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sexta-feira, abril 13, 2012

Discurso de formatura - 12 de abril de 2012

No dia 12 de abril tive novamente a satisfação de ser escolhido paraninfo das turmas de formandos de Engenharia Elétrica e Engenharia de Automação do campus Curitiba da UTFPR. Foram 51 alunos reunidos no Grande Auditório da Universidade Positivo. Parabéns novamente a todos!

***

Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Marcos Flávio de Oliveira Schiefler Filho, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos Engenheiros e Engenheiras recém-formados.

É sempre uma satisfação e uma grande honra ser escolhido paraninfo de uma turma de formandos. Dessa vez a honra é até um pouco maior, pois, até onde sei, nunca houve uma turma de formandos tão grande no curso de Engenharia. Imagino como devem ter sido as reuniões da comissão de formatura!

Eu gostaria de falar rapidamente sobre três assuntos hoje. Começo prestando uma homenagem a alguns dos heróis dessa noite. É evidente que vocês, formandos, são os heróis dessa noite, mas isso é bastante obvio. Seus pais e familiares também são os heróis dessa noite, mas isso também é bastante óbvio. Mas, nesses 20 anos como professor da UTFPR eu já frequentei algumas formaturas e, até onde me lembro, nunca vi uma certa classe de profissionais ser homenageada aqui: os professores.

Mas não falo de nós, os professores. Falo daqueles que vieram antes de nós: os professores do Ensino Médio, do Ensino Fundamental e do Ensino Básico. Esses são outros dos verdadeiros heróis dessa noite.

Falo isso sem tentativa alguma de proselitismo, sem tentativa alguma de agradar pelo mero ato de agradar. Falo isso simplesmente porque é a mais pura verdade: os professores dos Ensinos Médio, Fundamental e Básico são poucas vezes lembrados em situações como a de hoje. E, se essa profissão já foi mais fácil, na época da palmatória, na época da autoridade absoluta do professor, hoje é uma das profissões mais estressantes que há, mesmo em escolas particulares. Só se exerce essa profissão pela paixão ou por não se conhecer muito bem o buraco em que se estava entrando.

E, no entanto, esses professores estão na base. Sem eles, não estaríamos aqui. São eles, juntamente com os pais, os responsáveis por aquilo que chamamos de Educação. À medida que o aluno vai crescendo, vai diminuindo a quantidade de Educação que ele pode receber, e vai aumentando a quantidade de Ensino. Nós, professores de Ensino Superior, somos muito mais responsáveis pelo Ensino do que pela Educação. De fato, se um aluno chega até nós "estragado", por assim dizer, pouco podemos fazer. Mas se um aluno chega até nós bem preparado, dizemos que ele é "excelente", lembrando apenas vagamente de todos os professores que contribuíram para isso.

Essa lembrança já foi mais fácil para nós, do DAELT, especialmente quando tínhamos o curso técnico em Eletrotécnica, o que significava termos ao nosso lado colegas que lecionavam para o Ensino Médio, embora em disciplinas técnicas. Mas hoje o DAELT tem apenas cursos superiores, o CEFET-PR transformou-se na UTFPR e ainda estamos tentando entender o que isso tudo significa.

Aqui aproveito para emendar no segundo assunto: o futuro do ensino da Engenharia. Ser Universidade não significa apenas estarmos mais distantes dos Ensinos Médio e Fundamental. Significa também que a maneira pela qual somos avaliados mudou. Relembrando rapidamente, nossa instituição nasceu no início do século passado, como Escola de Artífices e aos poucos fomos nos transformando: Liceu Industrial de Curitiba, Escola Técnica Federal de Curitiba, Escola Técnica Federal do Paraná e, no final dos anos 70, quando surgiram os primeiros cursos superiores, Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Mas toda essa mudança não alterou uma característica central da nossa instituição: a preparação de profissionais para o mercado.

A mudança para Universidade é um pouco mais drástica. Se antes éramos comparados apenas aos outros CEFETs, agora somos comparados a centenas de Universidades brasileiras, o que significa usar o mesmo critério de avaliação usado pelas Universidades brasileiras e, na verdade, por todas as Universidades do mundo: a necessidade de produção tecnológica e científica. Nesse mundo universitário a graduação não é valorizada diretamente, mas apenas na medida em que possa formar profissionais capazes de realizar pesquisas e publicar artigos.

Para nós, da UTFPR, isso acontecerá de uma forma quase natural, por um simples motivo: novos professores universitários, a não ser em casos muito particulares, devem ter doutorado.

Isso é um pouco estranho, pois vocês, que acabaram de se formar, podem ajudar a projetar uma subestação, uma usina hidrelétrica ou uma planta industrial, podem organizar sistemas de automação industrial, trabalhar em pesquisa tecnológica, na especificação e análise de sistemas, na supervisão da operação e na manutenção de sistemas e equipamentos, podem realizar estudos de viabilidade econômico-financeira de projetos, podem elaborar perícias, vistorias, avaliações, laudos e pareceres técnicos nas áreas de Engenharia Elétrica e de Automação, conforme o caso. Mas ainda não podem dar aulas de nenhum desses assuntos nos nossos cursos de Engenharia ou em curso algum de Engenharia. Para isso vocês precisarão de um doutorado em alguma área da Engenharia, coisa que deve demorar mais seis anos, no mínimo, supondo que vocês já tenham iniciado um mestrado.

Esse fenômeno é tão universal que tem até um nome: "viés acadêmico", ou seja, a tendência das instituições de ensino de aumentarem seus status por meio da adoção dos modelos das instituições de maior prestígio.

Em termos mais simples, daqui a 20 anos, talvez menos, quando todos os nossos professores menos graduados, que foram admitidos como assistentes em uma época na qual o doutorado não era obrigatório, tiverem se aposentado, nosso quadro de professores será formado quase somente por doutores, assim como acontece em Harvard, em Cambridge, assim como já acontece parcialmente na USP. Nós seremos menos CEFET-PR e mais Universidade, mas isso não poderá significar perder a identidade.

Obviamente, ter doutorado não é uma coisa ruim, e eu mesmo estou a caminho do meu, depois de vinte anos dividindo minha vida profissional entre o magistério e a atuação como engenheiro profissional. Mas tenho de confessar que me dá certa aflição saber que nosso curso de Engenharia Elétrica do futuro poderá ser menos orientado para a preparação de profissionais para o mercado e mais orientado para a pesquisa.

Meu último assunto é que talvez eu esteja enganado sobre essa questão. Talvez essa minha aflição seja "século XX demais". Primeiro, porque a integração entre empresas e Universidade, seja por meio de estágios, seja por meio de pesquisas colaborativas, pode servir como forma de apresentação daqueles conteúdos que não cabem em sala de aula. Segundo porque, afinal, o mundo da Engenharia hoje é tão vasto que não caberia nem mesmo em um curso de 15 anos de duração.

Talvez eu esteja confundindo "conhecimento", hoje fartamente disponível em qualquer tablet, com "sabedoria". E é a sabedoria que deve ser transmitida aos alunos pelos professores, sejam eles especialistas, mestres ou doutores.

É essa sabedoria a única coisa capaz de transformar um assustado jovem de 18 ou 19 anos em uma pessoa com "cabeça de Engenheiro".

E, quando penso que vocês, que estão se formando hoje, irão se aposentar lá pelo ano 2060, a única conclusão é que o conhecimento de base contido nessa "cabeça de Engenheiro" é mais importante do que qualquer outra coisa.

É esse conhecimento que permitirá a jovens recém-formados, como vocês, adaptarem-se a qualquer situação que possam vir a enfrentar, seja no mundo acadêmico, seja no mundo do mercado. E, mais importante do que se adaptar, criar novas situações.

A receita daqui para frente não é muito diferente daquela que vocês usaram para chegar até aqui: é preciso ter inteligência, é preciso ter intuição, mas, acima de tudo, é preciso ter raça.

É como diz a canção de Milton Nascimento: "é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre".

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Que a gana, a raça e a força com vocês estejam. Obrigado por tudo. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

Discurso de formatura - 15 de março de 2012

No dia 15 de março tive a honra de ser convidado como paraninfo dos formandos de todas as turmas de Engenharia da UTFPR, campus Curitiba (Eletrônica, Elétrica, Automação, Construção Civil e Mecânica). Uma situação totalmente nova e inusitada, que reuniu no Auditório da UTFPR aqueles formandos que não quiseram participar dos eventos que seriam organizadas pelas respectivas comissões de formatura um mês depois. Segue-se o discurso.

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Ilustríssima senhora Diretora de Graduação  e Educação profissional do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professora doutora Denise Rauta Buiar, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos Engenheiros e Engenheiras recém-formados.

É sempre uma satisfação e uma grande honra ser escolhido paraninfo de uma turma de formandos. Dessa vez foi também uma grande surpresa, pois tenho a missão de discursar para os alunos de todos os cursos de Engenharia do Campus Curitiba. Espero estar à altura.

Quando me deparo com tantas especialidades da Engenharia, sempre me lembro de uma piadinha, meio de humor negro, de um amigo meu, Engenheiro Civil. Ele diz que não é preciso tanta confusão, pois afinal só existem duas Engenharias: a Engenharia Militar, que constrói as armas, e a Engenharia Civil, que constrói os alvos...

Falando um pouco mais a sério, o que separa uma Engenharia da outra é apenas a frequência de operação. Na Eletrônica a frequência é a maior possível, na faixa dos kHz, MHz, GHz. Na Eletrotécnica a frequência é padronizada: 60 Hz, com alguns harmônicos para lá e para cá. Na Mecânica, embora se meçam mais velocidades do que frequências, os fenômenos não parecem ocorrer com frequências superiores a algumas centenas de Hertz. E, na Engenharia Civil, a frequência ideal é zero. Se alguma coisa deve oscilar, que seja bem devagar! E finalmente temos a Engenharia de Automação, que foge um pouco a essa divisão. Afinal, a Automação é uma espécie de mutante transmorfo, composto por uma mistura de Eletrônica, Mecânica e Eletrotécnica, e opera em várias frequências diferentes.

Mas, se as Engenharias têm muitas diferenças entre si, os estudantes de Engenharia têm muito em comum, especialmente no início e no fim do curso. No início todos vocês estavam se batendo com as mesmas disciplinas (Cálculo, Álgebra, Geometria, Física). No fim, independente das disciplinas que estavam cursando, todos vocês só tinham em mente um único evento: a formatura.

Hoje em dia, para tornar a formatura mais concreta, vocês fazem contagens regressivas e postam vários comentários em redes sociais e blogs. No meu tempo de aluno não havia internet e eu escrevia um diário em papel mesmo. Quem ler meus diários da época de formando terá a impressão de que eu estava passando por uma grande tortura. Só para dar uma ideia, no último semestre havia uma disciplina chamada "Administração Financeira". O professor não era ruim, mas, 40 dias antes do fim do semestre, eu escrevi:

"Faltam 40 dias. Fui terrivelmente mal na prova de Administração (Financeira). Devo ter tirado menos de 3 e ficado em exame... Uma prova daquele tipo só pode ser bem feita por quem tenha experiência com o mercado financeiro, que não é o meu caso... É incompreensível que alguém pense que um Engenheiro, mesmo o mais idiota deles, deva saber fazer um fluxo de caixa, um balanço patrimonial ou todo o resto. Afinal, ninguém supõe que um Administrador deva saber como funciona um amplificador ou uma subestação."

Em minha defesa, devo dizer que não me lembro de fato de ter escrito essas linhas, mas elas estão lá, escritas com tinta, com essas mesmas palavras. E, só para encurtar a história, cinco anos depois eu estava na Copel, trabalhando com planejamento da expansão da geração, área que exige, dentre muitas outras coisas, o conhecimento de assuntos relacionados a Administração Financeira. Cabe uma nota: apesar das lamúrias, eu passei por média em Administração Financeira.

Os formandos têm mesmo esse costume de achar que são injustiçados e que deveriam ser aprovados automaticamente em todas as disciplinas. Outro costume, que não é só dos formandos, é acharem que o destino já está traçado, quando a realidade é muito longe disso. À frente de vocês se desdobra um enorme leque de possibilidades profissionais. O único problema é que a maior parte de tais possibilidades é desconhecida no momento.

Correndo o risco de me tornar aborrecido, vou contar uma historinha sobre o início da minha vida profissional.

Um dos meus objetivos depois da formatura era entrar no LAC, o Laboratório Central de Pesquisa e Desenvolvimento, que hoje se chama LACTEC. Sabendo que na época o LAC fazia parte da Copel, imaginei que a maneira mais fácil de entrar no LAC era antes entrar na Copel. Depois de ter passado dois anos e meio na Engesp, uma pequena empresa de equipamentos médicos, e mais dois anos na Telepar, finalmente apareceu um concurso para a Copel. Fiz a inscrição, mas esqueci a calculadora e não passei no concurso. Seis meses depois apareceu outro concurso e daí eu passei.

Quando me chamaram para assumir, havia duas vagas. Uma delas era na Transmissão, com sede em Curitiba, mas exigia viagens constantes e, como eu já trabalhava no CEFET, como professor em regime parcial, não pude aceitar. A outra vaga era na Geração, na divisão de planejamento da expansão, com sede em Curitiba, exigia poucas viagens e era perfeita para mim.

Ao chegar lá, descobri que a tal divisão era bem pequena, com
apenas quatro Engenheiros, incluindo o gerente. Todos eles Engenheiros Civis. Para piorar, planejamento da expansão tem pouco a ver com Engenharia Civil, pouco a ver com Engenharia Elétrica, pouco a ver com Engenharia Mecânica, mas muito a ver com Engenharia de Planejamento, e eu não sabia nada daquilo. E eu comecei a pensar: "onde é que fui me meter?"

Mas acabei aprendendo alguma coisa e, depois de quase sete anos de Copel, pedi demissão para me dedicar mais ao Ensino e para atuar como consultor.

Desde então, algumas oportunidades só surgiram por causa do meu relacionamento com assuntos envolvendo planejamento, comercialização de energia e geração. E esse relacionamento só surgiu porque, uma vez, eu esqueci minha calculadora em casa e, outra, tive de recusar uma vaga na Transmissão. Do LAC, que hoje não faz mais parte da Copel, nunca cheguei nem perto.

Por causa daquela escolha, pude conhecer e trabalhar com Engenheiros Civis, Engenheiros Mecânicos, Engenheiros Agrônomos, Engenheiros Químicos, Engenheiros Eletrônicos, Engenheiros Cartógrafos, Engenheiros Florestais, Geólogos, Matemáticos, Físicos, Economistas, Contadores, Administradores, Meteorologistas, Estatísticos, Advogados, Psicólogos, Engenheiros da Computação, Engenheiros de Automação e até mesmo Engenheiros Elétricos.

Assim é a vida, e mesmo a vida profissional não pode ser planejada tão cartesianamente. De uma hora para outra você pode esquecer sua calculadora em algum lugar e uma bifurcação, uma encruzilhada, aparecerá no horizonte. Nesse caso, não se esqueça do conselho do famoso jogador de baseball norte-americano Yogi Berra: "quando você chegar a uma encruzilhada, siga em frente!". Não há nada de mágico nisso. Não é o Universo que está conspirando a seu favor. É física pura!

Paralelamente a isso tudo, estou aqui na UTFPR desde os 14 anos de idade (com um intervalo de um ano entre o curso Técnico e o curso de Engenharia e mais um intervalo de dois anos entre a formatura na Engenharia e o ingresso como professor). Já se vão 29 anos, 20 deles como professor da Engenharia. Talvez eu já tenha lecionado para mais de mil e duzentos alunos.

Mas muitos anos e muitos alunos ainda virão. E, quem sabe, em uma formatura futura, alguns de vocês possam estar aqui novamente, não como formandos, mas como pais, ou quem sabe como Diretores, Chefes de Departamento, Coordenadores de Curso, Professores Homenageados, Paraninfos, Patronos.

Afinal, a vida continua, mas não continua do mesmo jeito, pois, nesse jogo que estamos jogando, vocês apenas acabaram de mudar de nível. E, vocês sabem, cada vez que mudamos de nível, uma nova leva de zumbis, vampiros e lobisomens aparece pela frente. Mas tenho certeza que vocês acabarão com eles da mesma forma que acabaram com todos os bichos que apareceram durante o curso de Engenharia.

Obrigado por tudo. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

sábado, julho 30, 2011

Discurso de formatura - 29/07/2011

Na noite de 29/07 tive novamente a honra de ser escolhido como paraninfo da turma de formandos em Engenharia Industrial Elétrica, ênfases Eletrônica e Eletrotécnica, da UTFPR. O texto segue abaixo, mas, na hora, não resisti à tentação de fazer alguns improvisos sobre ele. Isso é sempre um risco e pelo menos um deles não saiu muito bem. Da próxima vez eu conserto, caso haja.

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Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Marcos Flávio de Oliveira Schiefler Filho, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos Engenheiros e Engenheiras recém-formados.

É sempre uma satisfação e uma grande honra ser escolhido paraninfo de uma turma de formandos. Dessa vez a satisfação se mistura a um pouco de surpresa, pois tenho a missão de ser paraninfo também da turma de Eletrônica, cujos alunos não tiveram a sorte, ou o azar, de passar por mim.

Na verdade, durante muitos anos eu dei aulas para o pessoal da Eletrônica, quando existiam duas disciplinas chamadas Conversão Eletromecânica de Energia I e II, as quais eram obrigatórias tanto para o curso de Eletrotécnica quanto para o de Eletrônica, além de Eletromagnetismo, que era lecionada apenas por professores do DAELT. Isso ocorreu quando nosso curso de Engenharia Industrial era de fato dividido em duas ênfases, coisa que não acontece mais. 

O detalhe é que durante todos aqueles anos eu nunca fui escolhido paraninfo. Os alunos de Eletrônica, ao chegarem ao final do curso, muito apropriadamente preferiam se lembrar dos professores da Eletrônica, enquanto os alunos de Eletrotécnica, esparsamente salpicados pelas minhas turmas, mal se lembravam de mim. Pelo menos é assim que prefiro pensar... O mais provável é que eu tenha cometido tantos erros naqueles primeiros anos que todos tentavam esquecer de mim bem rapidinho...

A coincidência é que este ano de festas para vocês é também um ano de celebração para mim, pois em outubro próximo eu completo meu vigésimo ano como professor do DAELT. E, seja você aluno de Eletrônica ou de Eletrotécnica, terá de aguentar agora, em comemoração, essa espécie de "última aula", a qual, para a felicidade de todos, irá durar bem menos de cinquenta minutos.

Depois de todos esses anos cinco, seis, sete anos de curso, talvez vocês estejam se sentindo em uma encruzilhada. O que fazer? Qual caminho seguir agora que não existe mais uma grade de matrícula? Felizmente, existem pelos menos quatro caminhos a seguir. Dois deles são mais ou menos imediatos e os outros dois demoram um pouco mais.

O primeiro deles, em ordem de maior facilidade de ingresso, é o emprego em uma empresa privada. Alguns de vocês já começaram a seguir este caminho. A grande vantagem de uma empresa privada é a facilidade para entrar, mas a grande desvantagem, infelizmente, é a grande facilidade para sair, geralmente não por conta própria e ao ritmo das flutuações na economia. Afinal, o grande objetivo de uma empresa privada é manter-se viva e crescer, e de vez em quando são necessárias decisões difíceis para atingir tal objetivo. Ainda assim, a maior vantagem das empresas privadas diz respeito aos salários e à possibilidade de seguir uma carreira internacional.

O segundo caminho é o emprego em uma empresa estatal, que, de acordo com a legislação atual, só é possível via concurso público. Nesse caso você terá certa estabilidade de emprego, mas não uma estabilidade infinita, como muitos pensam. Autarquias, por exemplo, como é o caso de várias empresas do Setor Elétrico, têm liberdade para demitir funcionários por desempenho insuficiente e por outras razões mais graves, como dano ao patrimônio e agressão pessoal. Tenho certeza que não será o caso de nenhum de vocês.

Nossos alunos têm sido muito bons em passar em concursos públicos, mas o que não pode acontecer é você decidir trabalhar em uma empresa estatal apenas por causa da estabilidade. Isso significa a morte profissional. Se isso acontecer, eu vou ficar sabendo (nessa era de redes sociais é sempre muito fácil saber das coisas), vou descobrir onde você mora e vou quebrar suas pernas!

Um ponto que empresas privadas e estatais têm em comum é a presença de uma figurinha difícil, que muitos de vocês irão encontrar ou já encontraram: o chefe. A atuação do chefe, também conhecido como gerente ou "gestor" (para ficar mais chique) é muito complexa, depende da personalidade da pessoa, da formação e de pelo menos uma ou duas outras centenas de variáveis, todas muito difíceis de identificar e de medir. Ainda assim, a atuação do chefe pode ser resumida em uma única lei universal e imutável: "chefe é chefe, e vice-versa".

A colisão entre chefes e subordinados é atualmente muito comum, pois muitas vezes ambos pertencem a gerações diferentes. Ao contrário de vocês, que são da geração Y, seus chefes provavelmente serão da geração X (a minha geração) ou de gerações anteriores. 

A geração Y é aquela que nunca teve de se levantar do sofá para trocar de canal, que nunca teve de acordar às 5h da manhã para ficar da "fila do leite" e que nunca teve vários anos para ter direito a um telefone fixo.  A geração Y é mais impaciente, era criança quando aprendeu a pronunciar "ctrl-alt-del" e entrou na escola já na era da internet. 

O choque de culturas é inevitável. Por exemplo, se seu chefe tiver mais de 50 anos, talvez ele não esteja habituado a redes sociais. Mesmo que você seja viciado nelas, lembre-se que agora você não é mais um estudante e sim um profissional. Fotografias suas em meio a uma farra, por exemplo, não fazem mais sentido daqui para frente. Para as mulheres, fotografias de biquíni devem ser avaliadas com muito cuidado. Para os homens, esse conselho vale em dobro... Quando ao Twitter ou ao Facebook, por favor, nada de reclamar da vida ou da empresa. Nada de fazer contagem regressiva para o fim do dia ou para o fim de semana. Esse tipo de atividade deve ser realizada da maneira como sempre foi: em particular.

O terceiro caminho é o do magistério. Infelizmente, vocês ainda não estão preparados para ele. Por causa de um efeito da versão atual da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a LDB, de 1996, a maior parte das Universidades Federais exige que professores tenham doutorado, o que, em nosso país, significa que é necessário ter um mestrado antes. Isso significa pelo menos mais seis anos de estudos pela frente. 

Para mim, que ingressei como professor no antigo CEFET-PR, no longínquo ano de 1991, antes da LDB, quando um simples diploma de Engenheiro bastava para lecionar, essa situação ainda é bastante estranha. Mas, se queremos atuar na era da globalização, fazendo intercâmbios e interagindo com outros países, é assim que devemos fazer, pois é assim que eles fazem. É claro que isso não esclarece porque eles fazem assim, mas essa é outra história!

O quarto caminho que você poderá seguir é abrir sua própria empresa. Nesse caso você não terá estabilidade, mas também não terá chefes. Sim, é verdade. Você terá apenas clientes, que, no fim das contas, são chefes que podem se livrar de você com um simples sopro. 

Tornar-se empreendedor é coisa que não acontece da noite para o dia e exige muita preparação. Por exemplo, uma passagem por uma ou duas empresas é interessante, de modo a se adquirir experiência e contatos. E, para estabelecer sua empresa, fazê-la prosperar e dar lucro, não há outra maneira a não ser tornando-se chefe. Então, depois de algum tempo, você verá entrar por sua porta um funcionário insatisfeito com as condições da empresa que você criou. Coisas da vida.

Seja qual for o caminho que você seguir, talvez você cometa o erro de pensar que seu destino está traçado. Não está! O caminho se faz com o caminhar e o Universo não conspira a nosso favor só porque temos um sonho. 

Além do sonho, é preciso dedicação, paciência e um ingrediente especial, revelado pelo polêmico escritor George Bernard Shaw, que disse: "O homem sensato adapta-se ao mundo; o insensato insiste em tentar adaptar o mundo a ele. Logo, todo progresso depende dos insensatos". Assim, um pouco de insensatez é essencial (mas insensatez construtiva).

Obrigado por tudo. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

domingo, outubro 07, 2007

Formatura, mais uma vez

A formatura do curso de Engenharia Industrial Elétrica da UTFPR, turma do segundo semestre de 2007, foi realizada na última sexta-feira, 5 de outubro. Os alunos, mais uma vez, cometeram a temeridade de me escolher como paraninfo. Segue o discurso de formatura que eles tiveram que aguentar.
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Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Paulo Osmar Dias Barbosa, demais autoridades já mencionadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos engenheiros e engenheiras recém-formados.

Parabéns a todos pela conquista. Parabéns por terem sobrevivido a tantos desafios, por terem enfrentado com sucesso tantas dificuldades. E parabéns também a todos os pais, familiares e amigos, que tornaram essa conquista possível.

É uma satisfação e uma grande honra ter sido escolhido como paraninfo da turma de vocês. É também uma grande surpresa ser lembrado. Digo isso porque os erros que eu cometi no início da minha carreira de professor foram tantos e tão grandes que os alunos provavelmente queriam me esquecer bem rapidinho, de preferência bem antes da formatura.

Um fato do qual eu nunca me esqueço ocorreu por volta do meu quinto ano aqui na UTFPR.

Eu estava chegando ao campus quando me dei conta de que havia esquecido as notas de aula. Pior do que isso: eu havia esquecido também os meus livros e até mesmo o crachá, que me permitiria emprestar um livro da biblioteca. Para piorar, nenhum dos meus colegas presentes tinha um livro que eu pudesse usar como guia.

Em uma situação dessas, o melhor que um professor razoavelmente inteligente poderia fazer seria dar uma aula de exercícios ou cancelar a aula. Mas eu resolvi prosseguir com uma aula expositiva.

Entrei na sala apenas com giz, apagador e adrenalina. Afinal, o pior que poderia acontecer era apenas um desastre completo. Então, aconteceu uma coisa fantástica: ao começar a falar, descobri que eu não precisava de notas de aula. Todo o conteúdo me veio à mente automaticamente, como seu eu tivesse feito aquilo durante toda a vida, não durante apenas cinco anos.

Naquele tempo, as aulas de Conversão 2 começavam às 19h30. Tínhamos duas aulas de 50 minutos, fazíamos um intervalo e voltávamos para mais uma aula de 50 minutos. Durante as duas primeiras aulas, enchi o quadro negro com gráficos, diagramas e equações. Foi incrível. Consegui expor toda a matéria sem que os alunos percebessem que eu quase havia cancelado a aula. Foi um show.

Durante o intervalo, fiquei olhando para o quadro negro e me admirando por ser tão esperto.

Então, os alunos começaram a voltar do intervalo. Um deles veio falar comigo e me perguntou como seria a primeira prova. Eu disse que a prova seria baseada no conteúdo exposto em sala de aula.

“Mas nós vamos fazer exercícios?” – perguntou ele.

Eu disse que sim, e ele continuou:

“É que eu conversei com o pessoal durante o intervalo e eles estão todos preocupados”.

Eu perguntei o porquê da preocupação e ele respondeu:

“É que ninguém entendeu nada da aula”.

Assim, as minhas piores expectativas haviam se concretizado: a aula havia sido realmente um desastre completo.

Eu devo ter demorado mais outros cinco anos para entender o que havia acontecido de fato naquela noite, e isso certamente aconteceu em várias noites antes e depois.

Durante muito tempo, eu planejara as minhas aulas tendo em mente um tipo particular de aluno: um aluno que seria muito parecido comigo mesmo. Na verdade, esse aluno seria eu mesmo. Em minha defesa, tenho que acrescentar que esse tipo de comportamento é muito comum e esperado em seres humanos.

Tanto isso é verdade que os psicólogos dizem que a coisa mais bonita que existe é o espelho.

Não sei se sou hoje um professor melhor do que há 10 anos. Espero que sim. De qualquer forma, o problema da educação sempre me interessou e sempre me preocupou.

Na década de 80, quando eu era aluno do curso técnico, eu ouvi falar pela primeira na Coréia do Sul, quando um professor comentou sobre a receita sul-coreana para o desenvolvimento: investimentos maciços em educação e saúde.

Os dados históricos mostram que a Coréia do Sul investiu antes e cresceu depois. Nós, brasileiros, com essa ânsia latina pelo imediatismo, tentamos fazer tudo ao mesmo tempo.

Hoje, a Coréia do Sul tem uma população de 49 milhões de habitantes e renda per capita de US$ 24.500 (a 34ª maior do mundo).

O Brasil, com uma população de 190 milhões, tem uma renda per capita de US$ 9.500.

A Coréia do Sul é a 12ª economia mundial. O Brasil é a 10ª economia mundial, mas nós temos que dividir um bolo apenas um pouco maior do que o coreano por uma população quase quatro vezes maior.

Mas não é suficiente investir em educação. Não é suficiente ter professores e alunos brilhantes. É preciso investir na direção certa. É preciso estimular a iniciativa individual e o respeito a ela. É preciso valorizar o espírito empreendedor, que é o verdadeiro motor de uma economia moderna.

Um exemplo disso, mais uma vez, vem da Coréia do Sul.

Certa vez uma delegação sul-coreana esteve em visita às instalações da Electrolux, aqui em Curitiba. Como os coreanos não falavam português, e os brasileiros não falavam coreano, a língua usada para comunicação era o inglês. Ou uma coisa tão parecida como o inglês quanto possível.

Um dos gerentes brasileiros da Electrolux era o Paulo Roberto Ross, irmão de um colega meu, e que ficou conhecido entre os coreanos com “Mita Lóss”, que significa “Mister Ross” em inglês coreano.

Um belo dia, Mita Lóss percebeu que um dos coreanos havia faltado. Ao preguntar por ele, o chefe da degação respondeu que o moço tinha aproveitado para dar um pulinho na Bolívia e tentar vender alguns refrigeradores.

“Mas ele fala inglês?” – perguntou Mita Lóss.

“Não. Ele não fala nadinha de inglês” – respondeu o coreano.

“Então ele fala espanhol?” – continuou Mita Lóss.

“Não. Nada de espanhol também” – respondeu o coreano.

“Alguma coisa de português, então?” – arriscou Mita Lóss.

“Não. Ele fala menos português do que espanhol” – respondeu mais uma vez o coreano.

“Então, como ele vai fazer para vender refrigeradores na Bolívia?”

E o coreano respondeu:

“Ah, Mita Lóss, veli dificult, veli dificult!”

Mas os coreanos não queriam nem saber das dificuldades. Eles estavam no Brasil, a milhares de quilômetros de casa, e simplesmente não podiam perder uma oportunidade de aproveitar ao máximo a viagem.

O resumo da história é que não adianta ter a melhor educação do mundo, a tecnologia mais avançada e os melhores empregos. É preciso também ser um pouco maluco.

Esse lado empreendedor meio amalucado é uma das razões do sucesso econômico da Coréia. As maiores empresas sul-coreanas são internacionalmente conhecidas:, como Hyundai, Samsung, LG, SK.

Por causa da educação de primeira e desse espírito empreendedor, a Coréia do Sul ocupa hoje o 30° lugar no índice de facilidade em se fazer negócios.

O Brasil ocupa o 122° lugar.

A facilidade em se fazer negócios e o excelente nível educacional produzem também outros efeitos: a Coréia do Sul ocupa hoje o 42° lugar no índice de percepção da corrupção.

Nessa classificação, o Brasil ocupa um 72° lugar não muito honroso. Pelo menos estamos à frente da Argentina...

O espírito empreendedor, esse lado amalucado que é necessário ao desenvolvimento econômico, já havia sido ressaltado por Joseph Schumpeter, economista que viveu entre 1883 e 1950.

Schumpeter era uma figura difícil e tinha apenas três ambições na vida: ser o maior amante da Europa, ser o maior cavaleiro do mundo e ser o maior pensador econômico que já existiu. Modesto, o moço.

Schumpeter teria algo a dizer sobre o fracasso do modelo econômico da Coréia do Norte, país que compartilha muitas coisas com a Coréia do Sul, como tradições, cultura e língua, mas que fez escolhas históricas diferentes. O fato é qualquer governo que suprima a iniciativa individual e a liberdade, acaba por suprimir também os incentivos econômicos e decreta o próprio fim.

Schumpeter também ressalta que empreendedorismo exige apetite para o risco. E risco implica na possibilidade de fracasso.

Mas risco é com vocês mesmos. Afinal, vocês se arriscaram no vestibular e continuaram se arriscando várias vezes durante cada um dos semestres do curso. Disso tudo ficou a lição de que assumir riscos não é loteria. É necessário estar preparado, é necessário estudo, é necessário planejamento.

Alguns fatos e acontecimentos no Brasil indicam que podemos estar no caminho correto. Nosso investimento em educação já é de 4,5% do PIB, mesmo nível dos investimentos sul-coreanos antes do milagre econômico. Talvez possamos chegar a 7% nos próximos anos.

Além disso, temos coisas que os coreanos não tinham na década de 80, quando aquele país começou a emergir como potência econômica. Temos tecnologia mais avançada, temos mais gente, mais universidades, mais empresas inovadoras e temos duas seleções de futebol muito melhores do que as dos coreanos.

E, acima de tudo, temos uma coisa com a qual os coreanos não podiam contar. Temos vocês. Assim, continuem firme nessa corrida, pisem fundo no acelerador e vamos fazer desse país uma potência. Não por bravata, mas simplesmente porque não existe alternativa.

Obrigado a todos pela paciência. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!