sexta-feira, julho 21, 2006

Simpósio Brasileiro de Sistemas Elétricos - SBSE 2006

O SBSE 2006 veio e se foi. O CD com os anais foi inacreditavelmente entregue no momento do registro e meu artigo está lá: "Política Tarifária e Comercialização de Energia Elétrica no Ambiente de Contratação Livre".

O simpósio ocorreu no Centro de Convenções Raymundo Asforda, anexo ao Garden Hotel, Campina Grande, Paraíba. O hotel foi inaugurado em abril de 2006, como resultado de uma parceria público-privada, e tem padrão cinco estrelas. Apesar disso, nem todos os quartos estão funcionando, pois encontrei um deles que ainda vai demorar para ficar pronto. O quarto em que fiquei ainda tinha alguns resquícios de cimento aqui e lá e o carpete guardava marcas de obras recentes.

Cheguei somente no segundo dia do simpósio, às quatro horas da manhã de terça-feira, depois de quase onze horas de viagem. Peguei um taxi até o hotel e tenho quase certeza que o motorista pretendia me assaltar, pois ele fez um caminho muito estranho, pegando ruas de terra repletas de buracos, mas deve ter desistido na última hora. Amadores! Além disso, ele não tinha troco para uma corrida de R$ 20, que eu pretendia pagar com uma nota de R$ 50. Teve que voltar no outro dia para pegar o dinheiro. Na volta, já na quinta-feira, o motorista da perua (que hoje em dia todo mundo insiste em chamar de "van"), fez um caminho completamente diferente, mais curto e por ruas asfaltas.

É interessante que saí de Curitiba com 30°C e a seca mais violenta dos últimos 10 anos, mas cheguei em Campina Grande com uma temperatura mais amena e um pouco de chuva. Esse mundo do século XXI está mesmo virado de cabeça para baixo!

Tendo ido dormir depois das cinco da manhã, acordei às nove, tomei o café da manhã (muito bom, mas ainda precisando evoluir para chegar a um verdadeiro nível cinco estrelas) e fui assistir às seções técnicas, todas elas sobre sistemas de potência. Para minha surpresa, consegui entender muita coisa, mas os trabalhos são de altíssimo nível, envolvendo o uso de C++ para cálculo de fluxo de potência, busca vertical, algoritmos genéticos e outras coisas. Na área de máquinas elétricas, o uso do MatLab e do Simulink tem sido uma constante. Vou ter que aprender essas coisas, não tem jeito.

As palestras da tarde de terça-feira foram interessantes, versando sobre linhas de transmissão de capacidade aumentada e automação de subestações, mas as palestras da manhã de quarta-feira foram ainda mais interessantes, versando sobre o Plano Decenal de Expansão, sobre o ONS e sobre manutenção em subestações de alta tensão. Após minha pergunta, o palestrante do ONS garantiu que a situação energética no Sul está sob controle, não havendo motivação política para não ter se decretado o racionamento.

As seções "pôster" ocorreram na tarde da quarta-feira. Encontrei lá dois ex-alunos da UTFPR, um deles apresentando um trabalho sobre FACTs e outro apresentando um trabalho sobre gestão de compra de energia no ACR usando algoritmos genéticos. Ambos estão fazendo mestrado na UFPR.

Meu trabalho teve exatamente o impacto esperado, ou seja, quase nenhum. Eu não esperava mais do que isso de um trabalho sobre comercialização de energia apresentado em um simpósio onde os assuntos mais comuns diziam respeito a transmissão, geração e distribuição de energia elétrica. É mais ou menos o mesmo que apresentar um trabalho sobre antidepressivos em um simpósio sobre psicanálise freudiana! Mas, pelo menos, ninguém criticou meu trabalho e ele está nos anais, além de concorrer a uma vaga para a próxima edição da revista IEEE Latin America.

No geral, o simpósio foi muito bem organizado. Menos de uma semana depois do evento, as fotos e artigos já estão disponíveis online, ao contrário de outros seminários por aí, que nunca mais atualizam o website após o encerramento.

Os nordestinos são realmente mais expansivos do que os curitibanos, mas não muito, apesar do sotaque divertido deles. É verdade que eu quase só falei com engenheiros, e somos todos muito parecidos, especialmente nessa era de globalização. Isso piora quando se fica hospedado em um hotel moderno que, apesar das particularidades regionais, é muito parecido com qualquer hotel do mundo. Como em qualquer cidade, os participantes do simpósio agem da mesma maneira, os professores agem como professores, os estudantes agem como estudantes e algumas alunas ainda não aprenderam que não devem comparecer a um compromisso profissonal usando salto 15 e decote panorâmico.

De qualquer forma, é muito melhor ficar no hotel do evento, pois podemos dar uma escapada de vez em quando para checar os e-mails no quarto. Por outro lado, é muito pior ficar no hotel do evento, pela mesma razão (de vez em quando um desses e-mails é um incêndio e lá se vão duas horas de trabalho!).

Apesar do Garden Hotel não ter internet banda larga, e apesar da TV a cabo apresentar uma qualidade de imagem deplorável, há nos quartos um detalhe interessante que não tenho visto por aí: um cofre com segredo digital programável, dentro do qual cabe o laptop inteiro. Um verdadeiro alívio para animais digitais!

O próximo SBSE será realizado em 2008, em Belo Horizonte, e pretendo submeter alguns artigos, dessa vez sobre máquinas elétricas.

sexta-feira, julho 14, 2006

Dublagem obrigatória de filmes estrangeiros?

É do Acre que vem a última novidade desse país ensolarado, cheio de ônibus queimados e analfabetos: o deputado Nilson Mourão, do PT, quer tornar obrigatória a dublagem de filmes estrangeiros.

Um dos argumentos do deputado é que as legendas dificultam a compreensão por parte das pessoas de menor poder aquisitivo. Só que essas pessoas são justamente aquelas que não freqüentam os cinemas, os quais, na maior parte das grandes cidades brasileiras, encontram-se escondidos no interior de Shopping Centers, redutos das classes sociais mais altas.

Outra justificativa é que a obrigatoriedade da dublagem aumentaria o campo de trabalho para os dubladores. Mas, como argumenta muito bem Marcos Petrucelli, os filmes que interessam já são dublados quando do lançamento em DVD. A obrigatoriedade da dublagem para o cinema apenas anteciparia o trabalho, mas não produziria mais trabalho. Além disso, o deputado se esquece de mencionar que todo o pessoal que trabalha legendando os filmes perderá imediatamente o emprego!

Do meu ponto de vista, que imagino seja compartilhado por muita gente que já passou infindáveis tardes e noites em cinemas, uma dublagem mal feita é uma grande porcaria. Já uma dublagem bem feita é apenas uma pequena porcaria.

Os dubladores que me perdoem, mas não há como ser diferente. Mesmo que não houvesse o problema do sincronismo labial, não seria possível substituir a voz de um ator ou atriz, que está vivendo o filme, pela voz de um dublador, que trabalha no conforto de um estúdio de gravação. Grandes atores podem trabalhar como dubladores, mas o inverso é muito menos freqüente.

É claro que há precedentes perigosos, pois outros países adotam há anos essa política de pasteurizar filmes estrangeiros. Isso acontece, por exemplo, na França, mas os franceses têm também outros hábitos estranhos, como comer sapos e caracóis, e não podem ser tomados como exemplo. O problema é que, se a coisa virar moda, cedo ou tarde o Congresso vai tornar obrigatório que até mesmo as músicas estrangeiras sejam dubladas!

De qualquer forma, é provável que essa lei seja apenas parte do plano da ala radical do PT para dominar o mundo. Uma vez aprovada a lei, os ricos e milionários continuarão assistindo os filmes em Nova Iorque e Londres, antes do lançamento no Brasil. A classe média continuará escondida em casa, fugindo dos bandidos e assistindo filmes em DVD, onde já é possível escolher o idioma e as legendas. E os pobres finalmente tomarão conta dos Shopping Centers, instaurando a revolução do proletariado prevista por Marx, e poderão assistir filmes dublados por um preço módico, pelo menos enquanto os cinemas aguentarem. No fim, teremos conseguido fazer aquilo que nem os soviéticos e nem Fidel conseguiram: quebrar Hollywood!

domingo, julho 09, 2006

Acabou o campeonato mundial de cobradores de pênaltis!

De quatro em quatro anos, uma cambada de moleques milionários se reúne para organizar algumas peladas, onde fingem jogar algum tipo de jogo, cujo objetivo é roubar uma bola de alguns moleques e depositá-la atrás de uma linha defendida por outro moleque, geralmente o mais alto de todos ou o mais perna-de-pau.

Um observador atento perceberá que o real objetivo dessa brincadeira de milionários excêntricos é decidir quem consegue marcar a maior quantidade de pênaltis na disputa final. A pelada que antecede os pênaltis serve apenas para ver quem consegue dar o maior número de cabeçadas, cotoveladas e caneladas sem que o juiz veja. Além disso, seria difícil convencer alguém a assistir somente a disputa final, que seria muito curta, reduziria o interesse dos canais de televisão, prejudicaria as quotas de patrocínio, etc.

A maior prova de que nossa raça de macacos cabeçudos está condenada à extinção é o fato de que milhares de trouxas, denominados "torcedores", vindos de vários lugares do mundo, economizam durante anos, vendendo casas, terrenos e carros, com o único objetivo de assistir a esse "campeonato mundial de cobradores de pênaltis".

Para nossa felicidade, independente de quem ganhou dessa vez, agora podemos voltar a nossos afazeres diários e tentar mostrar que resta alguma dignidade à raça humana.

Roberto Carlos: marcar Henry não estava na descrição do cargo!

Todos que assistiram aquele patético Brasil x França viram que Roberto Carlos estava pateticamente abaixado enquando Henry fazia aquele patético gol, originado de uma falta patética cobrada por Zidane, que agora se despediu pateticamente da Copa, de Berlim e de sua carreira.

Agora, em entrevista ao Fantástico, Roberto Carlos vem nos dizer que "não tinha nada que fazer" na posição onde Henry estava. Não era a função desse lateral, mundialmente famoso por suas crises de disenteria verbal.

Se Roberto Carlos estava ou não ajeitando sua meia, é coisa totalmente irrelevante. O que importa, segundo ele, é que marcar Henry simplesmente não fazia parte da descrição de seu cargo, pois ele havia sido escalado para jogar como lateral, não como zagueiro.

A situação é conhecida. Conta-se que, ao perceber que o barco estava afundando, um pescador sentou-se tranquilamente, pois "o furo não era do lado dele". Não era responsabilidade dele, mas o barco afundou assim mesmo, levando junto todos os pescadores.

E assim afundou também o barco da seleção brasileira, levando junto todos aqueles moleques milionários, alguns deles donos de patrimônios maiores do que o PIB da Bolívia. Todos eles sobreviverão, é claro, mas, para nossa felicidade, outra palhaçada dessa, só daqui a quatro anos!

sábado, julho 01, 2006

Vive la France!

Dizem que o primeiro tempo de Brasil x França foi monótono, mas, embalado por três chopes absorvidos durante a tragédia que foi Inglaterra x Portugal, não o assisti. Torcer pela Inglaterra é a única coisa divertida em qualquer Copa, pois os ingleses fazem tudo com muita classe, até mesmo perder. Além disso, o único quarteto mágico que jamais existiu era inglês, formado por Lennon, McCartney, Harrison e Starkey. A tragédia, além de ver os ingleses derrotados no esporte inventado por eles, está em ver Scolari avançar no campeonato usando aquele estilo australopitecíneo tão caro aos portugueses.

Acordei após o gol francês. Aparentemente, o jogo continuou na mesma durante o segundo tempo. Nada que já não fosse esperado, claro, por razões que serão muito melhor analisadas por gente que entende muito mais de futebol do que eu.

Alguns dirão que a culpa foi de Parreira e sua arrogância imperial, incapaz de ver o óbvio que milhões de "técnicos" e comentaristas não cansaram de apontar. O mesmo Parreira que disse não ter se preparado para a derrota nessa fase do mundial, mostrando ser um verdadeiro discípulo de Zagalo, que, em 1974, disse que não estava "preocupado com a Holanda", pois estava apenas "se preparando para enfrentar a Alemanha na final".

Outros dirão que a culpa foi de Roberto Carlos, que estava ajeitando a cinta-liga quando deveria marcar Thierry Henry, único artilheiro da partida.

Outros, finalmente, dirão que a culpa foi de um time formado por jogadores milionários, jogando em clubes europeus, sem compromisso algum com o torcedor brasileiro. Como apontado pela imprensa, poucos deles choraram com a derrota, poucos deles se emocionaram e todos falaram com se tivessem perdido apenas um jogo do campeonato da oitava série. Afinal, para quem ganha milhões de dólares a cada jogo de um clube europeu, deve ser uma grande chateação ser crucificado ao perder jogando de graça.

De qualquer forma, agora que a Copa se transformou em um torneio europeu, resta a opção de torcer para qualquer seleção, desde que não seja Portugal, é claro. Por um lado, Scolari vitorioso seria uma boa lição para Parreira, mas, por outro lado, Portugal vitorioso seria humilhação demais para qualquer brasileiro, até mesmo para aqueles que não gostam de futebol. Se bem que um título português seria o coroamento definitivo para o espetáculo em que se transformou a Copa do Mundo: uma grande palhaçada.

A derrota para a França tem pelo menos quatro vantagens. Primeira, vamos voltar a ver Fátima Bernardes maquiada decentemente. Segunda, o comércio e a indústria brasileiros não terão mais prejuízos enormes com paralisações em dias de jogo da seleção. Terceira, não teremos que ver a equipe brasileira ser recebida em Brasília, homenageada por um presidente que entende mais de futebol do que de economia. E, quarta, com um pouco de sorte, perderemos todos os mundiais daqui para frente. Só assim nos daremos conta de que vale muito mais a pena investir nosso dinheiro e energia nas coisas que realmente importam: educação, cultura, ciência e tecnologia. O resto, pão e circo patrocinados por fabricantes de artigos esportivos e redes de televisão, é bobagem pura.