sábado, abril 21, 2012

Nós, os curitibanos


Jardim Botânico de Curitiba
Em um dos vários dias do verão de 2011 fui almoçar no restaurante Pasteur, perto do Positivo do Batel. Resolvi ficar no térreo mesmo, apostando que, por causa do horário já bem passado do meio-dia, haveria pouca gente lá e uma mesa de dois lugares estaria à minha disposição. Contudo, a única mesa vaga de dois lugares estava intensamente iluminada pelo Sol. Resolvi então ocupar uma mesa de quatro lugares e deixar que os possíveis incomodados dividissem a mesa comigo (evento improvável em Curitiba) ou se dirigissem ao primeiro andar. Minutos depois um senhor solitário se aproximou, segurando seu prato, com uns óculos de Sol na testa. Olhou para a mesa ensolarada, olhou para mim e perguntou se podia dividir a mesa comigo. Antes de se sentar, ele colocou os óculos sobre a mesa, olhou um instante para eles e disse, mais para si mesmo do que para mim: "Não é boa ideia, pois posso esquecê-los". A seguir, pendurou os óculos na camisa. Eu sorri e disse: "Boa ideia!"

Após alguns minutos de silêncio resolvi perguntar se ele era curitibano. Ele respondeu que não e acrescentou: "Aposto que você também não é!" Eu perguntei por que ele pensava isso e ele respondeu: "Ora, porque você riu quando eu me sentei", disse ele. Seguiram-se alguns minutos interessantes de uma conversa sobre curitibanos, curitibanices, os problemas enfrentados por brasileiros de outros lugares que resolvem se instalar em Curitiba e também sobre outros assuntos.

Dias depois, talvez em um feriado emendado, eu e minha mulher fomos almoçar no Shopping Barigui. Ao contrário do que pensávamos, a Praça de Alimentação estava fervendo de gente. Ela ficou então responsável por comprar a comida e eu por achar uma mesa vaga. Após apenas alguns instantes de pesquisa visual, percebi alguém almoçando sozinho em uma mesa de quatro lugares, sacudindo com alguma ênfase a mão direita para mim. Olhei para os lados e um pouco para trás, pois talvez ele estivesse acenando para outra pessoa. Não estava. Aproximei-me dele, tendo quase certeza de que era um antigo conhecido ou um ex-aluno. Não era. Pedi licença para me sentar e ele disse algo como: "Casa cheia hoje, hein?", dando a entender que havia percebido minha situação e estava fazendo uma cortesia. Após alguns minutos resolvi perguntar se ele era curitibano. Não era, mas sim um paulista recém-instalado em Curitiba.

Então chegou o segundo semestre e precisei fazer um curso toda sexta-feira de manhã, na UTFPR. Por razões de logística, resolvi almoçar todos esses dias no restaurante japonês do Shopping Estação. Por causa do horário em que eu chegava, pouco depois do meio-dia, ao menos uma daquelas mesas circulares de quatro lugares estava desocupada, permitindo que eu me instalasse confortavelmente. Minutos depois o movimento se intensificava e aumentava o número de pessoas com bandejas nas mãos e olhar perdido, pelo menos nas imediações do restaurante japonês. Frequentemente aconteceu de algumas pessoas, não querendo procurar uma mesa vaga, pedirem para dividir a mesa comigo. Sempre que isso aconteceu, resolvi perguntar se a pessoa era curitibana (descobri também que essa é uma ótima forma de iniciar uma conversa com um desconhecido, pelo menos naquela situação). E, com uma única exceção, todas as pessoas que pediram para dividir a mesa comigo eram de fora de Curitiba. A exceção foi uma mulher, provavelmente perto dos 60, tão fechada e calada que não tenho ideia de como teve "coragem" de pedir para dividir a mesa comigo. Desconfio que ela seja curitibana, mas não encontrei maneira de confirmar.

Há muitas teorias para explicar esse caráter "fechado" dos curitibanos. Uma delas coloca a culpa no sotaque e na forma mais "seca" desse povo usar o português. Para identificar um curitibano, dizem, basta pedir que a pessoa fale a frase: "Me dá um copo de leite quente?". Se a frase soar como um sargento dando uma ordem, e não como um simples pedido, trata-se de um curitibano. Na verdade, falar "leite quente" já é suficiente, a ponto de Curitiba ser conhecida como "a terra do leite quente".

O problema com a teoria do sotaque, que não colocaria o interlocutor tão à vontade quanto ao falar com um carioca ou com um mineiro, é a relação de causa e efeito. Afinal, os curitibanos são fechados por causa do sotaque ou o sotaque se desenvolveu ao longo das décadas justamente como reflexo desse caráter mais fechado?

Outra teoria coloca a culpa no frio e na chuva. Gente que tem de ficar enfurnada em casa por causa do tempo tende a ser mais fechada e menos sociável, dizem. Isso me lembra de um show do Lulu Santos, em pleno inverno de 2010 ou 2011, no Teatro Positivo. Depois de uma hora de apresentação, em um teatro completamente lotado (ou tão lotado quanto permite aquele ambiente absurdamente mal projetado), as pessoas continuavam sentadas, enroladas em seus casacos e cachecóis, olhando umas para as outras, talvez se perguntando se era permitido levantar e dançar. Então alguém tomou a iniciativa e os outros foram atrás. Depois de algumas músicas com as pessoas em pé, Lulu agradeceu, acrescentando que não era verdade o que diziam sobre os curitibanos serem fechados, pois na verdade esse povo era mais entusiasmado do que os povos de muitos outros lugares do Brasil. Enquanto as pessoas aplaudiam eu me lembrava daquela frase: "Vossas afirmações, meu caro, parecem-me excessivas."

O problema da teoria do frio é que não faz frio só em Curitiba, mas em todos os lugares ao Sul daqui. E, quando penso nos gaúchos e em suas rodas de chimarrão, não é a imagem de um povo pouco sociável que me vem à mente.

É verdade que minha experiência em mesas de Shopping Centers nada tem de científica. A amostragem foi pequena e minhas conclusões dizem respeito apenas a como os "não curitibanos" se comportam, não exatamente a como os curitibanos se comportam. Houve apenas uma exceção comprovada. Em dada sexta-feira, talvez já perto do Natal, todas as mesas perto do restaurante japonês estavam tomadas, muitas delas por uma só pessoa. Depois de olhar brevemente em volta e sem pensar muito, saí andando com minha bandeja até encontrar uma mesa completamente vaga do outro lado da Praça de Alimentação. Afinal, também sou curitibano!

2 comentários:

  1. E como é a fama de (des)cordialidade do restantes dos paranaenes?

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Quanto ao restante, nada posso dizer...:o)
    [ ]s
    Alvaro

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