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sexta-feira, abril 13, 2012

Discurso de formatura - 15 de março de 2012

No dia 15 de março tive a honra de ser convidado como paraninfo dos formandos de todas as turmas de Engenharia da UTFPR, campus Curitiba (Eletrônica, Elétrica, Automação, Construção Civil e Mecânica). Uma situação totalmente nova e inusitada, que reuniu no Auditório da UTFPR aqueles formandos que não quiseram participar dos eventos que seriam organizadas pelas respectivas comissões de formatura um mês depois. Segue-se o discurso.

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Ilustríssima senhora Diretora de Graduação  e Educação profissional do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professora doutora Denise Rauta Buiar, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos Engenheiros e Engenheiras recém-formados.

É sempre uma satisfação e uma grande honra ser escolhido paraninfo de uma turma de formandos. Dessa vez foi também uma grande surpresa, pois tenho a missão de discursar para os alunos de todos os cursos de Engenharia do Campus Curitiba. Espero estar à altura.

Quando me deparo com tantas especialidades da Engenharia, sempre me lembro de uma piadinha, meio de humor negro, de um amigo meu, Engenheiro Civil. Ele diz que não é preciso tanta confusão, pois afinal só existem duas Engenharias: a Engenharia Militar, que constrói as armas, e a Engenharia Civil, que constrói os alvos...

Falando um pouco mais a sério, o que separa uma Engenharia da outra é apenas a frequência de operação. Na Eletrônica a frequência é a maior possível, na faixa dos kHz, MHz, GHz. Na Eletrotécnica a frequência é padronizada: 60 Hz, com alguns harmônicos para lá e para cá. Na Mecânica, embora se meçam mais velocidades do que frequências, os fenômenos não parecem ocorrer com frequências superiores a algumas centenas de Hertz. E, na Engenharia Civil, a frequência ideal é zero. Se alguma coisa deve oscilar, que seja bem devagar! E finalmente temos a Engenharia de Automação, que foge um pouco a essa divisão. Afinal, a Automação é uma espécie de mutante transmorfo, composto por uma mistura de Eletrônica, Mecânica e Eletrotécnica, e opera em várias frequências diferentes.

Mas, se as Engenharias têm muitas diferenças entre si, os estudantes de Engenharia têm muito em comum, especialmente no início e no fim do curso. No início todos vocês estavam se batendo com as mesmas disciplinas (Cálculo, Álgebra, Geometria, Física). No fim, independente das disciplinas que estavam cursando, todos vocês só tinham em mente um único evento: a formatura.

Hoje em dia, para tornar a formatura mais concreta, vocês fazem contagens regressivas e postam vários comentários em redes sociais e blogs. No meu tempo de aluno não havia internet e eu escrevia um diário em papel mesmo. Quem ler meus diários da época de formando terá a impressão de que eu estava passando por uma grande tortura. Só para dar uma ideia, no último semestre havia uma disciplina chamada "Administração Financeira". O professor não era ruim, mas, 40 dias antes do fim do semestre, eu escrevi:

"Faltam 40 dias. Fui terrivelmente mal na prova de Administração (Financeira). Devo ter tirado menos de 3 e ficado em exame... Uma prova daquele tipo só pode ser bem feita por quem tenha experiência com o mercado financeiro, que não é o meu caso... É incompreensível que alguém pense que um Engenheiro, mesmo o mais idiota deles, deva saber fazer um fluxo de caixa, um balanço patrimonial ou todo o resto. Afinal, ninguém supõe que um Administrador deva saber como funciona um amplificador ou uma subestação."

Em minha defesa, devo dizer que não me lembro de fato de ter escrito essas linhas, mas elas estão lá, escritas com tinta, com essas mesmas palavras. E, só para encurtar a história, cinco anos depois eu estava na Copel, trabalhando com planejamento da expansão da geração, área que exige, dentre muitas outras coisas, o conhecimento de assuntos relacionados a Administração Financeira. Cabe uma nota: apesar das lamúrias, eu passei por média em Administração Financeira.

Os formandos têm mesmo esse costume de achar que são injustiçados e que deveriam ser aprovados automaticamente em todas as disciplinas. Outro costume, que não é só dos formandos, é acharem que o destino já está traçado, quando a realidade é muito longe disso. À frente de vocês se desdobra um enorme leque de possibilidades profissionais. O único problema é que a maior parte de tais possibilidades é desconhecida no momento.

Correndo o risco de me tornar aborrecido, vou contar uma historinha sobre o início da minha vida profissional.

Um dos meus objetivos depois da formatura era entrar no LAC, o Laboratório Central de Pesquisa e Desenvolvimento, que hoje se chama LACTEC. Sabendo que na época o LAC fazia parte da Copel, imaginei que a maneira mais fácil de entrar no LAC era antes entrar na Copel. Depois de ter passado dois anos e meio na Engesp, uma pequena empresa de equipamentos médicos, e mais dois anos na Telepar, finalmente apareceu um concurso para a Copel. Fiz a inscrição, mas esqueci a calculadora e não passei no concurso. Seis meses depois apareceu outro concurso e daí eu passei.

Quando me chamaram para assumir, havia duas vagas. Uma delas era na Transmissão, com sede em Curitiba, mas exigia viagens constantes e, como eu já trabalhava no CEFET, como professor em regime parcial, não pude aceitar. A outra vaga era na Geração, na divisão de planejamento da expansão, com sede em Curitiba, exigia poucas viagens e era perfeita para mim.

Ao chegar lá, descobri que a tal divisão era bem pequena, com
apenas quatro Engenheiros, incluindo o gerente. Todos eles Engenheiros Civis. Para piorar, planejamento da expansão tem pouco a ver com Engenharia Civil, pouco a ver com Engenharia Elétrica, pouco a ver com Engenharia Mecânica, mas muito a ver com Engenharia de Planejamento, e eu não sabia nada daquilo. E eu comecei a pensar: "onde é que fui me meter?"

Mas acabei aprendendo alguma coisa e, depois de quase sete anos de Copel, pedi demissão para me dedicar mais ao Ensino e para atuar como consultor.

Desde então, algumas oportunidades só surgiram por causa do meu relacionamento com assuntos envolvendo planejamento, comercialização de energia e geração. E esse relacionamento só surgiu porque, uma vez, eu esqueci minha calculadora em casa e, outra, tive de recusar uma vaga na Transmissão. Do LAC, que hoje não faz mais parte da Copel, nunca cheguei nem perto.

Por causa daquela escolha, pude conhecer e trabalhar com Engenheiros Civis, Engenheiros Mecânicos, Engenheiros Agrônomos, Engenheiros Químicos, Engenheiros Eletrônicos, Engenheiros Cartógrafos, Engenheiros Florestais, Geólogos, Matemáticos, Físicos, Economistas, Contadores, Administradores, Meteorologistas, Estatísticos, Advogados, Psicólogos, Engenheiros da Computação, Engenheiros de Automação e até mesmo Engenheiros Elétricos.

Assim é a vida, e mesmo a vida profissional não pode ser planejada tão cartesianamente. De uma hora para outra você pode esquecer sua calculadora em algum lugar e uma bifurcação, uma encruzilhada, aparecerá no horizonte. Nesse caso, não se esqueça do conselho do famoso jogador de baseball norte-americano Yogi Berra: "quando você chegar a uma encruzilhada, siga em frente!". Não há nada de mágico nisso. Não é o Universo que está conspirando a seu favor. É física pura!

Paralelamente a isso tudo, estou aqui na UTFPR desde os 14 anos de idade (com um intervalo de um ano entre o curso Técnico e o curso de Engenharia e mais um intervalo de dois anos entre a formatura na Engenharia e o ingresso como professor). Já se vão 29 anos, 20 deles como professor da Engenharia. Talvez eu já tenha lecionado para mais de mil e duzentos alunos.

Mas muitos anos e muitos alunos ainda virão. E, quem sabe, em uma formatura futura, alguns de vocês possam estar aqui novamente, não como formandos, mas como pais, ou quem sabe como Diretores, Chefes de Departamento, Coordenadores de Curso, Professores Homenageados, Paraninfos, Patronos.

Afinal, a vida continua, mas não continua do mesmo jeito, pois, nesse jogo que estamos jogando, vocês apenas acabaram de mudar de nível. E, vocês sabem, cada vez que mudamos de nível, uma nova leva de zumbis, vampiros e lobisomens aparece pela frente. Mas tenho certeza que vocês acabarão com eles da mesma forma que acabaram com todos os bichos que apareceram durante o curso de Engenharia.

Obrigado por tudo. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

sábado, julho 30, 2011

Discurso de formatura - 29/07/2011

Na noite de 29/07 tive novamente a honra de ser escolhido como paraninfo da turma de formandos em Engenharia Industrial Elétrica, ênfases Eletrônica e Eletrotécnica, da UTFPR. O texto segue abaixo, mas, na hora, não resisti à tentação de fazer alguns improvisos sobre ele. Isso é sempre um risco e pelo menos um deles não saiu muito bem. Da próxima vez eu conserto, caso haja.

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Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Marcos Flávio de Oliveira Schiefler Filho, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos Engenheiros e Engenheiras recém-formados.

É sempre uma satisfação e uma grande honra ser escolhido paraninfo de uma turma de formandos. Dessa vez a satisfação se mistura a um pouco de surpresa, pois tenho a missão de ser paraninfo também da turma de Eletrônica, cujos alunos não tiveram a sorte, ou o azar, de passar por mim.

Na verdade, durante muitos anos eu dei aulas para o pessoal da Eletrônica, quando existiam duas disciplinas chamadas Conversão Eletromecânica de Energia I e II, as quais eram obrigatórias tanto para o curso de Eletrotécnica quanto para o de Eletrônica, além de Eletromagnetismo, que era lecionada apenas por professores do DAELT. Isso ocorreu quando nosso curso de Engenharia Industrial era de fato dividido em duas ênfases, coisa que não acontece mais. 

O detalhe é que durante todos aqueles anos eu nunca fui escolhido paraninfo. Os alunos de Eletrônica, ao chegarem ao final do curso, muito apropriadamente preferiam se lembrar dos professores da Eletrônica, enquanto os alunos de Eletrotécnica, esparsamente salpicados pelas minhas turmas, mal se lembravam de mim. Pelo menos é assim que prefiro pensar... O mais provável é que eu tenha cometido tantos erros naqueles primeiros anos que todos tentavam esquecer de mim bem rapidinho...

A coincidência é que este ano de festas para vocês é também um ano de celebração para mim, pois em outubro próximo eu completo meu vigésimo ano como professor do DAELT. E, seja você aluno de Eletrônica ou de Eletrotécnica, terá de aguentar agora, em comemoração, essa espécie de "última aula", a qual, para a felicidade de todos, irá durar bem menos de cinquenta minutos.

Depois de todos esses anos cinco, seis, sete anos de curso, talvez vocês estejam se sentindo em uma encruzilhada. O que fazer? Qual caminho seguir agora que não existe mais uma grade de matrícula? Felizmente, existem pelos menos quatro caminhos a seguir. Dois deles são mais ou menos imediatos e os outros dois demoram um pouco mais.

O primeiro deles, em ordem de maior facilidade de ingresso, é o emprego em uma empresa privada. Alguns de vocês já começaram a seguir este caminho. A grande vantagem de uma empresa privada é a facilidade para entrar, mas a grande desvantagem, infelizmente, é a grande facilidade para sair, geralmente não por conta própria e ao ritmo das flutuações na economia. Afinal, o grande objetivo de uma empresa privada é manter-se viva e crescer, e de vez em quando são necessárias decisões difíceis para atingir tal objetivo. Ainda assim, a maior vantagem das empresas privadas diz respeito aos salários e à possibilidade de seguir uma carreira internacional.

O segundo caminho é o emprego em uma empresa estatal, que, de acordo com a legislação atual, só é possível via concurso público. Nesse caso você terá certa estabilidade de emprego, mas não uma estabilidade infinita, como muitos pensam. Autarquias, por exemplo, como é o caso de várias empresas do Setor Elétrico, têm liberdade para demitir funcionários por desempenho insuficiente e por outras razões mais graves, como dano ao patrimônio e agressão pessoal. Tenho certeza que não será o caso de nenhum de vocês.

Nossos alunos têm sido muito bons em passar em concursos públicos, mas o que não pode acontecer é você decidir trabalhar em uma empresa estatal apenas por causa da estabilidade. Isso significa a morte profissional. Se isso acontecer, eu vou ficar sabendo (nessa era de redes sociais é sempre muito fácil saber das coisas), vou descobrir onde você mora e vou quebrar suas pernas!

Um ponto que empresas privadas e estatais têm em comum é a presença de uma figurinha difícil, que muitos de vocês irão encontrar ou já encontraram: o chefe. A atuação do chefe, também conhecido como gerente ou "gestor" (para ficar mais chique) é muito complexa, depende da personalidade da pessoa, da formação e de pelo menos uma ou duas outras centenas de variáveis, todas muito difíceis de identificar e de medir. Ainda assim, a atuação do chefe pode ser resumida em uma única lei universal e imutável: "chefe é chefe, e vice-versa".

A colisão entre chefes e subordinados é atualmente muito comum, pois muitas vezes ambos pertencem a gerações diferentes. Ao contrário de vocês, que são da geração Y, seus chefes provavelmente serão da geração X (a minha geração) ou de gerações anteriores. 

A geração Y é aquela que nunca teve de se levantar do sofá para trocar de canal, que nunca teve de acordar às 5h da manhã para ficar da "fila do leite" e que nunca teve vários anos para ter direito a um telefone fixo.  A geração Y é mais impaciente, era criança quando aprendeu a pronunciar "ctrl-alt-del" e entrou na escola já na era da internet. 

O choque de culturas é inevitável. Por exemplo, se seu chefe tiver mais de 50 anos, talvez ele não esteja habituado a redes sociais. Mesmo que você seja viciado nelas, lembre-se que agora você não é mais um estudante e sim um profissional. Fotografias suas em meio a uma farra, por exemplo, não fazem mais sentido daqui para frente. Para as mulheres, fotografias de biquíni devem ser avaliadas com muito cuidado. Para os homens, esse conselho vale em dobro... Quando ao Twitter ou ao Facebook, por favor, nada de reclamar da vida ou da empresa. Nada de fazer contagem regressiva para o fim do dia ou para o fim de semana. Esse tipo de atividade deve ser realizada da maneira como sempre foi: em particular.

O terceiro caminho é o do magistério. Infelizmente, vocês ainda não estão preparados para ele. Por causa de um efeito da versão atual da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a LDB, de 1996, a maior parte das Universidades Federais exige que professores tenham doutorado, o que, em nosso país, significa que é necessário ter um mestrado antes. Isso significa pelo menos mais seis anos de estudos pela frente. 

Para mim, que ingressei como professor no antigo CEFET-PR, no longínquo ano de 1991, antes da LDB, quando um simples diploma de Engenheiro bastava para lecionar, essa situação ainda é bastante estranha. Mas, se queremos atuar na era da globalização, fazendo intercâmbios e interagindo com outros países, é assim que devemos fazer, pois é assim que eles fazem. É claro que isso não esclarece porque eles fazem assim, mas essa é outra história!

O quarto caminho que você poderá seguir é abrir sua própria empresa. Nesse caso você não terá estabilidade, mas também não terá chefes. Sim, é verdade. Você terá apenas clientes, que, no fim das contas, são chefes que podem se livrar de você com um simples sopro. 

Tornar-se empreendedor é coisa que não acontece da noite para o dia e exige muita preparação. Por exemplo, uma passagem por uma ou duas empresas é interessante, de modo a se adquirir experiência e contatos. E, para estabelecer sua empresa, fazê-la prosperar e dar lucro, não há outra maneira a não ser tornando-se chefe. Então, depois de algum tempo, você verá entrar por sua porta um funcionário insatisfeito com as condições da empresa que você criou. Coisas da vida.

Seja qual for o caminho que você seguir, talvez você cometa o erro de pensar que seu destino está traçado. Não está! O caminho se faz com o caminhar e o Universo não conspira a nosso favor só porque temos um sonho. 

Além do sonho, é preciso dedicação, paciência e um ingrediente especial, revelado pelo polêmico escritor George Bernard Shaw, que disse: "O homem sensato adapta-se ao mundo; o insensato insiste em tentar adaptar o mundo a ele. Logo, todo progresso depende dos insensatos". Assim, um pouco de insensatez é essencial (mas insensatez construtiva).

Obrigado por tudo. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

sábado, abril 10, 2010

Discurso de formatura - 8/4/2010

Na noite do último 8 de abril tive novamente a honra de ser paraninfo da turma de formandos do curso de Engenharia Elétrica da UTFPR. Segue-se o discurso que eles tiveram de aguentar:

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Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Marcos Flávio de Oliveira Schiefler Filho, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos engenheiros e engenheiras recém-formados.

É uma satisfação e uma grande honra ter sido escolhido como paraninfo da turma de vocês. Dessa vez a satisfação é ainda maior, por dois motivos. Primeiro, porque 2009 foi um ano especial, marcado pelo centenário da UTFPR e pelos aniversários de 50 anos do DAELT e de 30 anos do curso de Engenharia Industrial Elétrica. O segundo motivo, se vocês me permitem um momento de bazófia, foi ter sido escolhido como paraninfo das duas turmas de Engenharia Eletrotécnica que se formaram em 2009, este ano que marcou também o aniversário de 20 anos da minha própria formatura e da formatura de vários outros engenheiros, como o professor Mariano e o professor Schiefler, que aqui estão.

Infelizmente, 2009 não foi somente um ano de festas, mas também um ano de grandes dificuldades e provações, especialmente para o DAELT. Em setembro, depois de um início de semestre particularmente difícil, por causa da gripe suína, o professor Josemar foi afastado por motivos de saúde. Dois outros colegas do curso de Tecnologia também estão no momento em licença médica, para tratamento: o professor Alexandre e a professora Rosalba. No final do ano faleceu o professor Lauro Pofahl, que, se não era um professor do curso de Engenharia e já estava aposentado, era uma verdadeira lenda dentro do DAELT. Minhas homenagens a esses colegas.

Mas o golpe mais pesado veio realmente em outubro, com o falecimento totalmente inesperado do professor Ayrton, meu professor, meu incentivador, meu colega durante 18 anos e uma das pessoas mais calmas e serenas que já conheci.

O professor Ayrton estará para sempre na minha memória e também no meu álbum de formatura, como professor homenageado. Ao dar o nome dele a esta turma de formatura vocês revelam grande sensibilidade, ao mesmo tempo em que continuam uma antiga tradição. Basta ver quantas vezes o nome dele aparece nas placas de bronze espalhadas pelo Bloco E. Continuando essa tradição, dedico este discurso ao professor Ayrton.

Apesar de todo o tempo que se passou desde que eu estive aí, no lugar de vocês, é interessante notar que algumas coisas não mudaram muito. As becas mudaram, o ritual mudou um pouco, o uso da tecnologia aumentou, a cerimônia ficou mais colorida e mais bonita, com participação de mais mulheres, mas os rostos felizes, a sensação de missão cumprida, os risos e lágrimas, essa leve ansiedade no ar e a expectativa pelo futuro continuam as mesmas.

Mas, fora desse ambiente de formatura, a coisa mudou radicalmente. É desnecessário detalhar o quanto a tecnologia evoluiu desde então. Basta dizer, por exemplo, que a internet não existia. E, se vocês percorressem os escritórios daquela época, veriam também que havia pouquíssimos computadores, mesmo nas grandes empresas. Hoje até mesmo os estagiários de pequenas empresas têm computadores. Mais incrível: os estagiários de hoje têm até mesmo direitos trabalhistas!

Antes que vocês me entendam mal, deixem-me esclarecer algumas coisas: há vinte anos os dinossauros não andavam mais pela Terra (a não ser dentro de algumas empresas), as fotografias ainda não eram digitais, mas também não eram mais em preto e branco, e os televisores ainda não eram de tela plana, mas também não eram mais valvulados.

Mas não só nos aspectos tecnológicos as coisas mudaram completamente. Em 1989 o mundo estava em festa. A União Soviética estava se desintegrando, o Muro de Berlim cairia em novembro daquele ano e o comunismo estava acabando. Para mim, que passei toda a adolescência assombrado pela Guerra Fria, foi uma agradável surpresa constatar que o conflito se encerrou por W.O., e não com bombas atômicas explodindo em Moscou, Washington e Pinhais.

Mas, no Brasil, a coisa estava longe de ser uma festa, especialmente em termos econômicos. Entre 1985, quando eu passei no vestibular, e 1994, quando foi criado o Plano Real, a inflação anual oscilou entre 65% e 2.700%. Logo, essa inflação anual de 5% que hoje nos preocupa, naquela época era coisa de uma semana. Assustador.

Na verdade, se eu tivesse planejado as coisas de maneira a me formar na pior época possível, em termos econômicos, eu não teria acertado tanto. É impossível dizer a vocês, que viveram apenas a primeira infância nesse período de hiperinflação, como eram as coisas então. Basta dizer o seguinte: a hiperinflação simplesmente impedia o planejamento e destruía o futuro. Destruía o futuro.

A melhor época para alguém se formar não foi há vinte anos. A melhor época é hoje e vocês não têm ideia do privilégio que estão tendo em se formar em um país com economia estável, que não deve um cent ao FMI e que tem hoje mais condições do que nunca de ser feliz. Ainda não somos um país desenvolvido, mas pelo menos hoje temos futuro. Além disso, talvez venhamos a precisar de um milhão e meio de engenheiros nos próximos anos, de modo a dar prosseguimento a todas as obras necessárias ao crescimento de nosso país. Assim, o mercado de trabalho hoje está “comprador”.

O futuro é um assunto que sempre me fascinou, pois em larga escala ele é imprevisível. Ninguém pode prever o futuro, por uma mera questão de lógica: se fosse possível prevê-lo, ele poderia ser alterado e, podendo ser alterado, não poderia mais ser previsto.

Mas, se não podemos prever o futuro, ao menos podemos nos preparar para ele. Podemos planejar e criar estratégias válidas em qualquer cenário futuro. Um exemplo rápido disso nunca me saiu da cabeça.

Há 18 anos, quando passei no concurso para professor, eu e mais uns quinze ou vinte funcionários fomos recebidos pelo diretor da época, o professor Ataíde Moacir Ferrazza. Após uma apresentação da estrutura organizacional do então CEFET-PR, que oferecia cursos técnicos, de graduação, mestrado e doutorado, ele comentou: “vejam que, verticalmente, nossa instituição já é uma universidade”. Assim, a ideia de se transformar o CEFET-PR em universidade não foi algo que surgiu da noite para o dia. Pelo contrário, essa ideia foi planejada e estudada durante anos, até poder ser efetivada. É assim que nascem os sonhos e, por causa desse sonho, por causa dessa estratégia, somos hoje a UTFPR.

Uma das vantagens em ser universidade é que, em qualquer lugar do mundo, esse conceito é mais facilmente absorvido e entendido do que o conceito de Centro Federal de Educação. Por exemplo, uma das coisas que me deixavam realmente irritado pouco depois da minha formatura era, logo após dizer que havia me formado no CEFET, ouvir as pessoas exclamarem: “puxa, eu não sabia que havia curso de Engenharia no CEFET...”. Bem, um dos problemas era que nossa imagem era muito ligada aos cursos técnicos, que tiveram e ainda têm sua importância. Outro era que nosso curso de Engenharia tinha apenas 10 anos na época e talvez houvesse apenas 300 engenheiros formados aqui. Hoje, temos quase 1.400, só em Engenharia Eletrotécnica.

Atualmente nossos alunos estão espalhados pelo Brasil e também pelo mundo. Já os encontrei em empresas como WEG, Areva, Chesf, Petrobras, Eletrobrás, Copel, Celesc, Eletrosul, Schneider, Siemens, Bematech, Brasil Telecom, Oi, Vivo, Claro, Arteche, Itaipu, Philips, Camargo Corrêa, Nokia e até na Receita Federal e na Polícia Federal (sem falar naqueles que trabalham em empresas de pequeno e médio portes, naqueles de vocação mais empreendedora, que abriram suas próprias empresas, e naqueles que, tendo sido contaminados pelo vírus da Educação, tornaram-se professores universitários).

Nossa história mostra que atingir a excelência é difícil, mas possível, e é nesse caminho que estamos. A receita para a excelência eu aprendi com os ingleses.

A Inglaterra é um país fantástico e estranho. A culinária deles, por exemplo, inclui um pudim que não é pudim e um bife que não é bife, sem falar na famosa torta de rins. Os ingleses têm alguns hobbies estranhos, como o trainspotting (observação de trens), e um dos esportes nacionais deles é o críquete. Mas uma das muitíssimas coisas que os ingleses fazem bem é a construção de jardins e parques, ou seja, o paisagismo, arte na qual o Brasil teve um grande expoente: Roberto Burle Marx. A receita para um jardim perfeito, segundo os ingleses, é simples: comece com mudas e sementes selecionadas, contrate os melhores profissionais no assunto, planeje bem e... regue durante 100 anos.

É isso que temos feito nesses últimos 100 anos, mas é necessário que vocês continuem conosco nessa tarefa de regar nosso jardim. Assim, cada vez que vocês fizerem algo de fantástico e extraordinário, não se esqueçam de mencionar onde se formaram e não se esqueçam de dizer “Olé”!

Olé para vocês também! Vocês merecem.

Obrigado por tudo. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!