domingo, novembro 09, 2014

Considere novamente aquele ponto

Em 1990 a sonda espacial Voyager 1, que havia sido lançada 12 anos antes e se encontrava a 6,4 bilhões de quilômetros da Terra, voltou suas lentes para nosso planeta e tirou uma famosa fotografia que ficaria conhecida como "pálido ponto azul". Nessa fotografia, mostrada ao lado, a Terra aparece como um pequeno ponto azul em meio a efeitos de polarização e difração produzidos pela luz solar.

Essa fotografia inspirou Carl Sagan, que estaria fazendo 80 anos hoje,  a escrever seu livro "Pálido Ponto Azul: uma Visão do Futuro da Humanidade no Espaço", publicado em 1994. Dois anos depois, em uma palestra, Sagan comentou um pouco mais sobre a famosa fotografia, cujo texto traduzo aqui livremente do inglês:

Considere novamente aquele ponto. Ele é aqui. Ele é o lar. Somos nós. Sobre ele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você algum dia ouviu falar, todo ser humano que jamais existiu, viveu sua vida.

O conjunto das nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões confidentes, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e forrageiro, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e camponês, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e pai, criança esperançosa, inventor e explorador, cada professor de moral, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história de nossa espécie vivei aquu – em um grão de poeira suspenso em um raio de Sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, de modo que eles pudessem, em glória e triunfo, tornar-se os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes dificilmente discerníveis de algum outro canto. Quão frequentes seus equívocos, quão ansiosos eles são em matar uns aos outros, quão fervorosos seus ódios.

Nossas atitudes, nossa auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privi-legiada no universo, são desafiadas por este ponto de luz pálida. Nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade – em toda essa vastidão – não há indício algum de que a ajuda virá de outro lugar para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o único mundo conhecido, até o momento, a abrigar vida. Não há nenhum outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Colonizar, ainda não. Goste ou não, no momento a Terra é onde estamos estabelecidos. Tem sido dito que a astronomia é uma experiência de humildade e de construção de caráter. Talvez não haja melhor demonstração da tolice das vaidades humanas do que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para mim, ele ressalta a nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, preservarmos e valorizarmos esse pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”

sexta-feira, setembro 26, 2014

III Seminário de Eficiência Energética - UTFPR

Entre 1 e 3 de outubro o campus Curitiba da UTFPR - Universidade Tecnológica Federal do Paraná - sediará o III Seminário de Eficiência Energética. As inscrições são gratuitas. Mais informações em http://www.seminarioeficienciaenergetica.ct.utfpr.edu.br .


sábado, setembro 06, 2014

"Contato" e os programas eleitorais em rádio e TV


Em "Contato", livro de Carl Sagan que li meia dúzia de vezes, o autor nos conta a história da descoberta de uma mensagem alienígena pelo programa SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence, Busca por Inteligência Extraterrestre). A mensagem, que contém os planos para a construção de uma Máquina, é decriptografada com o auxílio do engenheiro bilionário S. R. Hadden, que também financia a construção de uma das cópias da misteriosa Máquina.

S. R. Hadden começou a acumular sua fortuna com uma invenção simples: um aparelho que, conectado aos televisores, abaixa o volume destes assim que entram os comerciais, voltando ao normal quando a programação retorna. Os canais de televisão logo descobrem o "truque" do aparelho, que se baseia na identificação do volume dos comerciais, mais elevado segundo Sagan, e conseguem anular seu funcionamento. Hadden então desenvolve verdadeiros "chips identificadores de contexto", que fazem dele o americano mais odiado pelos canais de televisão.

O livro de Sagan foi publicado em 1985 e conta uma história passada no final do século XX. A internet não existe no romance de Sagan, nem smarphones ou tablets, mas talvez nem Sagan conseguisse acreditar que identificadores de contexto nós temos. Afinal, do que se tratam aplicativos como o Shazam? Entretanto, é estranho que, até onde sei, ninguém tenha usado essa tecnologia para construir "identificadores de comerciais" ou de conteúdos banidos pelo usuário: grava-se uma pequena amostra da voz de um personagem irritante qualquer e, quando este aparece, o volume do televisor é imediatamente reduzido a zero. Em vez de reduzir o volume, o aplicativo também poderia inserir uma música ou outra programação previamente gravada pelo usuário.

Os identificadores de contexto também poderiam ser usados no caso dos programas eleitorais. Não tanto no caso dos programas do horário eleitoral gratuito, dos quais é fácil se livrar, mas daquelas inserções irritantes durante a programação normal de rádio e TV. Será que isso não valeria um TCC, uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado? Está lançado o desafio!

quinta-feira, agosto 14, 2014

Artur Avila e a Medalha Fields

O ano de 2014 foi planejado pelo Brasil para ser aquele em que a seleção brasileira de futebol ganharia a mesma coisa pela sexta vez. Não deu. Em vez disso, 2014 ficará marcado como o ano em que um brasileiro ganhou a Medalha Fields de Matemática pela primeira vez, o ano em que Artur Avila teve seu nome inscrito na curta lista de nomes (56) que receberam esse prêmio, concedido pela União Internacional de Matemática (UIM) a cada quatro anos e no máximo a quatro matemáticos com idades inferiores a 40 anos.

Esta medalha, apelidada de "Nobel da Matemática", reconhecida como uma das maiores honras que um matemático pode receber (outras duas são o Prêmio Abel e a Medalha Chern), foi concedida pela primeira vez em 1936 e é denominada oficialmente International Medal for Outstanding Discoveries in Mathematics ("Medalha Internacional por Descobertas Marcantes em Matemática")

O nome coloquial da medalha é dado em homenagem ao matemático canadense John Charles Fields (1863 - 1932), que tinha sobre o prêmio uma visão muito diferente da qual temos sobre qualquer outro prêmio: "Devemos enfatizar novamente o fato de que as medalhas devem ser de caráter tão puramente internacional e impessoal quanto possível. Não devem ser associados a ela, de modo algum, os nomes de quaisquer instituições ou pessoas" [1].

Contudo, somos apenas humanos e não conseguimos premiar uma descoberta, ou um conjunto de descobertas, de maneira tão impessoal. E também não conseguimos evitar a associação de um país a uma pessoa ou vice-versa. O Prêmio Nobel, por exemplo, é concedido apenas a pessoas, não a países, mas não conseguimos evitar fazer listas de Nobéis por países e coisas parecidas.

A história do Nobel de Einstein, por exemplo, é bastante curiosa. Nascido na Alemanha, Einstein renunciou à cidadania alemã em 1896, para evitar o serviço militar, e migrou para a Suíça, passando a estudar e, mais tarde, a trabalhar lá. Entre os períodos de estudo e trabalho, naturalizou-se suíço. Em 1905, Einstein publicou seus primeiros trabalhos e começou a ficar conhecido na Europa. Em 1914, Einstein voltou para a Alemanha, tornando-se diretor do Instituto Kaiser Guilherme de Física, onde ficaria até 1933, mas nunca renunciou à cidadania suíça. Assim, quando Einstein ganhou o Nobel de Física em 1921, os suíços contabilizaram automaticamente o prêmio no rol suíço. Os alemães tiveram um pouco mais de trabalho para fazer o mesmo, já que Einstein havia renunciado à cidadania alemã e nunca havia requerido a mesma novamente. Os alemães então argumentaram que Einstein, sendo diretor do Instituto Kaiser Guilherme, era funcionário público, e, como apenas cidadãos alemães podiam ser funcionários públicos, Einstein era automaticamente alemão. E contabilizaram o Nobel de Einstein no rol alemão.

Curiosamente, algo semelhante está acontecendo no caso de Artur Avila Cordeiro de Melo, que nasceu no Rio de Janeiro, graduou-se em matemática na UFRJ, e completou o mestrado e o doutorado no IMPA (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), onde é professor visitante. Mas, em 2003, Avila tornou-se também pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, da França, onde continua [2], tendo se tornado também cidadão francês [3]. Assim, para desespero de John Fields, tanto Brasil quanto França contabilizam uma medalha a mais em suas relações [4]. Apesar disso, a colaboração entre países nas áreas científicas, mesmo em uma área tão abstrata quanto a matemática, é benéfica para todos e começou muito antes do que no futebol, ao contrário do que alguns possam pensar. E certamente esta colaboração será benéfica para o Brasil, assim como esta primeira Medalha Fields.

[1] https://cs.uwaterloo.ca/~alopez-o/math-faq/mathtext/node19.html
[2] http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4794781E6
[3] http://www.simonsfoundation.org/quanta/20140812-a-brazilian-wunderkind-who-calms-chaos/
[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Medalha_Fields