sábado, setembro 06, 2014

"Contato" e os programas eleitorais em rádio e TV


Em "Contato", livro de Carl Sagan que li meia dúzia de vezes, o autor nos conta a história da descoberta de uma mensagem alienígena pelo programa SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence, Busca por Inteligência Extraterrestre). A mensagem, que contém os planos para a construção de uma Máquina, é decriptografada com o auxílio do engenheiro bilionário S. R. Hadden, que também financia a construção de uma das cópias da misteriosa Máquina.

S. R. Hadden começou a acumular sua fortuna com uma invenção simples: um aparelho que, conectado aos televisores, abaixa o volume destes assim que entram os comerciais, voltando ao normal quando a programação retorna. Os canais de televisão logo descobrem o "truque" do aparelho, que se baseia na identificação do volume dos comerciais, mais elevado segundo Sagan, e conseguem anular seu funcionamento. Hadden então desenvolve verdadeiros "chips identificadores de contexto", que fazem dele o americano mais odiado pelos canais de televisão.

O livro de Sagan foi publicado em 1985 e conta uma história passada no final do século XX. A internet não existe no romance de Sagan, nem smarphones ou tablets, mas talvez nem Sagan conseguisse acreditar que identificadores de contexto nós temos. Afinal, do que se tratam aplicativos como o Shazam? Entretanto, é estranho que, até onde sei, ninguém tenha usado essa tecnologia para construir "identificadores de comerciais" ou de conteúdos banidos pelo usuário: grava-se uma pequena amostra da voz de um personagem irritante qualquer e, quando este aparece, o volume do televisor é imediatamente reduzido a zero. Em vez de reduzir o volume, o aplicativo também poderia inserir uma música ou outra programação previamente gravada pelo usuário.

Os identificadores de contexto também poderiam ser usados no caso dos programas eleitorais. Não tanto no caso dos programas do horário eleitoral gratuito, dos quais é fácil se livrar, mas daquelas inserções irritantes durante a programação normal de rádio e TV. Será que isso não valeria um TCC, uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado? Está lançado o desafio!

quinta-feira, agosto 14, 2014

Artur Avila e a Medalha Fields

O ano de 2014 foi planejado pelo Brasil para ser aquele em que a seleção brasileira de futebol ganharia a mesma coisa pela sexta vez. Não deu. Em vez disso, 2014 ficará marcado como o ano em que um brasileiro ganhou a Medalha Fields de Matemática pela primeira vez, o ano em que Artur Avila teve seu nome inscrito na curta lista de nomes (56) que receberam esse prêmio, concedido pela União Internacional de Matemática (UIM) a cada quatro anos e no máximo a quatro matemáticos com idades inferiores a 40 anos.

Esta medalha, apelidada de "Nobel da Matemática", reconhecida como uma das maiores honras que um matemático pode receber (outras duas são o Prêmio Abel e a Medalha Chern), foi concedida pela primeira vez em 1936 e é denominada oficialmente International Medal for Outstanding Discoveries in Mathematics ("Medalha Internacional por Descobertas Marcantes em Matemática")

O nome coloquial da medalha é dado em homenagem ao matemático canadense John Charles Fields (1863 - 1932), que tinha sobre o prêmio uma visão muito diferente da qual temos sobre qualquer outro prêmio: "Devemos enfatizar novamente o fato de que as medalhas devem ser de caráter tão puramente internacional e impessoal quanto possível. Não devem ser associados a ela, de modo algum, os nomes de quaisquer instituições ou pessoas" [1].

Contudo, somos apenas humanos e não conseguimos premiar uma descoberta, ou um conjunto de descobertas, de maneira tão impessoal. E também não conseguimos evitar a associação de um país a uma pessoa ou vice-versa. O Prêmio Nobel, por exemplo, é concedido apenas a pessoas, não a países, mas não conseguimos evitar fazer listas de Nobéis por países e coisas parecidas.

A história do Nobel de Einstein, por exemplo, é bastante curiosa. Nascido na Alemanha, Einstein renunciou à cidadania alemã em 1896, para evitar o serviço militar, e migrou para a Suíça, passando a estudar e, mais tarde, a trabalhar lá. Entre os períodos de estudo e trabalho, naturalizou-se suíço. Em 1905, Einstein publicou seus primeiros trabalhos e começou a ficar conhecido na Europa. Em 1914, Einstein voltou para a Alemanha, tornando-se diretor do Instituto Kaiser Guilherme de Física, onde ficaria até 1933, mas nunca renunciou à cidadania suíça. Assim, quando Einstein ganhou o Nobel de Física em 1921, os suíços contabilizaram automaticamente o prêmio no rol suíço. Os alemães tiveram um pouco mais de trabalho para fazer o mesmo, já que Einstein havia renunciado à cidadania alemã e nunca havia requerido a mesma novamente. Os alemães então argumentaram que Einstein, sendo diretor do Instituto Kaiser Guilherme, era funcionário público, e, como apenas cidadãos alemães podiam ser funcionários públicos, Einstein era automaticamente alemão. E contabilizaram o Nobel de Einstein no rol alemão.

Curiosamente, algo semelhante está acontecendo no caso de Artur Avila Cordeiro de Melo, que nasceu no Rio de Janeiro, graduou-se em matemática na UFRJ, e completou o mestrado e o doutorado no IMPA (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), onde é professor visitante. Mas, em 2003, Avila tornou-se também pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, da França, onde continua [2], tendo se tornado também cidadão francês [3]. Assim, para desespero de John Fields, tanto Brasil quanto França contabilizam uma medalha a mais em suas relações [4]. Apesar disso, a colaboração entre países nas áreas científicas, mesmo em uma área tão abstrata quanto a matemática, é benéfica para todos e começou muito antes do que no futebol, ao contrário do que alguns possam pensar. E certamente esta colaboração será benéfica para o Brasil, assim como esta primeira Medalha Fields.

[1] https://cs.uwaterloo.ca/~alopez-o/math-faq/mathtext/node19.html
[2] http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4794781E6
[3] http://www.simonsfoundation.org/quanta/20140812-a-brazilian-wunderkind-who-calms-chaos/
[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Medalha_Fields


terça-feira, agosto 05, 2014

Suzana Herculano-Houzel no TED: por que nos tornamos humanos?

Suzana Herculano-Houzel, uma das mais conhecidas neurocientistas brasileiras, fez uma palestra no TEDGlobal 2013, em junho do ano passado, em Edimburgo, Escócia. Divulguei o evento aqui neste blog alguns meses depois.

Agora a palestra de Suzana está sendo divulgada pelo TED por e-mail e foi classificada pelos editores para ser colocada na primeira página do site do evento. A palestra, que já conta com mais de 1,4 milhões de visualizações e já foi legendada em 34 línguas, pode ser conferida aqui.

A resposta de Suzana às perguntas "por que nos tornamos humanos?" ou "o que há de tão especial sobre o cérebro humano?" deve ser de conhecimento de todos aqueles que frequentam as listas científicas ou redes sociais científicas ou mesmo o facebook: nós cozinhamos, coisa que nenhuma outra espécie faz. Cozinhar possibilita obter três vezes mais calorias dos alimentos e permitiu a nossos cérebros crescerem em um curto período de tempo.

Nada de esoterismos, nada de energias ocultas, nada de conexões com dimensões superiores, apenas um dos mais prosaicos hábitos humanos: o hábito de sentar em volta de uma fogueira (ou mesa, mais modernamente) e jogar conversa fora.

Quem quiser receber os e-mails do TED, pode se cadastrar em www.ted.com, parte de baixo, lado direito.


segunda-feira, julho 14, 2014

Coisas que aprendi com a Copa de 2014

  1. Fazer uma Copa dar certo não é fácil, mas é mais fácil do que fazer um país dar certo.
  2. Um país que xinga seu chefe de Estado em público provavelmente não entendeu como funciona a democracia. Outra prova disso é a quantidade de votos nulos a cada eleição.
  3. Tenho a impressão de que o sucesso dessa "Copas das Copas", de nos darmos tão bem como anfitriões e mestres de cerimônia, deve-se ao fato de que fomos colonizados justamente para isso.
  4. De qualquer forma, a imagem do Brasil no mundo certamente melhorou. Como usaremos essa imagem antes que ela se apague?
  5. Depois da Copa de 2010 eu havia dito que "a profissão mais fácil do mundo é a de comentarista de futebol". O desempenho de alguns comentaristas durante esta Copa mostrou que eu estava errado.
  6.  É bacana cantar o hino à capela", entrar em campo como meninos do primeiro ano, não ter vergonha de mostrar as emoções em campo. Mas o melhor mesmo é vencer.
  7. Da próxima vez é melhor esperar o fim da Copa antes de tirar um sarrinho de uma seleção favorita eliminada precocemente.
  8. Se você for um apresentador de TV, é melhor pensar duas vezes antes de prometer apresentar seu programa de cuecas caso seu país perca.
  9. Se nossas seleções dependem sempre de um ou dois jogadores, é interessante que nosso esporte favorito seja o futebol. Não deveria ser o o tênis ou coisa parecida?
  10. Graças aos alemães, hoje não é feriado no Brasil. Graças aos alemães, hoje também não é feriado na Alemanha.
P.S. Após a escolha de Dunga para técnico da Seleção eu adicionaria um 11° item: ou os comentaristas de futebol estão todos errados sobre a necessidade de renovação do futebol brasileiro, ou esse país parece mesmo aferrado ao passado.