domingo, abril 29, 2012

Leilão de camisa autografada do Flamengo

Pessoal, uma amiga e colaboradora da Electra Power, a Sharon, está com um problema de saúde na família: o pai dela está com câncer. De modo a levantar recursos para o tratamento, a família está leiloando uma camisa do Flamengo autografada por vários jogadores dos anos 80, como Zico, Zezé, Popéia, Carpegiane, Andrade, Leandro, Vitor, Ronaldo e outros. Quem quiser dar seu lance, basta entrar na página da Sharon no facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002045533460. O leilão se encerra em 30 de maio e o lance mais recente está em R$ 350. Não podemos deixar uma camisas dessas ser vendida tão barato, além de que a família precisa de mais recursos para o tratamento.

Obs.: este leilão foi encerrado em 30 de maio de 2012.

sábado, abril 21, 2012

Nós, os curitibanos


Jardim Botânico de Curitiba
Em um dos vários dias do verão de 2011 fui almoçar no restaurante Pasteur, perto do Positivo do Batel. Resolvi ficar no térreo mesmo, apostando que, por causa do horário já bem passado do meio-dia, haveria pouca gente lá e uma mesa de dois lugares estaria à minha disposição. Contudo, a única mesa vaga de dois lugares estava intensamente iluminada pelo Sol. Resolvi então ocupar uma mesa de quatro lugares e deixar que os possíveis incomodados dividissem a mesa comigo (evento improvável em Curitiba) ou se dirigissem ao primeiro andar. Minutos depois um senhor solitário se aproximou, segurando seu prato, com uns óculos de Sol na testa. Olhou para a mesa ensolarada, olhou para mim e perguntou se podia dividir a mesa comigo. Antes de se sentar, ele colocou os óculos sobre a mesa, olhou um instante para eles e disse, mais para si mesmo do que para mim: "Não é boa ideia, pois posso esquecê-los". A seguir, pendurou os óculos na camisa. Eu sorri e disse: "Boa ideia!"

Após alguns minutos de silêncio resolvi perguntar se ele era curitibano. Ele respondeu que não e acrescentou: "Aposto que você também não é!" Eu perguntei por que ele pensava isso e ele respondeu: "Ora, porque você riu quando eu me sentei", disse ele. Seguiram-se alguns minutos interessantes de uma conversa sobre curitibanos, curitibanices, os problemas enfrentados por brasileiros de outros lugares que resolvem se instalar em Curitiba e também sobre outros assuntos.

Dias depois, talvez em um feriado emendado, eu e minha mulher fomos almoçar no Shopping Barigui. Ao contrário do que pensávamos, a Praça de Alimentação estava fervendo de gente. Ela ficou então responsável por comprar a comida e eu por achar uma mesa vaga. Após apenas alguns instantes de pesquisa visual, percebi alguém almoçando sozinho em uma mesa de quatro lugares, sacudindo com alguma ênfase a mão direita para mim. Olhei para os lados e um pouco para trás, pois talvez ele estivesse acenando para outra pessoa. Não estava. Aproximei-me dele, tendo quase certeza de que era um antigo conhecido ou um ex-aluno. Não era. Pedi licença para me sentar e ele disse algo como: "Casa cheia hoje, hein?", dando a entender que havia percebido minha situação e estava fazendo uma cortesia. Após alguns minutos resolvi perguntar se ele era curitibano. Não era, mas sim um paulista recém-instalado em Curitiba.

Então chegou o segundo semestre e precisei fazer um curso toda sexta-feira de manhã, na UTFPR. Por razões de logística, resolvi almoçar todos esses dias no restaurante japonês do Shopping Estação. Por causa do horário em que eu chegava, pouco depois do meio-dia, ao menos uma daquelas mesas circulares de quatro lugares estava desocupada, permitindo que eu me instalasse confortavelmente. Minutos depois o movimento se intensificava e aumentava o número de pessoas com bandejas nas mãos e olhar perdido, pelo menos nas imediações do restaurante japonês. Frequentemente aconteceu de algumas pessoas, não querendo procurar uma mesa vaga, pedirem para dividir a mesa comigo. Sempre que isso aconteceu, resolvi perguntar se a pessoa era curitibana (descobri também que essa é uma ótima forma de iniciar uma conversa com um desconhecido, pelo menos naquela situação). E, com uma única exceção, todas as pessoas que pediram para dividir a mesa comigo eram de fora de Curitiba. A exceção foi uma mulher, provavelmente perto dos 60, tão fechada e calada que não tenho ideia de como teve "coragem" de pedir para dividir a mesa comigo. Desconfio que ela seja curitibana, mas não encontrei maneira de confirmar.

Há muitas teorias para explicar esse caráter "fechado" dos curitibanos. Uma delas coloca a culpa no sotaque e na forma mais "seca" desse povo usar o português. Para identificar um curitibano, dizem, basta pedir que a pessoa fale a frase: "Me dá um copo de leite quente?". Se a frase soar como um sargento dando uma ordem, e não como um simples pedido, trata-se de um curitibano. Na verdade, falar "leite quente" já é suficiente, a ponto de Curitiba ser conhecida como "a terra do leite quente".

O problema com a teoria do sotaque, que não colocaria o interlocutor tão à vontade quanto ao falar com um carioca ou com um mineiro, é a relação de causa e efeito. Afinal, os curitibanos são fechados por causa do sotaque ou o sotaque se desenvolveu ao longo das décadas justamente como reflexo desse caráter mais fechado?

Outra teoria coloca a culpa no frio e na chuva. Gente que tem de ficar enfurnada em casa por causa do tempo tende a ser mais fechada e menos sociável, dizem. Isso me lembra de um show do Lulu Santos, em pleno inverno de 2010 ou 2011, no Teatro Positivo. Depois de uma hora de apresentação, em um teatro completamente lotado (ou tão lotado quanto permite aquele ambiente absurdamente mal projetado), as pessoas continuavam sentadas, enroladas em seus casacos e cachecóis, olhando umas para as outras, talvez se perguntando se era permitido levantar e dançar. Então alguém tomou a iniciativa e os outros foram atrás. Depois de algumas músicas com as pessoas em pé, Lulu agradeceu, acrescentando que não era verdade o que diziam sobre os curitibanos serem fechados, pois na verdade esse povo era mais entusiasmado do que os povos de muitos outros lugares do Brasil. Enquanto as pessoas aplaudiam eu me lembrava daquela frase: "Vossas afirmações, meu caro, parecem-me excessivas."

O problema da teoria do frio é que não faz frio só em Curitiba, mas em todos os lugares ao Sul daqui. E, quando penso nos gaúchos e em suas rodas de chimarrão, não é a imagem de um povo pouco sociável que me vem à mente.

É verdade que minha experiência em mesas de Shopping Centers nada tem de científica. A amostragem foi pequena e minhas conclusões dizem respeito apenas a como os "não curitibanos" se comportam, não exatamente a como os curitibanos se comportam. Houve apenas uma exceção comprovada. Em dada sexta-feira, talvez já perto do Natal, todas as mesas perto do restaurante japonês estavam tomadas, muitas delas por uma só pessoa. Depois de olhar brevemente em volta e sem pensar muito, saí andando com minha bandeja até encontrar uma mesa completamente vaga do outro lado da Praça de Alimentação. Afinal, também sou curitibano!

sexta-feira, abril 20, 2012

PLD da quarta semana de abril


A CCEE demorou para publicar o PLD da quarta semana de abril. Longe vão-se os tempos em que a publicação era feita logo após as 13h da sexta-feira! Apesar da elevação esperada por muitos agentes,  os PLDs semanais médios do SE/CO e do Sul sofreram reduções de 5,2% e 9,2%, respectivamente. Já os PLDs do Norte e do Nordeste se elevaram em 5,9%. Em consequência, os PLDs semanais médios de todos os submercados fecharam em R$ 191,60/MWh. Mais detalhes em http://bit.ly/bPskTA.

Supondo que os PLDs da quinta semana repitam os valores da quarta semana, os PLDs mensais médios de abril ficarão em R$ 192,95/MWh e R$ 195,99/MW para o SE/CO e Sul, respectivamente, e R$ 183,40/MWh para o Norte e Nordeste. Por outro lado, supondo que os PLDs da quinta semana se elevem 20% sobre os PLDs da quarta semana, os PLDs mensais médios de abril ficarão em R$ 196,78/MWh e R$ 199,82/MWh para o SE/CO e Sul, respectivamente, e R$ 187,23/MWh para o Norte e Nordeste. Interessante quando lembramos que o PLD de fevereiro ficou em R$ 50,67/MWh para o SE/CO e Sul e R$ 12,57/MWh para o Norte e Nordeste.


sexta-feira, abril 13, 2012

Discurso de formatura - 12 de abril de 2012

No dia 12 de abril tive novamente a satisfação de ser escolhido paraninfo das turmas de formandos de Engenharia Elétrica e Engenharia de Automação do campus Curitiba da UTFPR. Foram 51 alunos reunidos no Grande Auditório da Universidade Positivo. Parabéns novamente a todos!

***

Ilustríssimo senhor diretor do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professor doutor Marcos Flávio de Oliveira Schiefler Filho, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos Engenheiros e Engenheiras recém-formados.

É sempre uma satisfação e uma grande honra ser escolhido paraninfo de uma turma de formandos. Dessa vez a honra é até um pouco maior, pois, até onde sei, nunca houve uma turma de formandos tão grande no curso de Engenharia. Imagino como devem ter sido as reuniões da comissão de formatura!

Eu gostaria de falar rapidamente sobre três assuntos hoje. Começo prestando uma homenagem a alguns dos heróis dessa noite. É evidente que vocês, formandos, são os heróis dessa noite, mas isso é bastante obvio. Seus pais e familiares também são os heróis dessa noite, mas isso também é bastante óbvio. Mas, nesses 20 anos como professor da UTFPR eu já frequentei algumas formaturas e, até onde me lembro, nunca vi uma certa classe de profissionais ser homenageada aqui: os professores.

Mas não falo de nós, os professores. Falo daqueles que vieram antes de nós: os professores do Ensino Médio, do Ensino Fundamental e do Ensino Básico. Esses são outros dos verdadeiros heróis dessa noite.

Falo isso sem tentativa alguma de proselitismo, sem tentativa alguma de agradar pelo mero ato de agradar. Falo isso simplesmente porque é a mais pura verdade: os professores dos Ensinos Médio, Fundamental e Básico são poucas vezes lembrados em situações como a de hoje. E, se essa profissão já foi mais fácil, na época da palmatória, na época da autoridade absoluta do professor, hoje é uma das profissões mais estressantes que há, mesmo em escolas particulares. Só se exerce essa profissão pela paixão ou por não se conhecer muito bem o buraco em que se estava entrando.

E, no entanto, esses professores estão na base. Sem eles, não estaríamos aqui. São eles, juntamente com os pais, os responsáveis por aquilo que chamamos de Educação. À medida que o aluno vai crescendo, vai diminuindo a quantidade de Educação que ele pode receber, e vai aumentando a quantidade de Ensino. Nós, professores de Ensino Superior, somos muito mais responsáveis pelo Ensino do que pela Educação. De fato, se um aluno chega até nós "estragado", por assim dizer, pouco podemos fazer. Mas se um aluno chega até nós bem preparado, dizemos que ele é "excelente", lembrando apenas vagamente de todos os professores que contribuíram para isso.

Essa lembrança já foi mais fácil para nós, do DAELT, especialmente quando tínhamos o curso técnico em Eletrotécnica, o que significava termos ao nosso lado colegas que lecionavam para o Ensino Médio, embora em disciplinas técnicas. Mas hoje o DAELT tem apenas cursos superiores, o CEFET-PR transformou-se na UTFPR e ainda estamos tentando entender o que isso tudo significa.

Aqui aproveito para emendar no segundo assunto: o futuro do ensino da Engenharia. Ser Universidade não significa apenas estarmos mais distantes dos Ensinos Médio e Fundamental. Significa também que a maneira pela qual somos avaliados mudou. Relembrando rapidamente, nossa instituição nasceu no início do século passado, como Escola de Artífices e aos poucos fomos nos transformando: Liceu Industrial de Curitiba, Escola Técnica Federal de Curitiba, Escola Técnica Federal do Paraná e, no final dos anos 70, quando surgiram os primeiros cursos superiores, Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Mas toda essa mudança não alterou uma característica central da nossa instituição: a preparação de profissionais para o mercado.

A mudança para Universidade é um pouco mais drástica. Se antes éramos comparados apenas aos outros CEFETs, agora somos comparados a centenas de Universidades brasileiras, o que significa usar o mesmo critério de avaliação usado pelas Universidades brasileiras e, na verdade, por todas as Universidades do mundo: a necessidade de produção tecnológica e científica. Nesse mundo universitário a graduação não é valorizada diretamente, mas apenas na medida em que possa formar profissionais capazes de realizar pesquisas e publicar artigos.

Para nós, da UTFPR, isso acontecerá de uma forma quase natural, por um simples motivo: novos professores universitários, a não ser em casos muito particulares, devem ter doutorado.

Isso é um pouco estranho, pois vocês, que acabaram de se formar, podem ajudar a projetar uma subestação, uma usina hidrelétrica ou uma planta industrial, podem organizar sistemas de automação industrial, trabalhar em pesquisa tecnológica, na especificação e análise de sistemas, na supervisão da operação e na manutenção de sistemas e equipamentos, podem realizar estudos de viabilidade econômico-financeira de projetos, podem elaborar perícias, vistorias, avaliações, laudos e pareceres técnicos nas áreas de Engenharia Elétrica e de Automação, conforme o caso. Mas ainda não podem dar aulas de nenhum desses assuntos nos nossos cursos de Engenharia ou em curso algum de Engenharia. Para isso vocês precisarão de um doutorado em alguma área da Engenharia, coisa que deve demorar mais seis anos, no mínimo, supondo que vocês já tenham iniciado um mestrado.

Esse fenômeno é tão universal que tem até um nome: "viés acadêmico", ou seja, a tendência das instituições de ensino de aumentarem seus status por meio da adoção dos modelos das instituições de maior prestígio.

Em termos mais simples, daqui a 20 anos, talvez menos, quando todos os nossos professores menos graduados, que foram admitidos como assistentes em uma época na qual o doutorado não era obrigatório, tiverem se aposentado, nosso quadro de professores será formado quase somente por doutores, assim como acontece em Harvard, em Cambridge, assim como já acontece parcialmente na USP. Nós seremos menos CEFET-PR e mais Universidade, mas isso não poderá significar perder a identidade.

Obviamente, ter doutorado não é uma coisa ruim, e eu mesmo estou a caminho do meu, depois de vinte anos dividindo minha vida profissional entre o magistério e a atuação como engenheiro profissional. Mas tenho de confessar que me dá certa aflição saber que nosso curso de Engenharia Elétrica do futuro poderá ser menos orientado para a preparação de profissionais para o mercado e mais orientado para a pesquisa.

Meu último assunto é que talvez eu esteja enganado sobre essa questão. Talvez essa minha aflição seja "século XX demais". Primeiro, porque a integração entre empresas e Universidade, seja por meio de estágios, seja por meio de pesquisas colaborativas, pode servir como forma de apresentação daqueles conteúdos que não cabem em sala de aula. Segundo porque, afinal, o mundo da Engenharia hoje é tão vasto que não caberia nem mesmo em um curso de 15 anos de duração.

Talvez eu esteja confundindo "conhecimento", hoje fartamente disponível em qualquer tablet, com "sabedoria". E é a sabedoria que deve ser transmitida aos alunos pelos professores, sejam eles especialistas, mestres ou doutores.

É essa sabedoria a única coisa capaz de transformar um assustado jovem de 18 ou 19 anos em uma pessoa com "cabeça de Engenheiro".

E, quando penso que vocês, que estão se formando hoje, irão se aposentar lá pelo ano 2060, a única conclusão é que o conhecimento de base contido nessa "cabeça de Engenheiro" é mais importante do que qualquer outra coisa.

É esse conhecimento que permitirá a jovens recém-formados, como vocês, adaptarem-se a qualquer situação que possam vir a enfrentar, seja no mundo acadêmico, seja no mundo do mercado. E, mais importante do que se adaptar, criar novas situações.

A receita daqui para frente não é muito diferente daquela que vocês usaram para chegar até aqui: é preciso ter inteligência, é preciso ter intuição, mas, acima de tudo, é preciso ter raça.

É como diz a canção de Milton Nascimento: "é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre".

***

Que a gana, a raça e a força com vocês estejam. Obrigado por tudo. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

Discurso de formatura - 15 de março de 2012

No dia 15 de março tive a honra de ser convidado como paraninfo dos formandos de todas as turmas de Engenharia da UTFPR, campus Curitiba (Eletrônica, Elétrica, Automação, Construção Civil e Mecânica). Uma situação totalmente nova e inusitada, que reuniu no Auditório da UTFPR aqueles formandos que não quiseram participar dos eventos que seriam organizadas pelas respectivas comissões de formatura um mês depois. Segue-se o discurso.

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Ilustríssima senhora Diretora de Graduação  e Educação profissional do campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, professora doutora Denise Rauta Buiar, demais autoridades já nomeadas, queridos pais, familiares e amigos, prezadas senhoras, prezados senhores, caríssimos Engenheiros e Engenheiras recém-formados.

É sempre uma satisfação e uma grande honra ser escolhido paraninfo de uma turma de formandos. Dessa vez foi também uma grande surpresa, pois tenho a missão de discursar para os alunos de todos os cursos de Engenharia do Campus Curitiba. Espero estar à altura.

Quando me deparo com tantas especialidades da Engenharia, sempre me lembro de uma piadinha, meio de humor negro, de um amigo meu, Engenheiro Civil. Ele diz que não é preciso tanta confusão, pois afinal só existem duas Engenharias: a Engenharia Militar, que constrói as armas, e a Engenharia Civil, que constrói os alvos...

Falando um pouco mais a sério, o que separa uma Engenharia da outra é apenas a frequência de operação. Na Eletrônica a frequência é a maior possível, na faixa dos kHz, MHz, GHz. Na Eletrotécnica a frequência é padronizada: 60 Hz, com alguns harmônicos para lá e para cá. Na Mecânica, embora se meçam mais velocidades do que frequências, os fenômenos não parecem ocorrer com frequências superiores a algumas centenas de Hertz. E, na Engenharia Civil, a frequência ideal é zero. Se alguma coisa deve oscilar, que seja bem devagar! E finalmente temos a Engenharia de Automação, que foge um pouco a essa divisão. Afinal, a Automação é uma espécie de mutante transmorfo, composto por uma mistura de Eletrônica, Mecânica e Eletrotécnica, e opera em várias frequências diferentes.

Mas, se as Engenharias têm muitas diferenças entre si, os estudantes de Engenharia têm muito em comum, especialmente no início e no fim do curso. No início todos vocês estavam se batendo com as mesmas disciplinas (Cálculo, Álgebra, Geometria, Física). No fim, independente das disciplinas que estavam cursando, todos vocês só tinham em mente um único evento: a formatura.

Hoje em dia, para tornar a formatura mais concreta, vocês fazem contagens regressivas e postam vários comentários em redes sociais e blogs. No meu tempo de aluno não havia internet e eu escrevia um diário em papel mesmo. Quem ler meus diários da época de formando terá a impressão de que eu estava passando por uma grande tortura. Só para dar uma ideia, no último semestre havia uma disciplina chamada "Administração Financeira". O professor não era ruim, mas, 40 dias antes do fim do semestre, eu escrevi:

"Faltam 40 dias. Fui terrivelmente mal na prova de Administração (Financeira). Devo ter tirado menos de 3 e ficado em exame... Uma prova daquele tipo só pode ser bem feita por quem tenha experiência com o mercado financeiro, que não é o meu caso... É incompreensível que alguém pense que um Engenheiro, mesmo o mais idiota deles, deva saber fazer um fluxo de caixa, um balanço patrimonial ou todo o resto. Afinal, ninguém supõe que um Administrador deva saber como funciona um amplificador ou uma subestação."

Em minha defesa, devo dizer que não me lembro de fato de ter escrito essas linhas, mas elas estão lá, escritas com tinta, com essas mesmas palavras. E, só para encurtar a história, cinco anos depois eu estava na Copel, trabalhando com planejamento da expansão da geração, área que exige, dentre muitas outras coisas, o conhecimento de assuntos relacionados a Administração Financeira. Cabe uma nota: apesar das lamúrias, eu passei por média em Administração Financeira.

Os formandos têm mesmo esse costume de achar que são injustiçados e que deveriam ser aprovados automaticamente em todas as disciplinas. Outro costume, que não é só dos formandos, é acharem que o destino já está traçado, quando a realidade é muito longe disso. À frente de vocês se desdobra um enorme leque de possibilidades profissionais. O único problema é que a maior parte de tais possibilidades é desconhecida no momento.

Correndo o risco de me tornar aborrecido, vou contar uma historinha sobre o início da minha vida profissional.

Um dos meus objetivos depois da formatura era entrar no LAC, o Laboratório Central de Pesquisa e Desenvolvimento, que hoje se chama LACTEC. Sabendo que na época o LAC fazia parte da Copel, imaginei que a maneira mais fácil de entrar no LAC era antes entrar na Copel. Depois de ter passado dois anos e meio na Engesp, uma pequena empresa de equipamentos médicos, e mais dois anos na Telepar, finalmente apareceu um concurso para a Copel. Fiz a inscrição, mas esqueci a calculadora e não passei no concurso. Seis meses depois apareceu outro concurso e daí eu passei.

Quando me chamaram para assumir, havia duas vagas. Uma delas era na Transmissão, com sede em Curitiba, mas exigia viagens constantes e, como eu já trabalhava no CEFET, como professor em regime parcial, não pude aceitar. A outra vaga era na Geração, na divisão de planejamento da expansão, com sede em Curitiba, exigia poucas viagens e era perfeita para mim.

Ao chegar lá, descobri que a tal divisão era bem pequena, com
apenas quatro Engenheiros, incluindo o gerente. Todos eles Engenheiros Civis. Para piorar, planejamento da expansão tem pouco a ver com Engenharia Civil, pouco a ver com Engenharia Elétrica, pouco a ver com Engenharia Mecânica, mas muito a ver com Engenharia de Planejamento, e eu não sabia nada daquilo. E eu comecei a pensar: "onde é que fui me meter?"

Mas acabei aprendendo alguma coisa e, depois de quase sete anos de Copel, pedi demissão para me dedicar mais ao Ensino e para atuar como consultor.

Desde então, algumas oportunidades só surgiram por causa do meu relacionamento com assuntos envolvendo planejamento, comercialização de energia e geração. E esse relacionamento só surgiu porque, uma vez, eu esqueci minha calculadora em casa e, outra, tive de recusar uma vaga na Transmissão. Do LAC, que hoje não faz mais parte da Copel, nunca cheguei nem perto.

Por causa daquela escolha, pude conhecer e trabalhar com Engenheiros Civis, Engenheiros Mecânicos, Engenheiros Agrônomos, Engenheiros Químicos, Engenheiros Eletrônicos, Engenheiros Cartógrafos, Engenheiros Florestais, Geólogos, Matemáticos, Físicos, Economistas, Contadores, Administradores, Meteorologistas, Estatísticos, Advogados, Psicólogos, Engenheiros da Computação, Engenheiros de Automação e até mesmo Engenheiros Elétricos.

Assim é a vida, e mesmo a vida profissional não pode ser planejada tão cartesianamente. De uma hora para outra você pode esquecer sua calculadora em algum lugar e uma bifurcação, uma encruzilhada, aparecerá no horizonte. Nesse caso, não se esqueça do conselho do famoso jogador de baseball norte-americano Yogi Berra: "quando você chegar a uma encruzilhada, siga em frente!". Não há nada de mágico nisso. Não é o Universo que está conspirando a seu favor. É física pura!

Paralelamente a isso tudo, estou aqui na UTFPR desde os 14 anos de idade (com um intervalo de um ano entre o curso Técnico e o curso de Engenharia e mais um intervalo de dois anos entre a formatura na Engenharia e o ingresso como professor). Já se vão 29 anos, 20 deles como professor da Engenharia. Talvez eu já tenha lecionado para mais de mil e duzentos alunos.

Mas muitos anos e muitos alunos ainda virão. E, quem sabe, em uma formatura futura, alguns de vocês possam estar aqui novamente, não como formandos, mas como pais, ou quem sabe como Diretores, Chefes de Departamento, Coordenadores de Curso, Professores Homenageados, Paraninfos, Patronos.

Afinal, a vida continua, mas não continua do mesmo jeito, pois, nesse jogo que estamos jogando, vocês apenas acabaram de mudar de nível. E, vocês sabem, cada vez que mudamos de nível, uma nova leva de zumbis, vampiros e lobisomens aparece pela frente. Mas tenho certeza que vocês acabarão com eles da mesma forma que acabaram com todos os bichos que apareceram durante o curso de Engenharia.

Obrigado por tudo. Vocês são ótimos. Vida longa e próspera!

quarta-feira, abril 04, 2012

A elevação do PLD em março e abril de 2012

No último post deste blog, escrito já mais tempo do que seria razoável, encerrei dizendo que 2012 deveria ser um ano de PLDs baixos ou médios. Então, na terceira semana de março o PLD do Sul e do SE/CO atingiu R$ 137,24/MWh e iniciou abril em R$ 186,13/MWh. Valores nem um pouco baixos ou médios e totalmente atípicos para essa época do ano.

Em minha defesa, devo declarar que a previsão de PLDs baixos ou médios era uma espécie de consenso do setor no início de 2012. Ainda no início de fevereiro último, por exemplo, as previsões do CPTEC e do INMET (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos e Instituto Nacional de Meteorologia) eram de precipitações entre a média e abaixo da média histórica para fevereiro, março e abril, nas bacias do Jacuí e do Uruguai, enquanto as precipitações ficariam em torno das medias histórica nas demais bacias do SIN (Sistema Interligado Nacional) [1]. Contudo, o fim abrupto do fenômeno La Niña, sem transição até o momento para o El Niño, alterou a situação. No momento, a ENA (Energia Natural Afluente) do SE/CO está em 88% da MLT. Já no Sul a ENA é 29% e no Nordeste é 66%.



Por causa de tal quadro de afluências, o ONS autorizou o despacho de usinas térmicas por POCP (Procedimentos Operativos de Curto Prazo). Em abril serão despachados 5.454 MW médios no SE/CO, 1.444 MW médios no Sul e 889 MW médios no NE por POCP. Com tal providência, espera-se elevar ou ao menos preservar os níveis dos reservatórios do SE/CO, Sul e NE, que estão com valores baixos para essa época do ano: 78,4% no SE/CO, 33,6% no Sul e 82,6% no NE. O comportamento das ENAs nos próximos meses também dependerá em grande medida do retorno do El Niño, que poderá ocorrer entre maio e junho. Até lá, contrariando as previsões iniciais, os PLDs deverão continuar elevados.

[1] ONS. Relatório Executivo do Programa Mensal de Operação - PMO de fevereiro, revisão 0, semana operativa de 28/01 a 03/02/2012.