segunda-feira, outubro 13, 2008

Nobel de Economia vai para Paul Krugman

Segunda-feira atípica, ao menos pelos padrões recentes: bolsas em alta, dólar em baixa. Para completar, Paul Krugman, um economista pós-keynesiano muito conhecido, acaba de ganhar o Prêmio de Ciências Econômicas em Homenagem a Alfred Nobel, mais conhecido (incorretamente) como "Nobel de Economia". Krugman tem várias idéias interessantes, embora seja um crítico do liberalismo, em geral, e dos mercados de energia elétrica, em particular. Um exemplo recente do pensamento krugmaniano pode ser visto em http://www.youtube.com/watch?v=4XhvG_fD0HA.

terça-feira, setembro 30, 2008

Palestra do professor Belmiro Wolski

Quem estiver em Curitiba amanhã, não perca a palestra do professor Belmiro Wolski: "Do Micro ao Macrocosmo (para leigos)". Data: 01/10/2008, às 19h30, no miniauditório da UTFPR. Mais detalhes em http://www.daelt.sh06.com/downloads/Palestra_Belmiro.pdf .

quinta-feira, setembro 25, 2008

Sugestões sobre como votar nas próximas eleições

Estamos a pouco mais de uma semana das eleições do próximo 5 de outubro, nas quais serão escolhidos prefeitos e vereadores, e muitos eleitores ainda não decidiram em quem votar. Ao longo dos anos, e depois de ter participado de várias eleições (sempre na condição de eleitor), acabei por desenvolver seis princípios-guia, quatro deles baseados na filosofia de Karl Popper, válidos para a votação em qualquer tipo de eleição.

Sir Karl R. Popper (1902 – 1994), filósofo austríaco, autor de “A sociedade aberta e seus inimigos”, tinha uma concepção bastante útil e clara acerca da democracia. Ele dizia que a “democracia é aquele tipo de governo que pode ser removido sem o uso da violência” (citado por Maurice William Cranston, em Freedom: A New Analysis, 1954, p. 112). Simples assim. Nada de “o governo do povo, pelo povo, para o povo”, nada de concepções metafísicas ou quase religiosas do processo democrático. A democracia, na concepção de Popper, é simplesmente aquele sistema que impede que os maus governantes se perpetuem no poder, embora não garanta que escolher bons governantes seja fácil.

A estratégia de qualquer político, no frigir dos ovos, seja no Brasil, no Iraque ou nos Estados Unidos, é permanecer o maior tempo possível no poder. Quando chega ao poder executivo, em particular, todo político deseja recriar uma versão aparentemente democrática daquele sistema que a democracia veio justamente a substituir: a monarquia hereditária. Os seis princípios a seguir podem ajudar a evitar que isso aconteça. Eles não dizem em quem votar, mas apenas em quem não votar.

1. Pense muito bem antes de reeleger um político. A reeleição é permitida no Brasil e em vários outros países e cabe a cada eleitor decidir se votará por mais de uma vez em um candidato. Todavia, o processo não pode ser banalizado, pois permitir a reeleição não significa torná-la obrigatória. Um político, sabendo que poderá vir a ser reeleito, passará pelo menos metade do primeiro mandato se preparando para a reeleição, gastando seu (nosso) precioso tempo nos palanques e não nos escritórios e salas de reunião. Além disso, se um único mandato é pouco para que se possa cumprir todo o plano de governo (essa é a alegação mais comum por parte dos governantes eleitos), mais de um mandato é exagero e aumenta o risco de que o político e sua equipe criem raízes muito profundas no poder.

2. Não vote em dinastias. A formação de dinastias de políticos, comuns em tantos estados brasileiros, é aquilo que mais se aproxima da monarquia hereditária. Se a reeleição permite a criação de raízes profundas, dificultando a remoção do governo quando necessário, as dinastias de governantes tornam tais raízes ainda mais profundas e extensas. Ocorre que, mesmo que o fundador da dinastia tenha conquistado o poder por méritos próprios e trabalho duro, seus descendentes serão geralmente políticos profissionais, que nasceram e se criaram em meio à classe política e não exerceram qualquer outra atividade produtiva na vida.

3. Não vote em extremistas. Extremistas de todos os tipos, à direita ou à esquerda, uma vez eleitos, dificilmente aceitarão deixar o poder de maneira democrática. Portanto, candidatos oriundos de movimentos extremistas devem ser evitados, pois estão geralmente contaminados por ideologias arcaicas, ultrapassadas e antidemocráticas. Candidatos que pregam mudanças revolucionárias também devem ser evitados, pois a história nos lembra que os principais beneficiários de revoluções, sangrentas ou não, são somente aqueles que se apoderaram do poder, frequentemente outorgando leis que dificultam a posterior extirpação das raízes (vide o caso da Venezuela).

4. Não vote em corruptos. Esse item parece lugar comum nos dias atuais, mas é bom lembrar que pesquisas indicam que um número surpreendente de brasileiros não se importam com a corrupção de seus governantes. O lema “rouba, mas faz” é ainda muito forte entre nós. Mas, além de drenar recursos públicos, a corrupção amplia ainda mais a extensão das raízes fincadas no poder. Afinal, o político corrupto sabe que esqueletos no armário e negociatas devem ser protegidos do conhecimento da oposição, o que só somente aumenta o desejo de perpetuação no poder.

5. Vote apenas em candidatos com nível superior. Esse princípio-guia não é popperiano e não sei se Popper concordaria com ele (Platão certamente concordaria). Nos dias atuais, propor que não se vote em um candidato sem educação superior pode ser visto como elitista e preconceituoso. Entretanto, é curioso notar que é necessário ter formação superior para realizar uma cirurgia, construir uma ponte, dar aulas ou defender um réu, mas não para governar uma cidade, um estado ou um país. Se o diploma superior não garante o sucesso do governante, pelo menos facilita o sucesso ao garantir uma visão de mundo um pouco mais ampla, resultante da leitura de pelo menos uns poucos livros e de reflexões e discussões orientadas e sistemáticas.

6. Aplique os princípios acima também para candidatos a vice e suplente. Em anos recentes o Brasil teve a infelicidade de ser governado duas vezes por vice-presidentes: uma vez quando o candidato eleito morreu antes da posse, outra quando o candidato empossado foi sutilmente convidado a deixar o poder. E, apesar do nosso histórico recente, no Brasil ninguém parece se importar com candidatos a vice e suplente. Pelo bem da democracia e de modo a evitarmos a perpetuação de maus governantes e legisladores, seria interessante que começássemos a fazê-lo.

Os princípios acima podem parecer um pouco ingênuos, mas, afinal, o que é a democracia senão uma maneira ingênua (ou seja, não planejada, não segura) de escolher nossos governantes e representantes? E, mesmo sabendo das deficiências da democracia, esse sistema é ainda muito superior e preferível ao “outro sistema”, o qual, como nos lembra Popper, é a tirania.

Alguém pode também argumentar que, se os princípios acima forem aplicados às eleições para prefeito das cidades brasileiras, em muitos casos não sobrará candidato algum em quem se votar. Nessa situação, o voto em branco é uma opção válida e servirá como sinalizador de que os eleitores estão descontentes com as candidaturas propostas.
No caso das eleições para vereadores, podemos pensar que não vale a pensa perder tempo com tanta análise. Afinal, 90% do que se passa nas câmaras municipais brasileiras é, ou totalmente dispensável, ou passível de ser executado por voluntários não pagos ou assembléias de moradores. Contudo, é bom lembrar que o desejo de qualquer vereador, de qualquer cidadezinha brasileira, é na verdade chegar à presidência da República. Assim, é bom cortar as asas dos candidatos a tirano enquanto ainda é tempo.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Discurso de formatura - 14/08/2008

No último dia 14 tive novamente a satisfação de ser escolhido como paraninfo da turma de formandos do curso de Engenharia Industrial Elétrica, ênfase Eletrotécnica, da UTFPR. Segue abaixo o discurso proferido.
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Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Paulo Osmar Dias Barbosa, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos engenheiros e engenheiras recém-formados.

É uma grande honra e uma grande satisfação ser escolhido como paraninfo da turma de vocês, especialmente sabendo que os candidatos são tantos e tão ilustres. O lado bom disso é saber que eu devo estar fazendo algo de certo. O lado ruim é que eu não tenho idéia do que seja.

Mas para vocês também há um lado bom e um lado ruim nisso. O lado ruim é terem que agüentar essa última aula. O lado bom é que ela dura bem menos de 50 minutos. E, se vocês me desculparem, nesses poucos minutos eu vou falar sobre um único assunto do qual ninguém e nem eu sabe nada: o futuro.

O futuro, essa terra desconhecida, essa terra a ser desbravada.A primeira lição sobre o futuro é a imprevisibilidade. Na vida de uma pessoa, e também em várias situações físicas, o número de variáveis a considerar é tão grande e essas variáveis são tão sensíveis que em geral qualquer previsão é impossível.

Embora os exemplos disso estejam espalhados pelos jornais do mundo todo, se vocês me permitem, eu vou cometer a impertinência de contar um pequeno exemplo pessoal dessa imprevisibilidade.

Quando eu me formei, um dos meus sonhos profissionais era me tornar professor de eletromagnetismo. Bem, cada louco com sua mania. Dois anos após a formatura, finalmente o antigo CEFET-PR abriu um concurso público para o cargo que eu queria.

Contudo, aquele foi um concurso um pouco diferente. Em vez de valer somente para eletromagnetismo, ele valia também para máquinas elétricas e assim havia doze pontos a se estudar: seis de eletromagnetismo, seis de máquinas elétricas. Como eu achava que entendia também de máquinas elétricas, fiz a inscrição. Mas hoje sei que não sabia de nada.

No dia da prova escrita, o chefe da banca, que era o professor Patrício, sorteou um dos doze pontos e lá estava ele: fluxo elétrico, um assunto de eletromagnetismo. Passei na prova escrita e me classifiquei para a prova didática.

No dia do sorteio do ponto para a prova didática, dei sorte de novo. O ponto sorteado foi indutância e lei de Faraday, outro assunto de eletromagnetismo. Resultado: fiquei em segundo lugar, com o professor Colla em primeiro, que foi contratado imediatamente. Eu, por outro lado, deveria aguardar até que uma segunda vaga fosse aberta.

Vocês podem achar que foi uma tremenda sorte que os dois assuntos sorteados tenham sido exatamente aqueles que eu dominava. E foi sorte mesmo. Mas, por outro lado, eu havia feito outro concurso público antes, para o Departamento de Física, e no qual fui reprovado de maneira retumbante. Foi assim que descobri a primeira lei da vida: “é preciso continuar tentando, e tentar de várias maneiras diferentes, até que a sorte apareça”.

Um ou dois meses depois, recebi um telefonema do professor Joaquim, avisando que havia uma vaga para professor de Conversão II, uma disciplina que trata de máquinas elétricas.

Então, perguntei: “Quando devo dar a primeira aula?”. E o professor Joaquim respondeu: “Amanhã!”

E eu devo ter perguntado: “dá para tomar uma Kaiser antes?”

Bem, por causa da urgência, pedi uma folga na empresa onde eu trabalhava na época e passei um dia inteiro me preparando para a aula. E naquela noite devo ter dado a pior aula de máquinas elétricas de todos os tempos e lugares! Caso vocês não acreditem, perguntem para o professor Walenia, que está aqui ao lado e foi uma das vítimas da época.

Quatro ou cinco anos depois, finalmente consegui assumir duas turmas de Eletromagnetismo, abandonando Conversão 2. Aparentemente, meu sonho na UTFPR estava se realizando. Mas só aparentemente.

Um ou dois anos depois aconteceu uma coisa estranha. Eu havia passado muito tempo perturbando cada coordenador de curso que entrava, insistindo que eu deveria lecionar somente Eletromagnetismo, que aquilo era minha vida, que eu havia me preparado muito, etc. Mas, quando isso finalmente aconteceu, passei a sentir falta de Conversão 2.

Eu simplesmente não havia previsto essa parte. Foi daí que descobri a segunda lei da vida: “quando você passar a fazer apenas aquilo de que gosta, você passará a gostar de outra coisa”.

E hoje, mesmo tendo que apagar incêndios ocasionais em outras disciplinas, eu sou basicamente um feliz professor de máquinas elétricas.

Assim, o futuro só é previsível nos filmes de Hollywood e nos livros de auto-ajuda. Na vida real, não adianta tentar prevê-lo. John Lennon deixou isso claro em uma canção de 1980, na qual ele escreveu um verso que pode ser entendido como a terceira lei da vida: “a vida é aquilo que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”.

Esse verso se tornou tragicamente verdadeiro poucos meses após sua publicação, quando Lennon foi covardemente assassinado.

Se o futuro é imprevisível, o melhor que podemos fazer é desenvolver cenários mentais de vários futuros possíveis, e nos prepararmos da melhor maneira para cada um deles. Isso vale para vocês, que estão iniciando a vida profissional, e também para nós, que continuamos com a missão de preparar os engenheiros do futuro.

No que diz respeito aos engenheiros do futuro, embora o futuro em geral seja imprevisível, vou arriscar uma previsão das linhas gerais de um evento que vai ocorrer daqui a pouco menos de cinco anos.

Escrevam aí: no dia 18 de fevereiro de 2013, na primeira segunda-feira após o carnaval, a UTFPR vai receber um aluno muito especial. Eu não sei quem será ele. Não sei se será torcedor do Atlético ou do Coxa, os únicos dois times da capital que existirão nessa época. Talvez esse aluno já esteja até mesmo nesse auditório. Mas eu sei que no primeiro semestre de 2013 nós iremos receber esse aluno especial, o primeiro a ter nascido quando a internet já existia.

Esse aluno saberá mais sobre computação e internet do que qualquer um de seus professores. Ele estará mais acostumado a resolver problemas por meio de simulação computacional do que por meio de cálculos analíticos.

Para ele, coisas como Google, Orkut e YouTube parecerão ter sempre existido. Para ele, e-mail será “coisa de velho” e ele se comunicará muito mais via programas de mensagem instantânea, como MSN e Skype, ou por meio de redes sociais online, como o Orkut.

Esse aluno, uma vez formado, irá trabalhar em áreas que hoje nem mesmo existem.

Esse futuro é fácil de ser previsto, pois, se ele é o futuro de um calouro ou caloura do ano 2013, ele hoje é o presente de um adolescente de 12 ou 13 anos. E é assim que são os adolescentes de hoje em dia: digitais.

A não ser que aconteça uma catástrofe mundial, esse cenário de uma universidade composta quase totalmente por alunos digitais, que já nasceram globalizados, parece bastante provável. E temos pouco menos de cinco anos para responder a pergunta: o que iremos fazer com eles?

A principal mudança, que já começa a acontecer, será a de que o professor não poderá mais agir como se fosse o único dono do conhecimento. De fato, o conhecimento hoje não é mais propriedade de um pequeno número de iniciados, mas pode ser acessado por qualquer um que tenha uma conexão com a internet.

Um tipo de professor em particular está com os dias contados: aquele que não consegue avaliar seus alunos a não ser por meio da indução ao erro. Esse professor é como o Paraná Clube: já morreu, mas ainda não sabe disso.

Em vez de ser um mero retransmissor de conhecimentos, o professor deverá passar a ser um orientador, um facilitador, um coach. Em vez de ser visto como um disciplinador severo, ele deverá passar a ser visto como um “primus inter pares”, o primeiro entre iguais.

Esse professor-coach deverá se comportar como um técnico de futebol, de vôlei ou de outro esporte coletivo. Ele deverá se comprometer com a equipe e se conscientizar de que o sucesso de seus alunos é o sucesso dele também, e que o fracasso de seus alunos é o fracasso dele também. Ele deverá torcer pelo sucesso de seus alunos, antes e depois da formatura, mas sem tratá-los como prima donas. E ele jamais dirá “pede pra sair!”

É claro que existem várias formas de se medir e definir o sucesso. Sucesso financeiro é importante e nós gostamos dessa definição porque ela é preto no branco. Muitos de vocês terão grande sucesso financeiro. Alguns irão abandonar a área de engenharia por causa disso, mas não se preocupem. O que importa é que qualquer coisa que vocês possam vir a fazer ficará mais fácil de ser feita com esse diploma em mãos, do que sem ele.

Mas sucesso de verdade não é só financeiro. Sucesso de verdade é deixar uma contribuição. De vez em quando o sucesso é até mesmo muito sutil. Por exemplo, o professor Darcy Ribeiro, que foi antropólogo, escritor, Ministro da Educação, criador da Universidade de Brasília, membro da Academia Brasileira de Letras, certa vez disse:

“Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer o Brasil se desenvolver autonomamente e fracassei. Mas os meus fracassos são as minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar daqueles que me venceram.”

Finalizando, meu maior desejo não é só que vocês se tornem pessoas de sucesso, mas também pessoas de valor, e que sejam capazes de deixar uma contribuição. Mas, se vocês tiverem que fracassar da maneira que fracassou o professor Darcy Ribeiro, então vocês podem ter certeza de que terão sido um grande sucesso.

Obrigado pela atenção e pela paciência. Vida longa e próspera!

quarta-feira, julho 23, 2008

"A Arte de Ensinar", de Jay Parini

Jay Parini é um professor e escritor norte-americano, nascido em Scranton, na Pensilvânia. Após uma passagem de sete anos por Dartmouth, ele se estabeleceu como professor de Língua Inglesa no Middlebury College, em Vermont, Estados Unidos, vindo a escrever cinco livros de poesia, seis romances e três biografias. Após 30 anos dedicados ao ensino universitário, Parini decidiu escrever um pouco sobre essa nobre arte, produzindo “A Arte de Ensinar”, um livro leve e sem o menor toque daquele ranço pedagógico das obras usuais sobre o assunto.

“A Arte de Ensinar” não é um livro de dicas sobre ensino, aproximando-se muito mais de uma autobiografia intelectual. Parini discorre sobre aspectos do relacionamento com os estudantes, sobre o comportamento em sala de aula e fora dela e até mesmo sobre a maneira de um professor se vestir ou se comportar quando surgem questões excessivamente pessoais. Nada de regras, nada de conselhos. Parini assume posições absolutas apenas quando se posiciona contra os sistemas de ensino baseados em provas rígidas e contra os “jogos de poder”, freqüentes entre professores e alunos, mas os quais ele julga antieducacionais. Ele também se posiciona definitivamente contra os critérios de efetivação (“tenure”) atualmente em voga nas universidades norte-americanas e em boa parte do mundo, baseados no famoso adágio “publish or perish”. Esse último aspecto, contudo, não afeta muito os professores universitários brasileiros.

Segundo Parini, a viagem essencial na profissão de professor é a do autoconhecimento. “Não há nada natural sobre ensinar”, diz ele, concluindo que a naturalidade em sala de aula é na verdade o produto de uma prática sem fim. Ele também sustenta que o professor é um ator que deve experimentar diversas máscaras durante a vida, nunca cessando de se aperfeiçoar.

O termo “máscara” (ou “persona”), aqui, não tem o tom negativo atual, mas tem muito mais a ver com as máscaras envergadas pelos atores do teatro romano antigo, através das quais as vozes dos atores soavam (per+sona). Um professor deve assim experimentar várias personas ao longo da vida profissional, descartando aquelas que não se adaptam e adotando aquelas que mostram melhor resultado. Esse fenômeno, explicitado com maestria por Parini, é na verdade conhecido por todo bom professor, que já ouviu frases como “Uau, como você fica diferente em sala de aula!”, ou “Você se revela ao entrar em sala, hein?”.

O melhor desse livro sobre ensino, escrito por um poeta e romancista, é a sinceridade que escorre por todas as páginas. Por exemplo, eu jamais havia lido ou ouvido descrição melhor da prática de ensino do que aquela que Parini faz na página 90:

“Poucos fora da profissão de ensinar entendem a coragem necessária para entrar em uma sala de aula, usar uma máscara que você sabe ser uma construção, escondendo-se por trás dela, deixando-a dar forma e substância às suas formulações, deixando a máscara tornar-se a sua face. Requer uma certa bravura, mesmo uma certa selvageria, deixar que os alunos o vejam em tal estado, à mercê de um texto ou idéia imperfeita, tentando formular uma resposta para o texto, dar corpo à idéia em uma linguagem que uma faixa diversificada de alunos possa assimilar. Eu sempre me sinto um pouco assustado quando saio do meu escritório e começo a longa caminhada para a sala de aula, meus braços sobrecarregados de anotações e textos, minha cabeça abarrotada de idéias as quais não tive tempo de formular adequadamente. Fico me indagando que diabo acontecerá quando a aula começar. Vou conseguir fazer sentido? Os alunos vão reagir adequadamente? Vou parecer e soar como um idiota? Estou bem barbeado? Minha braguilha está aberta? Conseguirei passar esses 50 ou 60 minutos sem me sentir um completo imbecil?"

Imagino que essas perguntas tenham ocorrido a um grande número de professores, em todos os tempos e lugares. Imagino também que muitos se protejam delas, ou das respostas a elas associadas, construindo em torno de si uma couraça impenetrável de sabedoria e poder. Isso pode ser um erro. Afinal, adverte Parini, a noção do professor ideal deve ser a de um primus inter pares. Em outras palavras, o professor é o principal aluno, alguém que está sempre aprendendo, sempre se aperfeiçoando, sempre evoluindo.

E esse é um dos principais atrativos dessa profissão exibicionista que atrai tanta gente tímida: é sempre possível fazer melhor na próxima vez, no próximo semestre, no proximo ano. Talvez não exista outra profissão que guarde dentro de si tamanha dose de esperança de que as coisas possam vir a ser melhores.