quinta-feira, junho 12, 2008

Rubem Alves e o vestibular

A revista Ler & Cia, da Livrarias Curitiba, publicou há algum tempo uma curta reportagem sobre as opiniões de Rubem Alves, onde esse grande educador discorre brevemente sobre o vestibular, que ele considera um “tumor maligno”. Para resolver o problema da injustiça promovida pelo vestibular, Alves sugere que as vagas nas universidades sejam ocupadas por meio de sorteio, não por meio de provas, como feito atualmente. “Continua sendo injusto”, diz ele, “mas menos do que o sistema atual, com provas injustas, cotas injustas e conteúdos injustos. Isso pelo menos retiraria a sombra que o vestibular cria em cima das escolas, que poderiam ensinar o que realmente importa.

Com todo respeito a Rubem Alves, tremo só de pensar no dia em que eu tiver que dar aulas a alunos que foram escolhidos por sorteio. Se esse “vestibular randômico” daria maior flexibilidade aos professores do ensino médio, certamente transformaria a vida dos professores universitários em um inferno. Em pouco tempo os alunos perceberiam que não vale à pena se preparar para o vestibular e passariam a ser admitidos sem os pré-requisitos necessários. Os professores dos primeiros semestres dos cursos universitários passariam então a dedicar um tempo enorme para preencher as lacunas na formação dos alunos, já enormes no sistema atual, e os professores dos semestres seguintes passariam a perder mais tempo ensinando aquilo que os professores dos primeiros semestres deveriam ter ensinado. O incentivo perverso criado com o “vestibular randômico” produziria uma grande bola de neve, que seria passada de um semestre a outro, aumentando a evasão escolar e reduzindo a qualidade do ensino universitário.

O vestibular não é um tumor. Ele é apenas um dos muitos desafios que os alunos deverão enfrentar ao longo de uma vida que viverão no mundo real, não no mundo dos contos de fadas. A alma do povo brasileiro se revolta tão freqüentemente contra o vestibular porque ele representa algo que vai contra o igualitarismo a todo custo sempre pregado nesse grande país ensolarado: a meritocracia. Se os ensinos fundamental e médio são tão ruins que não permitem que a maioria tenha mérito, então são esses níveis de ensino que devem ser melhorados. Mas não é com uma solução rósea e romântica que a melhoria virá. Afinal, como dizia Arthur C. Clarke, “não existe problema complicado que não tenha uma solução simples, atraente e... errada!”

terça-feira, junho 03, 2008

Administração: como vincular a teoria com a prática (e vice-versa)?

O editor do Portal Administradores, Leandro Vieira, realizou um bate-papo com o Prof. Walter Nique, da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e da Ecole Supérieure de Commerce de Troyes. Para o Prof. Nique, o ensino da Administração requer vivência anterior em organizações públicas ou privadas: “aqueles que entrarem em uma sala de aula com as mãos abanando em termos de experiência, serão ejetados rapidamente do sistema”, afirma.

Embora eu seja um engenheiro, não um administrador, decidi publicar a entrevista aqui, autorizado pelo Leandro, pois a mesma toca em assuntos que me interessam: educação, administração e conflitos entre a academia e o "mundo lá fora".

Administradores: Muitos alunos de Administração se queixam que o curso é muito teórico e carece de prática. O senhor concorda?

Prof. Nique: Sim, concordo plenamente. A prova disso é que minhas aulas estão estreitamente vinculadas à realidade. Penso que QUALQUER matéria ou disciplina - e mesmo as mais árduas como estatística, matemática, entre outras - podem e devem ser vinculadas à realidade. Lembro-me que, no início de minha vida acadêmica, lecionava a disciplina Pesquisa Operacional para as turmas de engenharia da UFRGS. No programa, constavam as medidas de tendência central e de dispersão (que são os primeiros passos da estatística). Para criar o link entre a teoria e a prática, eu mandava os alunos medir e buscar a altura média dos porto-alegrenses (homens e mulheres) e saber qual a percentagem de cada sexo costumava ir aos estádios de futebol para que, de posse desses dados, eles projetassem arquibancadas onde quase ninguém (97% das pessoas) que estivesse sentado à frente de alguém atrapalhasse a visão do jogo. Este é um típico exemplo que comprova que se pode ajustar qualquer disciplina para que os alunos façam o amálgama realidade/teoria.

Administradores: No Brasil, é muito comum a academia e mercado torcerem o nariz um para o outro. O que se produz na academia (inclusive na área de Administração) permanece restrito ao meio acadêmico. O que perdemos com isso?

Prof. Nique: Isso acontece, e é um grande absurdo. Se a nossa missão como universidade é capacitar os nossos alunos para poderem atuar como executivos e empreendedores no mercado (99% dos alunos da graduação vão para as empresas enquanto apenas 1% se dirige ao ensino e à pesquisa), como abstrair-se deste mesmo mercado? Essa prática, que até admito que existam alguns professores que assim agem, é o mesmo do que tomar veneno e esperar que o inimigo morra.

As pontes de aproximação entre a academia e o mundo dos executivos existem, mas elas não são utilizadas. Os bancos de dados de teses, trabalhos, monografias, etc. estão à disposição por internet e vários outros meios. Por algumas razões, até de desconhecimento, os executivos não possuem a reação de vasculhar o que se fez para não ter que inventar a roda novamente. Aliás, eles pensam que o caso deles é específico e único - como muitas vezes fazemos quando nossos filhos nos preocupam. No fundo, a academia é como um Manual de Instruções que ninguém lê...

Administradores: É muito comum entre aqueles que optam por seguir a carreira acadêmica seguirem a seguinte trajetória: graduação>mestrado> doutorado. Entre a graduação e o mestrado, não têm nenhuma experiência no mercado e, após o mestrado, começam logo a dar aulas. Como você encara isso?

Prof. Nique: Em relação e esse percurso clássico de formação de professores (graduação/mestrado/doutorado), aqueles que entrarem em uma sala de aula com as mãos abanando em termos de experiência nas organizações serão ejetados rapidamente do sistema. Aliás, toda a formação dos professores está centrada na pesquisa, que é a busca do conhecimento da realidade, o que necessariamente implica em atuar nas organizações - tanto no conhecimento da realidade com um quadro teórico para o entendimento, como para realizar trabalhos de consultoria, por exemplo. O sujeito que não percorre este caminho está por fora da realidade, é um alienado sem chances de sucesso em qualquer universidade digna deste nome. O tripé da formação de professores de Administração é o ensino, a pesquisa e a consultoria, portanto sempre em contato estreito com a realidade.

Administradores: Em resumo: Para ensinar a administrar é necessário saber administrar?

Prof. Nique: Penso que sim. Administrar é tomar decisões - e tomar decisões necessita um processo de aprendizagem que tem necessariamente uma dupla entrada: a teoria e a prática. Muitas vezes, quando se hierarquiza alternativas para decisão, é muito fácil, na sala de aula ou teoricamente. Entretanto, quando chega o momento real de decidir nas organizações, a conversa é um pouco diferente, pois nunca se leva em conta todos os aspectos políticos (e política é a arte da relação) internos e externos. Isso é fundamental. Tratar com seres humanos requer muita prática, observação e perspicácia.

Administradores: O senhor disse que é possível fazer o vínculo da teoria com a prática em qualquer disciplina do curso de Administração. Como o senhor faz esse link em suas aulas?

Prof. Nique: Vou citar o exemplo da disciplina Pesquisa em Marketing, na qual a turma constrói na prática – do começo ao fim – uma pesquisa de marketing. Essa disciplina que desenvolvemos na Escola de Administração da UFRGS tem um método pedagógico bastante diferente em relação à forma como é ministrada em outras Escolas de Administração do Brasil e mesmo do exterior. Tenho plena convicção de que, se o aluno não consegue ver os resultados nos processos desenvolvidos em sala de aula, ele perde completamente o interesse na matéria. Além disso, o que é pior, no exercício de sua profissão, ele terá preconceitos em relação àquela área. O conhecimento, para mim, é um processo solitário que cada indivíduo desenvolve conforme suas capacidades, valores pessoais e objetivos de vida. A construção deste conhecimento é necessariamente uma mescla dinâmica da teoria com a práxis.

No primeiro encontro com os alunos, discutimos o processo que teremos durante o semestre e proponho que eles discutam possíveis temas que serão o objeto da pesquisa que irão realizar durante o semestre. Duas coisas que faço questão de salientar: o tempo dispensado à disciplina e a característica de utilização dos resultados pela comunidade (no caso, sempre se passa em Porto Alegre. por problemas de aplicação em outras áreas geográficas). Em relação à primeira, eles sabem que no mínimo, os mesmos quatro créditos (60 horas) eles terão de trabalho fora da sala de aula. A sala de aula é o espaço para o desenvolvimento teórico e para as perguntas e dúvidas que necessariamente surgirão. No que diz respeito ao segundo item, não vejo sentido algum um grupo de pessoas dispensar gratuitamente uma enorme energia para satisfazer necessidades comerciais de uma ou outra organização cujo fim é o lucro. A UFRGS é uma universidade pública e gratuita e, portanto, aqui vemos uma oportunidade de fazer um gesto à comunidade que, através de seus impostos, financia o ensino que os estudantes estão usufruindo.

Após dois ou três encontros, definimos o tema a ser abordado e começamos a definição do(s) objetivo(s) da pesquisa. Os alunos se dividem em grupos para racionalizar o processo de pesquisa. Saliento que não existe nenhuma indicação por parte do professor, e os alunos decidem participar em quantos grupos se lhes aprouver. Há um grupo coordenador, um grupo que montará a busca e seleção dos dados secundários, um outro que montará o grupo motivacional ou “focus group”. A partir destes dados, haverá a construção de um questionário que é tarefa de outro grupo. Paralelamente, existe um grupo para preparar o processo amostral que, necessariamente, será aleatório, e todos os procedimentos operacionais de aplicação do questionário. Depois de pré-testar o instrumento de coleta de dados, TODOS os alunos aplicam 20 questionários, o que nos faz uma amostra de umas 600 respostas. Cada estudante digitaliza seus 20 questionários, depois de haver participado de três aulas de manejo do software SPHINX (específico para pesquisas de marketing), e existe um grupo que fará a consolidação do banco de dados e a análise dos dados. Terminada a análise e discussão com o conjunto dos alunos, os coordenadores dos grupos reúnem-se com a coordenação para a construção do relatório de pesquisa que será disponibilizado através do site da disciplina e, às vezes, entregue a autoridades que se achar pertinente. Finalmente, este último grupo responsável pelo relatório, faz uma síntese (máximo de 10 páginas) apoiado por uma apresentação em “power point”, para divulgar para toda a turma em sala de aula. Faz-se um documento também para os meios de comunicação, de maneira a dar a maior visibilidade possível aos resultados obtidos. Seguidamente, os alunos são convidados a participar de programas inteiros de televisão ou de paginas inteiras de reportagens de jornais de grande circulação do Rio Grande do Sul. A discussão inicial do tema tende a privilegiar os assuntos mais na moda e, por conseqüência, tem espaço garantido na mídia.

No final, gosto muito de ressaltar, nesta disciplina não existe “copiar/colar”, prática bastante comum em algumas disciplinas do curso... Nesta disciplina, eles criam conhecimento que não existia anteriormente. E todos ficam realmente muito orgulhosos em ver seu conhecimento sendo entregue à coletividade.

Administradores: Muito interessante! De que forma isso impacta diretamente na formação dos alunos, futuros administradores?

Prof. Nique: Posso citar alguns resultados bastante evidentes. Vários alunos desenvolveram projetos de criação de empresas de Pesquisa em Marketing e de Consultoria. Cito, por exemplo, a Focal, desenvolvida pelo Gustavo Campos (), e a Destaque, criada pelo Marcelo Godói, duas grandes referências de pesquisa no Rio Grande do Sul.Em termos de feed-back, vários ex-alunos me mencionaram que, apesar de não haver feito mais pesquisas como a desenvolvida na disciplina, eles contratam, nas organizações onde atuam hoje em dia, serviços de empresas especializadas, e esta formação contribui enormemente para discutir cada projeto de pesquisa bem como fazer a crítica dos resultados. Este conhecimento é particularmente útil quando da decisão de adquirir esses serviços entre várias empresas/projetos.

Administradores: Quais metodologias adotadas em outros centros de excelência no ensino da administração do mundo que poderiam servir de referência para as instituições brasileiras?

Prof. Nique: Em termos de métodos de ensino adotados no ensino da administração, além do clássico de Harvard com seus estudos de caso, eu gostaria de salientar um curso que julgo ser o melhor (e medi bem as minhas palavras quando disse “o melhor”) curso de administração da América. Trata-se do curso Gestão para a Inovação e Liderança da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Desde logo, ressalto que sou professor da UFRGS, e não mantenho vinculos empregaticios com a UNISINOS, o que fortalece a minha legitimidade em fazer esta afirmação.

Este curso está concebido sobre duas colunas principais. A primeira é o tipo de abordagem, pois ela se diferencia da tradicional que é sob forma de disciplinas e estuda os fatos dos diversos prismas presentes. Por exemplo, vamos falar em renascença e, portanto, a “aula” será coordenada por um economista, um historiador, por um cientista político e por algum professor de arte. Todos os professores, isto é em conjunto na mesma sala, discutirão e apresentarão a realidade da renascença desde sua perspectiva. Posteriormente, os alunos vão às organizações (eu disse organizações por ser muito mais amplo que empresas) ver os vínculos com aquilo que foi discutido em aula. Este é um método absolutamente congruente com a realidade pós-moderna do hiper-espaço e totalmente inovador. A segunda coluna, decorrente da primeira e aflorada há pouco, é a prática sistemática nas organizações daquilo que é discutido em classe. E estas são em todos os sentidos e hierarquias e geografias... O assunto pode ser ligado ao processo produtivo que pode ser comparado entre o que existe no Rio Grande do Sul, na Argentina e no Uruguai, ou em outros estados do Brasil. Os alunos vão para os países citados, além do Chile, Canadá e Estados Unidos para estágios curtos de duas ou três semanas observando, trabalhando, discutindo nos diversos níveis funcionais da administração. Eu sou um grande entusiasta deste curso e lastimo não haver podido fazer um benchmarking aqui na Escola de Administração da UFRGS.

segunda-feira, junho 02, 2008

CPMF: bicho feio e difícil de matar

Após ter sido solenemente morta e enterrada pelo Congresso Nacional, a CPMF está em vias de viver sua segunda encarnação, agora rebatizada de CSS (Contribuição Social para a Saúde) e em versão menos agressiva (0,1% em vez de 0,38%). A criação da CSS foi proposta por causa da possível aprovação da chamada “Emenda 29”, que amplia em pouco mais de R$ 20 bilhões os recursos anuais para a saúde. Existem dois projetos de lei que regulamentam a Emenda 29: um na Câmara e outro no Senado. Do ponto de vista do governo federal, se o Congresso quer aumentar as verbas para a saúde, então que diga de onde sairá o dinheiro. Daí a proposta de ressurreição da CPMF, um imposto de padrasto e sem atestado de paternidade.

A propósito desse tão combatido imposto, é sempre bom lembrar um fato pouco comentado: se a CPMF arrecadava R$ 40 bilhões por ano, e se nossa carga tributária é de aproximadamente 40% do PIB, então, no fim de 2008, quando o dinheiro antes destinado à CPMF tiver retornado integralmente ao mercado consumidor, transformando-se em renda, outros R$ 16 bilhões adicionais terão sido arrecadados via outros impostos. Assim, o buraco deixado pela CPMF seria de "apenas" R$ 24 bilhões, não R$ 40 bilhões como diz o governo. Somando a isso os outros R$ 20 bilhões possíveis de serem arrecadados acima da meta do Tesouro, falta pouco para cobrir o buraco. Um mero aperto no cinto já daria conta do recado. Uma gestão mais adequada dos recursos existentes melhoraria ainda mais a situação.

É claro que, do ponto de vista exclusivo do governo, a CPMF, em qualquer de suas encarnações, tem ao menos dois grandes méritos. Primeiro, o esforço arrecadatório é mínimo: o contribuinte deposita seu dinheiro no banco, o banco desconta a alíquota correspondente e envia os recursos e informações para a Receita Federal. O governo tem apenas que fiscalizar os bancos, coisa que já faz com rigor, e não uma infinidade de pessoas físicas e jurídicas.

O segundo mérito é o tão propalado efeito fiscalizador do imposto. É óbvio que o esforço fiscalizador deve ser levado muito a sério, mas, para cumprir seu papel nessa área, a alíquota da CMPF poderia ser calculada de maneira que o imposto fosse, digamos, R$ 1,00 ao ano, ou ainda menos, para os contribuintes de menor renda. Digamos ainda que esse contribuinte receba um salário mínimo mensal, correspondendo a R$ 5.533 anuais (deixando de fora os descontos do IR, INSS e outros, mas incluindo décimo-terceiro e férias). Esse dinheiro, ao cair no mercado, gera CPMF. Assim, para arrecadar anualmente R$ 1,00 desse contribuinte, seria suficiente uma alíquota de 0,021%, ou seja, quase cinco vezes menor do que a alíquota da CSS atualmente proposta pelo governo.

Um efeito adverso mais assustador da CPMF, sempre ressaltado por economistas e tributaristas e que torna esse bicho tão feio, é a questão da base real do imposto. Ora, se a CPMF arrecadava R$ 40 bilhões anuais, e se a alíquota do imposto era 0,38%, então a base de cálculo era igual a R$ 40 bilhões divididos por 0,38%, que resulta em R$ 10,5 trilhões anuais. Esse número impressionante equivale a 4,9 vezes o PIB brasileiro nominal! Implantada a CSS, a situação não mudará muito: a alíquota diminuirá para 0,1%, mas a arrecadação prevista é de R$ 10 bilhões anuais, resultando em uma base de cálculo igual a 4,7 vezes o PIB nominal. Esse efeito é fácilmente explicável: quando o trabalhador tem seu salário depositado em uma conta bancária, a CPMF não é descontada; contudo, ao usar o dinheiro para comprar pão, por exemplo, o trabalhador transfere parte de sua renda ao padeiro, que depositará o dinheiro em outra conta e originará um desconto da CPMF; ao pagar seus fornecedores, o padeiro usará o dinheiro já tributado uma vez, mas que será tributado uma vez mais quando for depositado na conta dos fornecedores; esses fornecedores pagarão seus próprios fornecedores e assim por diante. Em resumo: a moeda circula e a CPMF (ou CSS) circula junto com ela. É por isso que o governo reluta em se livrar desse imposto que quase nenhum país adota atualmente: ele sabe que é impossível replicar tal nível de arrecadação, sem falar no baixo esforço arrecadatório, por meio de impostos convencionais. O bicho é feio, mas paradoxalmente irresistível!

Apesar de tudo, o ressurgimento da CPMF ainda não é certo, pois a feiura do bicho é tão grande que nem mesmo os deputados governistas, proponentes da Emenda 29, querem ver seus nomes associados a ele. Isso pode colocar o governo em uma situação difícil: se a Emenda 29 for aprovada, mas a CSS não, o presidente Lula terá a difícil missão de vetar o aumento dos repasses à saúde, por mera falta de recursos, coisa difícil de se fazer em qualquer época, mas especialmente difícil em ano eleitoral.

Ao contribuinte menos afeito à matemática fica o consolo de que o tributo tem ares de inocência. Afinal, uma arrecadação adicional de 0,1% não matará ninguém e talvez até salve, supondo-se que os recursos venham a ser de fato aplicados na saúde. Mas a todos fica a esperança de que algum dia uma desoneração fiscal possa durar mais de um ano no Brasil.

segunda-feira, maio 12, 2008

Aos 90 anos de nascimento de Richard P. Feynman

Richard P. Feynman (1918 – 1988), que teria feito 90 anos ontem, foi possivelmente o maior físico norte-americano do século XX. Alguns poucos brasileiros tiveram contato com ele nas vezes em que ele esteve por aqui, outros ficaram sabendo dele através das "Feynman Lectures on Physics", um conjunto de três volumes sobre física introdutória, e a maioria o conheceu quando a Editora Gradiva, de Lisboa, publicou a tradução de sua autobiografia "Surely You’re Joking, Mr. Feynman", em 1988.

Autobiografias de grandes homens são sempre perigosas. Einstein, ao escrever suas “Notas Autobiográficas”, foi criticado por ter se concentrado excessivamente na física, deixando os detalhes pessoais de lado. Feynman, por outro lado, foi criticado por ter se concentrado excessivamente nos detalhes de sua vida pessoal, deixando a física de lado. Na época do lançamento da edição original de "Surely You’re Joking" (1985), um editorial do American Journal of Physics o descreveu como “um gigante com pés de barros”, por causa de seus hábitos pouco acadêmicos: freqüentava bares de strip-tease, tocava bongô em todos os lugares por onde passava, não se preocupava em interagir com “gente comum”, desfilou no carnaval do Rio de Janeiro e participou de experiências psicológicas sobre “estados alterados”, as quais envolviam a imersão em tanques de privação dos sentidos e, de vez em quando, como ele confessou em sua autobiografia, o uso de um pouco de maconha.

Não sei se Feynman tinha pés de barro, mas ele certamente tinha pés humanos e não se esforçava em esconder essa humanidade e o desapego ao formalismo, como deixa transparecer nos “dados biográficos” fornecidos por ele na introdução de “Surely You’re Joking”:

“Alguns fatos sobre minha vida: nasci em 1918, numa cidadezinha chamada Far Rockway, nos arredores de Nova Iorque, perto do mar. Vivi lá até 1935, tinha então 17 anos. Freqüentei o MIT durante quatro anos e depois fui para Princeton, por volta de 1939. Enquanto estive em Princeton comecei a trabalhar no Projeto Manhattan e fui finalmente para Los Alamos em abril de 1943, até as alturas de outubro ou novembro de 1946, quando fui para Cornell.

Casei-me com Arlene em 1941 e ela morreu de tuberculose enquanto eu estava em Los Alamos, em 1946.

Estive em Cornell mais ou menos até 1951. Visitei o Brasil no verão de 1949 e passei lá meio ano em 1951, indo depois para o Caltech, onde tenho estado desde então.

Estive no Japão umas semanas em 1951 e voltei lá passado um ano ou dois, logo depois de ter casado com a minha segunda mulher, Mary Lou.

Agora estou casado com Gweneth, que é inglesa, e temos dois filhos: Carl e Michelle.”


Há duas omissões importantes nesses curtos dados autobiográficos: a menção aos trabalhos de Feynman em eletrodinâmica quântica, que lhe renderam o Nobel de física de 1965, e a menção à conquista do próprio prêmio Nobel. Também é curioso que ele tenha omitido o Nobel, mas citado o Brasil.

Feynman falava português com certa fluência. Ele conta ter conhecido o físico brasileiro Jaime Tiomno (n. 1920) em um seminário de física em Nova Iorque, no final dos anos 1940. Pouco depois, Tiomno conseguiu uma colocação para Feynman no CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), no Rio de Janeiro, onde ele viria a passar um semestre em 1951, tentando ensinar física aos estudantes brasileiros.

As observações de Feynman sobre a educação brasileira não são nem um pouco agradáveis. Por exemplo, ele ficou particularmente irritado quando descobriu que os alunos estavam acostumados a decorar tudo, mas não eram capazes de aprender nada. No fim do ano letivo, ao dar uma palestra sobre suas experiências de ensino no Brasil, ele comentou: “o principal objetivo da minha palestra é mostrar que no Brasil não se ensina ciência alguma!”. Pode-se imaginar a confusão causada com tal declaração. Todavia, ele tinha argumentos consistentes e, no final da palestra, os professores e autoridades presentes acabaram por concordar com ele.

Há outro detalhe no conflito entre Feynman e a educação brasileira: ele insistia que o valor que damos a definições dicionarísticas de conceitos (palavras em termos de outras palavras) era exagerado. Em vez disso, deveríamos valorizar o real aprendizado dos conceitos, pois as palavras podem ser expressas em muitas línguas, enquanto os conceitos são universais. Só para citar um dentre inúmeros exemplos, grande parte de nossos estudantes de engenharia elétrica aprende que o termo “correto” a ser usado é “tensão elétrica”, e não “voltagem”. Contudo, esses mesmos estudantes muitas vezes falham ao serem solicitados a diferenciar “força eletromotriz” de “diferença de potencial”. As palavras corretas são importantes, especialmente quando os alunos forem escrever seus próprios artigos técnicos, mas os conceitos são muito mais importantes.

Em defesa dos professores brasileiros, vale ressaltar que o ensino da física no Brasil, por volta do início da década de 1950, estava em seu início. O CBPF havia sido fundado somente em janeiro de 1949, por Jaime Tiomno, César Lattes e José Leite Lopes. Antes disso, a física no Brasil era largamente ensinada por engenheiros ou por pesquisadores formados em outros países. Albert Einstein, por exemplo, quando esteve por aqui em 1925, foi recebido por matemáticos, não por físicos. Hoje, pouco menos de 60 anos depois da passagem de Feynman por aqui, já estamos em condições de exportar cérebros, não somente de importá-los. Também já temos inúmeros professores e pesquisadores capazes de ensinar no “estilo Feynman”. Contudo, o resto do mundo também evoluiu e melhorou, de forma que o caminho à frente ainda é longo em todas as áreas do conhecimento.

Quando visitou o Brasil, Feynman ainda estava a uma década e meia de se transformar na lenda viva que viria a ser. Por causa de sua personalidade exuberante e de sua grande capacidade didática, Feynman tornou-se muito mais conhecido do que os outros dois físicos com os quais dividiu o Nobel de 1965: Julian Schwinger (1918 – 1994) e Sin-Itiro Tomonaga (1906 – 1979). É por essa razão que quem quiser conhecer Feynman não encontrará grandes dificuldades, pois há muitos livros dele e sobre ele, traduzidos ou escritos diretamente em português. Para quem quiser conhecer o trabalho dele, por outro lado, o melhor caminho é começar pelas "Feynman Lectures on Physics", recentemente traduzidas pela editora Artmed sob o título “Lições de Física”. Os artigos técnicos de Feynman são em geral inacessíveis aos leigos, mas as "Lectures" continuam legíveis, atuais e instigantes, 42 anos depois de seu lançamento em língua inglesa.

quinta-feira, maio 08, 2008

As "Feynman Lectures" em português

Com apenas 42 anos de atraso, as Feynman Lectures on Physics acabam de receber uma tradução para o português, sob o título “Lições de Física”. A editora é a Artmed e o preço de lançamento é R$ 248 (apenas um pouco mais salgado do que o original em inglês, que custa US$ 133, cerca de R$ 224 ao câmbio do dia, frete incluso). A edição da Artmed é baseada naquela que recebeu o subtítulo “Edição Definitiva”, contendo os três volumes originais e mais 176 páginas de “dicas de física”.

As Feynman Lectures são o resultado de um curso introdutório de física, lecionado por Richard Feynman (1918 – 1988) no Instituto de Tecnologia da Califórnia (CalTech). O curso foi oferecido uma única vez, entre 1961 e 1963. Posteriormente, entre 1964 e 1966, as Lectures foram editadas por Robert Leighton e Matthew Sands e publicadas em forma de livro. Em 1965, Feynman, já uma lenda da física aos 47 anos, dividiu o prêmio Nobel de Física com Julian Schwinger e Sin-Itiro Tomonaga, por seus trabalhos sobre eletrodinâmica quântica.

Feynman foi possivelmente o maior físico norte-americano do século XX. Tive sorte de descobri-lo bem no iníco da minha vida universitária, quando encontrei os dois primeiros volumes das Lectures on Physics na biblioteca do CEFET-PR. A diferença entre aquilo que os professores de física ensinavam e o conteúdo das Lectures era realmente impressionante e temo que a situação não tenha mudado. Foi um choque, mas, a muito custo, consegui acabar a leitura dos dois primeiros volumes (Mecânica Clássica e Eletromagnetismo) e ainda uma parte do terceiro (Mecânica Quântica), que consegui emprestado de outra biblioteca.

Vamos esperar que os estudantes brasileiros de engenharia e de física possam se beneficiar dessas Lições de Física da mesma forma que os leitores da língua inglesa até então. Assim, respirem fundo, pois são 1798 páginas!