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sexta-feira, julho 06, 2007

Cristo Redentor – Maravilha do Mundo?

De uns tempos para cá comecei a receber e-mails recomendado que eu votasse no Cristo Redentor, escolhido como finalista de uma lista das “Novas Sete Maravilhas do Mundo”. Tentei responder a alguns deles, mas as caixas postais dos remetentes não existem. Trata-se de spam, nada mais, enviado com a displicência de gente que julga estar a serviço de uma boa causa.

As Sete Maravilhas do Mundo Antigo, relembremos, eram: a Grande Pirâmide de Gizé, os Jardins Suspensos da Babilônia, o Templo de Ártemis em Éfeso, a Estátua de Zeus em Olímpia, o Mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rhodes e o Farol de Alexandria. Embora essa lista tenha sido compilada na Idade Média, em uma época na qual muitos dos monumentos não mais existiam, é fácil perceber que se trata na verdade de uma lista das “Sete Maravilhas do Mundo Helênico”. A organização sem fins lucrativos New7Wonders, que se propôs a compilar uma nova lista de sete maravilhas, decidiu não ser tão centralizadora e escolheu como finalistas, muito apropriadamente, monumentos de vários lugares do mundo, os quais serão escolhidos por meio de votação, que se encerra amanhã. É aí que entra o Cristo Redentor.

Na condição de brasileiro, é natural que muitos pensem que eu deveria obrigatoriamente votar no Cristo Redentor. Não fazê-lo poderia dar a idéia de falta de patriotismo e, nesse mundo dado a avaliações rápidas e simplistas, poderia também dar a idéia de falta de religiosidade, coisa tão prezada por esse nosso povo semi-analfabeto. Contudo, se patriotismo fosse o fator decisivo nessa eleição, ela já estaria decidida pela mera diferença populacional dos países onde se localizam os monumentos. Os vencedores seriam os seguintes (juntamente com as estimativas populacionais de cada país):

  1. A Grande Muralha (China) – 1,322 bilhão de habitantes.
  2. O Taj Mahal (Índia) – 1,12 bilhão de habitantes.
  3. A Estátua da Liberdade (EUA) – 302 milhões de habitantes.
  4. O Cristo Redentor (Brasil) – 188 milhões de habitantes.
  5. A Catedral de São Basílio (Rússia) – 143 milhões de habitantes.
  6. O Templo de Kiyomishu (Japão) – 128 milhões de habitantes.
  7. A Pirâmide de Chichen Itzá (México) – 109 milhões de habitantes.

O Cristo Redentor ficaria em um confortável quarto lugar, mas o “voto patriótico” deixaria de fora monumentos com a Pirâmide de Gizé, a Torre Eiffel, o Coliseu, Stonehenge e a Acrópole de Atenas, esta última amargando um penúltimo lugar, motivado por pouco mais de 11 milhões de votos. Essa classificação decorre naturalmente da hipótese de que todos os habitantes de um país votem em seus monumentos, o que nem de longe é verdade, mas classificação semelhante seria obtida partindo-se da hipótese de que 10% (ou 5%, ou 2%, tanto faz) dos habitantes de cada país irá participar da votação. A determinação dos percentuais verdadeiros, que certamente não serão os mesmos para cada país, é justamente o objetivo da eleição.

Outro critério de escolha poderia ser a dificuldade de construção de cada monumento. Tal critério excluiria automaticamente monumentos como a Estátua da Liberdade, a Ópera de Sidnei (Austrália), a Torre Eiffel e, claro, o Cristo Redentor, pois todos esses monumentos foram construídos a partir do século XIX, quando a engenharia civil já era bastante avançada e havia motores para fazer o trabalho pesado. Uma classificação preliminar pela “dificuldade de construção” poderia ser feita levando-se em conta a antiguidade do monumento e provavelmente resultaria na seguinte lista:

  1. As Pirâmides de Gizé (Egito, 2.500 aC).
  2. Stonehenge (Inglaterra, 1.600 aC).
  3. A Acrópole de Atenas (Grécia, 330 aC).
  4. A Grande Muralha (China, 220 aC).
  5. Petra (Jordânia, 40 dC).
  6. Coliseu (Roma, 82 dC).
  7. Basílica de Santa Sofia (Turquia, 537 dC).
  8. Pirâmide de Chichen Itzá (antes de 800 dC).

Listei oito candidatos em vez de sete porque a Fundação New7Wonders acaba de declarar as Pirâmides de Gizé como “candidato honorário”, excluído, portanto, da votação. A decisão foi tomada em conjunto com o Supremo Conselho de Antiguidades do Egito e com o Ministério da Cultura do Egito, que concluíram que as pirâmides fazem parte do patrimônio cultural da humanidade e, na condição de único monumento incluído na lista antiga, merecem esse status especial.

Outro critério de classificação possível, embora repleto de subjetividade, seria a beleza dos monumentos. Mas como comparar a Estátua da Liberdade e o Cristo Redentor com o Coliseu e a Acrópole, ambos reduzidos a uma pálida lembrança do que foram em seus tempos de glória? E quem garante que o Cristo Redentor é intrinsecamente mais belo do que a Estátua da Liberdade? E como escolher entre a beleza clássica da Acrópole e as curvas orientais da Catedral de São Basílio ou do Tah Mahal? Impossível, dada a subjetividade do conceito de “belo”.

Ainda outra possibilidade seria excluir os monumentos construídos em função da megalomania de algum rei, imperador, engenheiro ou arquiteto. Tal critério imediatamente deixaria de fora a Torre Eiffel, único dos candidatos batizado em homenagem a seu construtor. Castelos também deveriam ser excluídos da lista, o que deixaria de fora Alhambra de Granada (Espanha), o Castelo Neuschwanstein (Alemanha), o Templo Kiyomishu (Japão), construído para servir de residência a shoguns e imperadores. O Taj Mahal (Índia) também ficaria de fora e, infelizmente, deveríamos excluir também as Pirâmides de Gizé, construídas para servir de túmulos a reis que se imaginavam deuses. A Estátua da Liberdade deveria ser excluída por motivos semelhantes, por representar, não a megalomania de um indivíduo, mas a de um povo inteiro. E, claro, o Cristo Redentor deveria ser excluído por ter sido construído por um povo que se imagina mais abençoado por Deus do que os outros.

Ainda assim, na minha modesta opinião, nenhum desses 21 monumentos deveria sequer estar na lista de candidatos. Mesmo a lista das sete maravilhas do mundo antigo sempre me pareceu meio fora de perspectiva. A verdadeira maravilha da Grécia antiga não era um templo ou uma estátua, mas sim uma civilização que criou a filosofia ocidental, lançou as bases da ciência moderna e inventou um sistema de governo diferente de todos os outros. As verdadeiras maravilhas da Roma antiga não eram estádios monumentais, mas os aquedutos, as estradas e até os exércitos, dependendo do ponto de vista. A grande maravilha da civilização maia não era uma pirâmide construída para o sacrifico humano, mas sim a capacidade de construir pirâmides e cidades sem o uso de tração animal ou de ferramentas de metal, assim como uma astronomia extraordinariamente precisa. No caso da China, não cabe nem mesmo cogitar que um muro de pedra, não importa quão monumental, seja mais maravilhoso do que a bússola, o papel e outras tantas invenções (a lista completa inclui também a pólvora, a besta e outras armas, que não são entendidas como maravilhosas por muita gente, mas desempenham um papel importante no desenvolvimento da civilização). E, obviamente, o que vale no caso do Egito não são as pirâmides em si, obras que não servem para absolutamente nada, mas sim uma engenharia que permitiu erigir aquelas construções, sem o uso de máquinas modernas, em uma época na qual a maioria dos povos ainda vivia em bandos primitivos. Mesmo a prosaica estátua norte-americana representa os ideais de democracia e liberdade que, embora tenham se originado em solo europeu, encontraram terreno fértil do outro lado do Atlântico.

Uma obra canditada a maravilha do mundo deve representar a exuberância científica, tecnológica ou artística de uma civilização inteira e não pode, portanto, ser analisada isoladamente.

No caso do Brasil, a grande maravilha não é uma estátua, por mais bela que seja e a despeito do receio do nosso povo inculto em ser punido por Deus caso deixe de votar em um monumento religioso. Nosso legado ao mundo poderia ser representado pelo Cristo Redentor apenas se fôssemos uma nação verdadeiramente cristã (tenho , contudo, sérias dúvidas se isso seria bom) ou se fôssemos uma nação verdadeiramente acolhedora, as duas características supostamente representadas pelo Cristo. Todavia, nunca fomos mais do que uma nação de católicos não praticantes, embora agora estejamos sob o ataque de seitas evangélicas sedentas de dinheiro e poder. E tenho sérias dúvidas se somos realmente mais acolhedores do que outros povos. É difícil dizer isso de uma nação que expulsou tantos de seus próprios filhos durante a ditadura, que cancela o visto de permanência de jornalistas por supostas ofensas ao Presidente da República e que assalta e mata turistas de todas as partes do mundo.

A grande maravilha brasileira, nossa grande obra, deveria representar a exuberância de nossa civilização, aquilo que temos de melhor para oferecer ao mundo. Infelizmente, não tenho idéia de qual seja nosso legado ao mundo e nem de qual obra o representaria. Mas não seria o Cristo Redentor.

sexta-feira, julho 21, 2006

Simpósio Brasileiro de Sistemas Elétricos - SBSE 2006

O SBSE 2006 veio e se foi. O CD com os anais foi inacreditavelmente entregue no momento do registro e meu artigo está lá: "Política Tarifária e Comercialização de Energia Elétrica no Ambiente de Contratação Livre".

O simpósio ocorreu no Centro de Convenções Raymundo Asforda, anexo ao Garden Hotel, Campina Grande, Paraíba. O hotel foi inaugurado em abril de 2006, como resultado de uma parceria público-privada, e tem padrão cinco estrelas. Apesar disso, nem todos os quartos estão funcionando, pois encontrei um deles que ainda vai demorar para ficar pronto. O quarto em que fiquei ainda tinha alguns resquícios de cimento aqui e lá e o carpete guardava marcas de obras recentes.

Cheguei somente no segundo dia do simpósio, às quatro horas da manhã de terça-feira, depois de quase onze horas de viagem. Peguei um taxi até o hotel e tenho quase certeza que o motorista pretendia me assaltar, pois ele fez um caminho muito estranho, pegando ruas de terra repletas de buracos, mas deve ter desistido na última hora. Amadores! Além disso, ele não tinha troco para uma corrida de R$ 20, que eu pretendia pagar com uma nota de R$ 50. Teve que voltar no outro dia para pegar o dinheiro. Na volta, já na quinta-feira, o motorista da perua (que hoje em dia todo mundo insiste em chamar de "van"), fez um caminho completamente diferente, mais curto e por ruas asfaltas.

É interessante que saí de Curitiba com 30°C e a seca mais violenta dos últimos 10 anos, mas cheguei em Campina Grande com uma temperatura mais amena e um pouco de chuva. Esse mundo do século XXI está mesmo virado de cabeça para baixo!

Tendo ido dormir depois das cinco da manhã, acordei às nove, tomei o café da manhã (muito bom, mas ainda precisando evoluir para chegar a um verdadeiro nível cinco estrelas) e fui assistir às seções técnicas, todas elas sobre sistemas de potência. Para minha surpresa, consegui entender muita coisa, mas os trabalhos são de altíssimo nível, envolvendo o uso de C++ para cálculo de fluxo de potência, busca vertical, algoritmos genéticos e outras coisas. Na área de máquinas elétricas, o uso do MatLab e do Simulink tem sido uma constante. Vou ter que aprender essas coisas, não tem jeito.

As palestras da tarde de terça-feira foram interessantes, versando sobre linhas de transmissão de capacidade aumentada e automação de subestações, mas as palestras da manhã de quarta-feira foram ainda mais interessantes, versando sobre o Plano Decenal de Expansão, sobre o ONS e sobre manutenção em subestações de alta tensão. Após minha pergunta, o palestrante do ONS garantiu que a situação energética no Sul está sob controle, não havendo motivação política para não ter se decretado o racionamento.

As seções "pôster" ocorreram na tarde da quarta-feira. Encontrei lá dois ex-alunos da UTFPR, um deles apresentando um trabalho sobre FACTs e outro apresentando um trabalho sobre gestão de compra de energia no ACR usando algoritmos genéticos. Ambos estão fazendo mestrado na UFPR.

Meu trabalho teve exatamente o impacto esperado, ou seja, quase nenhum. Eu não esperava mais do que isso de um trabalho sobre comercialização de energia apresentado em um simpósio onde os assuntos mais comuns diziam respeito a transmissão, geração e distribuição de energia elétrica. É mais ou menos o mesmo que apresentar um trabalho sobre antidepressivos em um simpósio sobre psicanálise freudiana! Mas, pelo menos, ninguém criticou meu trabalho e ele está nos anais, além de concorrer a uma vaga para a próxima edição da revista IEEE Latin America.

No geral, o simpósio foi muito bem organizado. Menos de uma semana depois do evento, as fotos e artigos já estão disponíveis online, ao contrário de outros seminários por aí, que nunca mais atualizam o website após o encerramento.

Os nordestinos são realmente mais expansivos do que os curitibanos, mas não muito, apesar do sotaque divertido deles. É verdade que eu quase só falei com engenheiros, e somos todos muito parecidos, especialmente nessa era de globalização. Isso piora quando se fica hospedado em um hotel moderno que, apesar das particularidades regionais, é muito parecido com qualquer hotel do mundo. Como em qualquer cidade, os participantes do simpósio agem da mesma maneira, os professores agem como professores, os estudantes agem como estudantes e algumas alunas ainda não aprenderam que não devem comparecer a um compromisso profissonal usando salto 15 e decote panorâmico.

De qualquer forma, é muito melhor ficar no hotel do evento, pois podemos dar uma escapada de vez em quando para checar os e-mails no quarto. Por outro lado, é muito pior ficar no hotel do evento, pela mesma razão (de vez em quando um desses e-mails é um incêndio e lá se vão duas horas de trabalho!).

Apesar do Garden Hotel não ter internet banda larga, e apesar da TV a cabo apresentar uma qualidade de imagem deplorável, há nos quartos um detalhe interessante que não tenho visto por aí: um cofre com segredo digital programável, dentro do qual cabe o laptop inteiro. Um verdadeiro alívio para animais digitais!

O próximo SBSE será realizado em 2008, em Belo Horizonte, e pretendo submeter alguns artigos, dessa vez sobre máquinas elétricas.