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segunda-feira, maio 02, 2011

O fim de Bin Laden

Então, eis que os EUA conseguiram finalmente cercar e matar Osama Bin Laden. Parabéns para os Seals, que cumpriram a missão em menos de 10 anos! Entretanto, uma das dúvidas que ficam é: será que isso é bom? Ao que parece, cada especialista em terrorismo tem no momento uma opinião diferente, o que significa que qualquer coisa pode acontecer.

Aos incautos, que dizem que não há provas de que Bin Laden esteja morto, lembro do grande risco que Obama correu ao fazer o anúncio. Em outras palavras, se Bin Laden não estiver morto, Obama estará, ao menos politicamente. Por outro lado, se Bin Laden estiver morto, e tudo indica que esteja, Obama estará reeleito.

Interessante que este fato tenha ocorrido pouco após o casamento daquele príncipe que não é príncipe com aquela princesa que não é princesa. Daqui para frente, alguns países, incluindo a Inglaterra, tradicional aliada dos EUA, pátria do meu coração, inventora daquele baseball que não é baseball, daquele pudim que não é pudim e daquele bife que não é bife, terão de se virar com algo bem mais concreto e real. Real de verdade. Uma pena, uma verdadeira pena, mas apenas mais uma prova de que não passamos de macacos pelados tentando provar quem manda no pedaço.

terça-feira, setembro 12, 2006

O dia seguinte

Então, as torres caíram. Na época, escrevi um artigo bem intencionado, que hoje me parece otimista demais, intitulado "Hoje sou americano, hoje sou muçulmano". Por coincidência, no mesmo dia o Le Monde estampou em sua primeira página a manchete "Hoje somos todos americanos". Contudo, as chuvas de bombas que cairam posteriormente no Afeganistão e no Iraque tornaram muito difícil nos solidarizarmos com os norte-americanos. Da mesma forma, as freqüentes ameaças da Al-Qaeda e o atentado ao metrô de Londres tornaram muito difícil nos solidarizarmos com os radicais islâmicos. Hoje, de ambos os lados do Atlântico, todos são terroristas.

No dia seguinte ao 11 de setembro, as bolsas de valores caíram, a economia entrou em recessão, o leilão de privatização da Copel (Companhia Paranaense de Energia, única empresa energética posta à venda e não vendida) resultou vazio. Mais tarde, algum paranaense ilustre mencionou que "foi um ato de Deus que impediu a privatização". Estranho Deus esse, que condena milhares de pessoas à morte com o objetivo de garantir o emprego de outras milhares. Não foi assim que me ensinaram no catecismo!

O mundo após o 11 de setembro é muito pior. Antes, tínhamos ao menos alguns chefes de estado ensaiando passos de estadistas. Tínhamos promessas e chances de integração entre as Américas e uma Organização Mundial do Comércio progressivamente liberal. Hoje, temos Chávez, Morales e Lula. Temos protecionismo e rodadas da OMC canceladas. Nos EUA, tínhamos um presidente eleito de maneira fraudulenta, sem apoio popular e sem nada a fazer a não ser se esconder nas moitas da Casa Branca, jogar golfe e esperar o fim do mandato. Hoje, temos um herói da luta contra o terrorismo, que deve estar repetindo até agora, para si mesmo, entre um prezzel e outro, "não contavam com a minha astúcia!".

Após o 11 de setembro, coisas incríveis aconteceram. Vimos o país mais rico do mundo se lançar em guerra contra dois dos mais pobres, em busca do chefe da Al-Qaeda, que nunca foi encontrado, e de armas de destruição em massa, que nunca existiram. Vimos passageiros sendo revistados dos pés à cabeça antes de embarcarem em um avião, só para se sentarem calmamente e receberem facas e garfos metálicos para o jantar. Vimos a canção Imagine, de John Lennon, sendo banida das rádios e TVs norte-americanas, sob alegação de "letra questionável". A lista completa de canções banidas (ou "não recomendadas", para ser mais exato) indica o nível de neurose atingido após o ataque terrorista. Mas essa é uma era neurótica e não devemos nos espantar. Mesmo assim, se Yeshua e Muhammad (ou Jesus e Maomé) soubessem o que seria feito em nome deles, o primeiro teria voltado a martelar pregos e o segundo teria acabado seus dias como um comerciante anônimo na região de Meca.

domingo, setembro 16, 2001

Hoje sou americano, hoje sou muçulmano

Fiquei sabendo sobre o ataque aos Estados Unidos quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center. Eu estava no escritório de um cliente, trabalhando ao computador e conectado à Internet por meio de uma rede de alta velocidade. O escritório praticamente parou à medida que as notícias iam se sucedendo. Primeiro um avião, depois outro, depois o Pentágono, o avião da Pensilvânia, a paralisação da Bolsa de Valores de São Paulo, a queda dos prédios, etc. Tudo trasmitido em alta velocidade.

Fora a tragédia em si, alguns fatos me preocuparam bastante desde aquela terçafeira. Primeiro, as crescentes manifestações apocalípticas e a referência a uma possível Terceira Guerra Mundial. Há que se descontar um certo grau de histeria e ansiedade, mas, a certa altura daquele dia, pareceu que todos os jornalistas haviam "pirado". Gente tida como séria falando de Armagedon não é uma cena boa de se ver. Até mesmo agora, depois que a poeira baixou um pouco, o ensaio de Roberto Pompeu de Toledo, publicado na última página da revista Veja de 19 de setembro, faz menção sobre "ninguém ter dúvidas de que se trata da Terceira Guerra". Bem, eu tenho.

Nossa cultura ocidental é fortemente apocalíptica e as raízes de tal cultura quase se perdem no tempo. Seria necessário recorrer ao persa Zaratustra, criador da primeira religião onde se menciona a idéia de juízo final, para compreender tal cultura. O que se pretende, com a pregação de idéias apocalípticas, é simplesmente fazer uma "reengenharia na humanidade". A idéia é mais ou menos a seguinte: a humanidade que está aí é má e corrupta, sendo necessário substituí-la por outra, o que somente seria possível por meio de uma grande guerra, da intervenção divina, ou de ambos. Nada mais ilusório. Estamos condenados à nossa humanidade e nenhuma reengenharia irá mudar tal fato.

Quanto à Terceira Guerra Mundial, o próprio conceito é ultrapassado. As duas grandes guerras que tivemos até hoje foram travadas entre as grandes nações do globo, por isso foram mundiais. A noção de que poderia haver uma Terceira Guerra se deve ao período da Guerra Fria, quando o mundo era polarizado entre EUA e URSS. Hoje, com o desmantelamento da URSS e com a redução da Rússia a uma insignificância, o conceito de Guerra Mundial perdeu o sentido, ao menos enquanto não mexerem com a China. No momento não é este o caso e não haverá uma guerra mundial simplesmente porque não há contra quem declarar guerra.

O segundo fato que me preocupou foi a velha afirmação, pisada e repisada, de que a vítima mereceu o crime. A velha retórica antiamericanista de sempre, espalhada por dezenas de websites, salas de bate-papo e fóruns eletrônicos. Em meio à mesmice, encontrei um artigo de Contardo Caligaris, psicanalista e colunista da Folha de São Paulo com quem raramente concordo, que desvenda o mistério: "... atribuímos aos EUA as características que menos gostamos de reconhecer em nós mesmos... Graças a esse artifício, podemos freqüentá-los dando livre curso ao nosso desejo de consumir sem considerar que esses desejos sejam nossos. Ao contrário, pretendemos que sejam um mal da cultura americana". Assim, o antiamericanismo é apenas um mecanismo de defesa engendrado com o objetivo de disfarçar o fato indigesto de que todos somos americanos e nos comportamos como eles. Especialmente hoje, também sou americano, pois o ataque aos EUA não foi somente um ataque a prédios e pessoas, mas sim um ataque à nossa cultura ocidental e a todos os nossos modelos mentais, construídos com sacrifício e assentados sobre as noções de respeito aos direitos civis, à liberdade e à individualidade.

O terceiro fato que me preocupou foi uma grande confusão entre o que é ser árabe, o que é ser palestino e o que é ser muçulmano. Na mente de várias pessoas, árabes e descendentes de árabes se tornaram imediatamente assassinos, como se todo americano branco, anglo-saxão e protestante (os WASPs) fosse membro da Ku Klux Klan. Árabe é somente quem nasce na Península Arábica, e mais ninguém. Chamar os palestinos de árabes seria o mesmo que chamar um brasileiro de português, só porque falamos a mesma língua. Finalmente, muçulmanos são os praticantes de uma das religiões que mais cresce no mundo, o islamismo, criado por Mohammad (traduzido incorretamente como Maomé) por volta de 600 d.C., e que já conta com cerca de 1,2 bilhão de seguidores. Tal religião, cujo livro sagrado é o Corão, baseia-se nos ideais de paz, misericórdia e perdão tanto quanto o cristianismo e o judaísmo, mas, sendo uma religião, pode ser distorcida da mesma forma que o cristianismo o foi para promover as Cruzadas e torturar pessoas durante a Inquisição. Um dos versículos do Corão, felizmente bastante citado ultimamente, diz: "Matar uma pessoa significa matar toda a humanidade e salvar uma pessoa significa salvar toda a humanidade". Ora, isso não é nada mais do que um preceito cristão! Contudo, em todas as religiões existem radicais e extremistas e foram eles que atacaram o World Trade Center e o Pentágono. O mundo muçulmano reprovou o atentado, assim como representantes de todas as outras religiões. É por isso que, hoje, também sou muçulmano.

Infelizmente, os conceitos de respeito aos direitos civis, à liberdade e à individualidade não existem nos países muçulmanos. Eles ainda não chegaram lá, mas não há razão para supor que não irão chegar. Não existe nada na religião islâmica que impeça o progresso social e científico. Mais que isso, o Islã até mesmo assegura direitos sociais e econômicos iguais para homens e mulheres, inclusive direito à educação, à expressão e ao voto. As raízes do atraso devem, assim, ser buscadas em outras áreas que não a religiosa.

É uma pena, mas o isolacionismo em que ainda vivem os países do Islã é prejudicial a todos. Eles perdem porque não podem compartilhar da cultura ocidental. Nós perdemos porque não podemos compartilhar de uma cultura vastíssima, que nos deu a Química, a Astronomia, a Álgebra (para desespero de alguns), algumas das mais belas construções arquitetônicas, preservou e traduziu para o árabe boa parte dos antigos manuscritos gregos e introduziu a pizza na Europa (sim, a pizza foi inventada no antigo Egito, mas entrou na Europa como uma modificação da sfiha árabe!).

Da minha parte, sempre tento colocar as coisas dentro do que eu chamo de "perspectiva do alienígena". Tento imaginar como é ser a outra pessoa, como é ter nascido e crescido em outro país, como é compartilhar de crenças e valores que me são totalmente alienígenas. A internet é fantástica nesse aspecto. Com ajuda dela, até mesmo aprendi algumas palavras em árabe e em chinês. Recentemente, descobri que o nome oficial da "perspectiva do alienígena" é "relativismo cultural", uma teoria formulada na década de 30 pelo antropólogo Melville Jean Herkovitz que afirma que nenhuma cultura é superior a outra. Embora seja uma teoria sociológica, difícil de ser comprovada "experimentalmente", duvido que muita gente discorde dela. É certo que o momento é dos guerreiros, mas, passado tudo isso, deveremos voltar a encarar o fato de que precisamos entender nossas diferenças para continuar vivendo no planeta. A perspectiva do alienígena é uma receita difícil de ser aplicada, exigindo dedicação, educação e persistência, mas pode salvar o mundo.