Cristo Redentor – Maravilha do Mundo?
De uns tempos para cá comecei a receber e-mails recomendado que eu votasse no Cristo Redentor, escolhido como finalista de uma lista das “Novas Sete Maravilhas do Mundo”. Tentei responder a alguns deles, mas as caixas postais dos remetentes não existem. Trata-se de spam, nada mais, enviado com a displicência de gente que julga estar a serviço de uma boa causa.
As Sete Maravilhas do Mundo Antigo, relembremos, eram: a Grande Pirâmide de Gizé, os Jardins Suspensos da Babilônia, o Templo de Ártemis em Éfeso, a Estátua de Zeus em Olímpia, o Mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rhodes e o Farol de Alexandria. Embora essa lista tenha sido compilada na Idade Média, em uma época na qual muitos dos monumentos não mais existiam, é fácil perceber que se trata na verdade de uma lista das “Sete Maravilhas do Mundo Helênico”. A organização sem fins lucrativos New7Wonders, que se propôs a compilar uma nova lista de sete maravilhas, decidiu não ser tão centralizadora e escolheu como finalistas, muito apropriadamente, monumentos de vários lugares do mundo, os quais serão escolhidos por meio de votação, que se encerra amanhã. É aí que entra o Cristo Redentor.
Na condição de brasileiro, é natural que muitos pensem que eu deveria obrigatoriamente votar no Cristo Redentor. Não fazê-lo poderia dar a idéia de falta de patriotismo e, nesse mundo dado a avaliações rápidas e simplistas, poderia também dar a idéia de falta de religiosidade, coisa tão prezada por esse nosso povo semi-analfabeto. Contudo, se patriotismo fosse o fator decisivo nessa eleição, ela já estaria decidida pela mera diferença populacional dos países onde se localizam os monumentos. Os vencedores seriam os seguintes (juntamente com as estimativas populacionais de cada país):
- A Grande Muralha (China) – 1,322 bilhão de habitantes.
- O Taj Mahal (Índia) – 1,12 bilhão de habitantes.
- A Estátua da Liberdade (EUA) – 302 milhões de habitantes.
- O Cristo Redentor (Brasil) – 188 milhões de habitantes.
- A Catedral de São Basílio (Rússia) – 143 milhões de habitantes.
- O Templo de Kiyomishu (Japão) – 128 milhões de habitantes.
- A Pirâmide de Chichen Itzá (México) – 109 milhões de habitantes.
O Cristo Redentor ficaria em um confortável quarto lugar, mas o “voto patriótico” deixaria de fora monumentos com a Pirâmide de Gizé, a Torre Eiffel, o Coliseu, Stonehenge e a Acrópole de Atenas, esta última amargando um penúltimo lugar, motivado por pouco mais de 11 milhões de votos. Essa classificação decorre naturalmente da hipótese de que todos os habitantes de um país votem em seus monumentos, o que nem de longe é verdade, mas classificação semelhante seria obtida partindo-se da hipótese de que 10% (ou 5%, ou 2%, tanto faz) dos habitantes de cada país irá participar da votação. A determinação dos percentuais verdadeiros, que certamente não serão os mesmos para cada país, é justamente o objetivo da eleição.
Outro critério de escolha poderia ser a dificuldade de construção de cada monumento. Tal critério excluiria automaticamente monumentos como a Estátua da Liberdade, a Ópera de Sidnei (Austrália), a Torre Eiffel e, claro, o Cristo Redentor, pois todos esses monumentos foram construídos a partir do século XIX, quando a engenharia civil já era bastante avançada e havia motores para fazer o trabalho pesado. Uma classificação preliminar pela “dificuldade de construção” poderia ser feita levando-se em conta a antiguidade do monumento e provavelmente resultaria na seguinte lista:
- As Pirâmides de Gizé (Egito, 2.500 aC).
- Stonehenge (Inglaterra, 1.600 aC).
- A Acrópole de Atenas (Grécia, 330 aC).
- A Grande Muralha (China, 220 aC).
- Petra (Jordânia, 40 dC).
- Coliseu (Roma, 82 dC).
- Basílica de Santa Sofia (Turquia, 537 dC).
- Pirâmide de Chichen Itzá (antes de 800 dC).
Listei oito candidatos em vez de sete porque a Fundação New7Wonders acaba de declarar as Pirâmides de Gizé como “candidato honorário”, excluído, portanto, da votação. A decisão foi tomada em conjunto com o Supremo Conselho de Antiguidades do Egito e com o Ministério da Cultura do Egito, que concluíram que as pirâmides fazem parte do patrimônio cultural da humanidade e, na condição de único monumento incluído na lista antiga, merecem esse status especial.
Outro critério de classificação possível, embora repleto de subjetividade, seria a beleza dos monumentos. Mas como comparar a Estátua da Liberdade e o Cristo Redentor com o Coliseu e a Acrópole, ambos reduzidos a uma pálida lembrança do que foram em seus tempos de glória? E quem garante que o Cristo Redentor é intrinsecamente mais belo do que a Estátua da Liberdade? E como escolher entre a beleza clássica da Acrópole e as curvas orientais da Catedral de São Basílio ou do Tah Mahal? Impossível, dada a subjetividade do conceito de “belo”.
Ainda outra possibilidade seria excluir os monumentos construídos em função da megalomania de algum rei, imperador, engenheiro ou arquiteto. Tal critério imediatamente deixaria de fora a Torre Eiffel, único dos candidatos batizado em homenagem a seu construtor. Castelos também deveriam ser excluídos da lista, o que deixaria de fora Alhambra de Granada (Espanha), o Castelo Neuschwanstein (Alemanha), o Templo Kiyomishu (Japão), construído para servir de residência a shoguns e imperadores. O Taj Mahal (Índia) também ficaria de fora e, infelizmente, deveríamos excluir também as Pirâmides de Gizé, construídas para servir de túmulos a reis que se imaginavam deuses. A Estátua da Liberdade deveria ser excluída por motivos semelhantes, por representar, não a megalomania de um indivíduo, mas a de um povo inteiro. E, claro, o Cristo Redentor deveria ser excluído por ter sido construído por um povo que se imagina mais abençoado por Deus do que os outros.
Ainda assim, na minha modesta opinião, nenhum desses 21 monumentos deveria sequer estar na lista de candidatos. Mesmo a lista das sete maravilhas do mundo antigo sempre me pareceu meio fora de perspectiva. A verdadeira maravilha da Grécia antiga não era um templo ou uma estátua, mas sim uma civilização que criou a filosofia ocidental, lançou as bases da ciência moderna e inventou um sistema de governo diferente de todos os outros. As verdadeiras maravilhas da Roma antiga não eram estádios monumentais, mas os aquedutos, as estradas e até os exércitos, dependendo do ponto de vista. A grande maravilha da civilização maia não era uma pirâmide construída para o sacrifico humano, mas sim a capacidade de construir pirâmides e cidades sem o uso de tração animal ou de ferramentas de metal, assim como uma astronomia extraordinariamente precisa. No caso da China, não cabe nem mesmo cogitar que um muro de pedra, não importa quão monumental, seja mais maravilhoso do que a bússola, o papel e outras tantas invenções (a lista completa inclui também a pólvora, a besta e outras armas, que não são entendidas como maravilhosas por muita gente, mas desempenham um papel importante no desenvolvimento da civilização). E, obviamente, o que vale no caso do Egito não são as pirâmides em si, obras que não servem para absolutamente nada, mas sim uma engenharia que permitiu erigir aquelas construções, sem o uso de máquinas modernas, em uma época na qual a maioria dos povos ainda vivia em bandos primitivos. Mesmo a prosaica estátua norte-americana representa os ideais de democracia e liberdade que, embora tenham se originado em solo europeu, encontraram terreno fértil do outro lado do Atlântico.
Uma obra canditada a maravilha do mundo deve representar a exuberância científica, tecnológica ou artística de uma civilização inteira e não pode, portanto, ser analisada isoladamente.
No caso do Brasil, a grande maravilha não é uma estátua, por mais bela que seja e a despeito do receio do nosso povo inculto em ser punido por Deus caso deixe de votar em um monumento religioso. Nosso legado ao mundo poderia ser representado pelo Cristo Redentor apenas se fôssemos uma nação verdadeiramente cristã (tenho , contudo, sérias dúvidas se isso seria bom) ou se fôssemos uma nação verdadeiramente acolhedora, as duas características supostamente representadas pelo Cristo. Todavia, nunca fomos mais do que uma nação de católicos não praticantes, embora agora estejamos sob o ataque de seitas evangélicas sedentas de dinheiro e poder. E tenho sérias dúvidas se somos realmente mais acolhedores do que outros povos. É difícil dizer isso de uma nação que expulsou tantos de seus próprios filhos durante a ditadura, que cancela o visto de permanência de jornalistas por supostas ofensas ao Presidente da República e que assalta e mata turistas de todas as partes do mundo.
A grande maravilha brasileira, nossa grande obra, deveria representar a exuberância de nossa civilização, aquilo que temos de melhor para oferecer ao mundo. Infelizmente, não tenho idéia de qual seja nosso legado ao mundo e nem de qual obra o representaria. Mas não seria o Cristo Redentor.
