quarta-feira, julho 31, 2002

Peter Drucker e o Pentacampeonato

Já faz cerca de um mês que a Copa do Mundo acabou. Dessa vez o governo não conseguiu fazer uso político da conquista de mais um campeonato de futebol. FHC até que tentou, mas os tempos são outros. Dessa vez o pentacampeonato está sendo usado como ferramenta de auto-ajuda, especialmente auto-ajuda empresarial. No lugar do mote "Pra frente Brasil", temos frases como as de Carlos Alberto Parreira: "Enfim, a seleção é um retrato de um Brasil que nos enche de orgulho e ... que dá certo".

As associações parecem simples e óbvias: a seleção brasileira jogou em equipe, minha empresa precisa trabalhar em equipe, então, basta copiarmos o modelo da "Família Scolari" para termos sucesso, certo? Não exatamente. O problema é que existe mais de um tipo de equipe. Em um capítulo do seu livro "Administrando em Tempos de Grandes Mudanças" (1995), Peter Drucker esclarece que existem três tipos de equipe, que são:

1) A equipe de Beisebol

Em um jogo de beisebol os jogadores não atuam como em um jogo de futebol. A posição de cada jogador é fixa e cada um deles é um especialista no que faz. É por isso que, mais no beisebol do que em qualquer outro esporte, fica fácil criar estatísticas para cada jogador (indicadores de produtividade!).

Esse tipo de equipe não é bem visto atualmente. Quando os especialistas em RH falam em "formação de equipes", não é a esse tipo de equipe que eles se referem. Contudo, a equipe de beisebol aparece em algumas situações, como dentro dos hospitais. Por exemplo, uma equipe cirúrgica atua como uma equipe, mas não trabalha "em" equipe. O cirurgião não precisa se preocupar com o trabalho do anestesista e o instrumentador não precisa se preocupar com que parte o cirurgião está cortando. Basta que o instrumento certo esteja nas mãos do cirurgião quando requisitado, que nenhum deles se perca durante o processo, que o paciente esteja corretamente anestesiado, etc.

A equipe de beisebol também é o protótipo para a administração de uma linha de produção clássica, do tipo idealizada por Henry Ford para a produção do Modelo T. Cada trabalhador era responsável por uma tarefa única, bem definida e essencialmente imutável. Nas modernas linhas de produção automobilística esse tipo de equipe será difícil de se encontrar, pois é inflexível e incapaz de se adaptar a mudanças. No beisebol, que já foi definido como a "sublimação do tédio", isso pode ocorrer, mas em uma empresa moderna equipes inflexíveis podem significar a morte. Nesse tipo de empresa a equipe de marketing não falaria com a equipe de projetos e assim por diante. A equipe de marketing requisitaria produtos que não podem ser projetados ou produzidos, a equipe de projetos projetaria produtos que não podem ser vendidos e todos nós conhecemos a tragédia que se sucede.

2) A equipe de Futebol

Drucker se refere ao futebol americano, mas esse tipo de equipe é o mesmo do "nosso" futebol, que os norte-americanos insistem em chamar de "soccer". Os jogadores trabalham em equipe, mas a integração entre eles é muito maior e as posições são mais flexíveis. Não é raro, por exemplo, que um zagueiro ou mesmo um goleiro faça um gol. A diferença principal é que a equipe de beisebol trabalha em série, enquanto a equipe de futebol trabalha em paralelo. Não é a toa que o futebol é muito mais emocionante do que o beisebol. Outra diferença é que a equipe de futebol exige um líder, que pode até mesmo ser o técnico, mas não necessariamente.

A equipe de futebol é mais flexível do que a de beisebol porque ela se assemelha mais a um "sistema adaptativo complexo". Um sistema desse tipo é capaz de se modificar, incorporando novos conhecimentos na sua própria estrutura. É verdade que isso nem sempre acontece. Todos nós já vimos jogos onde uma equipe formada pelos melhores jogadores do mundo acaba por não se dar bem. O que aconteceu? Ora, os jogadores, individualmente, sabem muito bem o que fazer, mas o sistema não sabe. O sistema não teve tempo de aprender, não houve treino suficiente (essencial para equipes desse tipo) ou, simplesmente, entrou em colapso por não conseguir administrar o fluxo de conhecimento a tempo.

As equipes japonesas de projeto adotaram o modelo da equipe de futebol com grande sucesso e fizeram a mesma coisa com as linhas de produção flexíveis. Os japoneses conseguiram derrotar Detroit na produção de veículos não por terem tecnologia mais avançada do que os americanos, mas por terem percebido que novos sistemas de produção exigiam novos modelos de equipe e novos modos de gerenciá-las.

3) A dupla de tênis

Para o terceiro tipo de equipe, Drucker usa o modelo da dupla de tênis, que parece bastante singelo, mas esconde uma grande complexidade em sua estrutura. Os dois jogadores precisam atuar como um só para terem sucesso. Eles não podem parar para pensar no que o outro está fazendo. Eles precisam "sentir" o que o outro está fazendo. O fluxo de informações é muito mais complexo e sutil.

Em bandas de música isso também acontece, especialmente naquelas onde a improvisação é essencial, como em uma banda de jazz. Cada músico pode ser um especialista em determinado instrumento, mas a comunicação entre eles é fundamental. Com um simples olhar, ou nem isso, o trompetista precisa saber em que escala o guitarrista está e o que ele pretende fazer a seguir. O equilíbrio de uma equipe desse tipo é muito instável. Ela vive permanentemente na fronteira entre a ordem e o caos. Exemplo? Quando os Beatles atingiram o auge, após anos de trabalho intenso, eles haviam adquirido esse sexto sentido vital para a criação musical. Nos ensaios, eles atuavam como uma verdadeira "jam session" e desenvolveram uma forma de comunicação não verbal muito sofisticada. Entretanto, foi suficiente a introdução de um elemento externo (Yoko) para que o sistema entrasse em colapso. A presença de Yoko toldou a comunicação sutil entre John Lennon e Paul McCartney e, em um nível um pouco diferente, entre eles dois e George Harrison. O resultado foi que cada um deles passou a criar de maneira individualista e o fim não demorou muito.

Resumindo, as principais diferenças entre esses três tipos de equipe são as seguintes:

  • O fluxo de informação entre os membros individuais aumenta da equipe tipo 1 para a equipe tipo 3.
  • A capacidade da equipe em incorporar novos conhecimentos na sua estrutura aumenta da equipe tipo 1 para a equipe tipo 3.
  • A capacidade da equipe se autogerenciar, determinar seus próprios objetivos e a melhor maneira de atingí-los também aumenta da equipe tipo 1 para a equipe tipo 3.

Quando nos deslocamos da equipe tipo 1 para a equipe tipo 3, a hierarquia e o controle são gradativamente demolidos.

É evidente, portanto, que uma empresa que atua dentro da "economia do conhecimento", ou seja, qualquer empresa moderna, precisa muito mais de equipes do tipo 3 do que equipes do tipo 1 ou 2. Se a matéria-prima da empresa é o conhecimento, a única maneira de gerenciá-lo e torná-lo produtivo é por meio da implantação de equipes da era do conhecimento, e não de equipes da era industrial.

É exatamente esse o perigo que corremos ao tentarmos adaptar o "sucesso do penta" às nossas empresas. Tirando as platitudes de sempre, que dizem que precisamos de "paixão", "disciplina", "coragem", "foco nos resultados", etc., características supostamente apresentadas pela seleção do penta, tudo o que sobra é um modelo de equipe que pode ser adaptado com sucesso apenas em algumas circunstâncias, mas não em todas. Em particular, é interessante notar que muitas das características positivas da seleção do penta não passam de uma releitura pós-vitória. A vitória faz a percepção das pessoas mudar, realçando aspectos positivos e minimizando aspectos negativos. Em alguns casos, até mesmo aspectos negativos, como a "teimosia" de Luiz Felipe Scolari, podem vir a ser encarados de maneira positiva. Henry Ford também era teimoso e foi essa teimosia que o transformou em um dos homens mais ricos do seu tempo. Contudo, foi essa mesma teimosia que o tornou incapaz de perceber as mudanças do mercado e que mergulhou a Ford em uma profunda crise, tendo sido suplantada pela GM em apenas alguns anos. Hoje, nenhuma empresa automobilística adotaria o modelo de produção e o tipo de equipes adotadas por Henry Ford no auge do sucesso do Modelo T. Precisamos de equipes flexíveis, que existem na fronteira entre a ordem e o caos, que são instáveis e podem até mesmo se autodestruir. É um risco enorme, mas não há outra maneira de gerenciar o conhecimento.

sexta-feira, julho 26, 2002

Ânnima, de Toni Casagrande

"Ânnima - A Clonagem e a Busca da Vida Eterna" é o primeiro romance de Toni Casagrande, jornalista e âncora da CBN-Curitiba. Trata-se de um romance de ficção científica que aborda temas como criogenia, clonagem, biodiversidade, efeito estufa e uma boa dose de filosofia e psicologia cognitiva.

O livro é narrado em primeira pessoa. O protagonista, portador de uma doença fatal, tomou a decisão de ser congelado após a morte, no início do século XXI. Sem herdeiros, ele investe todo o seu dinheiro em uma Fundação, cujo objetivo seria pesquisar a cura da doença que o vitimou. Ele é reanimado mais de cem anos depois, quando a Fundação transformou-se em uma mega-corporação, os países não existem mais, uma parte da Amazônia transformou-se em deserto, seres humanos, andróides e robôs convivem agora lado a lado (e até mesmo participam de jogos de futebol!) e há uma profusão de animais e plantas modificados geneticamente, sem falar nas máquinas orgânicas.

O tema da criogenia, ou "criônica", para sermos mais precisos, é recorrente em ficção científica, tendo sido usado tanto no cinema e na televisão (Buck Rogers, Star Wars, Star Trek) quanto em livros (3001: Odisséia Final, por exemplo). Não há problema algum que o tema não seja totalmente original. Em ficção científica, como de resto em toda a literatura, o que vale é a maneira como uma história é contada e não a história em si. É o que acontece em Ânnima. A trama poderia parecer trivial: o protagonista é congelado, reanimado, fica maravilhado com o mundo novo, mas não consegue se adaptar. Contudo, Casagrande vai um pouco além. O processo criogênico a que o protagonista, conhecido simplesmente como "Fundador", foi submetido não é perfeito. Uma grande quantidade de células, inclusive células cerebrais, foi destruída. Após várias tentativas de reparação, os cientistas da Fundação chegam à conclusão que para que o Fundador continue vivo será necessário transferir a mente dele para o corpo de um clone, processo que será feito por meio de um equipamento conhecido como Ânnima, daí o título do livro. As indagações filosóficas do protagonista se intensificam nesse ponto. "Será que continuarei vivo?". "Vou me sentir como eu mesmo?". "Por que tenho que morrer de novo?".

Na vida real, a conservação criônica ganhou novamente as páginas dos jornais quando o jogador de baseball Ted Williams foi submetido ao processo no início de julho de 2002. O mercado criônico parece estar em expansão em várias partes do mundo, especialmente nos Estados Unidos, mas devemos estabelecer uma diferença entre as verdadeiras aplicações da tecnologia e aquilo que é só promessa. A "Criogenia" é o estudo científico do comportamento dos materiais em temperaturas muito baixas, geralmente usando-se nitrogênio ou hélio líquido. Alguns materiais só se comportam adequadamente em temperaturas criogênicas, como é o caso dos supercondutores. Temperaturas mais altas do que a do nitrogênio líquido, mas ainda muito baixas para os padrões humanos, também são usadas rotineiramente para a preservação de materiais e equipamentos e conservação de alimentos. A "Criônica", por outro lado, é um processo criado nos anos 60 que consiste em se congelar, usualmente com nitrogênio líquido (muito mais barato que hélio líquido), pessoas que foram declaradas legalmente mortas. Várias empresas realizam tal processo, como o Cryonics Institute, que cobra preços a partir de US$ 28.000.Outras empresas cobram US$ 120.000 pelo congelamento do corpo inteiro e US$ 50.000 pela opção "neuro" (somente a cabeça). Um grande mercado! O argumento de todas essas empresas é o de que, no futuro, os cientistas saberão como ressuscitar a pessoa congelada e também como reconstruir as células danificadas. Preciosismos terminológicos à parte, no momento a criônica é apenas a segunda maneira mais dispendiosa de se "enterrar" um cadáver (a primeira é colocar as cinzas em uma pequena cápsula em órbita da Terra).

Embora a criogenia seja atualmente utilizada em várias aplicações, nada garante que ela possa ser aplicada em seres humanos como método de hibernação. É verdade que fragmentos do cérebro humano já foram congelados e descongelados com sucesso, mas ninguém pode assegurar sucesso quando se fala do cérebro inteiro e de toda a informação que ele contém. Conjectura-se que o congelamento destruiria as delicadas membranas celulares e deslocaria os neurônios de suas posições, provocando uma espécie de "formatação" no cérebro. Mesmo que a reanimação fosse feita com sucesso, a pessoa que passou pelo processo acordaria com o cérebro "em branco", tendo que aprender tudo de novo e de modo algum se sentiria como a pessoa que foi antes do congelamento.

Casagrande se depara com a necessidade de reparar os danos causados pelo processo criônico, lançando mão de outra idéia da ficção científica conhecida como "transferência de mentes". Esta idéia foi usada por Arthur C. Clarke em "A Cidade e as Estrelas" (1956) e por esse mesmo autor em "3001: Odisséia Final" (1997), embora com outras finalidades e em situações bastante diferentes. Afinal, se a mente é apenas o conteúdo de um cérebro, basta descobrir como as informações estão codificadas para podermos transferir o conteúdo de um cérebro para outro (vamos deixar os detalhes técnicos de lado...), como se faz com discos de computador. A idéia parece absurda, mas não o suficiente para deixar de ser levada a sério por alguns cientistas. Por exemplo, o Dr. Christopher Winter, fundador da equipe de Vida Artificial da British Telecom, calcula que serão necessários cerca de dez terabytes (o número um seguido de treze zeros) para armazenar todas as memórias e experiências de uma pessoa. Winter acredita que esta tecnologia estará disponível dentro de 30 anos (a previsão é de 1997). É claro que, além disso, será necessário saber como ler e gravar as informações em um cérebro humano, tecnologia que parece tão longe de nós quanto a Lua estava dos primeiros hominídeos.

No livro, os cientistas da Fundação decidem então transferir a mente do protagonista para um corpo clonado a partir dele mesmo, só que muito mais jovem. A finalidade seria se livrar de todos os danos orgânicos causados pelo congelamento. Contudo, usando-se a transferência ou não, o processo criônico pode causar mais danos do que o autor deixa transparecer até muito perto do fim do livro. O leitor apressado pode pensar que Casagrande não está a par desses danos, ou que os está deixando de lado para o bem da ficção. Bem, eu garanto que ele está bem a par dos fatos, e a maneira que ele imaginou para tratar dos danos causados pelo congelamento é o que há de mais genial no livro. Infelizmente, revelar o truque seria estragar o desfecho dessa história de ficção que é também uma história de mistério. Para saber o final, só comprando o livro.

O único ponto desabonador é o pequeno tamanho do livro. É claro que mais páginas significariam diminuir as chances de vendagem do livro, o que é uma pena, pois o autor demonstra claramente que poderia ter escrito um livro de 250 ou 300 páginas. Felizmente, algumas pontas ficaram soltas, talvez propositalmente. No fim do livro, o protagonista começa a trabalhar com um cientista que está desenvolvendo um equipamento capaz de intermediar a comunicação entre várias pessoas, colocando os cérebros delas diretamente em rede, não importando a distância entre elas. O impacto social dessa "mente coletiva" seria avassalador e parece um ótimo tema para um segundo livro.

Como leitor de ficção científica de longa data, fiquei muito entusiasmado com a publicação de um autor paranaense nessa área tão pouco valorizada pelo mercado brasileiro de livros. Em países mais avançados, especialmente nos EUA, a ficção científica é uma grande indústria. São publicados mais de duzentos livros por ano e há várias revistas que publicam contos mensalmente. Imagino que isso não seja apenas uma coincidência, mas sim uma demonstração, ainda que tosca, do fato de que países mais avançados dão mais atenção à tecnologia e a seus efeitos sobre a sociedade do que nós. E é disso que trata a ficção científica: não da tecnologia e da ciência em si mesmas, mas sim dos efeitos destas sobre a vida e sobre a mente das pessoas. Nesse aspecto, Casagrande mostrou ser um grande escritor de ficção científica. Em todas as 173 páginas do livro percebemos as inquietações do autor: "Será que sabemos onde vai dar toda essa tecnologia?", "Quantas modificações e impactos ambientais o planeta pode absorver?", "Quem somos nós e porque somos conscientes de nós mesmos?". Ainda não sabemos as respostas para estas perguntas. Tudo que sabemos é que a tecnologia não pode nos dar tais respostas e que devemos procurá-las em outro lugar, talvez dentro de nós mesmos.

Pós-escrito: Esta resenha foi também publicada no jornal O Estado do Paraná, em 06/08/2002, na coluna do jornalista Gladimir Nascimento. Agradeço a ele pela oportunidade.

domingo, setembro 16, 2001

Hoje sou americano, hoje sou muçulmano

Fiquei sabendo sobre o ataque aos Estados Unidos quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center. Eu estava no escritório de um cliente, trabalhando ao computador e conectado à Internet por meio de uma rede de alta velocidade. O escritório praticamente parou à medida que as notícias iam se sucedendo. Primeiro um avião, depois outro, depois o Pentágono, o avião da Pensilvânia, a paralisação da Bolsa de Valores de São Paulo, a queda dos prédios, etc. Tudo trasmitido em alta velocidade.

Fora a tragédia em si, alguns fatos me preocuparam bastante desde aquela terçafeira. Primeiro, as crescentes manifestações apocalípticas e a referência a uma possível Terceira Guerra Mundial. Há que se descontar um certo grau de histeria e ansiedade, mas, a certa altura daquele dia, pareceu que todos os jornalistas haviam "pirado". Gente tida como séria falando de Armagedon não é uma cena boa de se ver. Até mesmo agora, depois que a poeira baixou um pouco, o ensaio de Roberto Pompeu de Toledo, publicado na última página da revista Veja de 19 de setembro, faz menção sobre "ninguém ter dúvidas de que se trata da Terceira Guerra". Bem, eu tenho.

Nossa cultura ocidental é fortemente apocalíptica e as raízes de tal cultura quase se perdem no tempo. Seria necessário recorrer ao persa Zaratustra, criador da primeira religião onde se menciona a idéia de juízo final, para compreender tal cultura. O que se pretende, com a pregação de idéias apocalípticas, é simplesmente fazer uma "reengenharia na humanidade". A idéia é mais ou menos a seguinte: a humanidade que está aí é má e corrupta, sendo necessário substituí-la por outra, o que somente seria possível por meio de uma grande guerra, da intervenção divina, ou de ambos. Nada mais ilusório. Estamos condenados à nossa humanidade e nenhuma reengenharia irá mudar tal fato.

Quanto à Terceira Guerra Mundial, o próprio conceito é ultrapassado. As duas grandes guerras que tivemos até hoje foram travadas entre as grandes nações do globo, por isso foram mundiais. A noção de que poderia haver uma Terceira Guerra se deve ao período da Guerra Fria, quando o mundo era polarizado entre EUA e URSS. Hoje, com o desmantelamento da URSS e com a redução da Rússia a uma insignificância, o conceito de Guerra Mundial perdeu o sentido, ao menos enquanto não mexerem com a China. No momento não é este o caso e não haverá uma guerra mundial simplesmente porque não há contra quem declarar guerra.

O segundo fato que me preocupou foi a velha afirmação, pisada e repisada, de que a vítima mereceu o crime. A velha retórica antiamericanista de sempre, espalhada por dezenas de websites, salas de bate-papo e fóruns eletrônicos. Em meio à mesmice, encontrei um artigo de Contardo Caligaris, psicanalista e colunista da Folha de São Paulo com quem raramente concordo, que desvenda o mistério: "... atribuímos aos EUA as características que menos gostamos de reconhecer em nós mesmos... Graças a esse artifício, podemos freqüentá-los dando livre curso ao nosso desejo de consumir sem considerar que esses desejos sejam nossos. Ao contrário, pretendemos que sejam um mal da cultura americana". Assim, o antiamericanismo é apenas um mecanismo de defesa engendrado com o objetivo de disfarçar o fato indigesto de que todos somos americanos e nos comportamos como eles. Especialmente hoje, também sou americano, pois o ataque aos EUA não foi somente um ataque a prédios e pessoas, mas sim um ataque à nossa cultura ocidental e a todos os nossos modelos mentais, construídos com sacrifício e assentados sobre as noções de respeito aos direitos civis, à liberdade e à individualidade.

O terceiro fato que me preocupou foi uma grande confusão entre o que é ser árabe, o que é ser palestino e o que é ser muçulmano. Na mente de várias pessoas, árabes e descendentes de árabes se tornaram imediatamente assassinos, como se todo americano branco, anglo-saxão e protestante (os WASPs) fosse membro da Ku Klux Klan. Árabe é somente quem nasce na Península Arábica, e mais ninguém. Chamar os palestinos de árabes seria o mesmo que chamar um brasileiro de português, só porque falamos a mesma língua. Finalmente, muçulmanos são os praticantes de uma das religiões que mais cresce no mundo, o islamismo, criado por Mohammad (traduzido incorretamente como Maomé) por volta de 600 d.C., e que já conta com cerca de 1,2 bilhão de seguidores. Tal religião, cujo livro sagrado é o Corão, baseia-se nos ideais de paz, misericórdia e perdão tanto quanto o cristianismo e o judaísmo, mas, sendo uma religião, pode ser distorcida da mesma forma que o cristianismo o foi para promover as Cruzadas e torturar pessoas durante a Inquisição. Um dos versículos do Corão, felizmente bastante citado ultimamente, diz: "Matar uma pessoa significa matar toda a humanidade e salvar uma pessoa significa salvar toda a humanidade". Ora, isso não é nada mais do que um preceito cristão! Contudo, em todas as religiões existem radicais e extremistas e foram eles que atacaram o World Trade Center e o Pentágono. O mundo muçulmano reprovou o atentado, assim como representantes de todas as outras religiões. É por isso que, hoje, também sou muçulmano.

Infelizmente, os conceitos de respeito aos direitos civis, à liberdade e à individualidade não existem nos países muçulmanos. Eles ainda não chegaram lá, mas não há razão para supor que não irão chegar. Não existe nada na religião islâmica que impeça o progresso social e científico. Mais que isso, o Islã até mesmo assegura direitos sociais e econômicos iguais para homens e mulheres, inclusive direito à educação, à expressão e ao voto. As raízes do atraso devem, assim, ser buscadas em outras áreas que não a religiosa.

É uma pena, mas o isolacionismo em que ainda vivem os países do Islã é prejudicial a todos. Eles perdem porque não podem compartilhar da cultura ocidental. Nós perdemos porque não podemos compartilhar de uma cultura vastíssima, que nos deu a Química, a Astronomia, a Álgebra (para desespero de alguns), algumas das mais belas construções arquitetônicas, preservou e traduziu para o árabe boa parte dos antigos manuscritos gregos e introduziu a pizza na Europa (sim, a pizza foi inventada no antigo Egito, mas entrou na Europa como uma modificação da sfiha árabe!).

Da minha parte, sempre tento colocar as coisas dentro do que eu chamo de "perspectiva do alienígena". Tento imaginar como é ser a outra pessoa, como é ter nascido e crescido em outro país, como é compartilhar de crenças e valores que me são totalmente alienígenas. A internet é fantástica nesse aspecto. Com ajuda dela, até mesmo aprendi algumas palavras em árabe e em chinês. Recentemente, descobri que o nome oficial da "perspectiva do alienígena" é "relativismo cultural", uma teoria formulada na década de 30 pelo antropólogo Melville Jean Herkovitz que afirma que nenhuma cultura é superior a outra. Embora seja uma teoria sociológica, difícil de ser comprovada "experimentalmente", duvido que muita gente discorde dela. É certo que o momento é dos guerreiros, mas, passado tudo isso, deveremos voltar a encarar o fato de que precisamos entender nossas diferenças para continuar vivendo no planeta. A perspectiva do alienígena é uma receita difícil de ser aplicada, exigindo dedicação, educação e persistência, mas pode salvar o mundo.

sexta-feira, setembro 07, 2001

Reengenharia, Qualidade Total e Complexidade

Muito se tem falado sobre mudanças e gerenciamento de mudanças. Até mesmo pessoas cujas vidas nunca foram afetadas por mudanças drásticas parecem ter a sensação de que o mundo muda muito mais rápido do que há meros dez anos. Por exemplo, Michael Hammer, o criador da "Reengenharia", ganha a vida ajudando empresas a se adaptarem e sobreviverem a mudanças. Contudo, ele mesmo parece um grande exemplo de estabilidade: entrou no renomado MIT (Massachusetts Institute of Technology ) aos 16 anos e nunca saiu de lá. É claro que, se alguém examinar a vida de Hammer ao microscópio, perceberá muita mudança ao longo dos anos, mas o ambiente em que ele vive nunca mudou muito.

Eu sempre gostei de mudanças, e nunca gostei muito de Reengenharia. A primeira vez que tive contato com o assunto foi por volta de 1993, quando eu trabalhava na Telepar com o Programa da Qualidade Total. A Reengenharia em si não é muito mais velha do que isto: o primeiro dos quatro livros de Hammer, "Reengineering the Corporation: A Manifesto for Business Revolution", em conjunto com James Champy, foi lançado neste mesmo ano. Na época me pareceu uma metodologia para quem havia perdido a paciência com Qualidade Total, melhoria dos processos, mudança de cultura organizacional, etc. Se as práticas japonesas pregavam a mudança gradativa dos processos, a Reengenharia pregava a ruptura rápida e reinvenção radical de todos os processos deficientes.

O próprio termo "Reengenharia" é uma má tradução. Como em vários outros casos de conflitos entre as línguas inglesa e portuguesa, as palavras "engineering" e "engenharia" não significam sempre a mesma coisa. Por exemplo, a palavra inglesa admite um verbo, "to engineer", que em português significa aproximadamente "engendrar" (recentemente foi introduzido também o pavoroso neologismo "engenheirar", na esteira da revolução transgênica). Deveríamos dizer, então, "Reinvenção" da empresa, nunca "Reengenharia".

É claro que ninguém duvida que as empresas estão repletas de processos mal planejados e rotinas desnecessárias. Lembro-me de ter visitado uma empresa há pouco tempo. Sobre a mesa de um dos funcionários estava um "relatório mensal de saldo de férias". Perguntei a ele por que aquele relatório era impresso e distribuído todos os meses, pois eu sabia que todos os empregados tinham acesso ao mesmo relatório a qualquer hora, bastando acessar um terminal de computador. "Não sei, - disse ele - mas é melhor não perguntar. Talvez a pessoa que emite o relatório não faça muito mais do que isso".

Um processo deste tipo torna-se rapidamente extinto quando alguém resolve reinventar a empresa. E quanto à pessoa que emite o relatório? Bem, daí fica fácil entender porque "reengenharia" tornou-se sinônimo de "downsizing", para desespero de Hammer, que diz ter perdido algumas noites de sono por causa de executivos que diziam estar reinventado a empresa, quando na verdade só queriam uma desculpa para enxugar o quadro de pessoal.

O fato é que, apesar de todo o falatório, Reengenharia e Qualidade Total são metodologias muito semelhantes, diferindo principalmente na velocidade de aplicação e em alguns outros fatores que não passam de meros temperos. Ambas são herdeiras diretas da Administração Científica, criada por Frederick Winslow Taylor e outros. Reengenharia é Taylor passado a limpo e, segundo a revista Exame, parece estar de volta, com a publicação de mais um livro de Hammer. Quanto à Qualidade Total, basta dar uma olhada em um dos livros brasileiros mais famosos sobre o assunto: "TQC - Controle da Qualidade Total", de Vicente Falconi Campos. Trata-se de um livro essencialmente centrado em processos (prática do PDCA, QC Story, método de análise e solução de problemas, ferramentas da qualidade, etc). Ambas as metodologias dizem o tempo todo: controle, controle, controle. São, "cartesianas" demais, "newtonianas" demais, em um mundo não linear que se recusa a ser controlado.

As descobertas dos últimos anos, em várias áreas do conhecimento, mas especialmente na física, têm chamado a atenção para o comportamento de sistemas não lineares. Antigamente, físicos e engenheiros gostavam de resolver sistemas lineares, relegando os sistemas não lineares à condição de meras exceções. Na verdade, sistemas lineares é que são a exceção e a única particularidade que eles têm é a de poderem ser resolvidos analiticamente (com lápis e papel). A invenção do computador digital tornou mais fácil a resolução de sistemas não lineares, e as surpresas começaram a aparecer. Em alguns sistemas não lineares, as ligações entre causa e efeito desaparecem pela amplificação de realimentações que podem transformar fracas variações iniciais em severas conseqüências. O resultado ficou conhecido como "efeito borboleta": uma borboleta batendo as asas na China pode causar uma tempestade no Brasil. O futuro de tais sistemas, denominados "caóticos, não é passível de ser conhecido. São sistemas determinísticos, que seguem as leis de Newton, mas são imprevisíveis.

O mundo dos sistemas não lineares (uma empresa, por exemplo) não pode ser representado pela metáfora da máquina. Neste mundo, a estabilidade significa a morte, a mudança é essencial e a desordem e o paradoxo estão em todo lugar. Uma tentativa de tornar o sistema mais estável trabalha apenas no sentido de torná-lo menos flexível e incapaz de interagir com o meio-ambiente. A estabilidade significa a destruição do sistema: ou o sistema deixa de apresentar os resultados necessários, ou simplesmente não apresenta resultado algum.

Uma outra idéia que vem ganhando força no meio empresarial é a Ciência da Complexidade, que estuda as propriedades da realimentação não linear em estruturas de rede. A ciência da complexidade é parente da dinâmica do caos e, como ela, surgiu a partir das experiências com programas de computadores, especialmente a partir dos anos 80. Enquanto a dinâmica do caos se concentra no estudo do comportamento individual de um único sistema não linear, a complexidade estuda o comportamento conjunto de milhares ou milhões de agentes trocando informações e compondo o que se chama de "sistema adaptativo complexo". Tais sistemas podem aprender por meio de realimentação e incorporar o aprendizado na sua própria estrutura. O sistema como um todo passa a exibir um comportamento que nenhum dos agentes individuais é capaz de exibir. Tal comportamento é denominado "comportamento emergente". Muitos teóricos imaginam que as empresas do mundo real e a sociedade como um todo se comportam como sistemas adaptativos complexos.

Existem muitos exemplos de sistemas adaptativos complexos, alguns teóricos e computacionais, outros extraídos da própria realidade. Um dos primeiros softwares a exibir comportamento emergente foi o BOIDS, criado por Craig Reynolds em 1987. Craig gostava de observar o comportamento dos pássaros, especialmente o fenômeno denominado "flocular", no qual os pássaros voam em bandos. Após algum tempo de observação, ele desenvolveu três regras simples que seriam responsáveis pela floculação:

1. Os pássaros precisam olhar para a sua área local e decidir onde está a maioria dos outros pássaros, e então tentar se dirigir para lá.

2. Os pássaros precisam olhar seus vizinhos e tentar igualar sua velocidade à deles.

3. Os pássaros precisam evitar colidir com obstáculos e com outros pássaros.
 
O programa desenvolvido por Craig incorporava estas três regras básicas e exibia cada pássaro como um elemento gráfico. A floculação surgiu espontaneamente como um comportamento emergente, algo que não foi explicitamente programado, mas que surgiu da interação entre os pássaros. A ordem surge do caos e, embora os pássaros de Craig fossem muito simples, é possível que os pássaros da vida real se comportem de maneira não muito diferente.
 
Em um exemplo da vida real, quando Mike McMaster, diretor da Knowledge Based Development Ltd, uma empresa de consultoria localizada em Londres, foi contratado para aumentar a produtividade de um campo de petróleo, ele fez algo similar: com a ajuda de uma equipe multifuncional ele resumiu o trabalho em apenas quatro princípios básicos. A intenção, ao contrário do que se poderia pensar, era produzir, não a simplicidade, mas uma entidade complexa e adaptativa, capaz de lidar com as condições mutantes tão rápida e adaptativamente quanto um bando de pássaros.
 
"O problema é que nós matamos a complexidade com regras e estruturas rígidas que bloqueiam o fluxo natural da informação. Assim, o que fazemos é simplesmente olhar para os quatro princípios e deixar o resto cuidar de si mesmo, de modo a deixar emergir a criativa complexidade", afirma McMaster. Tal pensamento está em perfeito acordo com o "teorema de Von Foster", da cibernética: "Quanto mais rígidas as conexões, tanto mais alienados do comportamento global estarão os elementos."
 
Recentemente, vários autores têm insistido que a lógica da rede é, na verdade, a "bio-lógica". Por exemplo, Kevin Kelly, editor executivo da revista Wired, escreveu o livro "Out Of Control" (Fora de Controle). Neste livro, Kelly argumenta que a dinâmica atual da economia não é mais "controlável" pelas regras do capitalismo, e que é indispensável aprender "a biologia dos negócios na economia em rede". Quem tentar obter o controle, acabará por perdê-lo. Em um sentido um pouco diferente, Peter Senge, autor de "The Fifth Discipline" (A Quinta Disciplina), tem insistido sobre a necessidade de se estudar o comportamento sistêmico das organizações, em vez de se focar os comportamentos individuais.
 
No Brasil, Clemente Nobrega, autor de "Em Busca da Empresa Quântica", acaba de lançar o livro "Supermentes", onde ele advoga a necessidade imperiosa que a natureza tem de se comunicar, e alerta sobre os prejuízos que podem ser causados quando a comunicação é artificialmente restringida.
 
Nóbrega chama as empresas rigidamente controladas de "empresas da era da chaminé", em referência às práticas administrativas que surgiram junto com a primeira revolução industrial. Na era da informação, que almeja se tornar uma "era do conhecimento", não há mais sentido em se controlar rigidamente uma organização. Há vários motivos para isso, mas vou citar dois dos principais. Primeiro, a quantidade de informação fluindo para dentro e para fora das fronteiras da empresa não pode ser controlada. Os empregados sempre ficam sabendo das notícias antes de receberem o "boletim oficial". Segundo, ninguém sabe mais onde ficam as fronteiras da empresa. Isso acontece por causa de terceirizações, "externoparceirizações", joint-ventures e outros tipos de ligações, que forçam as empresas a atuar em conjunto para reduzir custos e aumentar a produtividade. Um dado gerente, por exemplo, pode não ter controle direto sobre os responsáveis por determinada atividade. A velha máxima "manda quem pode, obedece quem tem juízo" está cada vez mais velha e mal adaptada.
 
Também no Brasil, Ricardo Semler, que foi recentemente matéria de capa da revista Exame, tem atraído bastante atenção por pregar e implantar princípios de flexibilização de normas de trabalho. E ninguém pode dizer que se trata de um teórico acadêmico. A Semco, empresa da qual Semler é acionista majoritário, tem crescido a 35% ao ano, devendo atingir uma receita de R$ 245 milhões (quase US$ 100 milhões) em 2001.
 
Os princípios seguidos por Semler são simples: esqueça o escalão superior, nunca deixe de ser uma "start-up", não seja babá dos seus empregados (trate-os como adultos), deixe que o talento encontre seu lugar, tome decisões rápida e abertamente e associe-se promiscuamente. "Nossos parceiros - diz Semler - são tão parte do nosso negócio quanto nossos empregados".
 
Apesar de tudo, seguir as recomendações de Semler e outros não significa deixar as pessoas fazerem o que bem entenderem. A liderança é essencial, mas liderar não significa forçar as pessoas a seguir um caminho. Significa, simplesmente, apontar o caminho e fornecer as condições para que as pessoas o percorram livremente. A administração taylorista foi importante para o desenvolvimento da excelência empresarial, mas não precisamos continuar usando tal ferramenta, da mesma forma que não precisamos continuar usando machados de pedra com cabo de osso.

segunda-feira, fevereiro 12, 2001

Davos e Anti-Davos

Davos esteve novamente na moda, durante a última semana de janeiro, mas eu preferia quando a imprensa brasileira pronunciava o nome desta cidade suíça como "Dávos", e não "Davôs", como estão fazendo agora. Esta última forma me parece afrancesada demais, pouco adequada a um fórum que, supostamente, prega o neoliberalismo. Sim, pois os franceses se encontram dentre os países europeus que mais resistem a liberalizar sua economia. Por exemplo, a toda-poderosa e monolítica Electricité de France (EDF) continua tão estatal quanto sempre foi, mas não se importa em comprar frações substanciais de empresas de energia elétrica pelo mundo afora, como a Light, por exemplo, da qual a EDF detém cerca de 21%. A lição é clara: privatização, na França, nem pensar. No resto do mundo, tudo bem.

Questões de pronúncia à parte, a maior novidade este ano foi a realização, em Porto Alegre, do Fórum Social Mundial, chamado por alguns de Fórum Anti-Davos, simulaneamente ao Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos. Além de se opor a Davos, o evento de Porto Alegre pretendeu se opor à globalização, o que me parece muito estranho. Não se trata apenas de uma batalha de Davi contra Golias, mas também de uma batalha contra a tecnologia. E, durante toda a história da humanidade, qualquer povo que se opôs à tecnologia acabou por perder. Assim, imagino que a única maneira de "desglobalizar" o mundo seja voltarmos a viver em tribos, isolados uns dos outros por uma densa floresta. Seria mais fácil combater a força da gravidade!

O debate anti-globalização é também puramente retórico, recheado da mais descarada ideologia, o que é fácil perceber pelos participantes dos debates de Porto Alegre: Oscar Niemeyer (arquiteto e planejador de uma das cidades mais stalinistas do mundo), Luís Inácio Lula da Silva (presidente de honra do PT), João Pedro Stedile (líder do MST), Tarso Genro (prefeito petista de Porto Alegre), Olívio Dutra (governador do Rio Grande do Sul), José Bové (líder dos agricultores franceses, processado na justiça por ter comandado a destruição de uma loja do McDonalds), Noam Chomsky (professor de linguística do MIT e famoso por seus artigos e livros contrários à política externa norte-americana), sem falar em guerrilheiros, agricultores sem terra, padres, presidentes de ONGs, líderes de ocasião, etc. Seria fácil desqualificar os participantes, e dizer que eles não entendem nada de finanças internacionais e tecnologia da informação, mas seria também anti-científico e, portanto, resistirei à tentação.

Sem entrar no terreno da desqualificação, uma das curiosidades em eventos desse tipo é que todos também se mostram igualmente tolos e igualmente sábios. Luís Inácio Lula da Silva, por exemplo, garantiu, em meio a uma manifestção, que "nos sentimos livres nas ruas, porque o que queremos é o que o povo quer". Palavras estranhas, especialmente vindas de um homem que, por duas vezes, foi submetido ao voto popular e, por duas vezes, viu o povo dizer não.

Outra curiosidade é que o fórum de Porto Alegre também foi globalizado e também usou de tecnologia, valendo-se de tradução simultânea e web sites (com opções para português, inglês, francês e espanhol). Também arrisco dizer que, como em qualquer evento deste tipo, foram bebidos litros de coca-cola, queimados galões de gasolina e consumidos vários kWh de energia elétrica. Tendo o evento sido realizado na PUC-RS, arrisco também que o participante não precisou andar muito para encontrar uma loja do McDonald's. Isso sem falar que, a julgar pelas fotografias do evento, era possível encontrar gente de qualquer país perambulando por lá.

O fato, então, é que os participantes do evento usam o termo "globalização" apenas como uma palavra de efeito, uma espécie de símbolo da nova divisão entre Norte e Sul, que substituiu a divisão entre Ocidente e Oriente após o fim da Guerra Fria. E, como todo efeito de retórica, o debate anti-globalização vem recheado de erros lógicos e conceituais.

Um dos erros comuns no debate público sobre a globalização, de acordo com John Micklethwait e Adrian Wooldridge, autores de "O Futuro Perfeito", é que a discussão "sempre parece envolver uma fábrica fechada na Carolina do Sul, nunca um jovem africano sentado em frente a um computador; sempre a floresta amazônica em chamas, nunca um jovem banqueiro de investimentos brasileiro; sempre o Rei Leão ou as Spice Girls, nunca o Museu Guggenheim em Bilbao".

De fato, um dos ícones do movimento anti-globalização é a mal-fadada reunião da Organização Mundial do Comércio, em Seattle, em novembro de 1999. Entretanto, toda a pancadaria que evitou a realização do encontro foi organizada por norte-americanos que temiam perda de subsídios em razão da "reforma agressiva das regras de comércio agrícola", que estaria entre os pontos principais da pauta de discussões. Não teve nada a ver com crianças famintas da Tanzânia, nem com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, nem com florestas em chama.

Outro erro é que a solução proposta para os efeitos adversos da globalização frequentemente esbarra na chamada "Terceira Via", apoiada até pelo presidente Fernando Henrique, em um de seus arroubos intelecuais. Esta Terceira Via seria um meio termo entre o capitalismo, que em sua forma mais pura existe somente nos Estados Unidos e Inglaterra, e o socialismo, que desparecerá da face da Terra quando Fidel Castro se for.

Tal polarização tende a simplificar demais a questão, tentando tornar opostos os sistemas capitalista e socialista. O socialismo é uma coisa tremendamente simples, pois é artificial: trata-se do melhor sistema já imaginado para tornar todo mundo igualmente pobre. Já o capitalismo não é um "ismo". O capitalismo não é uma ideologia e surge naturalmente onde há liberdade de comunicação e ação. Assim, não há apenas três vias, mas infinitas vias. Quando o governo não atrapalha, surge o que Marx chamou de capitalismo. Quando o governo intervém de forma progressiva, restringindo a liberdade de mercado, o sistema econômico sofre uma transição até chegar ao comunismo, que não passa de "capitalismo de estado", regime onde o governo controla todos os meios de produção.

A globalização, assim, á algo muito complicado, mas é necessariamente relacionada à liberdade. E um dos problemas aqui é que a liberdade é perigosa, pois envolve competição e, no fim de tudo, competição envolve perdedores. Da minha parte, vivi quase vinte anos em um regime ditatorial e fico assustado quando alguns brasileiros dizem que "na época da ditadura era melhor". Isso é o mesmo que dizer que "na época de inflação galopante era melhor, pois tínhamos reajuste de salário todo mês.Hipersimplificação do debate, mais uma vez, escondendo pontos essenciais e dirigindo o raciocínio.

Também é comum pensar que estamos vivendo algo novo, que nunca aconteceu antes, e que nunca acabará, mas, você quer ler algo com sabor de dejá-vú? Então preste atenção às palavras do economista John Maynard Keynes relatando a era de tranquilidade que antecedeu a Primeira Guerra Mundial:

"O habitante de Londres poderia pedir por telefone, enquanto bebericava seu chá matinal ainda na cama, vários produtos de todo o globo, na quatidade que quisesse, e esperar razoavelmente que fossem entregues na manhã seguinte à sua porta; da mesma forma, e no mesmo momento, ele poderia arriscar suas riquezas investindo em empresas de todos os cantos do mundo, e compartilhar, sem problema algum, de seus frutos e vantagens ... Mais importante, ele considerava tal estado de coisas como normal, certo e permanente, exceto no que se referisse a possíveis melhorias."

Então veio a guerra, e a era de protecionismo que se seguiu acabou por mergulhar o mundo na grande depressão, de um lado, e no comunismo, do outro. Contudo, Keynes poderia muito bem estar falando da Internet e da economia atual baseada em cliques, capital de risco e logística. E, da mesma forma que os ingleses de Keynes, também nós consideramos tal estado de coisas como permanente, imutável e sujeito a apenas alguns ajustes.

Ainda assim, parece adequado supor que esta nova era de globalização nada mais é do que a continuação da era de globalização dos ingleses de Keynes, interropida por duas guerras. Imagino que a humanidade tende naturalmente a esse estado de coisas, impelida por uma grande curiosidade e pela busca de eficiência na alocação de recursos sempre escassos. Talvez a nova Ciência da Complexidade tenha algo a nos dizer sobre isso, tratando da evolução de sistemas adaptativos complexos como parece ser a economia mundial.

E foi exatamente por sermos organismos adaptativos que chegamos até aqui. Se fôssemos dados ao isolacionismo, ainda seríamos macacos habitando alguma região da África. Se fôssemos dados ao pânico de tudo que se move, ainda estaríamos sentados no topo das árvores, cogitando se a vida nas savanas seria melhor ou pior, como talvez façam as preguiças.

Na minha opinião, a verdadeira globalização ainda não começou, pois nem todos os países que contam estão no jogo. Por enquanto, há um país que está praticamente fora dele, mas que está observando à distância, flexionando os músculos, reunindo forças e aprendendo tudo que pode com exércitos de homens e mulheres espalhados pelo globo. A verdadeira globalização só começará no dia em que os chineses, inventores da pólvora, do papel, da imprensa e do espaguete, entrarem definitivamente no jogo. É impossível saber se o mundo será melhor ou pior, mas será suficientemente diferente para que Davos, Porto Alegre e Seattle empalideçam em insignificância provinciana.