racistas, pois os "brancos" terão se insurgido contra os "negros" detentores de quotas para todos os tipos de cargos públicos. E, finalmente, não tendo outra opção, teremos que retornar à nossa natureza de país exportador de commodities. É claro que nada disso precisa acontecer, bastanto que direcionemos os investimentos para as áreas de educação, ciência e tecnologia, e que administremos os recursos de maneira eficiente, profissional e desburocratizada. Mudanças culturais demoram, são caras e dolorosas, mas são possíveis.

quarta-feira, junho 14, 2006

De como o Brasil trata a ciência e a tecnologia, 2ª Parte: Sir Peter Brian Medawar

Sir Peter Brian Medawar, ao contrário de outros brasileiros de sucesso que fixaram residência no exterior, é pouco conhecido de nós. Medawar, nome estranho ao ouvido brasileiro, mas não mais estranho do que Karl Rischbieter e outros tantos, nasceu em Petrópolis, em 1915, filho de mãe inglesa e pai libanês naturalizado inglês.

Por volta de 1925, talvez pudéssemos encontrar o pequeno Peter chutando uma bola ou outra, como tantos outros guris brasileiros, e correndo pelas ruas do Rio de Janeiro, onde seu pai havia aberto a "Ótica Inglesa", que existe até hoje. Mas havia uma pequena diferença: Peter era tão bom aluno que, aos 14 anos, seus pais resolveram enviá-lo à Inglaterra, para que tivesse acesso a melhores condições de ensino.

Na Inglaterra, Medawar completou seus estudos no Marlborough College e na Universidade de Oxford, no Magdalen College, formando-se em zoologia em 1932. Educação de primeira nas melhores escolas do mundo.

Pouco depois, Medawar começou a se interessar por medicina e biologia, mas foi chamado pela pátria, o Brasil, para prestar o serviço militar obrigatório. Os pais de Medawar procuraram então o Ministério da Aeronáutica e pediram dispensa, explicando que o filho estudava no exterior. O pedido foi negado. Não tendo outra alternativa, Peter Medawar abriu mão da cidadania brasileira e abraçou a inglesa, preferindo as pesquisas científicas às atividades militares em um país imerso em revoluções. A biografia oficial de Medawar não menciona esse singelo acontecimento, mas vai logo ao que interessa: as pesquisas de Medawar sobre transplantes de tecidos vivos.

Por volta de 1949, as pesquisas sobre rejeição de transplantes já estavam bastante avançadas, tendo-se descoberto que, em determinadas situações, uma certa "força biológica" inibia a rejeição. Trabalhando com Frank Burnet, 16 anos mais velho, Medawar descobriu que a inibição se devia à ação de certos anticorpos, e ambos desenvolveram a teoria da Tolerância Imunológica Adquirida.

O trabalho de Medawar e Burnet possibilitou o desenvolvimento dos transplantes modernos, que hoje salvam milhares de vidas. Em decorrência desse trabalho, Medawar foi eleito Fellow of the Royal Society (FRS) com a idade de apenas 34 anos. Em 1960, ele e Burnet foram agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia.

Medawar foi um cientista de grande originalidade, tendo recebido praticamente todas as honras possíveis do mundo científico. Além do Nobel e do FRS, ele foi escolhido Companion of Honour (1972), Member of the Order of Merit (1981) e foi o primeiro presidente da Sociedade Internacional de Transplantes. Em 1965, Medawar foi condecorado cavaleiro pela rainha Elisabeth, tornando-se Sir Peter Brian Medawar.

Alguém poderia argumentar que não temos nada com isso, já que Medawar não era filho de brasileiros. Contudo, por um lado, não é esse o caso de todos nós? Por outro lado, Jean Piaget argumentava que todas as estruturas mentais de um indivíduo são formadas até os 14 ou 15 anos de idade. Assim, o cérebro de Medawar foi integralmente formado em território brasileiro. E nós o chutamos fora.

Medawar morreu em 1987 e seus pais permaneceram no Brasil, país que só se deu conta da existência de Medawar em 2001, quando a Fundação Cultural de Petrópolis inaugurou uma placa nos jardins do Palácio Itaboraí, sede da Fiocruz. Imagino que tenham havido protestos dos habitantes por se desperdiçar dinheiro público com homenagens a um estrangeiro...

E essa é a história de como o Brasil perdeu seu primeiro Nobel!

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Posfácio: muito tempo depois de ter escrito este post, fiquei sabendo que Sir Peter Medawar é nosso segundo Nobel perdido. O primeiro é Carlos Chagas. Mais detalhes em http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2012/09/o-nobel-brasileiro.html

sexta-feira, junho 09, 2006

De como o Brasil trata a ciência e a tecnologia, 1ª Parte: Marcos Pontes

Marcos Pontes, primeiro engenheiro brasileiro no espaço, é um desses brasileiros nascidos durante a corrida espacial que sonhou em fazer parte dela. Ao contrário de todos nós, ele conseguiu realizar seu sonho, ainda que não a bordo do ônibus espacial, como inicialmente planejado.

O currículo de Marcos Pontes é invejável: engenheiro aeronáutico (ITA, um dos vestibulares mais difíceis do Brasil), mestre em engenharia de sistemas (Naval Postgraduate School - NPS, Califórnia), piloto de provas, piloto militar, oficial de segurança de vôo, astronauta e condecorado com 19 prêmios, a maioria deles antes da missão espacial de 2006. Nascido em família de classe média, pouquíssimos brasileiros podem exibir currículo semelhante. Apesar disso, a maneira como Pontes foi tratado pela imprensa brasileira é humilhante.

Após a missão espacial, que recebeu críticas intensas por causa do alegado desperdício de US$ 10 milhões (metade do custo de um único traje espacial para atividade extra-veicular), Pontes resolveu passar para a reserva da Força Aérea Brasileira. A imprensa tratou a decisão como se fosse uma "aposentadoria", o que não é verdade, pois o militar da reserva pode ser chamado de volta à ativa a qualquer momento, em tempo de paz ou de guerra. Pontes, no momento o único astronauta brasileiro, e certamente o único durante muitos anos que se seguirão, foi tratado como aproveitador. Poucos jornalistas, contudo, se esqueceram de mencionar que um piloto da FAB, com todos aqueles títulos e anos de formação, ganha menos que um motorista do Planalto.

Relembrando, Pontes foi selecionado em 1998 para cumprir os seguintes objetivos: (a) treinar e representar o Brasil como astronauta junto aos outros 15 países participantes do Programa da Estação Espacial Internacional (ISS); (b) realizar como tripulante a primeira missão espacial brasileira; (c) realizar experimentos nacionais, que não foram desenhados por ele, a bordo da ISS.

Tendo cumprido todos esses objetivos, com excelente desempenho, a missão para a qual Pontes foi selecionado está cumprida. O dinheiro foi investido e bem gasto, e Pontes pode fazer de sua vida o que bem quiser, como todos nós. E o Brasil ganha, de quebra, um especialista em missões espaciais, com conhecimento de ponta e treinamento de primeira, coisa que nunca tivemos.

Seria interessante se Pontes tivesse recebido um décimo do tratamento reservado a nossos jogadores de futebol ora na Alemanha em busca de mais um títutlo internacional. Embora realizem missões que exigem dotes intelectuais infinitamente menores, e ganhem uma soma de dinheiro infinitamente maior, nossos jogadores são tratados como heróis, capazes de paralisar as atividades do país durante os jogos. Nosso astronauta, em vez disso, é tratado como vigarista.

É preciso que o Brasil aprenda a ter um mínimo de respeito por ciência e tecnologia. É preciso ensinar isso às criancinhas, aos adolescentes e aos adultos. É preciso que os jornalistas parem de falar de coisas que não entendem e que os chefes do executivo parem de se preocupar com futebol, e passem a se preocupar também em erguer troféus de modalidades científicas e tecnológicas.

Caso contrário, estaremos para sempre condenados a dirigir automóveis alemães e de outras nacionalidades, a pilotar computadores norte-americanos, equipados com software também norte-americano, a voar em espaçonaves russas e a tentar aumentar o saldo da nossa balança comercial exportando commodities e importando todo o resto.