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segunda-feira, novembro 26, 2007

Brian May, o magnífico

Brian May, ex-guitarrista do Queen, a maior banda de rock depois dos Beatles, é indiscutivelmente um dos maiores guitarristas que já existiu. Embora a revista Rolling Stone [1] o coloque apenas na 39ª posição dentre os 100 maiores guitarristas de todos os tempos, May consegue tirar sons únicos de sua guitarra “Red Special”, fabricada por seu pai. Agora, esse guitarrista de 60 anos acaba de realizar um feito memorável para alguém que passou mais de 30 anos afastado do mundo acadêmico: tornar-se reitor de uma universidade.

Brian May graduou-se em astrofísica no Imperial College London e chegou a iniciar seus estudos para obter o Ph.D. Contudo, o sucesso alcançado pelo Queen no início da década de 70 forçou o guitarrista a abandonar os estudos para se dedicar exclusivamente à carreira musical.

Mesmo tendo largado temporariamente os estudos, May nunca se afastou muito da astronomia. Prova disso é que, em outubro de 2006, ele publicou um livro sobre o assunto (“Bang! – The Complete History of the Universe”, em co-autoria com Patrick Moore e Chris Lintott). Além disso, em outubro último, May finalmente defendeu sua tese de doutorado, intitulada “A Survey of Radial Velocities in the Zodiacal Dust Cloud” (ou “Uma Pesquisa por Velocidades Radiais na Nuvem Zodiacal de Poeira”), tornando-se o primeiro guitarrista da história a envergar um título de Ph.D.

Em 23 de novembro, Brian May foi apontado reitor (ou “chancellor”, título usado no Reino Unido) da Universidade John Moores, em Liverpool [2]. Se May será considerado um roqueiro-cientista ou um cientista-roqueiro, é questão que depende do ponto de vista de cada um. Da minha parte, já ficarei satisfeito se os fãs de Brian May, o guitarrista, conseguirem entender que a tese de Dr. May, o cientista, não tem nada a ver com astrologia.

[1] Rolling Stone. Aug, 2007. Disponível em:
<http://www.rollingstone.com/news/story/5937559/the_100_greatest_guitarists_of_all_time>.
[2] LJMU. News Update. <http://www.ljmu.ac.uk/NewsUpdate/index_92016.htm>.

domingo, abril 29, 2007

Descoberto o primeiro planeta habitável fora do Sistema Solar

Cientistas da Organização Européia para a Pesquisa Astronômica no Hemisfério Austral (ESO) afirmam ter descoberto um planeta habitável fora do sistema solar, com temperaturas muito similares às da Terra [1]. O planeta, localizado no sistema de Gliese 581, distante 20,5 anos-luz do sistema solar, tem massa cinco vezes superior à da Terra e capacidade para manter água em estado líquido, pois apresenta temperaturas variando entre 0ºC e 40ºC.

O chato de se ter passado parte da adolescência lendo autores como Asimov, Clarke, Heinlein e Bradbury é que descobertas como essa não me surpreendem. A única surpresa é o fato de ter demorado tanto tempo para um “planeta terrestre” fosse descoberto fora do Sistema Solar.

De qualquer forma, agora ficou muito claro para todos que a probabilidade de se encontrar vida fora da Terra é grande. Talvez até vida inteligente. Não somos o auge da criação e nem o macaco escolhido por Deus para controlar o destino do Universo. Somos apenas um acidente evolutivo. Um acidente importante e glorioso, sem dúvida, mas nada mais do que um acidente.

domingo, agosto 27, 2006

Harmonia do Mundo, de Marcelo Gleiser

Em palestra recente para divulgar seu livro Harmonia do Mundo (Cia. das Letras, 327p.), Marcelo Gleiser esclareceu porque decidiu escrever romance biográfico sobre Johannes Kepler. Segundo ele, outros gênios da história da ciência não foram tão psicologicamente complexos quando Kepler. Copérnico, por exemplo, que tirou a Terra do centro do universo, não era exatamente um revolucionário, era bastante acanhado e passou anos trabalhando em segredo, temendo as represálias da igreja católica. Seu livro Sobre as revoluções das esferas celestes (De Revolutionibus Orbium Coelestium) foi publicado em 1543 quase postumamente, pois Copérnico só recebeu a cópia impressa em seu leito de morte, possivelmente não tendo forças para examiná-la. É verdade que Copérnico tinha certa razão, pois seu livro foi atacado por teólogos protestantes, até mesmo por Lutero, e foi incluído pela igreja católica no índice dos livros proibidos, onde permaneceu até 1835.

Já Galileu envolveu-se em problemas com a Igreja Católica, mas era muito arrogante e gostava de afrontar a autoridade papal. Imagino que, talvez, Giordano Bruno, filósofo e astrônomo queimado na fogueira em 1600, rendesse um bom romance. Ocorre que a principal acusação contra Bruno dizia respeito a uma heresia conhecida como "docetismo", condenada pelo Conselho de Calcedônia, segundo a qual Jesus Cristo não tinha um corpo físico e a crucificação teria sido apenas aparente. Além disso, o trabalho teórico de Bruno não pode ser considerado propriamente científico e, embora ele fosse um copernicano, a igreja católica que o condenou não tinha posição oficial contra Copérnico por volta de 1600. Bruno, portanto, é muito mais um mártir religioso do que um herói científico.

Kepler, por outro lado, representa o verdadeiro gênio científico angustiado. Ao mesmo tempo em que se recusava a abandonar o luteranismo no qual havia sido criado, Kepler não conseguia aceitar o modelo geocêntrico de Ptolomeu, recomendado pelo pastores luteranos, e o fazia em bases simultaneamente filosóficas e científicas: por um lado, ele acreditava que, colocando o Sol no centro do Universo, poderia revelar a harmonia oculta usada por Deus na criação; por outro, Kepler descobriu que as medições astronômicas de Tycho Brahe eram incompatíveis com o modelo geocêntrico e epiciclos de Ptolomeu.

Mas Harmonia do Mundo não é só sobre Kepler. Gleiser constrói uma espécie de diptico, onde quase toda a vida de Kepler é contada em paralelo com parte da vida de seu mestre Michael Maestlin. Em 1630, Maestlin recebe o diário de Kepler em sua casa, em Tübingen, Alemanha, juntamente com uma carta que só deveria ser lida após a leitura do diário. Pouco tempo depois, Maestlin fica sabendo que Kepler havia morrido há pouco. Maestlin, que não conseguiu dar a Kepler todo o apoio necessário e que está com 80 anos, vê desaparecer toda chance de redenção. Nunca poderá se desculpar com Kepler, o gênio criador. Nunca poderá dizer que estava errado ao condenar as idéias revolucionárias de seu pupilo. Poderá, entretanto, obter algum conforto lendo o diário, que Gleiser usa como costura entre as vidas dele e de Kepler.

Não sabemos exatamente como era Kepler fisicamente. Não sabemos como eram seus gestos e entonação de voz. Sabemos apenas que ele era dado a frases complicadas e vivia em uma época marcada pela reverência e afetação no tratamento pessoal, fato do qual Gleiser não se esquece. Os retratos mais conhecidos de Kepler mostram uma figura um pouco sizuda, com feições variando de acordo com o talento orçamento de cada pintor. Sobre Maestlin, sabemos muito menos, mas, em ambos os casos, Gleiser constrói personagens vivos, tridimensionais, repletos de emoções e conflitos. É como se o Kepler sizudo dos retratos pulasse em frente a nós e dissesse: "esse fui eu, minha vida foi desse jeito e minha visão do mundo era assim e assim". Em resumo, personagens apaixonantes e assustadores.

Gleiser também se esforça para mostrar o dia-a-dia de um cientista, a busca por patrocínio, a dificuldade em divulgar novas idéias, o inferno dos cálculos intermináveis. Tendo vivido em uma época na qual não existiam calculadoras e nem mesmo réguas de cálculo - esta última tendo sido inventada na última década de vida de Kepler - só lhe restavam os cálculos manuais. O máximo que ele pode fazer, e é basicamente isso que uma régua de cálculo faz, foi usar logaritmos para transformar as difíceis operações de multiplicação e divisão nas relativamente fáceis operações de adição e subtração, respectivamente. A importância dos logaritmos como ferramenta computacional foi tanta que Kepler dedicou suas Efemérides de 1620 a John Napier, o matemático escocês que inventou esse conceito matemático. Imagino o que faria Kepler se tivesse em mãos um microcomputador moderno, mesmo que não muito potente, com apenas uma planilha eletrônica e um editor de textos instalados. Não precisaria ser um supercomputador com capacidade de processamente paralelo e software astronômico altamente preciso. Uma mera planilha eletrônica teria economizado anos de cálculo e, quem sabe, permitido que Kepler descobrisse suas quarta, quinta e sexta leis, modernamente conhecidas como "as três leis de Newton".

Essa última frase pode parecer exagerada, mas nunca o saberemos. O que sabemos é que Kepler havia intuido corretamente o conceito de "lei física". Ele não conhecia a gravitação, mas acreditava que uma força emanava do Sol, regendo o movimento dos planetas. Ainda, ele acreditava que essa leis eram quantitativas e universais, e que poderiam ser validadas experimentalmente. Essa, na verdade, foi uma das razões de Maestlin ter relutado em dar apoio a Kepler. Maestlin, aferrando-se à tradição aristotélica de disciplinas desenvolvidas à exaustão, mas isoladas entre si, não gostava de ver a astronomia (que media os céus) misturada à física (ou "filosofia natural", a qual procurava explicações para os fenômenos). Kepler não via problema algum em misturar as disciplinas, pois acreditava que tudo era parte de um mesmo plano divino, parte da harmonia do mundo.

Em Harmonia do Mundo, de Gleiser, a última entrada do diário fictício de Kepler data de maio de 1618, quando o astrônomo descreve as descobertas que culminariam na publicação do seu Harmonia do Mundo, em 1619, que apresenta a terceira lei de Kepler ("o quadrado do período orbital de um planeta é diretamente proporcional ao cubo do semi-eixo maior da elipse orbital"). Assim, ficamos sem conhecer as impressões de Gleiser sobre uma das últimas obras de Kepler: o conto Somnium, escrito entre 1620 e 1630 e publicado postumamente, geralmente considerado o primeiro conto de ficção científica da história.

Gleiser comenta que decidiu escrever um romance, e não um livro de divulgação nos moldes dos anteriores (O fim da Terra e do céu, A dança do universo e Micro-macro) por querer atingir um público diferente, interessado em ciência, mas que costuma ler e comprar romances. Talvez esses leitores, acostumados às reviravoltas nas tramas, possam perdoá-lo pelo final-surpresa, que não revelarei aqui. Usando as vantagens da ficção, bem como aproveitando-se de lacunas históricas, Gleiser revela-se bastante ousado ao estender ao máximo a angústia existencial de Maestlin. E deixa seus leitores querendo mais.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Sessão de autógrafos com Marcelo Gleiser

Marcelo Gleiser esteve em Curitiba ontem, 22/8, para dar uma palestra e participar de uma sessão de autógrafos. O Teatro Regina Vogue estava lotado e fiquei razoavelmente surpreso com a tietagem, com várias menininhas querendo tirar fotografias ao lado dele. Talvez isso seja bom. Um físico brasileiro elevado à categoria de pop star é a prova de que o Brasil talvez ainda tenha jeito.

A palestra foi sobre o último livro de Gleiser, "A Harmonia do Mundo", uma biografia romanceada de Johannes Kepler. Gleiser discorreu sobre alguns modelos cosmológicos, dos gregos antigos a Kepler, e respondeu algumas perguntas. Apesar das credenciais, ele tem aquele jeito calmo que lhe permite não perder a paciência nem mesmo com as onipresentes perguntas que tentam misturar física e misticismo.

Estou na metade do livro de Gleiser, que é realmente muito bom. Ele faz um um díptico entre as vidas de Kepler, o gênio revolucionário, e de Maestlin, o mestre conservador que o renegou. Gleiser afirma ter escolhido Kepler, e não Galileu ou Copérnico, por causa da personalidade mais complexa e psicanalítica de Kepler. Copérnico, segundo ele, era conservador e retraído demais, tendo recebido a cópia impressa de seu livro somente em seu leito de morte. Já Galileu era muito arrogante e suas controvérsias com a Igreja Católica se devem em parte a isso, não à adoção do modelo copernicano. Kepler, por outro lado, representa a medida certa do gênio angustiado e oprimido pelas instituições e cultura da época, um verdadeiro descobridor de novos mundos.

Quando esteve em Curitiba em 2001, Marcelo Gleiser lotou o teatro de bonecos do Shopping Estação. Dessa vez, ele lotou o Teatro Regine Vogue. No andar da carruagem, da próxima vez teremos que reservar o Teatro Guaíra!

sexta-feira, agosto 11, 2006

Marcelo Gleiser está de volta

O físico Marcelo Gleiser é capa da revista Época desta semana. Já tivemos outros cientistas, brasileiros ou não, aparecendo em capas de revistas semanais, como César Lattes e Stephen Hawking, mas Gleiser é nosso primeiro cientista "pop". E, ao contrário do que possam pensar os puristas, isso é bom.

Tive a oportunidade de conhecer Marcelo Gleiser quando do lançamento do livro "O Fim da Terra e do Céu", em 2001. Ao vivo, ele não tem nada de espalhafatoso, não se veste com roupas esquisitas, fala calmamente e a única afirmação escandalosa que faz, no entender de muitos, é dizer que não acredita em Deus. Ele não é pop nesse sentido de causar tumulto e, espero, nunca participará da "dança dos famosos" ou de coisa parecida. Ele é pop apenas por divulgar a ciência aos leigos e por não ter se esquecido do Brasil, mesmo morando nos EUA desde os 23 anos de idade.

O primeiro cientista pop de que se tem notícia foi Albert Einstein (1879 - 1955), criador da teoria da relatividade. Em 1919, algumas expedições destinadas a observar eclipses solares comprovaram as previsões de Einstein a respeito da deflexão da luz e ele foi rapidamente alçado ao estrelato. A personalidade de Einstein ajudou bastante nesse ponto. Espontâneo, ele não tinha medo de falar em público e a câmara gostava dele. Pouco mais tarde ele se arrependeu dessa fama súbita, que ele dizia não entender e que prejudicava suas pesquisas.

Muitos cientistas pop vieram depois de Einstein, como Richard Feynman, Carl Sagan e Stephen Hawking. Como eles, Gleiser, vivendo em uma era de crescente globalização e de comunicações instantâneas, usa a mídia a favor da educação. No próximo dia 20/08, por exemplo, ele começa a apresentar uma série de 12 episódios intitulada "Poeira das Estrelas", no Fantástico. Ainda há vida inteligente na TV aberta!

Como toda personalidade da mídia, Gleiser tem colhido sua quota de críticas. Em 1998, pouco após o lançamento do livro "A Dança do Universo", o físico Roberto de Andrade Martins, da Unicamp, publicou o artigo "Como distorcer a física: considerações sobre um exemplo de divulgação científica". O "exemplo" em questão é, naturalmente, o livro de Gleiser. Para se ter uma idéia do preciosismo a que chega Martins, ele critica Gleiser por ter usado a frase "Sabemos que o calor sempre flui de objetos quentes para objetos frios". O correto, segundo ele, seria dizer que "Sabemos que o calor sempre flui espontaneamente de objetos quentes para objetos frios". Outros exemplos citados por Martins vão na mesma linha. Como dizia Tom Jobim, "no Brasil, sucesso é ofensa pessoal", e o sucesso público de nossos cientistas ofende profundamente alguns membros da Academia.

O que me preocupa em relação à divulgação científica não diz respeito a essa minúcia de detalhes e a esse rigor, que se espera de um artigo científico, mas que é até mesmo irritante em uma obra destinada ao grande público. O que me preocupa é a dificuldade em se fazer leigos entenderem conceitos difíceis sem o uso da matemática. Um exemplo bastante conhecido é o da mecânica quântica, atualmente usada por vários místicos e autores de auto-ajuda como se fosse uma cura para todos os males, mas que não pode ser compreendida sem a resolução de vários problemas complicados. Gleiser acredita que nem todos os leitores entenderão o que ele tem a dizer, mas que o benefício produzido para muitos é maior do que o prejuízo causado a poucos.

Uma prova dos benefícios da divulgação é o caso, citado pela revista Época, de um estudante de 14 anos, chamado Leonardo Motta, que leu "A Dança do Universo" e começou a se corresponder com Gleiser por e-mail. Orientado por Gleiser, Leonardo começou a estudar física, passou no vestibular da USP e embarca mês que vem para a Universidade de Yale, onde iniciará o doutorado em física de partículas. Esse singelo benefício - outros devem existir - supera de longe qualquer falta de rigor que Gleiser possa ter cometido.

O livro mais recente de Gleiser, "A Harmonia do Mundo", segue uma linha um pouco diferente dos anteriores, pois é um romance sobre a vida do astrônomo Johannes Kepler. Aguardem comentários.