terça-feira, junho 13, 2006

Brasil e Croácia: 90 minutos de chatice

Com a maior boa vontade do mundo, sentei-me para assistir ao jogo no qual o Brasil demoliria a seleção da Croácia. Depois de várias semanas ouvindo a propaganda de Parreira & Cia, eu tinha certeza que nossos heróis da super-hiper-mega-ultra seleção pentacampeoníssima do mundo não dariam a menor chance para aquele timinho vestido com toalhas de cantina italiana. Mesmo do fundo do meu coração de anti-torcedor, eu tinha certeza que o Brasil passaria com folga pela Croácia e que só viria a encontrar dificuldades com a Austrália. Como não sou entendido em futebol, me enganei.

O que vi foram 90 minutos da mais pura e indescritível chatice, e não me refiro somente à narração de Galvão "Magdo" Bueno. Foram 90 minutos que poderiam ser confortavelmente comprimidos em menos de 5, incluindo aquele gol que até um canguru perneta faria. É por isso que os norte-americanos não gostam de futebol. Eles sabem que tempo é dinheiro.

O fator de capacidade do futebol é realmente decepcionante. São minutos e mais minutos da mais pura chateação: jogadores passando a bola um para o outro, faltas, escanteios, laterais, tiros de meta, torcedores invadindo o campo. De vez em quando, muito de vez em quando, acontece alguma coisa diferente e os torcedores inocentes saem com a sensação de que aqueles momentos valeram pelo jogo inteiro. Pois eu declaro solenemente que não valeram! Futebol é enganação.

Estamos todos sendo enganados pela mídia e por essa cultura futebolística. É preciso retirar o foco do futebol e direcioná-lo para as coisas que realmente importam, como prêmios Nobel, tecnologia de ponta, livros, ciência, educação. Enquanto formos apenas o país do futebol, nunca conseguiremos dos outros países o respeito tão desejado por essa nossa alma latina atormentada por um complexo de inferioridade perene.

E, para mostrar que desgraça pouca é bobagem, depois de vermos nossos jogadores milionários penarem para bater a Croácia, um país que poucos brasileiros conseguem identificar no mapa, com o "Magdo" dizendo que essa é a "maior Copa do Mundo de todos os tempos", a televisão ainda nos brindou com as imagens de Zagallo, com aquele jeitão de Prof. Farnsworth, pedindo pateticamente para alguém trocar de camisa com ele.

Mas domingo que vem tem mais. Como estarei em casa, pelo menos poderei adiantar a leitura de "O Tecido do Cosmo" durante o jogo. Brian Greene, ao contrário de Parreira & Cia, nunca decepciona.

sexta-feira, junho 09, 2006

De como o Brasil trata a ciência e a tecnologia, 1ª Parte: Marcos Pontes

Marcos Pontes, primeiro engenheiro brasileiro no espaço, é um desses brasileiros nascidos durante a corrida espacial que sonhou em fazer parte dela. Ao contrário de todos nós, ele conseguiu realizar seu sonho, ainda que não a bordo do ônibus espacial, como inicialmente planejado.

O currículo de Marcos Pontes é invejável: engenheiro aeronáutico (ITA, um dos vestibulares mais difíceis do Brasil), mestre em engenharia de sistemas (Naval Postgraduate School - NPS, Califórnia), piloto de provas, piloto militar, oficial de segurança de vôo, astronauta e condecorado com 19 prêmios, a maioria deles antes da missão espacial de 2006. Nascido em família de classe média, pouquíssimos brasileiros podem exibir currículo semelhante. Apesar disso, a maneira como Pontes foi tratado pela imprensa brasileira é humilhante.

Após a missão espacial, que recebeu críticas intensas por causa do alegado desperdício de US$ 10 milhões (metade do custo de um único traje espacial para atividade extra-veicular), Pontes resolveu passar para a reserva da Força Aérea Brasileira. A imprensa tratou a decisão como se fosse uma "aposentadoria", o que não é verdade, pois o militar da reserva pode ser chamado de volta à ativa a qualquer momento, em tempo de paz ou de guerra. Pontes, no momento o único astronauta brasileiro, e certamente o único durante muitos anos que se seguirão, foi tratado como aproveitador. Poucos jornalistas, contudo, se esqueceram de mencionar que um piloto da FAB, com todos aqueles títulos e anos de formação, ganha menos que um motorista do Planalto.

Relembrando, Pontes foi selecionado em 1998 para cumprir os seguintes objetivos: (a) treinar e representar o Brasil como astronauta junto aos outros 15 países participantes do Programa da Estação Espacial Internacional (ISS); (b) realizar como tripulante a primeira missão espacial brasileira; (c) realizar experimentos nacionais, que não foram desenhados por ele, a bordo da ISS.

Tendo cumprido todos esses objetivos, com excelente desempenho, a missão para a qual Pontes foi selecionado está cumprida. O dinheiro foi investido e bem gasto, e Pontes pode fazer de sua vida o que bem quiser, como todos nós. E o Brasil ganha, de quebra, um especialista em missões espaciais, com conhecimento de ponta e treinamento de primeira, coisa que nunca tivemos.

Seria interessante se Pontes tivesse recebido um décimo do tratamento reservado a nossos jogadores de futebol ora na Alemanha em busca de mais um títutlo internacional. Embora realizem missões que exigem dotes intelectuais infinitamente menores, e ganhem uma soma de dinheiro infinitamente maior, nossos jogadores são tratados como heróis, capazes de paralisar as atividades do país durante os jogos. Nosso astronauta, em vez disso, é tratado como vigarista.

É preciso que o Brasil aprenda a ter um mínimo de respeito por ciência e tecnologia. É preciso ensinar isso às criancinhas, aos adolescentes e aos adultos. É preciso que os jornalistas parem de falar de coisas que não entendem e que os chefes do executivo parem de se preocupar com futebol, e passem a se preocupar também em erguer troféus de modalidades científicas e tecnológicas.

Caso contrário, estaremos para sempre condenados a dirigir automóveis alemães e de outras nacionalidades, a pilotar computadores norte-americanos, equipados com software também norte-americano, a voar em espaçonaves russas e a tentar aumentar o saldo da nossa balança comercial exportando commodities e importando todo o resto.

quinta-feira, junho 08, 2006

Livro de Décio Krause e Steven French

Deve sair ainda em junho, pela Oxford University Press, o livro"Identity in Physics - A Historical, Philosophical, and Formal Analysis", deDécio Krause (UFSC) e Steven French (University of Leeds, UK). São 480 páginas por um preço um pouco salgado (£50.00, em capa dura). Os assuntos tratados são aqueles tão caros ao Décio: individualidade em física clássica e em mecânica quântica, quase-conjuntos, matemática da não-individualidade, lógica não-reflexiva, lógica quântica.

É bom saber que fui "quase-aluno" (i.e., um aluno não formal) do Décio, que se tornou um pesquisador internacionalmente reconhecido, mesmo trabalhando nesse país que trata seus cientistas e astronautas com tanto descaso e displicência.

quarta-feira, junho 07, 2006

Comercialização de Energia na revista Eletricidade Moderna

A edição de maio de 2006 da revista Eletricidade Moderna traz um artigo inusitado: "A comercialização de energia elétrica no varejo - riscos e oportunidades". Trata-se do meu artigo apresentado no XVIII SNPTEE (GME-28). Eu pensei que a edição de maio seria especial, apenas com artigos do SNPTEE, mas não foi. Os outros 10 artigos foram apresentados em outros eventos, como SBQEE, CIRED, LuxEuropa, RightLight, ou publicados em outros periódicos. É incrível que, dentre 518 trabalhos do SNPTEE, apenas o meu tenha sido escolhido para publicação nessa edição dessa conceituada revista (lida por mais de 30 pessoas, ao contrário dos outros lugares onde apareceram artigos meus). O assunto, em voga no momento, sem dúvida ajudou bastante, e, embora as próximas edições da Eletricidade Moderna venham a trazer mais artigos do SNPTEE, é bom cruzar a linha entre os primeiros.

segunda-feira, junho 05, 2006

Heloísa Helena para presidente?

A revista Veja desta primeira semana de junho traz uma reportagem de duas páginas sobre Heloísa Helena, na qual a senadora aparece em uma fotografia inusitada: maquiada, com cabelos soltos e vestida com algo que não é uma camiseta. Anteriormente, visual semelhante havia ocupado as páginas da revista Cláudia. A ilustre senadora, agora candidata a presidente da República pelo PSOL, parece aproveitar a notoriedade ganha com a expulsão do PT e com a participação na CPI para mostrar que é gente comum, capaz de soltar os cabelos e deixar de lado a roupa de lavadeira. O problema é que já vimos esse filme antes.

Não tenho dúvida que a senadora Heloísa Helena é uma das pessoas mais íntegras desse país. Mas ela é também comunista de carterinha, daquelas capazes de misturar Marx com citações bíblicas descontextualizadas ("O camarada Jesus Cristo dizia: ou quente ou frio, o morno se vomita"). E uma pessoa capaz dessas misturas pode ter outros hábitos desagradáveis.

Não tenho dúvidas que a senadora Heloísa Helena é uma das pessoas mais combativas e favoráveis à moralidade na política. Mas ela é também raivosa e emocional demais. Ela mesmo confessa ser agressiva e intolerante em alguns momentos, como quando ameaça cortar o pescoço de quem fala mal dela.

Não tenho dúvidas que a senadora Heloísa Helena foi expulsa do PT por se opor às práticas de corrupção do partido. Mas ela é também contra a reforma da Previdência, a qual ela diz só interessar aos "gigolôs do FMI".

Com esse perfil, a eleição de Heloísa Helena para o Planalto é sonho (ou pesadelo?) impossível. Até o eleitor mais humilde sabe que não se pode receber dignitários internacionais de calça jeans e camiseta, mostrando a espada cada vez que alguém se pronuncia a favor do "capital".

Como Heloísa Helena, Lula já foi muito mais aguerrido e combativo. Pouco antes de ser preso em abril de 1980, Lula concedeu uma entrevista defendendo os direitos dos trabalhadores, afirmando que não tinha pretensões político-eleitorais e que não desejava se candidatar a nada. Após perder três eleições para presidente, teve de deixar de lado a imagem de sapo barbudo e, ao contrário do que afirmava naquela entrevista de 1980, teve que mudar.

Eu espero que Heloísa Helena não mude. Se mudar, corremos o risco de que ela seja eleita presidente, e daí a desgraça estará feita. De fato, o caminho para o Planalto está semeado de acordos que ela diz não poder fazer e de amigos que ela diz não poder vender. Se ela for eleita, algo terá mudado, indicando perigo. Além disso, depois que ela tiver declarado a moratória da dívida externa, rompido com os bancos e defenestrado as multinacionais, perceberemos que não terá sobrado muito mais do que isso e que, a exemplo da esquerda de todos os tempos e lugares, sobra vapor no discurso, mas falta conteúdo.