sexta-feira, junho 29, 2018

Prof. Eng. Arlei Bichels - in memoriam


Quando passei no concurso da Copel, no final de 1994, me ofereceram duas vagas: uma na área da manutenção da Transmissão, que exigia viagens constantes, e outra no Planejamento da Geração, que exigia poucas viagens. Escolhi a Geração, para não prejudicar muito minha carreira de professor no CEFET-PR (UTFPR, a partir de 2005).

Ao chegar ao escritório descobri, com certa surpresa para um Engenheiro Eletricista, que todos naquela área eram Engenheiros Civis. O gerente então me disse que a ideia deles era que eu servisse como uma espécie de "interface" entre as áreas de Planejamento da Geração e Planejamento da Transmissão. Ao ser apresentado aos Engenheiros da Transmissão descobri que um dos mais graduados era o Arlei Bichels, meu colega no Departamento Acadêmico de Eletrotécnica (DAELT) do CEFET-PR e meu conhecido de longe desde que eu era aluno do curso de Engenharia. Durante algum tempo pensei em mudar para a Transmissão, mas isso não é fácil para um recém-contratado e tive que desistir.

O Arlei entrou na Copel em 1971, logo após ter se formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Paraná. Na mesma época foi contratado como professor 20 horas pela antiga Escola Técnica Federal do Paraná, que viria a se transformar em CEFET-PR em 1978, quando os cursos de Engenharia foram criados. No início ele era professor do curso técnico de Eletrotécnica, depois passou a lecionar para o curso de Engenharia.

A ideia de que eu atuasse como interface entre a Geração e a Transmissão nunca deu certo, por falta de treinamento e outras razões, mas essas áreas ficaram em contato físico durante alguns anos e eu permaneci em contato com o Arlei em modo extraoficial. Ele era um sujeito ligado no 380 V, de todas as formas. Por vezes isso era um problema, pois tomávamos o mesmo ônibus e de vez em quando eu o encontrava de manhã, na ida para a Copel, ele com dois metros de perna e eu com meu meio metro. Embora meu condicionamento físico fosse muito melhor naquela época, eu chegava ao escritório um pouco suado e tinha que relaxar por alguns minutos.

Em algum ponto descobri que os armários dele escondiam periódicos do IEEE. Aquilo foi como a parábola do rato na fábrica de queijo. Muito embora o curso de Engenharia do CEFET-PR fosse tido como um dos melhores, ele era mais direcionado para a indústria (de fato, o curso era denominado "Engenharia Industrial Elétrica") e eu me formei sem ler um único paper do Institute of Electrical and Electronics Engineers. Se eu tivesse sido aluno do Arlei, talvez isso tivesse acontecido, mas ele estava de licença justamente no semestre em que eu viria a ser aluno dele. Hoje qualquer um que tenha acesso ao portal de periódicos da Capes pode baixar tudo o que quiser do IEEE e de outras bases, mas, antes da internet, tudo era impresso e aproveitei para tirar cópias de muita coisa que me interessava.

Alguns anos depois houve uma mudança na Copel, várias áreas foram unidas, outras separadas e algumas enviadas para o famoso km3. Meu contato com o Arlei foi reduzido na Copel, mas continuou no CEFET-PR. Ele continuava viajando e de vez em quando me pedia que eu o substituísse nas aulas de Sistemas Elétricos de Potência (SEP). Isso não era difícil, pois ele transformava essas aulas em exercícios para os alunos e me dava os gabaritos. O estranho é que ele queria me pagar por isso, mas eu tentava dizer: "Você não precisa me pagar, pois substituições já estão previstas no meu salário". Mas ele dizia que tinha feito as contas de quanto aquelas aulas valiam, fazia o pagamento em dinheiro e não aceitava minha negativa.

Ele se aposentou da Copel em 1999, com 28 anos de serviço, e assumiu o cargo de Diretor de Novos Negócios na Tradener, a primeira Comercializadora de Energia Elétrica brasileira, cujo sócio majoritário na época era a Copel. Na verdade, ele ajudou a fundar a Tradener. Em 2001 ele resolveu se aposentar também do CEFET-PR. Me lembro com detalhes de uma noite em que dei uma carona a ele até sua residência, ele me deixou todo seu material impresso de SEP, juntamente com os arquivos magnéticos, e me disse: "Estou deixando todo esse material para você usar nas suas futuras aulas. Cuide bem dele". Não tive coragem de dizer a ele que não pretendia lecionar SEP, mas as coisas mudam. Não só acabei lecionando essa disciplina como, vários anos depois, cursei um mestrado na área. Só agora percebi que, por absoluta imbecilidade e falta de memória, me esqueci de incluir o nome dele nas dedicatórias da minha monografia!

A possível privatização da Copel fez a empresa tentar reduzir ainda mais seus custos por meio de um Plano de Demissão Voluntária (também conhecido como "sopão"). Resolvi aderir ao plano, passar meu contrato no CEFET-PR para 40 horas e me dedicar parcialmente ao desenvolvimento de software, especialmente software para a internet. Um dos meus primeiros clientes foi a Tradener. Eu entrava na sala do Arlei toda vez que ia lá e certa vez perguntei o que ele achava das perspectivas para o Setor Elétrico. Ele respondeu, rindo um pouco: "As piores possíveis!". Outras pessoas talvez tivessem tentado suavizar um pouco a situação, mas ele estava certo em um ponto: o "efeito Lula" fez o dólar e o IGPM dispararem e as pessoas que viviam de aluguel, como eu, entraram em uma fria.

Meu contrato com a Tradener acabou, mas o Claudio Alves, um físico que havia me convidado para desenvolver o site da Tradener, me chamou para prestar serviços na Comercializadora que ele estava abrindo, a Electra Energy. Por causa da atuação na mesma área, mesmo que em lados opostos, meu contato com o Arlei continuou, mas dessa vez geralmente por telefone ou e-mail. De vez em quando nos encontrávamos também em algum congresso ou seminário. A última vez que o vi foi no SNPTEE, o Seminário Nacional de Produção e Transmissão de Energia Elétrica, em Curitiba, em outubro de 2017.

Por volta de 2015 ele deixou definitivamente a Tradener e passou a se dedicar somente à própria empresa, a SisEletro Consultoria em Engenharia, que havia fundado em 1999. Ele tinha então 67 anos, aquela idade em que muitos com certa graduação já se aposentaram há anos. De vez em quando eu ficava sabendo pelos meus alunos que ele estava contratando estagiários da UTFPR, ajudando-nos a resolver esse problema acadêmico que fica mais grave em épocas de dificuldades econômicas.

Essa perda de contato foi uma pena. Não sei se ele poderia ter aprendido algo comigo (como correr mais devagar para pegar um ônibus, talvez), mas eu certamente poderia ter aprendido algo mais com ele.

Que ele fosse um sujeito multitarefas todos sabíamos, mas ninguém do DAELT com quem conversei sabia que ele se dedicava ao paraquedismo esportivo. Infelizmente, ficamos sabendo disso da pior forma: depois de 45 anos de saltos, ele sofreu um acidente fatal.

Alguns jornais noticiaram o acidente como "Paraquedista de 70 anos morre durante um salto em Paranaguá" ou "Senhor de 70 anos pula de paraquedas e morre na queda em Paranaguá". Só agora me dei conta do que algumas pessoas podem ter pensado com essa manchete: um paraquedista velhinho e um pouco corcunda, dando seu primeiro salto duplo ou coisa parecida. Não foi nada disso.

Segundo o Albatroz, o Arlei chegou ao Aeroclube do Paraná aos 25 anos de idade, em fins de 1970, "muito branco, altíssimo, loiro, e foi logo irreverentemente apelidado de 'Cobra-d'água'". Era alvo de brincadeiras dos colegas, que diziam que seu peso seria insuficiente para abrir o paraquedas, mas foi aos poucos obtendo o respeito e a admiração de todos. Com o tempo ele assumiu a diretoria geral do Albatroz e, para aprimorar seu treinamento, adquiriu um paraquedas "Papillon", francês, fabricado especialmente para saltos de precisão, e hiper sustentável com 28 pés de diâmetro. O "fino em paraquedas", segundo dizem. Em 1976 já era membro da União Brasileira de Paraquedismo.

Logo após o acidente, em 23 de junho de 2018, circulou a notícia de que ele poderia não ter aberto o paraquedas de forma adequada, mas seus colegas não acreditam nisso. De acordo com o personal trainner Walter da Silva, companheiro de alguns saltos com o Arlei desde a década de 70, "ele era um cara extremamente inteligente e cuidadoso. Não era um maluco. Era muito consciente, estava bem fisicamente e com documentos em dia. Foi uma fatalidade que pode acontecer com qualquer um de nós". De fato, agora a principal hipótese não é erro humano, mas sim que o paraquedas tenha apresentado algum defeito.

Nos últimos anos o Arlei estava escrevendo seu próprio livro de SEP, o qual será publicado pela Editora da UTFPR. Só é uma pena que ele não irá vê-lo.

Aproveito para enviar minhas condolências a todos os amigos e familiares.