quarta-feira, dezembro 28, 2011

“Crônicas e outras bobagens”, de Belmiro Wolski

Belmiro Wolski é Engenheiro Eletricista, formado pelo CEFET-PR (atual UTFPR) em 1983 e professor dessa mesma instituição desde 1980. Ele também é Licenciado em Pedagogia, Especialista em Acionamentos Industriais, Auditor da Qualidade e, como ele nunca se esquece de mencionar, Técnico em Eletrotécnica. Mesmo já sendo autor de quatro livros técnicos nas áreas de Eletricidade, Eletromagnetismo e Medidas Elétricas, nenhuma dessas credenciais provavelmente poderiam antecipar o livro que ele agora nos apresenta: uma coletânea de 80 crônicas sobre vários assuntos, muitas delas com menos de duas páginas.

Os assuntos prediletos e a vivência do Belmiro são fartamente abordados nessas crônicas: a vida no campo, a vida de professor, a vida de pai, a implicância, nem sempre rigorosamente justificada, com palavras da língua portuguesa, o gosto por essa difícil disciplina que é a Física. Algumas crônicas são claramente autobiográficas, outras totalmente ficcionais. Algumas  descrevem as peripécias de insetos, aracnídeos, galináceos e outros bichos, enquanto outras falam sobre pessoas ou se passam em universos paralelos. Algumas histórias acabam suavemente, enquanto outras são rapidamente definidas na frase final. A maior parte das crônicas pode ser rapidamente entendida por qualquer leitor, mas as crônicas sobre física exigirão do leitor médio um pouco mais de atenção e, talvez, alguma consulta ao Google.

Não sou um grande leitor de crônicas, por mera falta de hábito, e provavelmente não estou totalmente qualificado a analisá-las (ainda mais quando o autor é um amigo!). Mesmo assim, arrisco que uma grande marca do livro é a capacidade do autor de escrever uma história completa em um espaço no qual a maioria das pessoas só conseguiria escrever uma introdução ao assunto. Outra marca é aquilo que poderíamos denominar "ironia wolskiana". De fato, quem conhece o Belmiro talvez pare a cada meia dúzia de páginas e diga: "Êta, esse é mesmo o Belmiro!". Quem não o conhece, vale a oportunidade.

terça-feira, dezembro 20, 2011

Cachorrinhos espancados e a falácia do espantalho

No último 14 de dezembro um vídeo foi publicado no YouTube, no qual uma moradora de Formosa (GO) espanca até a morte um cãozinho da raça Yorkshire, com auxílio de um balde. O vídeo teria sido filmado por uma vizinha da agressora e o ato teria sido presenciado pela filha desta.

Não assisti o vídeo e não sei se o assistirei. O processo judicial aberto contra a agressora, contudo, não deixa dúvidas de que o crime realmente ocorreu.

Algum tempo depois da avalanche de mensagens indignadas nas redes sociais, começou a aparecer, ao menos no facebook, um novo tipo de mensagem, que, apesar das suas várias versões, consistia basicamente de um único argumento: "enquanto você perdia tempo postando mensagens sobre cachorros espancados, muita coisa mais importante acontecia no Brasil e no mundo".

Tentar buscar racionalidade em redes sociais, em particular, e no ser humano, em geral, é quase uma perda de tempo, mas não custa lembrar que o argumento acima é altamente falacioso.

A falácia em questão, abundante no facebook, pelo que tenho visto, e certamente muito característica da maneira humana de pensar, é denominada falácia do espantalho. O "espantalho", aqui, não é um daqueles bonecos usados para espantar pássaros em plantações, mas um daqueles bonecos usados em treinamento de combate. O boneco representa o inimigo, mas é obviamente mais fácil de atacar (além de ser geralmente muito difícil conseguir voluntários vivos para serem esfaqueados e receberem tiros de soldados em treinamento).

A falácia do espantalho consiste, portanto, em caricaturizar um argumento com o objetivo de tornar mais fácil o ataque.

No caso presente, atacar os defensores dos animais, todos eles indignados e pedindo pena máxima à agressora do Yorkshire, bem como apoiar a agressora, seria muito difícil, pois mostraria uma falta de compaixão mal vista no mundo atual. Em vez de fazer isso, algumas pessoas optaram por caricaturizar a agressão ao cachorro, tentando ridicularizá-la frente a acontecimentos supostamente mais importantes.

Mas, como dizem, "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa".

Sim, vereadores e deputados aumentando seus próprios salários em ano de crise econômica internacional são acontecimentos importantes, que merecem nossa atenção e indignação.

Sim, marginais que espancam e incendeiam moradores de rua merecem da mesma forma nossa indignação.

E, sim, o aumento da violência urbana é alarmante e merece toda nossa atenção.

Todavia, algo me diz que todos esses acontecimentos, incluindo o caso do Yorkshire, são apenas reflexos da mesma deficiência de formação do povo brasileiro. Afinal, em que país razoavelmente desenvolvido e civilizado um cachorro, e um dos menores cachorros existentes, seria espancado até à morte, frente às câmeras, sem causar algum tipo de indignação?

Precisamos aprender a separar fatos e argumentos e analisá-los corretamente, sob o risco de continuarmos a merecer os governantes que temos tido. Se é que as pessoas que deram um "compartilhar" no comentário falacioso estavam realmente interessadas no bem do país e não apenas em fazer uma gracinha frente a seus amigos.