domingo, julho 09, 2006

Roberto Carlos: marcar Henry não estava na descrição do cargo!

Todos que assistiram aquele patético Brasil x França viram que Roberto Carlos estava pateticamente abaixado enquando Henry fazia aquele patético gol, originado de uma falta patética cobrada por Zidane, que agora se despediu pateticamente da Copa, de Berlim e de sua carreira.

Agora, em entrevista ao Fantástico, Roberto Carlos vem nos dizer que "não tinha nada que fazer" na posição onde Henry estava. Não era a função desse lateral, mundialmente famoso por suas crises de disenteria verbal.

Se Roberto Carlos estava ou não ajeitando sua meia, é coisa totalmente irrelevante. O que importa, segundo ele, é que marcar Henry simplesmente não fazia parte da descrição de seu cargo, pois ele havia sido escalado para jogar como lateral, não como zagueiro.

A situação é conhecida. Conta-se que, ao perceber que o barco estava afundando, um pescador sentou-se tranquilamente, pois "o furo não era do lado dele". Não era responsabilidade dele, mas o barco afundou assim mesmo, levando junto todos os pescadores.

E assim afundou também o barco da seleção brasileira, levando junto todos aqueles moleques milionários, alguns deles donos de patrimônios maiores do que o PIB da Bolívia. Todos eles sobreviverão, é claro, mas, para nossa felicidade, outra palhaçada dessa, só daqui a quatro anos!

sábado, julho 01, 2006

Vive la France!

Dizem que o primeiro tempo de Brasil x França foi monótono, mas, embalado por três chopes absorvidos durante a tragédia que foi Inglaterra x Portugal, não o assisti. Torcer pela Inglaterra é a única coisa divertida em qualquer Copa, pois os ingleses fazem tudo com muita classe, até mesmo perder. Além disso, o único quarteto mágico que jamais existiu era inglês, formado por Lennon, McCartney, Harrison e Starkey. A tragédia, além de ver os ingleses derrotados no esporte inventado por eles, está em ver Scolari avançar no campeonato usando aquele estilo australopitecíneo tão caro aos portugueses.

Acordei após o gol francês. Aparentemente, o jogo continuou na mesma durante o segundo tempo. Nada que já não fosse esperado, claro, por razões que serão muito melhor analisadas por gente que entende muito mais de futebol do que eu.

Alguns dirão que a culpa foi de Parreira e sua arrogância imperial, incapaz de ver o óbvio que milhões de "técnicos" e comentaristas não cansaram de apontar. O mesmo Parreira que disse não ter se preparado para a derrota nessa fase do mundial, mostrando ser um verdadeiro discípulo de Zagalo, que, em 1974, disse que não estava "preocupado com a Holanda", pois estava apenas "se preparando para enfrentar a Alemanha na final".

Outros dirão que a culpa foi de Roberto Carlos, que estava ajeitando a cinta-liga quando deveria marcar Thierry Henry, único artilheiro da partida.

Outros, finalmente, dirão que a culpa foi de um time formado por jogadores milionários, jogando em clubes europeus, sem compromisso algum com o torcedor brasileiro. Como apontado pela imprensa, poucos deles choraram com a derrota, poucos deles se emocionaram e todos falaram com se tivessem perdido apenas um jogo do campeonato da oitava série. Afinal, para quem ganha milhões de dólares a cada jogo de um clube europeu, deve ser uma grande chateação ser crucificado ao perder jogando de graça.

De qualquer forma, agora que a Copa se transformou em um torneio europeu, resta a opção de torcer para qualquer seleção, desde que não seja Portugal, é claro. Por um lado, Scolari vitorioso seria uma boa lição para Parreira, mas, por outro lado, Portugal vitorioso seria humilhação demais para qualquer brasileiro, até mesmo para aqueles que não gostam de futebol. Se bem que um título português seria o coroamento definitivo para o espetáculo em que se transformou a Copa do Mundo: uma grande palhaçada.

A derrota para a França tem pelo menos quatro vantagens. Primeira, vamos voltar a ver Fátima Bernardes maquiada decentemente. Segunda, o comércio e a indústria brasileiros não terão mais prejuízos enormes com paralisações em dias de jogo da seleção. Terceira, não teremos que ver a equipe brasileira ser recebida em Brasília, homenageada por um presidente que entende mais de futebol do que de economia. E, quarta, com um pouco de sorte, perderemos todos os mundiais daqui para frente. Só assim nos daremos conta de que vale muito mais a pena investir nosso dinheiro e energia nas coisas que realmente importam: educação, cultura, ciência e tecnologia. O resto, pão e circo patrocinados por fabricantes de artigos esportivos e redes de televisão, é bobagem pura.

domingo, junho 18, 2006

Paul McCartney faz 64!

Em 1966, Sir James Paul McCartney sentou-se para escrever uma canção destinada a fazer parte do lendário LP Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band, lançado em junho de 1967. O resultado foi When I'm 64, uma melodia agradável com uma letra simples que conta uma historinha também simples, bem ao estilo McCartney.

Comparada a outras canções de Sargent Peppers, When I'm 64 é de uma ingenuidade contrastante. Não há duplos sentidos, como em Lucy in the Sky with Diamonds ou Being for the Benefit of Mr. Kite (Lennon), não há preocupações espirituais, como em Within You Without You (Harrison) e não há epopéias sonoras e inovações tecnológicas, como em A Day in the Life (Lennon-McCartney).

When I'm 64 resume o dia-a-dia de um casal de velhinhos da década de 60, vivendo da maneira como os velhinhos viviam na década de 60: poupando, fazendo tricô, passeando, cuidando dos netos e do jardim, etc.

Perto de outras canções de Sargent Peppers, When I'm 64 não tem muita relevância, a não ser hoje, quando Paul McCartney completa 64 anos.

É claro que não se pode pretender que McCartney, então no auge dos 26 anos, tenha tentado prever como seria a vida 38 anos depois. Se inquirido, ele poderia responder, ao estilo de John Lennon: "It's only noise, man!". Mas é impossível deixar de mencionar que a canção não se tornou verdade, nem para McCartney, que tem dinheiro suficiente para não precisar "alugar um casa de campo na Ilha de Wight", nem para a maioria dos sexagenários europeus e de outros países, que não se contentam mais apenas em "fazer tricô, cuidar do jardim e sair para um passeio aos domingos."

No Brasil, naturalmente, os idosos são tratados como lixo. A obsessão brasileira por magreza, beleza e juventude, aliada a uma população ainda muito jovem, a um serviço público de saúde decrépito e a uma previdência pública falida, tornam muito difícil a vida de nossos velhinhos.
Ainda assim, apesar dos contrastes entre os velhinhos europeus e os nossos, é estranho viver em um mundo no qual Paul McCartney é um sexagenário.

Happy birthday, Paul! Segue a letra completa de When I'm 64.

When I get older, losing my hair, many years from now,
Will you still be sending me a Valentine, birthday greetings, bottle of wine?

If I'd been out 'till quarter to three,would you lock the door?
Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four?

You'll be older, too. Aaah, and if you say the word, I could stay with you.

I could be handy, mending a fuse, when your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside, sunday mornings, go for a ride.
Doing the garden, digging the weeds, who could ask for more?
Will you still need me, will you still feed me, when I'm sixty four?

Every summer we can rent a cottage in the Isle of Wight if it's not to dear.
We shall scrimp and save.Ah, grandchildren on your knee, Vera, Chuck, and Dave.

Send me a postcard, drop me a line stating point of view.
Indicate precisely what you mean to say, yours sincerely wasting away.
Give me your answer, fill in a form, mine forever more.
Will you still need me, will you still feed me, when I'm sixty four?

quarta-feira, junho 14, 2006

De como o Brasil trata a ciência e a tecnologia, 2ª Parte: Sir Peter Brian Medawar

Sir Peter Brian Medawar, ao contrário de outros brasileiros de sucesso que fixaram residência no exterior, é pouco conhecido de nós. Medawar, nome estranho ao ouvido brasileiro, mas não mais estranho do que Karl Rischbieter e outros tantos, nasceu em Petrópolis, em 1915, filho de mãe inglesa e pai libanês naturalizado inglês.

Por volta de 1925, talvez pudéssemos encontrar o pequeno Peter chutando uma bola ou outra, como tantos outros guris brasileiros, e correndo pelas ruas do Rio de Janeiro, onde seu pai havia aberto a "Ótica Inglesa", que existe até hoje. Mas havia uma pequena diferença: Peter era tão bom aluno que, aos 14 anos, seus pais resolveram enviá-lo à Inglaterra, para que tivesse acesso a melhores condições de ensino.

Na Inglaterra, Medawar completou seus estudos no Marlborough College e na Universidade de Oxford, no Magdalen College, formando-se em zoologia em 1932. Educação de primeira nas melhores escolas do mundo.

Pouco depois, Medawar começou a se interessar por medicina e biologia, mas foi chamado pela pátria, o Brasil, para prestar o serviço militar obrigatório. Os pais de Medawar procuraram então o Ministério da Aeronáutica e pediram dispensa, explicando que o filho estudava no exterior. O pedido foi negado. Não tendo outra alternativa, Peter Medawar abriu mão da cidadania brasileira e abraçou a inglesa, preferindo as pesquisas científicas às atividades militares em um país imerso em revoluções. A biografia oficial de Medawar não menciona esse singelo acontecimento, mas vai logo ao que interessa: as pesquisas de Medawar sobre transplantes de tecidos vivos.

Por volta de 1949, as pesquisas sobre rejeição de transplantes já estavam bastante avançadas, tendo-se descoberto que, em determinadas situações, uma certa "força biológica" inibia a rejeição. Trabalhando com Frank Burnet, 16 anos mais velho, Medawar descobriu que a inibição se devia à ação de certos anticorpos, e ambos desenvolveram a teoria da Tolerância Imunológica Adquirida.

O trabalho de Medawar e Burnet possibilitou o desenvolvimento dos transplantes modernos, que hoje salvam milhares de vidas. Em decorrência desse trabalho, Medawar foi eleito Fellow of the Royal Society (FRS) com a idade de apenas 34 anos. Em 1960, ele e Burnet foram agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia.

Medawar foi um cientista de grande originalidade, tendo recebido praticamente todas as honras possíveis do mundo científico. Além do Nobel e do FRS, ele foi escolhido Companion of Honour (1972), Member of the Order of Merit (1981) e foi o primeiro presidente da Sociedade Internacional de Transplantes. Em 1965, Medawar foi condecorado cavaleiro pela rainha Elisabeth, tornando-se Sir Peter Brian Medawar.

Alguém poderia argumentar que não temos nada com isso, já que Medawar não era filho de brasileiros. Contudo, por um lado, não é esse o caso de todos nós? Por outro lado, Jean Piaget argumentava que todas as estruturas mentais de um indivíduo são formadas até os 14 ou 15 anos de idade. Assim, o cérebro de Medawar foi integralmente formado em território brasileiro. E nós o chutamos fora.

Medawar morreu em 1987 e seus pais permaneceram no Brasil, país que só se deu conta da existência de Medawar em 2001, quando a Fundação Cultural de Petrópolis inaugurou uma placa nos jardins do Palácio Itaboraí, sede da Fiocruz. Imagino que tenham havido protestos dos habitantes por se desperdiçar dinheiro público com homenagens a um estrangeiro...

E essa é a história de como o Brasil perdeu seu primeiro Nobel!

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Posfácio: muito tempo depois de ter escrito este post, fiquei sabendo que Sir Peter Medawar é nosso segundo Nobel perdido. O primeiro é Carlos Chagas. Mais detalhes em http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2012/09/o-nobel-brasileiro.html

terça-feira, junho 13, 2006

A irrelevância da Copa do Mundo

Conta a lenda que o grande lógico-matemático brasileiro Newton da Costa chegou certa vez para dar aulas na Universidade de São Paulo e encontrou o campus deserto. Em busca de respostas, talvez temendo uma revolução ou hecatombe nuclear, logo descobriu que as aulas haviam sido suspensas por causa de um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo.

Newton da Costa, internacionalmente conhecido por seus trabalhos em lógica paraconsistente, certamente tinha mais o que fazer da vida do que assistir uma mera partida de futebol e deve ter voltado para casa reclamando desses brasileiros "cabeça-de-torpedo".

Ninguém pretende, obviamente, que brasileiros comuns tenham a dimensão intelectual de da Costa, nem mesmo que cheguem perto disso. Do brasileiro pobre, que passa a vida se espremendo em filas de ônibus, fugindo de balas perdidas e esperando que o fim do mês chegue logo, infelizmente não se pode esperar grandes arroubos intelectuais. Não se pode esperar isso nem mesmo do brasileiro razoavelmente escolarizado, mas que pensa que "Quem mexeu no meu queijo" é um livro de Administração.

Desses brasileiros eu entendo o apego excessivo ao futebol e à Copa do Mundo. Também entendo quando é o caso de pessoas que nasceram em uma "família futebolística", na qual a paixão pelo esporte se propaga como um meme de uma geração a outra. Sei disso, pois vivo com uma delas, atleticana fanática. Nos outros casos, é melhor abandonar qualquer esperança de se encontrar uma explicação racional.

É claro que a nossa não é a primeira civilização a prezar os esportes a ponto de considerá-los manisfestações divinas. Na Grécia antiga, por exemplo, as competições esportivas eram dedicadas aos deuses do Olimpo.

Os atletas gregos, assim como os atuais, passavam uma vida dedicada ao esporte, recebiam tratamento especial, eram venerados e idolatrados.

E, ao contrário aos atletas atuais, que não passam de dondocas milionárias hospedadas em hotéis cinco estrelas, reclamando de febre e bolhas nos pés, os atletas gregos se dispunham a competir até a morte, coisa que acontecia com frequência inadmissível na atualidade.

Apesar disso, alguém sabe quem foram esses atletas gregos? Alguém, que não seja um professor de história, sabe citar ao menos o nome de um deles? Quem eram esses semi-deuses que dedicavam a vida ao esporte? Ninguém sabe. Contudo, qualquer estudante de ensino médio sabe (ou deveria saber) citar uma meia dúzia de filósofos gregos, uns três artistas e talvez um ou dois estadistas.

Os Jogos Olímpicos da antigüidade, que inspiraram os jogos modernos, foram totalmente ofuscados pelas outras contribuições gregas à cultura ocidental, todas elas muito mais importantes.

Ninguém sabe quem foi Leônidas de Rodes, mas todos sabem quem foi Aristóteles. Ninguém sabe quem foi Milo de Croton, mas todos sabem quem foi Euclides. Ninguém sabe quem foi Quiônis de Esparta, mas todos sabem quem foi Arquimedes.

E, da mesma forma que aconteceu com os gregos, nossa herança para as gerações futuras deverá ser intelectual, não desportiva, ao menos se quisermos ser vistos como uma civilização digna de alguma consideração.

Descontando a questão do condicionamento físico, esporte é irrelevante. O corredor mais rápido que existe perderia o fôlego se tentasse alcançar uma chita manca. O nadador mais rápido seria humilhado por um golfinho com uma nadadeira nas costas. O halterofilista mais bem preparado não teria chances contra um gorila adolescente.

E, ainda que esportes coletivos dependam mais de coordenação e trabalho em equipe do que de força bruta e velocidade, qualquer grupo de humanos que tentasse acompanhar uma matilha de lobos durante uma caçada veria que há muitas coisas que é melhor deixar que os (outros) animais façam.

As únicas coisas que fazemos melhor do que os animais dizem respeito ao raciocínio e à comunicação. É nessas coisas que devemos nos esmerar, não em correr, pular e nadar, coisas que os outros animais fazem muito melhor.

Dentro de um ou dois milênios, ninguém mais se lembrará de Pelé, Maradona, Ronaldo, Ronaldinho e outros, mas os nomes de Einstein, Feynman, Hawking, Newton da Costa, Leonardo, Picasso e outros ecoarão ecoarão pela eternidade. Além disso, se for para escolher um esporte, prefiro muito mais tênis feminino do que esses marmanjos peludos que são pagos para brincar de bola.