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quarta-feira, março 05, 2014

Produção de energia elétrica no Brasil - janeiro de 2010 a fevereiro de 2014

Fevereiro de 2014 se encerra como o mês de maior produção de energia elétrica no Brasil desde sempre. O valor máximo diário, 75.723 MW médios (correspondente a 1.817.352 MWh), foi atingido no dia 6 de fevereiro. Como a energia elétrica não pode ser armazenada em quantidades significativas e deve ser produzida no instante em que é consumida, este foi também o consumo de energia elétrica naquele dia (incluindo perdas por transmissão). A demanda máxima diária, de 85.708 MW, foi atingida um dia antes, mas 6 de fevereiro ficou atrás de 5 de fevereiro por apenas 1 MW, em termos de demanda diária.

A Fig.1 mostra a produção diária de energia, de 1 de janeiro de 2010 a 28 de fevereiro de 2014, classificada pelas quatro fontes mais importantes para o Brasil: hidrelétricas, termelétricas, nucleares e Itaipu. Os dados foram retirados dos relatórios diários do ONS [1]. As linhas de tendência das produções total e hidrelétrica são médias móveis de 30 dias. Clicando sobre o gráfico para ampliá-lo, notamos claramente a sazonalidade da produção total, com picos localizados entre fevereiro e março. A exceção é 2014, quando o pico ocorreu em janeiro, por causa do calor excessivo, que acarretou em um uso também excessivo de ventiladores e aparelhos de ar condicionado.


Fig.1 - Produção de energia elétrica por fontes (clique sobre o gráfico para aumentar) [1].

A Fig.2 mostra as produções médias mensais, também classificadas por fontes. A produção média em dezembro de 2013 foi de 61.923 MW médios, passando para 66.823 MW médios em janeiro de 2014 e 69.095 MW médios em fevereiro de 2014. Assim, entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014, o sistema teve de produzir 7.172 MW médios adicionais, energia correspondente a aproximadamente 70% da produção mensal média de Itaipu em 2013.

Somados ao consumo excessivo em janeiro e fevereiro, dois problemas surgiram nesse início de ano. O primeiro foram as baixas afluências aos reservatórios, que resultaram em armazenamentos também baixos e em uma redução da capacidade de produção hidrelétrica. O segundo é que as termelétricas, que no Brasil funcionam como fontes complementares às hidrelétricas ("backups"), já estavam produzindo 9.136 MW médios em dezembro. Despachar termelétricas adicionais em janeiro e fevereiro significou colocar usinas muito mais caras em funcionamento, levando o Custo Marginal de Operação (CMO) às alturas. Na última semana de fevereiro, por exemplo, os CMOs do SE/CO e do Sul fecharam em 1.685,28/MWh. Este valor é superior ao primeiro patamar do Custo do Déficit que, de acordo com a Resolução Homologatória n°1.667/2013, da Aneel [2], é de R$ 1.364,64/MWh. Em princípio, quando o CMO for superior a este valor, mas inferior a R$ 2.943,50/MWh, um montante de 5% da carga deveria ser cortada. Contudo, a Resolução n° 109/2002 da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica [3], ainda vigente e que o ONS cita em seus últimos relatórios, afirma que "os valores obtidos para a função Custo do Déficit não implicam acionamento de medidas de redução compulsória de consumo".

Em outras palavras, o ONS considera que ainda não há necessidade de racionamento. Afinal, o aumento médio de produção entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014 foi de aproximadamente 11,6%. Se a produção (e, logo, o consumo) cair espontaneamente metade desse valor em março, devido à mera redução da temperatura, demorará pouco para sairmos do primeiro patamar do déficit. Resta esperar.



Fig.2 - Produção de energia elétrica mensal média por fontes  (clique sobre o gráfico para aumentar) [1].


[1] ONS. Informativo Preliminar Diário da Operação - IPDO.
[2] ANEEL. Resolução Homologatória n° 1.667/2013.
[3] GCE. Resolução n°109/2002.

segunda-feira, junho 20, 2011

Consumo de energia elétrica no Brasil e no mundo

Um assunto sempre presente nas discussões sobre crescimento econômico e sustentabilidade energética é o consumo de energia elétrica pelos diversos países, índice que reflete, dentre outras coisas, o grau de desenvolvimento alcançado. A Figura 1 abaixo mostra o consumo em terawatts-hora (TWh), em 2008, dos vinte primeiros maiores consumidores do planeta. Lembremos que 1TWh corresponde a 1 milhão de megawatts-hora (MWh) ou a 1 bilhão de quilowatts-hora (kWh). Notamos que os EUA e a China aparecem confortavelmente instalados no primeiro e segundo lugares, respectivamente, seguidos de longe pelo Japão. O Brasil aparece em nono lugar, logo após Alemanha e França, o que significa que nossos índices de consumo e nosso sistema elétrico não são de forma alguma desprezíveis.

Figura 1 - Consumo Anual de Energia Elétrica em 2008 (TWh)
(clique sobre a figura para ampliar)

A situação muda completamente quando analisamos o consumo per capita, conforme ilustrado na Figura 2 abaixo, na qual foram considerados apenas países com mais de 1 milhão de habitantes. Dentre os principais consumidores per capita encontram-se países desenvolvidos e de clima frio, como Noruega, Canadá e Finlândia, bem como países donos de grandes reservas de petróleo, como Kuwait e Emirados Árabes. Os EUA aparecem agora em um discreto sétimo lugar, a França aparece em décimo sétimo e a Alemanha cai para vigésimo primeiro, saindo do gráfico. O Brasil cai para um discretíssimo sexagésimo quarto lugar, com um consumo per capita de 2,14 MWh/capita/ano.

Figura 2 - Consumo Per Capita em 2008 (MWh/capita)
(clique sobre a figura para ampliar)

Nosso humilde consumo per capita mostra que ainda resta muito a ser feito, pois um nível de 2,14 MWh/capita/ano é indicativo de um baixo nível de industrialização e também do fato de que, como sabemos, a energia elétrica ainda não é acessível a toda a população brasileira. Para fins de comparação, em 2008 o Brasil ficou, em termos de consumo per capita, atrás de países como Chile (3,42), Venezuela (3,21), Argentina (2,59) e China (2,29), dentre outros. Os desafios à frente significam, por exemplo, que deveremos construir anualmente mais de 7.000 MW em capacidade instalada, levantando uma questão que os países hoje desenvolvidos não tiveram de enfrentar quando apresentavam nosso nível atual de consumo: como faremos para construir todas as hidrelétricas e demais usinas de que necessitaremos em um país cada vez mais restritivo do ponto de vista ambiental?

Fonte dos dados: eia.gov/cfapps/ipdbproject/IEDIndex3.cfm