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sexta-feira, junho 09, 2006

De como o Brasil trata a ciência e a tecnologia, 1ª Parte: Marcos Pontes

Marcos Pontes, primeiro engenheiro brasileiro no espaço, é um desses brasileiros nascidos durante a corrida espacial que sonhou em fazer parte dela. Ao contrário de todos nós, ele conseguiu realizar seu sonho, ainda que não a bordo do ônibus espacial, como inicialmente planejado.

O currículo de Marcos Pontes é invejável: engenheiro aeronáutico (ITA, um dos vestibulares mais difíceis do Brasil), mestre em engenharia de sistemas (Naval Postgraduate School - NPS, Califórnia), piloto de provas, piloto militar, oficial de segurança de vôo, astronauta e condecorado com 19 prêmios, a maioria deles antes da missão espacial de 2006. Nascido em família de classe média, pouquíssimos brasileiros podem exibir currículo semelhante. Apesar disso, a maneira como Pontes foi tratado pela imprensa brasileira é humilhante.

Após a missão espacial, que recebeu críticas intensas por causa do alegado desperdício de US$ 10 milhões (metade do custo de um único traje espacial para atividade extra-veicular), Pontes resolveu passar para a reserva da Força Aérea Brasileira. A imprensa tratou a decisão como se fosse uma "aposentadoria", o que não é verdade, pois o militar da reserva pode ser chamado de volta à ativa a qualquer momento, em tempo de paz ou de guerra. Pontes, no momento o único astronauta brasileiro, e certamente o único durante muitos anos que se seguirão, foi tratado como aproveitador. Poucos jornalistas, contudo, se esqueceram de mencionar que um piloto da FAB, com todos aqueles títulos e anos de formação, ganha menos que um motorista do Planalto.

Relembrando, Pontes foi selecionado em 1998 para cumprir os seguintes objetivos: (a) treinar e representar o Brasil como astronauta junto aos outros 15 países participantes do Programa da Estação Espacial Internacional (ISS); (b) realizar como tripulante a primeira missão espacial brasileira; (c) realizar experimentos nacionais, que não foram desenhados por ele, a bordo da ISS.

Tendo cumprido todos esses objetivos, com excelente desempenho, a missão para a qual Pontes foi selecionado está cumprida. O dinheiro foi investido e bem gasto, e Pontes pode fazer de sua vida o que bem quiser, como todos nós. E o Brasil ganha, de quebra, um especialista em missões espaciais, com conhecimento de ponta e treinamento de primeira, coisa que nunca tivemos.

Seria interessante se Pontes tivesse recebido um décimo do tratamento reservado a nossos jogadores de futebol ora na Alemanha em busca de mais um títutlo internacional. Embora realizem missões que exigem dotes intelectuais infinitamente menores, e ganhem uma soma de dinheiro infinitamente maior, nossos jogadores são tratados como heróis, capazes de paralisar as atividades do país durante os jogos. Nosso astronauta, em vez disso, é tratado como vigarista.

É preciso que o Brasil aprenda a ter um mínimo de respeito por ciência e tecnologia. É preciso ensinar isso às criancinhas, aos adolescentes e aos adultos. É preciso que os jornalistas parem de falar de coisas que não entendem e que os chefes do executivo parem de se preocupar com futebol, e passem a se preocupar também em erguer troféus de modalidades científicas e tecnológicas.

Caso contrário, estaremos para sempre condenados a dirigir automóveis alemães e de outras nacionalidades, a pilotar computadores norte-americanos, equipados com software também norte-americano, a voar em espaçonaves russas e a tentar aumentar o saldo da nossa balança comercial exportando commodities e importando todo o resto.

quarta-feira, abril 12, 2006

Marcos Pontes, o astronauta brasileiro

Deixei para escrever sobre esse assunto somente agora, quando já ficou claro que Marcos Pontes retornou em segurança e a possibilidade de um desastre está definitivamente afastada. Afinal, com aqueles espaçonaves russas, remendadas com fita crepe e durepóxi, nunca se sabe.

Em primeiro lugar, tenho que admitir que Pontes é realmente um cabra macho da melhor espécie. Além de ter coragem suficiente para subir em uma nave russa, para agüentar toda a lenga-lenga oficial, para dar centenas de entrevistas e para posar para centenas de fotos, imagino o inferno pelo o qual ele deve ter passado para conseguir arrancar aqueles US$ 10 milhões do governo.

A mídia tem tratado a missão como desperdício de dinheiro, esquecendo-se de mencionar que, se essa soma não fosse gasta com Pontes, certamente não seria gasta com saúde, educação e muito menos com pesquisa científica. O dinheiro provavelmente se perderia nos subterrâneos de Brasília e nunca mais ouviríamos falar dele.

Eu também oscilei para lá e para cá em relação ao assunto, provavelmente por causa de ciúmes, mas quando vi um importante colunista brasileiro declarar que "já mandaram até macaco para o espaço", tive que me decidir por Pontes. Afinal, ele é engenheiro e entusiasta da educação. Sendo eu engenheiro e professor, não posso deixar de emprestar meu singelo apoio, ainda que irrelevante.

Cabe mencionar também que, embora US$ 10 milhões possam fazer a felicidade financeria de qualquer pessoa, trata-se de uma soma irrisória em termos nacionais. Esse dinheiro daria para construir uma usina hidrelétrica de 12 MW, não muito mais do que isso, o que representa 0,15% da capacidade nacional instalada. Só para citar outro exemplo, causou pouquíssima comoção na mídia, comparativamente ao caso de Pontes, que o Brasil deixou de receber uma doação de US$ 48 milhões do governo norte-americano, para prevenção da transmissão do HIV, por ter se recusado a declarar que a "prostituição é degradante". Uma exigência sem dúvida descabida e absurda, que só poderia partir de um país governado por George W. Bush, mas o que estarão pensando agora os soropositivos brasileiros sobre essa fantástica decisão burocrática? Por US$ 48 milhões destinados à saúde eu declaro até que a engenharia é degradante!

É claro que a missão teve seu lado patético, para profunda decepção deste autor que cresceu durante o Projeto Apollo. É claro que seria muitíssimo melhor se a missão fosse nossa, se o foguete fosse nosso, se o Programa Espacial Brasileiro não fosse, até o momento, um mero programa de carona patrocinado pelo Estado. Mas querer mais do que isso seria um delírio megalomaníaco. Somos um país pobre, semi-analfabeto, desnutrido e mal-educado. Podemos sonhar com o espaço, mas querer estar lá por força e vontade próprias exigiria o dispêndio de vários bilhões de dólares, dinheiro que o governo nunca colocaria à disposição de um programa desses.

Apesar de tudo, mesmo pegando carona, agora constamos da curta lista de 35 países que enviaram astronautas ao espaço. Chegamos atrás do Vietnã (1980), da Mongólia (1981), do México (1985) e até mesmo do Afeganistão (1988), mas pelo menos chegamos na frente dos hermanos, e é isso que importa!